09 maio 2016

Resenha Crítica: "Por Trás do Céu" (2016)

 Entre a inocência de uma mente sonhadora e a crueza da realidade, a curiosidade em relação ao desconhecido e o medo das descobertas, a tentativa de cicatrizar as feridas do passado e a incapacidade de estancar as mesmas, "Por Trás do Céu" surge como um filme onde o céu e a terra quase se tocam, com a vida a destroçar muitas das vezes a imaginação e a inocência, enquanto ficamos a conhecer figuras como Aparecida (Nathalia Dill), Edivaldo (Emilio Orciollo Neto), Micuim (Renato Góes) e Valquíria (Paula Burlamaqui), quatro personagens de características distintas, embora sejam unidos por um destino nem sempre aprazível. O trabalho de fotografia contribui para atribuir algum lirismo ao filme, algo notório na forma quase poética como "Por Trás do Céu" nos apresenta o céu, com as tonalidades azuis do mesmo e as nuvens que o cobrem a surgirem em destaque, parecendo a espaços que este vai alcançar a terra. Não toca na terra, mas contribui para estimular a mente imaginativa e criativa de Aparecida, uma mulher algo ingénua, marcada por um episódio traumático, um desejo enorme de conhecer a cidade e uma revolta notória em relação a Deus, uma entidade que questiona. O elenco é relativamente competente, embora Nathalia Dill roube as atenções como Aparecida, com a actriz a convencer em relação à ingenuidade e candura da personagem que interpreta, algo latente na forma como expõe as suas falas ou explana os sentimentos desta figura feminina que pretende conhecer algo mais e largar o território desolador onde vive. Diga-se que não vão faltar episódios que exibem a personalidade naïf e a enorme imaginação de Aparecida, algo latente quando esta procura fabricar um foguetão, ou utiliza um descascador de pensamentos que permite expurgar as ideias menos agradáveis da mente. Os momentos poderiam descambar para um lado mais caricatural, mas Nathalia Dill atribui credibilidade aos mesmos, uma situação que se torna essencial para acreditarmos nesta personagem que pouco ou nada sabe sobre o mundo que a rodeia, embora já tenha conhecido alguns episódios traumáticos. O argumento nem sempre consegue sustentar a duração de "Por Trás do Céu", mas o trabalho dos actores e a atmosfera envolvente criada por Caio Sóh contribuem muitas das vezes para que sejamos arrastados para o interior deste universo narrativo muito particular e peculiar, onde a fantasia e a realidade parecem andar lado a lado. Se Aparecida conta com uma imaginação enorme, pretendendo saber aquilo que está por trás do céu e conhecer a cidade, já Edivaldo, o esposo da protagonista, surge como uma figura lacónica, que ama a esposa, gosta de caçar, traz sucata para casa e não pretende sair do espaço onde habita.

 Edivaldo parece demasiado marcado pelas dores e agruras de outrora, algo que consome a sua alma, com "Por Trás do Céu" a mesclar cenas do presente e do passado, tendo em vista a desenvolver elementos da personalidade dos protagonistas e a explanar as razões para o casal se encontrar a viver numa habitação precária, situada num espaço praticamente isolado. A casa conta com uma série de tralha e a presença do Leproso, uma tartaruga decorada com penas que surge como o animal de estimação e companhia de Aparecida. A presença da tartaruga, bem como algumas canções da banda sonora (nem sempre bem utilizada) e as diversas atitudes da protagonista, contribuem para o tom sonhador e fantasioso que pontua a narrativa de "Por Trás do Céu". Aparecida passa boa parte do tempo em casa, enquanto questiona tudo aquilo que a rodeia, inclusive o facto de se encontrar presa a um lugar pouco estimulante, situado no interior do sertão. Edivaldo ama a esposa, embora não partilhe a postura sonhadora e corajosa da amada, com ambos a lidarem de forma distinta com os traumas do passado, algo que é explorado em "Por Trás do Céu". Estes modos distintos de lidar com a dor e os traumas do passado ficam latentes no apego que Edivaldo apresenta em relação ao local onde habita, um espaço no qual se encontra enterrado o "seu sonho", embora o casal viva em condições praticamente miseráveis. A habitação assemelha-se a uma barraca que se encontra situada num local isolado, longe de tudo e todos, mas ao mesmo tempo tão perto de outros personagens. Os planos mais abertos permitem expor que esta casa se encontra localizada num espaço isolado, com este afastamento da sociedade a parecer contribuir para a ingenuidade e falta de conhecimentos da protagonista. Esta situação contribui para Aparecida encarar a cidade como um território quase mítico e místico, onde poderá encontrar a felicidade e divertir-se, deixando de lado um espaço que aparece associado a um período negro da sua vida. Nas cenas do passado, a felicidade parece marcar a relação entre Edivaldo e Aparecida, pelo menos a nível inicial, com o primeiro a aparecer como a figura que conheceu mais mudanças ao longo do tempo. Emilio Orciollo Neto consegue transmitir as alterações de Edivaldo, com o actor a convencer quer nas cenas do presente, quer nos momentos do passado, com o próprio trabalho a nível do guarda-roupa e caracterização a expor essas diferenças. No presente, Edivaldo aparece de cabelos compridos, barba por fazer, roupas semelhantes a um cavaleiro maltrapilho e comportamentos algo rígidos. No passado, este conta com cabelo curto e um visual cuidado, com a descoberta da gravidez de Aparecida a surgir como um momento pontuado por enorme alegria. A certa altura de "Por Trás do Céu", encontramos Edivaldo a ponderar disparar sobre um indivíduo, embora as razões para este desejo apenas sejam reveladas numa fase mais adiantada do enredo. O alvo do ódio de Edivaldo é o antigo chefe de Aparecida, um indivíduo que nunca chega a ganhar dimensão ao longo do enredo, embora protagonize um acto que deixa marcas negativas no casal de protagonistas. Esta cena exibida em flashback, embora conte com uma péssima utilização da banda sonora (que se sobrepõe ao episódio exibido), surge como um dos momentos fundamentais para ajudar a explicar os comportamentos que Edivaldo e Aparecida apresentam no presente, com "Por Trás do Céu" a abordar temáticas como a perda, a relação de um casal, a violência cometida sobre as mulheres, entre outras.

Aparecida e Edivaldo são amigos de Micuim, um indivíduo pouco culto, que visita esporadicamente a cidade e traz consigo presentes como uma revista, chocolate e uma garrafa com areia e água do mar. É uma figura expansiva e divertida, que pouco evolui ao longo de "Por Trás do Céu", embora desperte alguns risos e pareça, em alguns momentos, a estranha voz da razão, com Renato Góes a criar um personagem que protagoniza algumas situações cómicas. Veja-se os erros a pronunciar palavras aparentemente banais, ou a relação peculiar que forma com Valquíria. Esta é uma prostituta que foge do esposo, um proxeneta violento, com Caio Sóh a utilizar a personagem interpretada por Paula Burlamaqui para efectuar um contraste com a protagonista. Se Aparecida conta com uma ingenuidade excessiva e contagiante, indo ao ponto de se impressionar com uma mera revista, já Valquíria apresenta uma personalidade pragmática, própria de quem já conheceu o lado mais duro da vida. Paula Burlamaqui incute um estilo prático e mordaz a Valquíria, com esta a surgir quase como um duplo do espectador, uma situação que fica bem evidente quando a prostituta se depara com a ingenuidade excessiva de Aparecida e Micuim. O próprio guarda-roupa de Valquíria ("Por Trás do Céu" apresenta um bom trabalho neste departamento), marcado por poucas vestimentas, realça as distinções entre a primeira e Aparecida, com a prostituta a conhecer o lado mais duro da cidade, enquanto a personagem interpretada por Nathalia Dill criou uma visão idealizada do espaço citadino, algo que promete ser desfeito quando a protagonista embater de frente com a realidade. A ingenuidade de Aparecida é desarmante, com o momento em que esta tenta fabricar um foguetão a surgir como algo simultaneamente cândido, belo e trágico, ou esta mulher não tivesse criado uma realidade muito própria no interior da sua mente. Caio Sóh incute uma atmosfera simultaneamente sonhadora, ingénua e crua a "Por Trás do Céu", com os sonhos a desfazerem-se muitas das vezes perante a realidade, enquanto somos colocados diante de um grupo de personagens relativamente à parte da sociedade, que se reúnem num espaço isolado. O cineasta utiliza eficazmente alguns territórios de Lajedo de Pai Mateus, em Cabeceiras, enquanto nos apresenta a uma narrativa que a espaços pode ganhar contornos redundantes e perder-se em metáforas óbvias (o pássaro numa gaiola para representar Aparecida, ou o carro com o nome Jesus num momento em que a primeira parece ter perdido a fé), mas nem por isso deixa de despertar um estranho fascínio. Ancorado por uma interpretação convincente de Nathalia Dill, um tom que mescla a fantasia dos sonhos por concretizar e a crueza da realidade, "Por Trás do Céu" não exibe aquilo que está para além do céu embora quase transforme o mesmo num personagem, com este a ser exibido de forma amiúde, enquanto ficamos diante de um grupo de personagens solitários, que contam com os seus próprios traumas, desejos e limitações, mas também personalidades que facilmente despertam a nossa atenção.

Título original: "Por Trás do Céu".
Realizador: Caio Sóh.
Argumento: Caio Sóh.
Elenco: Nathalia Dill, Emílio Orciollo Netto, Renato Góes, Paula Burlamaqui.