08 maio 2016

Resenha Crítica: "Mon Roi" (Meu Rei)

 No início de "Mon Roi", a nova longa-metragem realizada por Maïwenn, encontramos Tony (Emmanuelle Bercot), a protagonista, a sofrer um acidente durante um momento de lazer, em particular, a esquiar. Esta situação leva a que Tony tenha de ser internada num centro de recuperação, tendo em vista a efectuar tratamento específico para a grave lesão que sofreu no joelho, com a protagonista a depender da ajuda de pessoal especializado e de uma enorme força mental para superar os efeitos provocados por uma ruptura de ligamentos cruzados, embora pareça certo que a sua alma se encontra quase tão ferida como o seu corpo. Ao longo de "Mon Roi", as cenas no centro de recuperação são intercaladas com episódios da relação entre Tony e Georgio (Vincent Cassel), com as memórias da protagonista a surgirem em flashback, enquanto Maïwenn nos coloca diante de um envolvimento venenoso, onde ambas as partes não parecem conseguir viver uma sem a outra, apesar de não encontrarem um ponto de equilíbrio. A relação entre Georgio e Tony é intensa e pontuada por episódios pouco ponderados desde o início, com Vincent Cassel e Emmanuelle Bercot a convencerem-nos dos sentimentos dos personagens que interpretam, enquanto Maïwenn exibe que é uma excelente condutora de actores. A dinâmica entre Vincent Cassel e Emmanuelle Bercot é essencial para "Mon Roi" funcionar, sobretudo quando o enredo a espaços ganha características redundantes, com o actor e a actriz a exporem as emoções do casal de forma exímia. Georgio e Tony amam-se, agridem-se psicologicamente, cometem traições, expõem os seus medos, discutem, protagonizam momentos cheios de humor, com os sentimentos bem fortes a marcarem uma relação obsessiva que bem poderia ter saído dos filmes de François Truffaut. O amor parece dar simultaneamente a felicidade e a tristeza a Georgio e Tony, algo notório ao longo do filme, com Maïwenn a apresentar-nos ao início da relação destes dois personagens, aos problemas que estes conhecem até se divorciarem, entre outros episódios de uma jornada pontuada por emoções fortes. Tudo começa quando Georgio e Tony conversam de forma amena, após saírem de uma discoteca. A hora era tardia, com Tony a contar com a companhia de Solal (Louis Garrel), o seu irmão e, Babeth (Isild le Besco), a namorada do familiar da protagonista. Todos são convidados para comerem algo na casa de Georgio, um espaço decorado de forma moderna, que exibe o estatuto financeiro desafogado deste indivíduo, bem como alguns indícios da sua personalidade caótica. Georgio possui um restaurante, uma personalidade impulsiva, egocêntrica e recheada de contradições. Tony é uma advogada, que se divorciara recentemente, que pretende segurar a relação com Georgio a partir do momento em que casa com o mesmo.

Georgio e Tony começam um envolvimento que gradualmente ganha e perde força, com ambos a conhecerem o melhor e o pior de cada um, uma situação que promete ser pouco agradável, ou não estivéssemos diante de um amor louco, ou de uma paixão intensa, onde tudo parece ser vivido com uma energia acima da média. O humor faz parte da relação, bem como as confidências (algo que é essencial para acreditarmos nos sentimentos que unem os protagonistas ao longo de "Mon Roi"), mas tudo se desmorona quando Tony percebe que Georgio está longe de ser o homem que idealizara, enquanto o personagem interpretado por Vincent Cassel exibe os seus demónios interiores. Emmanuelle Bercot consegue transmitir as inseguranças iniciais da personagem que interpreta, mas também o amor que esta começa a sentir por Georgio e a dor pelo facto da relação conhecer um caminho destrutivo. O casamento, a gravidez de Tony e o nascimento do jovem Simbad não parecem melhorar a relação, com o primeiro golpe no "conto de fadas" a surgir na figura de Agnès (Chrystèle Saint Louis Augustin), a ex-namorada de Georgio, uma modelo de características suicidas que parece mexer com os sentimentos deste último. Georgio é um indivíduo bem-falante, dotado de um enorme sentido de humor, embora apresente atitudes completamente erráticas, tais como descurar a gravidez da esposa, decidir morar noutro apartamento, trair Tony e mentir, com Vincent Cassel a compor um personagem que tanto tem de afável e vulnerável como de misterioso e intratável. Tony nem sempre parece saber aquilo que deve fazer, encontrando-se presa a uma relação venenosa, uma situação notória quando a encontramos a perder as estribeiras. Como explicar a manutenção de uma relação onde ambas as partes se amam e magoam? Maïwenn não procura responder inequivocamente a esta questão, ou melhor, exibe-nos uma relação do género, enquanto deixa Vincent Cassel e Emmanuelle Bercot brilharem, com o primeiro a apresentar uma intensidade notória, que contrasta com as fragilidades emocionais que a segunda incute a Tony. Esta não depende financeiramente de Georgio, bem pelo contrário, com Maïwenn a não transformar a protagonista numa vítima. Tony é uma advogada bem sucedida e inteligente, o problema é que os sentimentos toldam muitas das vezes a razão e a racionalidade, algo que "Mon Roi" expõe de forma paradigmática. As cenas de Tony na fisioterapia permitem não só exibir o lado mais frágil desta mulher, mas também que esta se encontra a recuperar de algo mais complexo do que uma lesão grave no joelho, algo latente nos diversos flashbacks que são exibidos. É a alma de Tony que precisa de recuperar, bem como o seu amor próprio, com esta a manter uma relação pontuada por enorme carinho com Simbad, o seu filho. Os momentos de Tony na fisioterapia nunca ganham o poder dos trechos nos quais encontramos Bercot e Cassel a interagirem, com Maïwenn a apresentar uma inspiração assinalável quando desenvolve e explora os sentimentos intrincados que envolvem a relação da dupla de protagonistas ao longo do período de tempo da narrativa.

A cineasta e argumentista desgasta-nos com a relação da dupla de protagonistas. É certo que existem alguns momentos redundantes, ou que parecem não levar a lado nenhum, mas essa é a essência da relação entre Georgio e Tony, ou seja, por mais voltas e reviravoltas que as suas vidas conheçam, esta dupla não parece conseguir esquecer os sentimentos que nutre ou nutriu. Tony não parece querer acreditar no poder destrutivo da relação que mantém com Georgio, enquanto este último exibe uma série de contradições, sobretudo se tivermos em conta os momentos do protagonista com o filho. Georgio é um bom pai, que procura educar o filho da melhor maneira, embora a relação do protagonista com Tony ganhe características intensas, com esta última a procurar manter a família reunida embora tarde em perceber que este desiderato é praticamente inalcançável. Tony e Georgio surgem como figuras complexas, que amam o filho e procuram educar o mesmo da melhor forma possível. Veja-se quando encontramos Tony a espreitar o filho e Georgio, através de uma fresta, com este último a exibir uma enorme cumplicidade com o jovem, ou um momento num restaurante entre o trio, que permite exibir a capacidade com que o personagem interpretado por Vincent Cassel atrai as atenções daqueles que o rodeiam. A narrativa poderia ser encurtada, sobretudo os episódios de Tony na fisioterapia, mas é um prazer observar alguém dar tempo para Vincent Cassel e Emmanuelle Bercot comporem personagens complexos, dotados de dimensão e propícios a que os intérpretes exponham o seu talento, com a química entre a dupla a funcionar, algo que alavanca o filme e convence, mesmo quando "Mon Roi" se parece tornar redundante quer na sua estrutura, quer nas suas temáticas. Os episódios no centro exibem essa redundância, com Maïwenn a interessar-se pelo corpo e estado de alma da protagonista, enquanto esta reavalia uma relação e separação que ocupou cerca de dez anos da sua vida, embora a interacção entre Tony e os outros elementos do espaço onde recupera raramente convença. Louis Garrel, Isild Le Besco e vários outros elementos secundários não conseguem sobressair, com o primeiro a surgir como o irmão protector que tenta avisar a irmã sobre Georgio, embora o intérprete nunca consiga explanar totalmente o seu talento. Diga-se que os vários elementos que Tony conhece no centro também não são desenvolvidos, com os momentos na fisioterapia a surgirem como um dos pontos fracos deste filme que deambula constantemente entre o presente e o passado. É o filme de Vincent Cassel e de Emmanuelle Bercot, bem como de Maïwenn, com esta a realizar um drama intenso e desgastante, que nos envolve para o interior da relação tumultuosa da dupla de protagonistas.

Título original: "Mon Roi".
Título em Portugal: "Meu Rei".
Realizadora: Maïwenn.
Argumento: Maïwenn e Etienne Comar.
Elenco: Vincent Cassel, Emmanuelle Bercot, Louis Garrel.

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