A festa conta com a presença de elementos como Dabney Shaw (Larry Miller), o produtor do filme que supostamente pode contar com Harry como protagonista; Perry Van Shrike (Val Kilmer), também conhecido por Gay Perry, um detective privado, consultor de cinema e televisão; Harmony Faith Lane (Michelle Monaghan), uma aspirante a actriz e antiga paixoneta do personagem interpretado por Robert Downey Jr. A tensão, o humor, a violência, os enganos e os momentos nonsense vão marcar o quotidiano de Harry, Perry e Harmony. Harry tem de seguir Perry, tendo em vista a aprender os métodos de trabalho de um detective, o oficio do personagem que este poderá interpretar no filme para o qual está cotado. Harmony é alvo do interesse de Harry, um indivíduo que comete quase tantos erros nos relacionamentos como a nível da gramática, com Robert Downey Jr. e Michelle Monaghan a apresentarem uma dinâmica convincente. Diga-se que a química entre Downey Jr. e Monaghan é sentida logo no primeiro terço do filme, quando Harry mete conversa com Harmony num clube nocturno (não poderia faltar um espaço do género num noir). Não faltam falas mordazes, brincadeiras relacionadas com as semelhanças entre alguns clientes e diversos actores, mas também um sentido de humor muito peculiar por parte de Harry e Harmony, até esta última conseguir que o primeiro se recorde que foram amigos durante a infância e adolescência. Harry sempre teve uma paixoneta por Harmony, embora "Kiss Kiss Bang Bang" se prepare para desafiar as expectativas em relação aos actos cometidos pelos personagens. Veja-se que Harry procura seduzir Harmony, mas embebeda-se de tal maneira que vai para a cama com... a amiga da personagem interpretada por Michelle Monaghan. Este é um dos vários momentos de humor que funcionam praticamente na perfeição, com Shane Black a contar com intérpretes que conseguem elevar um argumento dotado de um conjunto de falas e situações que ficam na memória. Black sabe quando o filme deve apresentar um tom mais sério, quando deve apostar as fichas no humor, ou utilizar uma faceta politicamente incorrecta. Esse cariz politicamente incorrecto é possível graças à personalidade de Harry, bem como ao tom que Downey Jr. incute ao personagem que interpreta, com o ladrão a não ter problemas em ironizar de forma gratuita com o facto de Perry ser homossexual, ou comentar sobre as pernas de Harmony, entre outros exemplos. Michelle Monaghan incute um estilo sensual e misterioso a Harmony, uma aspirante a actriz que dispara palavrões com uma facilidade notória, é fã de uma série de livros baratos de detectives e prepara-se para protagonizar alguns episódios intensos.
O detective da saga literária admirada por Harmony tinha de lidar quase sempre com dois casos separados, aparentemente sem ligação entre si, que se interligavam perto da conclusão, algo que vai acontecer ao trio de protagonistas. Tudo começa quando Perry e Harry se encontravam a investigar um caso aparentemente banal, embora se deparem com um carro que cai no lago. O porta-bagagens do carro contém o corpo de uma mulher que foi assassinada, com o detective e o antigo ladrão a preparem-se para entrar de cabeça num caso intrincado, recheado de reviravoltas e momentos que variam entre o inquietante e o cómico. Não falta Perry a acertar com um tiro na cabeça da defunta quando procurava abrir o porta-bagagens, gags relacionados com os erros gramaticais de Harry e o facto do personagem interpretado por Robert Downey Jr. ter perdido um dedo, entre outros exemplos. A juntar a tudo isto, a irmã de Harmony é encontrada morta, tendo cometido suicídio, embora a personagem interpretada por Michelle Monaghan não se acredite nesta teoria. Harry promete investigar o caso, algo que enfurece Perry. No entanto, os dois casos encontram-se interligados, algo que promete diversas revelações surpreendentes e obrigar Harry e Perry a terem de utilizar as suas capacidades para a investigação, ou melhor, para sobreviverem a uma situação que parece transcender as capacidades de ambos. A dinâmica entre Downey Jr. e Val Kilmer é convincente, com os actores a beneficiarem de um argumento que apresenta uma enorme eficácia a explorar a relação de amizade e profissional entre Perry e Harry, uma dupla improvável que se envolve no interior de uma investigação rocambolesca e perigosa. Robert Downey Jr. apresenta um timing notável para os momentos de humor, mas também uma versatilidade notória que permite atribuir credibilidade aos trechos mais sérios. Downey Jr. corre, faz piadas, não tem problemas em envolver-se situações ridículas, enquanto enche o ecrã de talento e carisma. Val Kilmer adere ao tom delirante e a espaços absurdo que Shane Black atribui ao enredo, com o actor a interpretar um detective experiente que conhece os podres de Hollywood, bem como aquilo que os produtores pretendem fazer a Harry. "Kiss Kiss Bang Bang" surge também como uma sátira a Hollywood, com Shane Black a colocar o espectador diante de um meio deveras peculiar. Não falta um actor em decadência que invade uma casa com o fato de um super-herói que outrora alçara a carreira do intérprete ao sucesso, um ladrão que aspira a protagonizar um filme, um assassino que protagonizara uma adaptação cinematográfica manhosa dos livros venerados por Harmony, festas pontuadas pela vacuidade dos seus convidados, entre outros exemplos. Pontuado por investigações intrincadas, episódios rocambolescos, momentos de humor, dinâmicas convincentes entre o trio de personagens principais, diversas cenas de acção e reviravoltas, boas interpretações por parte de Robert Downey Jr., Val Kilmer e Michelle Monaghan, "Kiss Kiss Bang Bang" surge como um neo-noir delirante e irreverente que comprova a capacidade de Shane Black a escrever argumentos e a realizar longas-metragens.
Título original: "Kiss Kiss Bang Bang".
Realizador: Shane Black.
Argumento: Shane Black (inspirado no livro "Bodies Are Where You Find Them" de Brett Halliday).
Elenco: Robert Downey, Jr., Val Kilmer, Michelle Monaghan.


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