24 maio 2016

Resenha Crítica: "La tierra y la sombra" (2015)

 Pontuado por planos de longa duração cheios de significado, uma utilização sublime da luz natural, movimentos de câmara delicados, um ritmo propositadamente contemplativo e uma contenção enorme na exposição dos sentimentos dos personagens, "La tierra y la sombra" transporta-nos para o interior de um núcleo familiar que se prepara para conhecer uma série de convulsões e mudanças. Um membro dessa família regressa após dezassete anos de ausência, outro encontra-se gravemente doente, enquanto duas mulheres procuram cuidar do lar e um jovem ainda não percebe totalmente a complexidade do meio que o rodeia. O território que circunda a casa desta família é simplesmente desolador, com as canas de açúcar a ocuparem praticamente todos os espaços desta região rural da Colômbia. Veja-se quando observamos as imediações da habitação dos personagens principais de "La tierra y la sombra", a partir do interior da casa, com as canas, a poeira e as cinzas a parecerem contaminar quase tudo aquilo que se encontra à sua volta. Tudo é exposto com enorme sobriedade e delicadeza, com "La tierra y la sombra" a contar com ritmos muito próprios, enquanto os actores e actrizes incrementam a narrativa com interpretações pontuadas por um estilo discreto e contido. Os intérpretes transformam-se praticamente nos personagens a quem dão vida, com César Augusto Acevedo, na sua primeira longa-metragem como realizador, a conseguir extrair interpretações convincentes por parte do elenco principal. O personagem que regressa a casa é Alfonso (Haimer Leal), um camponês que conta com cerca de cinquenta ou sessenta anos de idade, que volta devido ao facto de Gerardo (Edison Raigosa), o seu filho, encontrar-se gravemente doente. O território que circunda a antiga habitação de Alfonso conheceu diversas mudanças, tal como o núcleo familiar do veterano, com este personagem a contar com um neto, fruto do casamento entre Gerardo e Esperanza (Marleyda Soto). Alicia (Hilda Ruiz), a ex-mulher de Alfonso, guarda um rancor que dura há dezassete anos, algo que se deve ao facto deste último ter abandonado o lar. Alfonso conta com uma personalidade aparentemente calma, com as razões para a sua partida a não ficarem totalmente claras, embora este procure reconciliar-se com tudo e com todos, inclusive com Alicia, ao mesmo tempo que tenta cuidar do filho e iniciar uma relação de amizade com Manuel (José Felipe Cárdenas), o seu neto. A doença de Gerardo é desconhecida, com este a queixar-se de dores no peito, embora também conte com enormes dificuldades em respirar, uma situação que é agravada pela poeira e pelas cinzas que rodeiam a casa, bem como pela falta de um serviço de saúde público que providencie os cuidados necessários para o tratamento deste indivíduo. Diga-se que Esperanza coloca a hipótese de abandonarem a casa, embora Gerardo não queira deixar a mãe e o lar onde cresceu, com o casal a apresentar ideias distintas para o futuro.

 O apego ao lar e às memórias é algo que marca a personalidade de diversos personagens, uma situação que se aplica a Alfonso, Alicia e Gerardo. O território mudou imenso desde que Alfonso saiu, algo que o próprio reconhece, exibindo alguma nostalgia e melancolia quando compara as memórias do passado com a situação que encontra no presente. O passado e o presente são colocados em confronto ao longo do filme, com Alfonso a evidenciar que não consegue encarar todas as mudanças que ocorreram no espaço que circunda a sua antiga habitação. O banco que fica situado nas imediações da casa, bem como uma árvore onde se encontram diversos pássaros, surgem como alguns dos poucos elementos que se mantiveram praticamente intocáveis entre a saída e o regresso de Alfonso. No entanto, tudo o resto mudou, com o território a encontrar-se praticamente desértico e pontuado pela presença quase sufocante das canas de açúcar, uma monocultura que parece ser a única fonte de emprego para os habitantes deste local. A presença das canas é notória desde os momentos iniciais. Veja-se quando somos colocados diante de um plano de longa duração no qual encontramos Alfonso a caminhar pela estrada, até um camião passar por perto, algo que praticamente obriga o veterano a desviar-se para o espaço onde se encontram as canas. A poeira levantada pelo camião que circula pela estrada de areia é imensa e praticamente toma conta do ecrã, enquanto o protagonista se depara com a nova realidade do território que abandonou. O reencontro com a família não é fácil. Percebemos desde logo que o afastamento durou imenso tempo quando o jovem Manuel questiona se o personagem interpretado por Haimer Leal é o seu avô, enquanto Gerardo faz questão de condenar o pai pelo facto do veterano apenas ter reparado nas alterações do território após estas terem ocorrido há vários anos, algo que parece mexer com Alfonso. Haimer Leal incute uma sobriedade e melancolia que contribuem e muito para acreditarmos no personagem que interpreta, enquanto César Augusto Acevedo surpreende pela facilidade com que desenvolve as relações intrincadas deste núcleo familiar e explora as características deste território rural da Colômbia. Desde a forte presença da monocultura da cana de açúcar, algo que parece ter contribuído para destruir vários territórios, passando pela falta de leis laborais fortes e de um serviço de saúde competente, até aos comportamentos de uma família que atravessa uma fase complicada, "La tierra y la sombra" transporta-nos para uma região relativamente distante dos grandes espaços citadinos, sempre com enorme sobriedade e sem falsos sentimentalismos. Os personagens principais de "La tierra y la sombra" são homens e mulheres simples, que procuram enfrentar o destino sem que tenham de ceder nos seus valores, com César Augusto Acevedo a povoar a narrativa de pequenos momentos que ganham uma enorme relevância e poder junto do espectador. Veja-se quando encontramos Alfonso a brincar com o neto, ensinando o petiz a manusear um papagaio de papel, ou o abraço sentido que Esperanza dá ao primeiro quando descobre que este comprou uma prenda de aniversário para Manuel. Alfonso é chamado a pedido de Esperanza, com esta a pretender que o sogro se reúna com Gerardo e cuide deste último.

 Se Esperanza apresenta alguma abertura em relação à presença do personagem interpretado por Haimer Leal, bem como Gerardo e o jovem Manuel, já Alicia não esconde inicialmente o ressentimento por ter sido abandonada por Alfonso, com este último a ter de reconquistar a confiança da veterana. Inicialmente, Alfonso e Alicia pouco falam. Diga-se que os personagens de "La tierra y la sombra" parecem ter muito para dizer, embora raramente troquem longos diálogos, com os actores e as actrizes a conseguirem expressar imensos sentimentos através dos seus silêncios e olhares. Essa situação é visível quando encontramos Alfonso e Alicia no banco onde parecem ter partilhado diversas memórias no período em que viveram juntos, com esta última a questionar o ex-marido se valeu a pena ter abandonado o território, algo que revela algum ressentimento mas também compreensão e curiosidade. Alicia e Esperanza laboram na recolha das canas, um trabalho árduo, que é exposto sem contemplações por César Augusto Acevedo, ou os trabalhadores não fossem tratados literalmente como meros números. Veja-se quando encontramos Alicia e Esperanza a compensarem as horas de uma greve efectuada pelos trabalhadores, ou a primeira no banho, a tirar a terra presa ao seu corpo, enquanto a areia escorre pelo ralo. César Augusto Acevedo preocupa-se genuinamente pelo quotidiano destas figuras depauperadas (interpretadas por diversos elementos estreantes ou amadores), enquanto expõe assertivamente uma realidade da Colômbia que está longe de se prender aos clichés. Não temos mafiosos, ou jovens futebolistas prontos a querem singrar num país conhecido pelos seus excelentes avançados, mas sim um núcleo familiar que vive com imensas dificuldades, ou este território não se encontrasse a ser destruído. Alicia é uma mulher conservadora, presa aos seus valores e à sua habitação, que ama o filho e guarda algum ressentimento em relação a Alfonso, com Hilda Ruiz a conseguir transmitir o poder desta personagem feminina forte, que gradualmente parece baixar a guarda no que diz respeito ao ex-marido, ou ambos não estivessem unidos pelo amor a Gerardo. Edison Raigosa expõe as fragilidades que marcam o corpo e a alma de Gerardo, com o estado de saúde deste indivíduo a piorar de dia para dia. Gerardo praticamente não consegue abandonar a cama, embora fique na memória um momento onde sai de casa, tendo em vista a passar algum tempo ao lado do pai e do filho, em particular, perto da árvore e do banco anteriormente mencionados. O quarto de Gerardo tem de estar quase sempre fechado, tendo em vista a evitar a entrada de poeira, com este cenário a ser exibido muitas das vezes com recurso a luz natural, ou pouca iluminação, transmitindo uma sensação de cativeiro, ou o personagem interpretado por Edison Raigosa não estivesse preso a uma doença grave, que parece um fogo impossível de extinguir. Este é um retrato sobre uma família que se desuniu e volta a reunir, que tem de lidar com dilemas intrincados e uma tragédia que promete trazer mudanças, enquanto ficamos a conhecer um pouco mais sobre estas figuras que pontuam a narrativa de "La tierra y la sombra". Os planos são compostos com enorme meticulosidade, o enredo é desenvolvido com sobriedade, a música diegética é bem utilizada, os personagens captam facilmente a nossa atenção, bem como o espaço onde habitam, com "La tierra y la sombra" a embalar-nos para o interior de um drama sensível e melancólico, que nos faz esquecer temporariamente que estamos diante de uma obra de ficção.

Título original: "La tierra y la sombra".
Título no Brasil: "A Terra e a Sombra".
Realizador: César Augusto Acevedo.
Argumento: César Augusto Acevedo.
Elenco: Haimer Leal, Hilda Ruiz, Edison Raigosa, Marleyda Soto, José Felipe Cárdenas.

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