16 maio 2016

Resenha Crítica: "Gomorra" (2008)

 A morte, a violência, a vingança, as rivalidades e as disputas pelo poder marcam a narrativa de "Gomorra", a sexta longa-metragem realizada por Matteo Garrone. A câmara de filmar encontra-se constantemente em movimento, pronta a captar as emoções e a transmitir um tom imediato aos acontecimentos vividos pelos personagens ao longo desta narrativa que efectua um retrato complexo sobre a máfia e o impacto provocado por alguns dos seus integrantes no interior do território que dominam ou procuram dominar. O argumento teve como base o livro "Gomorra" de Roberto Saviano, com Matteo Garrone a conseguir articular uma série de histórias centradas em personagens que lidam de perto com os elementos da Camorra, um grupo mafioso conhecido pela sua faceta implacável. A máfia parece dominar este espaço napolitano localizado entre os subúrbios de Scampia e Secondigliano, com o conflito entre elementos do clã Di Lauro e os chamados scissionisti (separatistas) a mexer com o quotidiano de diversos personagens, algo exposto de forma brutal e intensa. Amizades perdem-se, as disputas pelo poder podem culminar na morte de vários inocentes, as lealdades são testadas, a ganância predomina regularmente em relação ao bom senso, com as atitudes à margem da lei a serem muitas das vezes encaradas com normalidade por diversas gentes deste território. O início de "Gomorra" é intenso e violento, com as luzes azuis e a banda sonora a darem o tom para um assassinato que ocorre no interior de um solário. Um grupo de gangsters é eliminado por outro bando de criminosos, com este momento introdutório a servir de aperitivo para uma obra cinematográfica pontuada por um tom quase documental, com Matteo Garrone a colocar o espectador diante de uma série de personagens que habitam no interior deste meio marcado pela violência. O filme apresenta uma estrutura praticamente coral, algo que permite colocar diversos personagens em destaque. Veja-se o caso de Totò (Salvatore Abruzzese), um adolescente de treze anos de idade, que ajuda a sua mãe, a dona de uma pequena mercearia. Totò habita neste bairro onde as casas se encontram praticamente interligadas, com os edifícios a surgirem amontoados, recheados de figuras que dependem dos elementos da máfia, com a própria estrutura arquitectónica a transmitir uma sensação de prisão, como se estes personagens estivessem presos a uma teia que os reúne de forma indelével. Diga-se que a utilização do espaço arquitectónico ao serviço da narrativa e os efeitos provocados pelo mesmo nos personagens, remete para obras cinematográficas de Michelangelo Antonioni como "L'avventura", "La Notte", "L'eclisse", "Il deserto rosso", entre outras. Se Antonioni colocou o espectador diante de personagens com algumas posses financeiras (no caso dos exemplos citados), já Garrone apresenta uma miríade de figuras anónimas que pertencem maioritariamente aos escalões mais baixos da Camorra. O personagem interpretado por Salvatore Abruzzese é amigo de Simone (Simone Sacchettino), um adolescente, embora este último decida unir-se aos secessionistas ou separatistas, enquanto o primeiro junta-se ao grupo dominante, algo que vai dividir estes dois jovens.

 A entrada de Totò e Simone no mundo do crime organizado promete trazer repercussões para os mesmos e para as respectivas famílias. Totò junta-se ao grupo criminoso após ter devolvido uma pistola e um saco com drogas que pertenciam a um integrante do gang, que se tivera de desfazer desse material devido a uma intervenção da polícia. O personagem interpretado por Salvatore Abruzzese passa os testes de coragem com sucesso, começando a trabalhar para estes criminosos em crimes como tráfico de droga, embora perceba rapidamente que entrou num mundo onde não existe meio termo: ou está a favor do seu líder ou está contra. Esta situação conduz a um episódio violento que interliga a história de diversos personagens, incluindo a mãe de Simone, uma mulher que deixou de receber uma verba do grupo criminoso, algo que é efectuado como represália devido ao facto do rebento ter integrado os secessionistas. Quem efectua os pagamentos do clã Di Lauro é Don Ciro (Gianfelice Imparato), um indivíduo de personalidade calma e reservada, aparentemente fiel aos seus superiores. Estas verbas, pagas a elementos que prestaram serviços ou que contam com familiares na prisão devido a trabalhos para a máfia, contribuem para que os integrantes da Camorra mantenham a sua rede de influências e poder no interior deste espaço. Gianfelice Imparato conta com uma interpretação sóbria, eficaz e certeira, que contrasta em certa medida com os exageros e devaneios de Marco (Marco Macor) e Ciro (Ciro Petrone), dois aspirantes a gangsters. Marco e Ciro são fãs dos gangsters dos filmes dos EUA, em particular de "Scarface" versão Brian De Palma, procurando cometer delitos por conta e risco, algo que promete irritar Giovanni (Giovanni Venosa), um líder mafioso local. Estes jovens tanto são capazes dos actos mais violentos como cometem as atitudes mais infantis, roubando droga, armas e divisas, embora não pareçam ter a noção de que a realidade é bem distinta dos filmes de Hollywood. Diga-se que Matteo Garrone procura incutir um tom cru na representação destes gangsters e do quotidiano das gentes destes espaços napolitanos. Não existe lugar para paixões ou idealismos, com quase todos os personagens a serem confrontados por uma realidade onde a imoralidade e a máfia parecem estar enraizados, um pouco a fazer recordar "A ciascuno il suo" de Elio Petri, uma obra cinematográfica onde o protagonista, um professor (Gian Maria Volontè), descobre da pior maneira a teia criminosa que envolve o território no qual habita. Marco Macor e Ciro Petrone protagonizam um dos momentos mais memoráveis e infantis do filme, em particular, quando os personagens que interpretam se encontram de cuecas a testar as armas que roubaram. É um momento violento, idiota, infantil e revelador de que Ciro e Marco não se encontram conscientes que se estão a envolver num mundo bem mais perigoso e cruel do que aquele que idealizaram nas suas mentes. "Gomorra" explora a brutalidade deste espaço sem concessões ou falsas lições de moralismo, com Matteo Garrone a exibir a "normalidade" com que os moradores deste território encaram toda esta realidade que envolve a Camorra, parecendo que a presença dos elementos desta organização criminosa e os seus actos se encontram enraizados no quotidiano da população.

 Matteo Garrone efectua um comentário sobre a forma como estes grupos dominam alguns espaços de Itália, mas também a naturalidade com que parecem ser encarados no estrangeiro, algo notório nos intertítulos finais onde ficamos diante do comentário "A Camorra também investiu na reconstrução das Torres Gémeas", que explana paradigmaticamente como o dinheiro sujo é reinvestido em negócios considerados legais. A ilegalidade nos negócios é algo que marca o quotidiano de Franco (Toni Servillo), um indivíduo com poucos escrúpulos, que ganha a vida com o despejo de lixo considerado tóxico. Franco enriqueceu graças a diversas ilegalidades e à exploração dos trabalhadores, uma situação evidenciada em diversos actos, tais como colocar crianças a conduzirem camiões após os camionistas se terem revoltado. Toni Servillo cria um dos vários personagens de "Gomorra" que aparecem desprovidos de valores morais, um indivíduo que não é propriamente um gangster, embora actue como um criminoso, algo percepcioando por Roberto (Carmine Paternoster), um funcionário de Franco que começa a exibir algum desconforto em relação às atitudes do seu superior. Quem também mantém uma relação intrincada com o patrão é Pasquale (Salvatore Cantalupo), um alfaiate que trabalha para o dono (Gigio Morra) de uma fábrica de roupa que mantém ligações com a Camorra. Pasquale é um alfaiate competente, que é aliciado para trabalhar na fábrica de roupa dos chineses que habitam o local, uma situação que promete trazer problemas para ambas as partes, ou a violência não fizesse parte do dia a dia destes personagens. A narrativa centrada em Pasquale permite não só reforçar a violência no território e alguma xenofobia, mas também a hipocrisia de algumas grandes marcas que vendem vestidos a valores elevadíssimos, embora as vestimentas sejam produzidas em condições pouco dignas. A ironia também faz parte deste filme pontuado pela violência, com Matteo Garrone a efectuar um retrato pungente deste território napolitano. Não existem concessões para com os personagens, com Garrone a ser fiel ao espírito da narrativa, colocando o espectador diante de um meio onde os tentáculos da máfia parecem enraizados no seio da população. Veja-se o delírio de Ciro e Marco em relação aos mafiosos de Hollywood, ou a entrada do personagem interpretado por Salvatore Abruzzese no mundo da máfia. Abruzzese interpreta um jovem de poucas falas, que gosta de utilizar camisolas com manga de cava, brincos e anéis, procurando integrar-se neste quotidiano violento que sempre rodeou a sua vida. Os actores e actrizes apresentam uma enorme naturalidade nas suas interpretações, com Matteo Garrone a acertar na decisão de mesclar elementos conhecidos com estreantes ou amadores, bem como em filmar "Gomorra" no espaço onde se desenrola parte da narrativa. Diga-se que o cineasta é bastante eficaz a incutir um tom quase documental ao filme, procurando que o espectador praticamente se esqueça de que está diante de elementos ficcionais, algo que foi propositado, como Matteo Garrone comentou ao IndieLondon: "I wanted to make Gomorrah like a documentary or like a piece of war reportage. Of course, it’s all a reconstruction and there are actors, yet I wanted to make the audience forget there is a film-crew behind the camera. The source material is so real and true and the locations are so powerful,that I didn’t need to embellish things visually".

 Este é um retrato complexo da Camorra, bem como dos laços criados entre os mafiosos e os cidadãos locais, enquanto ficamos diante do quotidiano destes elementos. As oportunidades laborais nem sempre são as melhores, a vida escolar dos jovens é descurada, enquanto a entrada no mundo da máfia parece ser muitas das vezes a única possibilidade quer para sobreviver, quer para ter dinheiro, quer para alguns elementos se sentirem integrados no meio que os rodeia. Não existe glamour a rodear os actos destes personagens, bem pelo contrário, algo que a espaços contribui para alguns murros no estômago do espectador que sente e de que maneira algumas mortes. A morte de uma figura feminina é particularmente dolorosa de se ver, com "Gomorra" a expor a brutalidade que rodeia este espaço. Nesse sentido, não encontramos um retrato unidimensional da máfia e deste espaço citadino, mas sim uma procura em explorar a complexidade desta teia que envolve o território napolitano, com o próprio Governo a ser alvo de alguns comentários. Veja-se a exploração laboral, pouco regulada pelas entidades competentes, ou o comentário efectuado pelo personagem interpretado por Toni Servillo: "Resolvemos os problemas criados pelos outros". Diga-se que este despeja o lixo tóxico em locais propícios ao crescimento de frutas e legumes, com estes produtos a surgirem contaminados desde a sua génese, algo que parece surgir quase uma metáfora para os diversos personagens que povoam esta narrativa. Retrato cru, marcante e complexo sobre a máfia napolitana e os elementos que contactam directamente ou indirectamente com os seus membros, "Gomorra" não cede espaços a facilitismos, ou sentimentalismos, com Matteo Garrone a procurar estimular o espectador a questionar este espaço e as suas gentes.

Título original: "Gomorra".
Realizador: Matteo Garrone.
Argumento: Matteo Garrone, Roberto Saviano, Maurizio Braucci, Ugo Chiti, Gianni Di Gregorio, Massimo Gaudioso.
Elenco: Toni Servillo, Gianfelice Imparato, Maria Nazionale, Salvatore Cantalupo, Gigio Morra, Salvatore Abruzzese, Marco Macor, Ciro Petrone.

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