11 maio 2016

Resenha Crítica: "Maresia" (2015)

 Por muitas fontes históricas que existam, ou obras deixadas por um artista, é praticamente impossível saber tudo sobre o mesmo e os seus trabalhos, algo que se complica quando a informação oficial é escassa, uma situação que "Maresia", a primeira longa-metragem realizada por Marcos Guttmann, evidencia de forma pertinente. Este é um problema colocado quer ao historiador, quer ao perito em arte, ou seja, mesmo que existam fontes históricas, é praticamente impossível reconstituir factualmente tudo aquilo que aconteceu no passado. A escassez de fontes fidedignas é um problema com o qual Gaspar (Júlio Andrade) se depara, embora essa situação não impeça este perito e crítico de arte de efectuar uma série de teorias sobre Emilio Vega (Júlio Andrade), um pintor de origem galega, desaparecido há cinquenta anos. Inspirado no livro "Barco a Seco", de Rubens Figueiredo, "Maresia" não coloca o espectador perante a corrosão provocada pela água do mar, mas sim diante de um perito que se depara com o desabar das certezas e teorias que tinha sobre os trabalhos de um pintor. Nesse sentido, as revelações prometem corroer as percepções que Gaspar tinha em relação a Emilio Vega, enquanto "Maresia" coloca o espectador diante de duas histórias separadas, que contam com diversos pontos de união e separação. O mar é um dos pontos de união entre Gaspar e Emilio Vega. Gaspar gosta de nadar no alto mar de Copacabana, o mesmo que um dia teria tragado a vida do pintor. Emilio Vega gosta de habitar no mar, ou melhor, no seu barco, onde pinta, come e bebe imenso, com o contacto com a natureza a parecer contribuir para a sua arte. Júlio Andrade é uma das pedras de toque do filme, com o actor a conseguir elaborar composições distintas e bem sucedidas para os dois personagens que interpreta. Ambos são teimosos, apreciam pintura e contam com ideais vincados, embora Gaspar pareça ter formado uma série de ideias pré-concebidas sobre Vega. É certo que o interesse de elementos como Gaspar contribuem para manter a arte de Vega bem viva ou, pelo menos, a ser falada e discutida, embora o primeiro, tal como qualquer crítico ou historiador, não pode, nem deve pensar que tem certezas absolutas sobre o trabalho de um artista. Gaspar permite ainda que Marcos Guttmann aborde um certo sentimento de pertença que pode existir entre o crítico e uma obra de arte, ou entre o historiador e o tema que analisa, com o primeiro a exibir isso mesmo, enquanto procura escrever um livro sobre o pintor. Se Vega vive num barco que parece estar praticamente encalhado, ou sem sair do mesmo local, já Gaspar encontra-se preso às suas ideias e a uma obsessão em relação ao primeiro, com o livro que está a escrever sobre o pintor e as obras de arte que analisa a surgirem como partes fundamentais do seu quotidiano.

Vega é um galego impulsivo, um espírito livre que pinta por instinto e apresenta uma relação difícil com aqueles que o procuram mudar, que o diga Vicenzo Valente (Roberto Birindelli), um pintor italiano que chega ao território e apresenta um método de trabalho completamente distinto do protagonista. Veja-se quando Vicenzo tenta "treinar" o modo de pintar de Vega, embora o personagem interpretado por Júlio Andrade prefira seguir os seus instintos. Nesse sentido, é curioso encontrarmos Vega e Vicenzo a discutirem, enquanto Gaspar pensa, pelo menos a nível inicial, que o segundo teve alguma influência no modo de pintar do primeiro. O que é verdade ou mentira em relação a Vega? Entre a história de Vega e Gaspar, "Maresia" expõe-nos o quotidiano de dois homens solitários, que amam a arte, embora tenham papéis distintos para a valorização da mesma. Marcos Guttmann consegue apresentar e desenvolver as histórias de Gaspar e Vega de forma pertinente, com ambas a serem reunidas de forma orgânica, enquanto conhecemos estas duas figuras que captam facilmente a nossa atenção. Gaspar trabalha numa galeria de arte que pertence a Angelina (Vera Holtz), uma mulher que conta com uma relação problemática com o filho (Álamo Facó), embora esta subtrama raramente seja explorada, algo que a torna como um dos pontos fracos do filme. Angelina e Gaspar apresentam uma cumplicidade notória, com a primeira a confiar no funcionário, embora comece a questionar a rigidez do mesmo, em particular, a facilidade com que rejeita potenciais obras de Vega devido a acreditar que são falsificações. Gaspar é um perito algo frio, meticuloso e rígido, com Júlio Andrade a conseguir compor dois personagens distintos, unidos pelo amor à pintura e ao mar, bem como pela teimosia. As convicções de Gaspar são abaladas quando este se depara com a chegada inesperada de Inácio Cabrera (Pietro Bogianchini), um idoso que procura autenticar um quadro da autoria de Emilio Vega. Gaspar rejeita a pintura devido a considerar que esta é uma falsificação, mas a revelação de que Inácio, um imigrante galego, foi amigo de Vega, promete trazer descobertas que colocam em causa as ideias do protagonista. A partir daqui assistimos a uma espécie de jogo entre o gato e o rato entre ambas as partes, mas também à formação de uma relação de respeito mútuo, com Gaspar a procurar falar com Inácio, um indivíduo de idade algo avançada, que promete abalar as ideias que o primeiro tinha sobre Vega. "Maresia" acaba por proporcionar um debate interessante sobre a arte, enquanto joga com as verdades e mentiras em relação a Vega. Veja-se quando Gaspar fala sobre as fases artísticas distintas da carreira de Vega, algo que Inácio desmente, com este último a trazer algum mistério ao enredo, enquanto abala as ideias que o primeiro tinha sobre o pintor.

 A interpretação de uma obra de arte conta quase sempre com alguma dose de subjectividade, com a análise do crítico e a opinião do artista a poderem divergir ou convergir em diversos assuntos. A juntar a essa subjectividade, Gaspar conta ainda com as incertezas relacionadas com o facto de nem sempre saber se as pinturas que analisa foram pintadas por Vega, embora apresente um sentimento de pertença em relação aos trabalhos do pintor. Gaspar é considerado um especialista no que diz respeito a Vega, embora comece a ver as certezas que tomava como absolutas a serem gradualmente abaladas pelas descobertas que efectua. A autenticidade das obras de arte, a procura de encontrar um sentido para a existência, a relação entre um artista e o seu trabalho, a subjectividade da análise crítica, o Rio de Janeiro de hoje e de há cinquenta anos, surgem como temáticas e elementos apresentados em "Maresia". O mar, o Sol, o contacto com a natureza e o consumo de álcool, surgem como elementos que fazem parte do quotidiano de Vega, algo que contrasta com o espaço frio e fechado onde Gaspar trabalha. O espaço da praia aparece representado de forma distinta nas duas histórias, com o enredo relacionado com Gaspar a decorrer nos dias de hoje, enquanto a narrativa centrada em Vega desenrola-se maioritariamente há cinquenta anos. No caso da história de Vega, as cores apresentam tonalidades mais quentes, enquanto o cenário da praia é banhado pelo Sol. Na história de Gaspar, a própria praia surge a espaços marcada por algum cinzentismo, algo notório quando Inácio se reúne com o primeiro no local onde o pintor passou boa parte do seu tempo. O guarda-roupa e o trabalho de caracterização permite exacerbar algumas idiossincrasias da dupla de protagonistas, enquanto Júlio Andrade surge como um ponto de união entre Gaspar e Vega (quase como se fossem duas faces da mesma moeda). De cabelo comprido, barba por fazer, roupas simples e intenso como Vega, Júlio Andrade aparece com um penteado curtinho, roupas formais e uma meticulosidade notória como Gaspar, com ambos os personagens a contarem com ideias vincadas, embora a "maresia" do destino acabe por fazer com que estes tenham de entrar em confronto consigo próprios. Vega é um indivíduo lacónico e depauperado, que pinta aquilo que vê e não gosta de tirar fotografias. Este pouco ou nada ganha com os seus trabalhos, parecendo ter na pintura um modo de se expressar, com Júlio Andrade a compor um personagem que apresenta um conjunto de atitudes peculiares. Veja-se a forma como pega no pincel e se lança para a pintura, com Júlio Andrade a atribuir credibilidade a estes momentos. Vega é um lobo solitário que não procura a fama, mas sim viver de acordo com os seus valores, que gosta de pintar barcos encalhados e aquilo que observa. Ironicamente, as obras de Vega apenas começam a ser devidamente valorizadas após a sua morte, com "Maresia" a abordar assertivamente esta situação simultaneamente macabra e irónica que serve para os diversos ramos artísticos. A pintura faz parte da vida de Vega, embora este pinte por instinto, sem seguir regras, parecendo, tal como Gaspar, ter alguns problemas em aceitar que lhe sugiram alterações ao método de trabalho. Nesse sentido, estas duas histórias acabam por se complementar, com os episódios que nos são expostos sobre Vega a permitirem dar a conhecer aquela que é uma figura quase mítica para Gaspar, ao mesmo tempo que nos apercebemos do aumentar das tensões internas deste último, sobretudo quando percebe que pode estar errado (o trabalho a nível de montagem merece elogios, com a ligação entre as histórias de Vega e Gaspar a ser efectuada de forma assertiva, com as mudanças a raramente parecerem bruscas, ou inadequadas ao momento).

 As teorias de Gaspar sobre Vega, tal como a sua metodologia para avaliar a autenticidade das obras do pintor, acabam por ser colocadas em causa a partir do momento em que o primeiro se depara com chegada de Inácio. Júlio Andrade e Pietro Bogianchini surgem como os elementos do elenco que mais sobressaem, com a entrada em cena deste último a surgir acompanhada por algum mistério e uma série de revelações. Bogianchini incute inicialmente algum mistério ao personagem que interpreta, mas também uma certa nostalgia e melancolia, com este veterano a guardar uma surpresa que no último terço se torna óbvia, embora seja incutida na narrativa de forma pertinente e orgânica. Vale ainda a pena realçar o trabalho de Mariana Nunes como Maria, uma pescadora que desperta o interesse de Vega, algo que é recíproco, com ambos a iniciarem uma relação. No entanto, este é o filme de Júlio Andrade, com os planos fechados a permitirem muitas das vezes que o actor se exprima através do seu rosto e arrebate o ecrã para si, enquanto cria dois personagens que captam facilmente a nossa atenção. Diga-se que a espaços somos colocados diante de alguns planos belíssimos, dignos de permanecerem na memória, com o trabalho de Alexandre Ramos (cinematografia) a merecer ser realçado. Veja-se alguns planos quando Vega se encontra no barco, ou uma cena de um beijo entre o pintor e Maria onde a tinta e as emoções se reúnem, com Marcos Guttmann e a sua equipa a colocarem-nos diante de alguns belos momentos. Na sua estreia na realização de longas-metragens, Marcos Guttmann cria um filme que permite confrontar as certezas e incertezas daqueles que avaliam obras de arte e efectuam estudos sobre as mesmas, mas também as inseguranças e peculiaridades dos artistas, com Gaspar a deparar-se com o facto das suas teorias nem sempre estarem certas, enquanto Vega procura manter o seu modo de viver e pintar. Gaspar procura concluir um livro sobre Vega, algo que tarda em acontecer e promete complicar-se quando conhece Cabrera, com este último a mexer com o quotidiano do primeiro. O som do Mar invade muitas das vezes o ecrã, mas também as dúvidas que assolam a mente de Gaspar, com Marcos Guttmann a saber gerir a história dos seus dois protagonistas, enquanto joga com aquilo que é verdadeiro e falso em relação ao passado do pintor. "Maresia" coloca o espectador diante de duas histórias que contam com temas que permitem debates sobre a arte, o trabalho do artista, a relação do crítico com as obras que analisa, a relevância das fontes e a capacidade de saber utilizar as mesmas para a elaboração de artigos ou livros, enquanto somos brindados com uma dupla interpretação digna de atenção por parte de Júlio Andrade, com Marcos Guttmann a contar com uma estreia muito interessante na realização de longas-metragens.

Título original: "Maresia".
Realizador: Marcos Guttmann.
Argumento: Marcos Guttmann, Melanie Dimantas e Rafael Cardoso.
Elenco: Júlio Andrade, Vera Holtz, Pietro Bogianchini, Mariana Nunes.

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