05 maio 2016

Resenha Crítica: "A História da Eternidade"

 Entre o lirismo e a crueza, o sonho e a realidade, um calor abrasador que parece secar tudo menos os sentimentos e uma tempestade que se prepara para estimular os desejos contidos, os planos bem abertos que nos dão a conhecer as especificidades de um território e os close-ups que tanto dizem sobre os rostos dos personagens, "A História da Eternidade" é uma proposta que tanto tem de poética como de bizarra e estimulante. Agarra, solta o espectador, deixa-o à deriva com os personagens, enquanto o elenco convence e a banda sonora se faz sentir, seja a música diegética ou não diegética. No final, nem sempre temos a certeza de ter conhecido totalmente as figuras que rodeiam a narrativa de "A História da Eternidade", embora seja notório que ficamos a conhecer um pouco mais destas gentes e do espaço onde habitam. O enredo tem como pano de fundo um pequeno vilarejo no Sertão, um território ermo, pontuado por espaços arenosos e despovoados, parecendo quase separado do resto do Mundo, ou melhor, da cidade. O telefone encontra-se num espaço exterior às habitações, a luz das velas é utilizada com regularidade, enquanto que o bar do Galo Cego surge como um dos poucos pontos de convívio e a Igreja como um local onde os habitantes se reúnem com regularidade. Camilo Cavalcante, um estreante na realização de longas-metragens, transmite de forma exímia a noção da dimensão deste vilarejo e dos espaços por onde se movem as diversas figuras que povoam a narrativa, enquanto explora e expõe este cenário. É um espaço com cerca de quarenta moradores, embora apenas fiquemos a conhecer alguns elementos ao longo de uma narrativa onde o destino, o desejo e este cenário parecem exercer uma influência indelével nos homens e mulheres que nos são apresentados. Não é a realidade que nos é apresentada, nem parece existir a tentativa de replicar a mesma, embora os sentimentos sejam bem reais, tal como alguns comportamentos das figuras que povoam a narrativa, com "A História da Eternidade" a apresentar-nos a três grupos de personagens cujas histórias por vezes se unem ao longo do enredo. No início temos um funeral, de um familiar próximo de Querência (Marcelia Cartaxo), uma mulher na casa dos quarenta anos de idade, solitária, que é cortejada por Aderaldo (Leonardo França), um indivíduo invisual que passa boa parte dos seus dias a tocar acordeão em frente à casa da primeira. Tanto Querência como Aderaldo são figuras solitárias para quem a vida nem sempre parece ter sido simpática. Ela perdeu o seu filho, vive sozinha, enquanto ele é cego e passa os seus dias a tocar música, parecendo certo que, mais cedo ou mais tarde, algo vai reunir ou afastar estes personagens. Se Querência vive sozinha, já Alfonsina (Débora Ingrid) habita com o seu pai (Claudio Jaborandy), os irmãos e Joãozinho (Irandhir Santos), o seu tio. Alfonsina é uma adolescente que se encontra prestes a completar quinze anos de idade, que sonha ver o mar e tem uma relação de enorme cumplicidade com Joãozinho.

O mar surge como uma metáfora para a liberdade, para Alfonsina conhecer algo distinto e soltar-se dos grilhões aos quais se encontra presa, ou não contasse praticamente com as funções de dona de casa. Veja-se quando encontramos a jovem a encher um copo de água com sal, tendo em vista a reproduzir um efeito semelhante ao mar, num momento que tanto tem de delicado como de naïf e desolador. Débora Ingrid consegue transmitir a curiosidade de Alfonsina, bem como o facto desta jovem começar a sentir um fervilhar de sentimentos próprios da adolescência, embora habite num território isolado de quase tudo e todos, algo que promete contribuir para algumas decisões estranhas tomadas por esta personagem. Alfonsina tem uma relação de enorme amizade e cumplicidade com Joãozinho, um indivíduo que apresenta uma visão muito própria do espaço que o rodeia. O pai de Alfonsina considera que Joãozinho é louco, enquanto este último prefere definir-se como um artista. Joãozinho tenta estimular a imaginação e criatividade da adolescente. Veja-se quando Joãozinho leva a sobrinha até um local relativamente desértico e montanhoso, enquanto os planos belissimamente arquitectados permitem transmitir a noção de que este território é circundado por um espaço arenoso, embora o primeiro procure estimular a imaginação da familiar, tendo em vista a que esta consiga sentir a presença do mar. É um momento simultaneamente belo e triste, onde o sonho e a realidade se misturam, embora estejamos diante de uma jovem que tarda em cumprir o desejo de ver o mar, ou de ganhar a sua liberdade. A relação entre Alfonsina e o pai é marcada por momentos nem sempre calorosos, com Nataniel, o progenitor da primeira, a apresentar gestos algo rudes, uma personalidade conservadora e retrógrada, procurando defender a honra da filha, embora não pareça ter a sensibilidade para perceber que esta se encontra em transição para a idade adulta. Essa situação é visível quando esta pede para ver o mar no dia em que completar quinze anos, embora o progenitor tenha outros planos, em particular matar quatro cabritos e organizar uma festa local. Este é um indivíduo que vive do trabalho da terra, que se encontra preocupado devido ao facto de uma seca assolar o território, embora a chegada de uma tempestade traga um turbilhão de sentimentos desejados ou indesejados. Se Irandhir Santos consegue transmitir o tom algo naïf de Joãozinho, também Claudio Jablonsky evidencia eficazmente a personalidade brusca e rude de Nataniel, um indivíduo meio "casca grossa", que parece ter sido educado desta forma. Todos estes personagens reúnem-se na Igreja local, outro dos espaços deste vilarejo que nos é dado a conhecer. A religião tem um papel relevante na vida de alguns personagens, sobretudo de Das Dores (Zezita Matos), uma mulher experiente, devota confessa, com a decoração da sua casa e os seus hábitos a remeterem para essa situação. Das Dores recebe a visita de Geraldo (Maxwell Nascimento), o seu neto, um jovem que promete perturbar o quotidiano desta figura feminina.

A personagem interpretada por Zezita Matos é outra das figuras solitárias de "A História da Eternidade", com esta mulher a ter no neto uma estranha companhia, mas também um enigma inicialmente complicado de decifrar, ou este não tivesse viajado misteriosamente de São Paulo para o vilarejo, com os pecados do passado a marcarem o jovem de forma indelével. Geraldo surge quase como uma novidade no interior deste espaço conservador, com o personagem interpretado por Maxwell Nascimento a aparecer com uma tatuagem e brincos, para além de chegar acompanhado de revistas pornográficas e uma arma, com o actor a conseguir incutir algum mistério a esta figura que procura encontrar conforto e protecção junto da avó. Tal como Querência e Alfonsina, também Das Dores é colocada diante do desejo, enquanto Camilo Cavalcante se prepara para mexer com os sentimentos do espectador e dos personagens. O cineasta não poupa no choque, ou na subversão das expectativas, quase que brincando com o espectador, ou jogando com o mesmo, deixando-o perante o inevitável, enquanto a audiência é conduzida para o interior deste universo narrativo que parece à parte do Mundo e da realidade mas, ao mesmo tempo, sem fugir totalmente ao real, ou do real. A escolha do termo inevitável não foi ao acaso, com Camilo Cavalcante a parecer incutir um certo fatalismo ao destino dos personagens que povoam o enredo de "A História da Eternidade". Tudo parece desenrolar-se a um ritmo muito próprio, com "A História da Eternidade" a expor que estes personagens estão destinados a sentir, errar, amar, pecar, desejar e a exibirem a sua enorme humanidade. Diga-se que a passagem do tempo é transmitida de forma harmoniosa, com a presença de quatro bodes a permitir expor que se passou um mês entre o final do capítulo intitulado de "Pé de Galinha" e o início de "Pé de Cabra", com o enredo a encontrar-se dividido em três capítulos ("Pé de Galinha", "Pé de Cabra", "Pau de Urubu"). A própria transição entre as cenas é efectuada com alguma harmonia, com uma música a poder reunir duas figuras solitárias, mesmo que uma até esteja acompanhada pelos seus familiares. Estes personagens parecem viver numa realidade quase à parte, onde a tecnologia não parece ter penetrado totalmente e os tabus são mais do que muitos, bem como os valores conservadores de um espaço do interior do Brasil. O desejo aparece muitas das vezes associado à repressão a nível dos sentimentos, mas também ao próprio território, com este espaço e as suas gentes a apresentarem ritmos e modos de vida muito próprios. Veja-se que Alfonsina reprime os seus sentimentos devido à sua educação e à acção do seu pai; Das Dores procura controlar o libido devido aos valores religiosos que professa; Querência parece presa ao passado, nomeadamente, a perdas importantes.

Aos poucos ficamos a conhecer mais sobre estes personagens, ao longo destas três histórias, ao ritmo da banda sonora criada por Zibgniew Preisner e Dominguinhos, com a música a incrementar alguns episódios deste filme que inicialmente se estranha e depois se entranha. Camilo Cavalcante parece estar consciente dessa situação, sobretudo no último terço, quando uma tempestade assola o território, os sentimentos fluem de forma arrebatadora e o primoroso trabalho de Beto Martins (cinematografia) sobressai de forma indelével. Os planos surgem arquitectados de forma meticulosa, conseguindo transmitir quer a forma como calor assola o território (boa utilização da luz natural), quer as consequências que uma tempestade traz para os corpos, as almas e o vilarejo. Veja-se logo de início, quando ficamos diante de uma cerimónia fúnebre, com Camilo Cavalcante e a sua equipa a conseguirem transmitir quer a noção do espaço que envolve os personagens, quer as figuras que o rodeiam, quer os sentimentos de Querência. Os planos mais abertos transmitem a alma deste pequeno vilarejo onde quase todos se parecem conhecer, enquanto que, aos poucos, somos transportados para o interior do mesmo, quase como se fizéssemos parte deste espaço. É um local onde o sonho e a realidade se podem mesclar e atomizar, onde uma jovem sonha ver o mar, ou melhor, ganhar a sua liberdade, com a maioria dos personagens a protagonizarem episódios nos quais o desejo, o amor e as relações são vividos de forma muito própria. Diga-se que não poderia ser de outra forma, ou não estivéssemos diante de um vilarejo dotado de regras muito próprias, onde o cemitério parece estar mais povoado do que os espaços nos quais se encontram instalados os vivos, uma situação que reforça o isolamento deste local do interior. A própria decoração do quarto de Alfonsina evidencia esse isolamento, com a parede a encontrar-se recheada de imagens do mar, algo que transmite o desejo desta jovem em conhecer este espaço e libertar-se dos grilhões impostos pelo progenitor. Com interpretações convincentes por parte do elenco principal, um conjunto de planos que parecem ter sido pensados ao pormenor e uma banda sonora que contribui para incrementar a narrativa, "A História da Eternidade" surge como uma estreia interessante de Camilo Cavalcante na realização de longas-metragens, com o cineasta a procurar desafiar o espectador e os seus personagens, algo que consegue, ou não estivéssemos diante de um filme que está longe de conseguir provocar indiferença.

Título original: "A História da Eternidade".
Realizador: Camilo Cavalcante.
Argumento: Camilo Cavalcante.
Elenco: Marcelia Cartaxo, Leonardo França, Débora Ingrid, Claudio Jaborandy, Zezita Matos, Maxwell Nascimento.

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