22 maio 2016

Resenha Crítica: "High-Rise" (Arranha-Céus)


Ben Wheatley não poupa na violência, na procura de chocar o espectador, na exposição directa das mensagens que tem a transmitir e no humor negro em "High-Rise", a adaptação cinematográfica da obra literária homónima de J.G. Ballard. O enredo desenrola-se maioritariamente no interior de um arranha-céus, um edifício de largas dimensões que surge como uma espécie de microcosmos para retratar a sociedade londrina do final da década de 70, em particular, as suas ambições, decepções, devaneios e tristezas, com Ben Wheatley a aproveitar ainda para incutir alguns ingredientes de ficção científica. A banda sonora não engana o espectador, bem como os espaços do arranha-céus, com ambos a contribuírem para a atmosfera opressora e provocadora que envolve o enredo de "High-Rise", enquanto Ben Wheatley exibe por inúmeras vezes que se está a lixar por completo para as subtilezas. Diga-se que "High-Rise" é um filme desequilibrado e de contradições, ou a sua falta de subtileza não surgisse quer como uma das suas forças, quer como uma das suas fraquezas. Por um lado exibe o arrojo e o humor negro do cineasta, por outro, essa falta de subtileza arrasa muitas das vezes com o poder de "High-Rise", com o filme a contar com mensagens relevantes, embora apresente as mesmas de forma repetitiva e caricatural, algo que contribui não só para esbater o interesse que podemos ter em relação a alguns personagens, mas também o efeito de choque que Ben Wheatley pretende despertar no espectador. Não faltam cães a serem eliminados e cozinhados, assassinatos, suicídios, violações, orgias, muita tensão e inquietação, com o arranha-céus a surgir simultaneamente como um cenário e personagem de "High-Rise", uma obra cinematográfica pronta a expor temáticas como as desigualdades sociais, os efeitos nefastos do capitalismo selvagem e do neoliberalismo, sempre de forma completamente escancarada. A falta de subtileza é propositada, tal como o humor negro, com Ben Wheatley a procurar desafiar o espectador, enquanto aproveita o elenco que tem à disposição e explora eficazmente os cenários ao serviço do enredo. Diga-se que o trabalho a nível da decoração dos cenários, o guarda-roupa e a paleta cromática contribuem e muito para o tom que Ben Wheatley incute ao enredo de "High-Rise", com o cineasta a rodear-se de uma equipa competente. O arranha-céus é exposto como um edifício grandioso, opulento e esteticamente pouco apelativo, onde os habitantes se encontram divididos consoante os estatutos sociais. As tonalidades cinzentas pontuam o espaço exterior deste edifício grandioso, com estas cores neutras a transmitirem uma sensação de frieza, solidão e isolamento. Os pisos inferiores são habitados por inquilinos de classes trabalhadoras, de poucas posses; os sectores intermédios estão preenchidos por elementos que se encontram entre a ascensão social e a possível queda; o topo é habitado pelos mais ricos, com o terraço e a casa que o circunda a contar com a presença de Royal (Jeremy Irons), um arquitecto que desenvolveu o arranha-céus.

 O escritório de Royal transmite uma certa frieza e impessoalidade, com as paredes deste espaço, pintadas de branco, a adensarem esta situação. Diga-se que Ben Wheatley utiliza assertivamente a paleta cromática, algo latente no escritório do personagem interpretado por Jeremy Irons, ou quando a piscina é exibida com recurso a tonalidades vermelhas, uma situação que permite exacerbar um momento mais intenso que decorre neste espaço. Royal é um dos vários personagens que contam com um nome recheado de significado, ou Jeremy Irons não interpretasse um indivíduo pomposo, de largas posses, que tarda em perceber onde falhou quando concebeu o edifício, embora seja óbvio que o arquitecto se esqueceu de um detalhe: tratar todos os inquilinos por igual. Jeremy Irons concede uma mescla de altivez e humanidade a Royal, um indivíduo demasiado preso ao seu mundo, que guarda uma séries de segredos, enquanto o actor sobressai num papel que parece praticamente feito à sua medida. Após um breve prólogo, que nos expõe ao tom de "High-Rise", a narrativa recua três meses, tendo em vista a apresentar-nos a Robert Laing (Tom Hiddleston), um neurologista que lecciona na Universidade de Fisiologia. Laing mudou-se para um apartamento situado no vigésimo quinto andar deste arranha-céus, com o médico a parecer o inquilino perfeito, procurando agradar a tudo e a todos, tendo em vista a ser aceite pelos elementos do escalão social mais alto, aquele que este parece querer alcançar. Tom Hiddleston consegue incutir algum mistério e complexidade a este médico aparentemente passivo, que tarda em desencaixotar o material que trouxe para a sua nova habitação, bem como em escolher a nova tonalidade para as paredes da sua casa. Com um corpo delineado, uma situação profissional segura e uma facilidade enorme para atrair as mulheres, incluindo, Charlotte Melville (Sienna Miller), a sua vizinha de cima, Robert Laing acaba por se encontrar praticamente entre as duas franjas do arranha-céus, embora não esteja realmente integrado no interior de alguma, despertando desconfianças de ambos os lados. Por sua vez, Charlotte é uma figura feminina sensual e provocadora, que parece conhecer quase todos os habitantes do prédio, embora mantenha em segredo a identidade do pai de Toby (Louis Suc), o seu filho, um jovem inteligente, precoce e introvertido. Robert desperta a atenção de Royal, com o encontro entre ambos a ser marcado pela surpresa do primeiro em relação ao estilo de vida do segundo, com o arquitecto a contar com um elevador privado, um cavalo no jardim, bem como diversos cães. Royal é casado com Ann (Keeley Hawes), uma figura feminina altiva, que mantém uma relação fria com o esposo, com o espaço onde habitam a ser marcado por festas luxuosas, pelo menos até rebentarem os conflitos no interior do arranha-céus. Robert e Royal formam uma relação de respeito, com ambos a partilharem o gosto pelo squash, com o protagonista a apresentar alguma satisfação devido a ser aceite pelo arquitecto, uma situação que pode indicar uma possível aceitação por parte dos elementos do topo, embora Ann esteja longe de exibir a mesma cordialidade do esposo.

 Se Royal habita num espaço recheado de luxos, já os inquilinos das zonas inferiores contam com imensas limitações, algo que piora quando se deparam com contrariedades como falta de electricidade devido a falhas no sistema, uma situação que gera diversas reclamações, embora os elementos mais ricos exibam uma insensibilidade extrema em relação aos problemas sentidos pela "populaça". Nesse sentido, "High-Rise" expõe algo que é óbvio, embora a nossa sociedade não pareça conseguir compreender: as desigualdades sociais, bem como as privações extremas, podem gerar revoltas. Um personagem que sente essas desigualdades é Richard Wilder (Luke Evans), um documentarista falhado, mulherengo e impulsivo, que é casado com Helen (Elisabeth Moss), uma mulher ponderada que se encontra grávida. Como o nome indica, Wilder conta com uma personalidade selvagem e fervilhante, com este indivíduo a preparar-se para liderar revoltas e desafiar o status quo (o poster de Che Guevara na casa de Wilder deixa antever a faceta revolucionária do personagem). Veja-se quando impedem que as crianças e os habitantes dos escalões mais baixos entrem na piscina, com Wilder a organizar uma revolta colectiva e a invadir este espaço, pretendendo ter os mesmos privilégios que os residentes financeiramente abonados. Luke Evans transmite a personalidade explosiva do personagem que interpreta, um indivíduo com um corte de cabelo muito "à final dos anos 70", que se encontra revoltado com a vida, procurando contactar Royal a todo o custo, bem como iniciar um caso com Charlotte. As traições marcam as relações de diversos personagens, com "High-Rise" a apresentar-nos a uma série de figuras que sobressaem no interior deste microcosmos dotado de um conjunto de regras e estruturas hierárquicas que representam, ainda que de forma extrema, aquilo que acontece na nossa sociedade. Tudo se esbate quando o conflito entre classes irrompe, com o edifício a ganhar características claustrofóbicas. Veja-se quando estala a guerra entre os diferentes inquilinos, com o lado mais irracional e selvagem do ser humano a vir ao de cima, enquanto o edifício se transforma num território claustrofóbico onde tudo parece ser permitido. Diga-se que todos os inquilinos do arranha-céus pagam a mesma renda, inclusive aqueles que contam com menos posses e vivem nas zonas mais baixas. A espaços parece que os inquilinos dos espaços inferiores encaram o arranha-céus como um desafio, ou seja, como uma espécie de montanha social que pretendem escalar, embora este desiderato seja praticamente impossível de alcançar devido ao facto dos grupos mais poderosos pretenderem manter o status quo. Veja-se que Wilder gostava que a esposa tivesse uma personalidade e um corpo semelhante a Charlotte, enquanto Helen deseja viver num dos andares de cima, ou seja, com mais condições. O parque de estacionamento surge praticamente como um reflexo do interior deste prédio, com os veículos a encontrarem-se quase todos alinhados, pelo menos até o caos rebentar. Diga-se que os inquilinos podem frequentar alguns espaços comuns, embora em horários diferentes. Espaços como a piscina, o spa, a sala de squash, bem como o supermercado e o ginásio, podem ser utilizados pela maioria dos habitantes do arranha-céus, ainda que com algumas limitações, embora tudo comece a resvalar quando a electricidade e a comida começam a faltar.

 "High-Rise" permite ainda exibir os devaneios de Ben Wheatley em todo o seu esplendor e grandiosidade, algo que nem sempre funciona a favor do filme. A mensagem contra o capitalismo selvagem, bem como a exposição dos efeitos da ambição excessiva e das desigualdades sociais, surgem como temáticas pertinentes e relevantes, mas chega a um ponto onde Wheatley já não tem muito mais para dizer, embora continue a arrastar a narrativa, qual inquilino que não quer largar este edifício. A insensibilidade marca a personalidade da maioria dos residentes dos apartamentos mais elevados do arranha-céus, com a incompreensão destes elementos a alavancar um conflito no qual os sentimentos reprimidos se soltam de maneira violenta. Os mais ricos (expostos de forma propositadamente caricatural) procuram defender o seu estatuto, enquanto os menos abonados começam gradualmente a desafiar os primeiros, até Ben Wheatley nos deixar diante de uma torrente de violência e anarquia, onde tudo e todos parecem ceder e abandonar as barreiras morais. A partir de um determinado momento do enredo, o arranha-céus parece transformar-se numa selva, onde as leis são quebradas com enorme facilidade, com o extremar dos comportamentos, bem como a falta de electricidade, comida e água, a trazerem consequências nefastas para diversos personagens que povoam este universo narrativo distópico. Os efeitos do conflito são exibidos, embora Ben Wheatley raramente consiga desenvolver todas as temáticas que atira para o interior do enredo, algo visível na forma pueril como expõe a vida laboral de Laing. Wheatley apresenta mais competência a expor as tensões e as idiossincrasias que pontuam as relações entre os elementos dos diferentes grupos sociais que vivem no interior do arranha-céus do que a desenvolver o conflito e as suas consequências. No entanto, é impossível deixar de realçar alguns personagens secundários que se destacam em diversos momentos de "High-Rise", embora o argumento nem sempre atribua a profundidade necessária a estes elementos. Veja-se o caso de Ann, uma figura superficial, que representa o estereótipo dos ricos que não exibem a mínima sensibilidade para com os mais desfavorecidos; Munrow (Augustus Prew), um habitante do prédio, estudante de medicina, que se encontra entre as classes mais elevadas e decide cometer suicídio; Simmons (Dan Renton Skinner), um "funcionário" do prédio com ligações a Royal e aos sectores mais elevados do arranha-céus, entre outros personagens. Com um elenco competente, embora Tom Hiddleston, Luke Evans e Jeremy Irons sobressaiam acima dos demais, uma mensagem relevante sobre as desigualdades sociais e a falta de sensibilidade que marca a nossa sociedade, "High-Rise" procura provocar o choque e explorar as tensões entre os diferentes grupos de inquilinos que povoam o arranha-céus do título, um cenário que é tomado pela anarquia, tal como a narrativa, com Ben Wheatley a transmitir a ideia que não percebe, ou não quer perceber quando está a ser redundante, ou consumido pelos seus devaneios. 

Título original: "High-Rise".
Título em Portugal: "Arranha-Céus".
Realizador: Ben Wheatley.
Argumento: Amy Jump.
Elenco: Tom Hiddleston, Jeremy Irons, Sienna Miller, Luke Evans, Elisabeth Moss.

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