27 maio 2016

Resenha Crítica: "Heat" (1995)

 Neil McCauley (Robert De Niro) é um assaltante experiente, um estratega nato, inteligente, aparentemente frio, que construiu uma equipa capaz de realizar os assaltos mais intrincados. McCauley tem como lema: "Queres ser bem sucedido? Não tenhas laços afectivos. Não tenhas nada na vida que não possas largar se vires a polícia chegar". É um indivíduo aparentemente duro e implacável, com valores muito próprios, que se prepara para protagonizar um jogo entre "o gato e o rato" com Vincent Hanna (Al Pacino), o tenente da divisão de roubos e homicídios da polícia de Los Angeles. A cidade de Los Angeles surge como cenário e protagonista de "Heat", a quinta longa-metragem realizada por Michael Mann, com o cineasta a apresentar este espaço urbano de forma simultaneamente bela e violenta. Tanto podemos ser colocados perante assaltos meticulosamente planeados, ou tiroteios intensos e mortais, como diante de planos que exacerbam a grandiosidade e beleza de Los Angeles, uma cidade pontuada por diversas dicotomias. Michael Mann utiliza as ruas, as estradas, os bancos, as habitações, os clubes nocturnos de Los Angeles ao serviço do enredo, parecendo procurar transportar a alma desta cidade para o grande ecrã, ou uma versão da mesma, enquanto nos apresenta a uma série de personagens que marcam esta obra cinematográfica que mescla elementos dos filmes policiais e de gangsters. Neil e Vincent encontram-se entre essas figuras marcantes, com a dupla de protagonistas a apresentar diversos elementos em comum, embora o primeiro dedique a sua vida ao crime, enquanto o segundo procura travar e deter indivíduos como o personagem interpretado por Robert De Niro. Vincent e Neil são obstinados e intrépidos, lideram equipas que se dedicam às causas que defendem, apresentam valores muito próprios e deixam que os seus ofícios afectem em demasia a vida privada. Diga-se que a atenção que Michael Mann concede à vida privada dos protagonistas é algo que exibe o cuidado colocado no desenvolvimento destas figuras e dos seus relacionamentos, com o cineasta a procurar incutir alguma complexidade a uma obra cinematográfica que sabe mesclar praticamente na perfeição as cenas de acção de cortar a respiração com o desenvolvimento dos personagens. É exactamente esse desenvolvimento dos personagens que potencia dois momentos protagonizados por McCauley e Hanna, com o conhecimento prévio que temos destes elementos a contribuir e muito para a intensidade destes trechos. Michael Mann comete a "maldade" de reunir os dois protagonistas quando o filme já se encontra com mais de uma hora de duração, algo que revela a coragem e confiança do cineasta, mas também o cuidado no desenvolvimento dos personagens. Existe algo mais intrincado do que uma mera disputa entre polícias e criminosos, ou entre o bem e o mal, com McCauley e Hanna a surgirem como duas figuras complexas, que a certa altura parecem desenvolver uma admiração mútua. Michael Mann dá-nos a conhecer os métodos de trabalho de Hanna e McCauley, a maneira com que cada um lida com as suas equipas e as mulheres, enquanto os protagonistas se envolvem numa miríade de situações intensas.

Vincent Hanna já vai no seu terceiro casamento, contando com uma relação complicada com Justine (Diane Venora), a sua esposa. A casa de Justine e Vincent, pertencente ao ex-marido da primeira, apresenta uma decoração moderna, embora o protagonista raramente tenha tempo para desfrutar dos prazeres deste espaço e da vida em família. Por sua vez, McCauley tem uma casa de largas dimensões, pontuada por paredes de vidro, com vista para o mar, embora esteja praticamente vazia, com este a não pretender formar grandes laços, algo inerente ao lema citado no início do texto. As paredes de vidro da casa de Neil contribuem para Michael Mann brindar o espectador com alguns planos bastante inspirados e cheios de significado. Veja-se quando encontramos Neil a observar o mar, durante a noite, através das paredes espelhadas, com as tonalidades azuis a dominarem o ecrã, simbolizando a solidão do protagonista, enquanto o mar tanto parece transmitir uma ideia de liberdade como de prisão. É um dos vários momentos de "Heat" onde temos oportunidade de observar o lado mais calmo de Neil, enquanto Robert De Niro cria um personagem complexo e marcante, com o actor a demonstrar que quando quer é um intérprete magnífico. Se a cena descrita anteriormente indica alguma calmaria, já o primeiro encontro entre Neil e Vincent promete aquecer e bem o enredo. Michael Mann deixa a narrativa a ferver em banho-maria, enquanto explana e desenvolve as personalidades dos dois protagonistas e os seus planos, até colocá-los frente a frente. Não existe volta a dar, o encontro teria de acontecer, com Michael Mann a deixá-lo ocorrer no momento certo. Robert De Niro e Al Pacino aparecem com uma aura típica dos predestinados que conseguem elevar as falas que proferem, algo latente quando os encontramos no café e os personagens que interpretam conseguem expor rapidamente as suas personalidades, bem como aquilo que marca e define as suas vidas, para além de exibirem algumas semelhanças e diferenças. Essas diferenças e semelhanças ficam paradigmaticamente visíveis quando Vincent questiona Neil se este nunca pretendeu ter uma vida normal, enquanto o criminoso riposta: "O que é isso? Churrascadas e futebol? (...) A sua vida é assim?". A resposta de Vincent não se faz esperar: "A minha vida? Não, a minha vida... a minha vida é uma catástrofe. Tenho uma enteada completamente desorientada porque o pai dela é uma besta. Tenho uma mulher, e vejo o meu terceiro casamento a desmoronar-se porque passo o tempo a perseguir tipos como tu". Vincent e Neil não conseguem ter um estilo de vida calmo e "normal", algo comprovado no último terço, quando ambos poderiam seguir outro rumo, embora os seus instintos falem mais alto. A cena no restaurante é intensa, com os diálogos entre Vincent e Neil a parecerem atingir quase o poder das balas que são disparadas ao longo do filme, ou "Heat" não surgisse como uma obra cinematográfica inquietante, violenta e estilizada, com Michael Mann a reunir harmoniosamente elementos de filme policial e de gangsters.

Os momentos iniciais de "Heat" são marcados por um assalto a uma carrinha que transportava divisas e acções ao portador. O assalto é coreografado com enorme precisão e inspiração, com Michael Mann a reunir estilo e substância, enquanto nos apresenta a um roubo violento. O grupo de assaltantes é formado por Neil McCauley, Chris Shiherlis (Val Kilmer), Michael Cheritto (Tom Sizemore), Trejo (Danny Trejo), bem como por Waingro (Kevin Gage), a nova adição a esta trupe de criminosos. Tudo parecia planeado ao pormenor, com os assaltantes a conseguirem roubar as acções, embora o comportamento imprevisível e violento de Waingro venha ao de cima, com este assaltante a assassinar um dos três guardas da carrinha de valores, algo que obriga à eliminação dos outros dois elementos. Waingro consegue fugir de McCauley, com este último a demonstrar que não permite veleidades, nem alterações despropositadas aos planos delineados. Esta não é a última vez que "Heat" nos coloca diante de Waingro, um psicopata que parece apreciar a morte alheia, com Kevin Gage a conseguir sobressair em diversos momentos, sobretudo na segunda metade do filme. As acções roubadas pertenciam a Roger Van Zant (William Fichtner), um indivíduo conhecido pelos negócios obscuros, em particular, pela lavagem de dinheiro oriundo de tráfico de droga. As verbas do assalto são completamente cobertas pelo seguro, algo que conduz Nate (Jon Voight), o indivíduo responsável por vender o material roubado por McCauley e organizar novos golpes, a tentar negociar com Van Zant. A parceria não resulta, com Van Zant a tentar eliminar McCauley, com este último a prometer vingança, enquanto o primeiro tem de se preparar para uma ofensiva que pode chegar a qualquer momento. McCauley recebe ainda uma proposta aparentemente segura para assaltar um banco, algo que conduz à reunião do grupo formado pelo primeiro Shiherlis, Cheritto e Trejo, com todos a apresentarem uma relação de amizade e aparente lealdade. Veja-se a relação de amizade e cumplicidade entre McCauley e Shiherlis, algo que comprova que estamos diante de personagens guiados por alguns valores morais, com o argumento de Michael Mann a procurar evitar retratar estes elementos como meros assassinos frios e unidimensionais. Val Kilmer interpreta um dos vários personagens secundários que sobressaem, com o actor a conseguir expor as vulnerabilidades emocionais de Shiherlis, um indivíduo que ama a esposa (Ashley Judd) e o filho, embora o vício pelo jogo, o seu estilo de vida e a sua personalidade impulsiva conduzam a diversos desaguisados e traições. Se Shiherlis, Cheritto e Trejo formaram famílias, já McCauley prefere assumir uma faceta de "lobo solitário", embora acabe por iniciar uma relação com Eady (Amy Brenneman). Esta apresenta uma personalidade algo recatada e discreta, trabalhando numa livraria enquanto aguarda por conseguir singrar como designer gráfica, com Brenneman a transmitir o tom frágil da personagem que interpreta. A relação entre McCauley e Eady conta com alguns momentos de acalmia e romance, com os elementos do casal a surgirem como figuras solitárias que não parecem ter uma propensão elevada para criarem novas amizades.

 A certa altura de "Heat", encontramos Neil e Eady a observarem a cidade, durante a noite, a partir da varanda da casa da segunda, com Michael Mann a brindar-nos com alguns planos abertos belíssimos (mérito também para o trabalho de fotografia de Dante Spinotti). As luzes da cidade sobressaem, bem como a grandeza e beleza deste território, com Los Angeles a surgir representada como um espaço que tanto tem de belo como de violento. Diga-se que Mann não poupa na violência, com o cineasta a brindar o espectador com um tiroteio intenso, que promete causar estragos e trazer a morte a diversos personagens, enquanto o trabalho de câmara, de montagem e do elenco sobressai, bem como a banda sonora. O tiroteio é marcado por uma violência extrema, com as balas a irromperem e os sentimentos a explodirem, enquanto polícias e assaltantes tomam as ruas e prometem iniciar um duelo inquietante. Se existe lugar para algum lirismo quando Neil e Eady se encontram juntos, o mesmo não pode ser dito quando as balas começam a esvoaçar pelos ares e a morte se parece aproximar de diversos personagens. Mann conduz o filme com uma mestria imensa, algo que contribui para a intensidade do último terço, quando os silêncios entre De Niro e Pacino podem valer mais do que mil palavras (aqueles close-ups no rosto de Al Pacino, nos momentos finais de "Heat", permitem expor de forma vincada os sentimentos contraditórios que assolam a mente de Vincent). Al Pacino surge intenso, fervilhante, marcante e carismático como Vincent Hanna, um polícia que não tem problemas em gritar, gesticular e apresentar comportamentos nem sempre correctos, inclusive com informantes, embora pareça assumir alguma admiração em relação a McCauley. Vincent não gosta de expor os problemas do foro laboral quando está em casa, algo que contribui para pequenas fissuras no casamento que, com o passar no tempo, prometem colocar em causa o matrimónio, com o protagonista a parecer incapaz de conciliar a vida profissional e social/familiar. Diga-se que este é um dos pontos que une Vincent a Neil, com este último a fingir que é um vendedor, tendo em vista a esconder da amada que é um assaltante. Vincent e Neil apresentam diversas semelhanças, embora representem lados distintos da lei, com Michael Mann a representar isso mesmo ao longo deste thriller intenso, marcante e esteticamente apurado. Se Vincent procura engendrar a "armadilha" perfeita para capturar os criminosos em pleno delito, já Neil tenta efectuar um roubo praticamente à prova de falhas a um banco, embora os planos de ambos nem sempre decorram como o esperado, com o mínimo deslize a poder ser fatal para uma das partes. Com uma banda sonora pronta a incrementar os episódios da narrativa, um aproveitamento notório da cidade de Los Angeles ao serviço do enredo, interpretações de grande nível de Robert De Niro e Al Pacino, um argumento inteligente, "Heat" não poupa nos momentos memoráveis, daqueles que tardam em sair da memória, seja um tiroteio barulhento ou uma perseguição silenciosa, enquanto a dupla de protagonistas procura cumprir os seus intentos e Michael Mann apodera-se da mente e da alma do espectador ao longo da duração do filme.

Título original: "Heat".
Título em Portugal: "Heat - Cidade Sob Pressão".
Realizador: Michael Mann.
Argumento: Michael Mann.
Elenco: Al Pacino, Robert De Niro, Val Kilmer, Diane Venora, Amy Brenneman, Ashley Judd.

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