05 maio 2016

Resenha Crítica: "Cartas de Amor São Ridículas"

 Ainda pensei iniciar o texto sobre "Cartas de Amor São Ridículas", o filme de abertura da sétima de edição do FESTin, com um paralelismo relacionado com o futebol, em particular, o clube grande que perde o jogo da primeira jornada e tem uma entrada em falso, apesar de ter um plantel superior à equipa adversária. "Cartas de Amor São Ridículas" não é uma entrada em falso, mas um autogolo num momento decisivo de um festival que conta com filmes de enorme qualidade como "A História da Eternidade" e "Maresia", para citar apenas dois exemplos, embora se espalhe ao comprido com uma escolha completamente desastrosa para a abertura. A obra cinematográfica realizada por Alvarina Souza e Silva comprova que não são apenas as cartas de amor que são ridículas, ou não estivéssemos diante de um filme destrambelhado, amador, superficial, sem um mínimo de brio estético, que efectua uma representação ofensiva das mulheres e revela uma incapacidade gritante para desenvolver as personagens. No filme, quase todas as mulheres que nos são apresentadas querem casar, ser boas donas de casa e ter filhos, ou seja, um retrato que certamente agradará a um machista extremamente conservador. Diga-se que o casamento como modo de felicidade e de resolver todos os problemas caberia que nem uma luva naquelas comédias à portuguesa efectuadas durante o período do Estado Novo (não é um elogio), nas quais os valores conservadores também são defendidos. É certo que o enredo de "Cartas de Amor São Ridículas" tem como pano de fundo o território de Goiás, há cinquenta anos, mas isso não explica a representação totalmente retrógrada das mulheres e do casamento que é apresentada ao longo do filme. Também não justifica a falta de capacidade para explorar o território ao serviço da narrativa, com o filme fazer desesperar o mais optimista dos cinéfilos perante os tropeções que dá ao longo da sua duração. A espaços ainda desejamos que "Cartas de Amor São Ridículas" se envolva por caminhos de "Orgulho e Preconceito", mas o feminismo e mulheres fortes não combinam com esta visão patética das mulheres que nos é exposta, enquanto ansiamos que o martírio termine, perdão, o filme. Numa fase em que se discute cada vez mais a igualdade de oportunidades a nível laboral e salarial para as mulheres, surpreende que Alvarina Souza e Silva tenha decidido realizar uma obra cinematográfica que poderia ter sido escrita e dirigida por um machista do tempo da outra senhora. A certa altura de "Cartas de Amor São Ridículas", Gardênia (Ana Paula Lopes), a parideira de serviço (não parece ter outra utilidade na narrativa), morre a dar à luz mais um rebento. Esta é uma das cinco filhas de Lázaro (Roberto Bonfim) e Rosa (Sandra Barsotti). Poderíamos esperar momentos de grande consternação, mas isso seria demasiado subtil para "Cartas de Amor São Ridículas". Não existe luto, mas sim a tentativa de casar o viúvo com outra das filhas, com o casamento a resolver tudo. É simplesmente idiota, perdoem a franqueza, mas não consigo escamotear que me senti ofendido a ver o filme quer pela sua falta de brio a nível técnico, quer pelo seu argumento pueril, quer pela forma como representa as mulheres, quer pela falta de desenvolvimento das personagens.

 "Cartas de Amor São Ridículas" representa uma época distinta, mas isso não explica a falta de desenvolvimento das personagens femininas, ou a parvoíce que povoa a narrativa. Veja-se quando Açucena (Carolina Oliveira) corta os pulsos, após o noivo colocar o casamento em causa. Açucena faz sexo com Cassiano (Alejandro Claveaux), o noivo, para provar que é virgem, embora este comece a duvidar da seriedade da jovem. Ora bem, perder a virgindade para se mostrar que é virgem é estúpido, mas também exibir de forma tão leviana os resultados inócuos do corte de pulsos (não sei o que é pior, se a falta de sangue e efeitos no corpo, ou a atitude de uma das irmãs da jovem, pronta a tentar que ninguém descubra que a familiar foi "desonrada"). Açucena e Gardênia contam ainda com mais três irmãs, embora uma tenha decidido ir para o convento (para não ficar solteira), pelo que apenas nos são apresentadas (não confundir com desenvolvidas ao longo do enredo), Violeta (Marcela Moura) e Dália (Bela Carrijo). Violeta é tratada como se fosse uma aberração quer pelas irmãs, quer pela mãe, devido a continuar solteira aos quarenta anos de idade. Por sua vez, Dália, aos vinte e cinco anos, prepara-se para contrair matrimónio com Eugênio (Tiago Benetti), um médico, com quem se corresponde inicialmente através de cartas. Quem escreve as cartas é Violeta, utilizando poemas de Fernando Pessoa, com o poeta a provavelmente andar a revirar no túmulo perante a puerilidade com que os seus escritos são utilizados. A poesia de Fernando Pessoa é introduzida a martelo, quase como uma forma de justificar uma ligação com Portugal, enquanto esperamos a reviravolta mais ou menos óbvia em relação ao triângulo amoroso que se forma entre Eugênio, Violeta e Dália. Quer dizer, não é assim tão óbvia já que não esperamos uma saída a cavalo, quase como se estivéssemos diante de um príncipe encantado, com "Cartas de Amor São Ridículas" a efectuar uma representação caricatural das relações amorosas e dos personagens que povoam a narrativa. Não existe massa humana que sustente "Cartas de Amor São Ridículas". Os personagens masculinos pouco evoluem (Tiago Benetti e Alejandro Claveaux dão um espectáculo de canastrice), as figuras femininas ainda menos, com pouco ou nada a convencer ao longo de "Cartas de Amor São Ridículas". Se o objectivo era transmitir uma ideia completamente errada daquilo que o FESTin já deu e pode dar, "Cartas de Amor São Ridículas" cumpre o mesmo com distinção. O problema é que para descobrirmos isso temos de perder quase uma hora e quarenta minutos das nossas vidas com uma obra cinematográfica que de cinema tem muito pouco, embora apresente uma mescla quase perfeita de um argumento pueril e uma realização incapaz. Tecnicamente e esteticamente irrelevante, incapaz de desenvolver os personagens ou aproveitar o seu elenco, com uma montagem mal oleada e uma representação tosca da época apresentada, "Cartas de Amor São Ridículas" é... simplesmente ridículo.

Título original: "Cartas de Amor São Ridículas".
Realizadora: Alvarina Souza e Silva.
Argumento: Alvarina Souza e Silva.
Elenco: Roberto Bonfim, Carolina Oliveira, Sandra Barsotti, Alejandro Claveaux, Bela Carrijo, Marcelo Moura.

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