29 maio 2016

Resenha Crítica: "The Big Short" (A Queda de Wall Street)

 Com um trabalho de montagem que permite dinamizar a narrativa, um tom enérgico, uma criatividade indelével na exposição de termos ligados ao mercado financeiro que pouco dizem aos leigos na matéria, "The Big Short" beneficia ainda do facto de contar com um elenco de peso, enquanto Adam McKay percebe que as temáticas que aborda e as repercussões que alguns episódios tiveram não são propriamente o material mais apelativo para uma obra cinematográfica, algo que conduz o cineasta a recorrer a uma série de artimanhas para prender o espectador. Nesse sentido, Adam McKay opta por medidas que vão desde interromper a narrativa e colocar celebridades como Margot Robbie ou Selena Gomez a explicarem determinados termos intrincados associados ao sector da banca, passando por exibir imagens icónicas dos períodos representados, ou deixar o personagem interpretado por Ryan Gosling a assumir as funções de narrador de serviço e a dialogar com o espectador, com o cineasta a conseguir expor o absurdo e a loucura de toda uma situação que se não fosse tão grave e séria até teria alguma piada. Um dos trunfos de Adam McKay é saber utilizar o humor, sempre sem perder a noção de que o caso que retrata é grave e afectou demasiadas pessoas para ser exposto de forma pueril, com o cineasta a exibir que estamos diante de uma narrativa onde não existem heróis, com quase tudo e todos a procurarem o lucro. Diga-se que quem tratou as temáticas abordadas em "The Big Short" de forma pueril foram os diversos elementos que contribuíram para a crise financeira de 2008, com Adam McKay a expor a maneira completamente destravada como bancos, agências de rating e o mercado financeiro actuavam, com poucos elementos a preverem o desastre que viria a acontecer, embora os sinais parecessem bem evidentes. Os empréstimos eram concedidos com enorme facilidade e sem grande critério, praticamente qualquer pessoa podia aspirar a comprar uma casa, até se gerar uma bolha imobiliária e uma crise cujos contornos e repercussões ainda continuam a ser sentidos. As temáticas de "The Big Short" e as terminologias utilizadas nem sempre são as mais palatáveis, bem pelo contrário, mas Adam McKay consegue abordar as mesmas com engenho e criatividade, enquanto demonstra que é um bom condutor de actores. É certo que a tarefa de McKay é facilitada quando se tem um elenco talentoso composto por intérpretes como Christian Bale, Ryan Gosling, Brad Pitt, Steve Carell, entre outros, que incrementam um enredo inspirado nos episódios que antecederam a crise financeira de 2008, embora o cineasta tenha o mérito de conseguir que os vários elementos funcionem em prol da narrativa.

 Christian Bale interpreta Michael Burry, um neurologista com um olho de vidro, que padece de Síndroma de Asperger, apresenta uma enorme dificuldade em comunicar com as outras pessoas (o trabalho do actor a nível da voz e alguns diálogos permitem expor isso mesmo), embora tenha uma habilidade indelével para "ler os números" e interpretar a realidade económica. Bale transmite o tom peculiar deste personagem, uma figura de expressões nem sempre discerníveis, que toma decisões sem consultar os outros, tendo fundado a Scion Capital, uma empresa de investimentos privados. Burry trabalha descalço, ao som de música heavy metal, apresenta um estilo meio peculiar, percebendo uma situação que parecia impossível ao olhar daqueles que o rodeavam, algo que o conduziu a apostar na queda do sistema, ou se preferirem, contra o mercado imobiliário. As terminologias são complexas (o título original do filme remete para a chamada "venda a descoberto"), algo que ajuda a explicar como todos estes casos retratados passaram praticamente ao lado de quase tudo e todos ao longo dos anos, pelo menos até a "bolha" rebentar. Michael Burry não é o único personagem de "The Big Short" a apostar contra o mercado financeiro, ou melhor, contra o sistema imobiliário. Jared Vennett (Ryan Gosling), um vendedor de acções do Deutsche Bank, tenta alertar elementos como Mark Baum (Steve Carell) para investirem em credit default swaps. Conhecido pela sua personalidade desconfiada, pelo pragmatismo e frontalidade, Mark Baum é o manager do FrontPoint Capital, um fundo de cobertura que se encontra inserido no interior da Morgan Stanley. A morte do irmão afectou Baum, com Steve Carell a interpretar um indivíduo que se irrita com facilidade, inteligente e arguto nos negócios, que sempre acreditou na queda do sistema financeiro e decidiu apostar contra Wall Street. Se Ryan Gosling incute um estilo desprendido, sacana e pouco escrupuloso a Vennett, já Carell consegue transmitir que Mark encontra-se verdadeiramente preocupado com as repercussões deste caso, em particular, com as consequências que vão ser sentidas pelos inocentes. Charlie Geller (John Magaro) e Jamie Shipley (Finn Wittrock), dois pequenos investidores que fundaram a Brownfield Capital, também decidem investir contra o sistema, com a dupla a contar com o apoio do experiente Ben Rickert (Brad Pitt), um indivíduo excêntrico e conhecedor do mercado. Ao longo do filme encontramos diversos negócios a serem concluídos, muitos nervos à flor da pele, enquanto ficamos perplexos diante de alguns episódios representados, com "The Big Short" a surgir como um testamento, ainda que ficcional, da chico-espertice daqueles que contribuíram para uma crise financeira que causou lastro pelo Mundo. Elementos como Vennett (inspirado em Greg Lippmann), Baum (baseado em Steve Eisman), Geller (inspirado em Charlie Ledley), Shipley (baseado em Jamie Mai), Rickert (inspirado em Ben Hockett) e Burry souberam interpretar os acontecimentos, algo que conduziu a que lucrassem com a queda do sistema em Wall Street, enquanto milhares ficaram sem empregos, casas e diversos bens, embora imensos indivíduos responsáveis pela crise tenham praticamente "passado ao lado da chuva".

 A certa altura de "The Big Short", encontramos Charlie e Jamie a entrarem nos gabinetes do Lehman Brothers, após a crise eclodir, com este espaço a encontrar-se completamente desértico. Outrora um dos maiores bancos de investimento dos EUA, o Lehman Brothers caiu com estrondo e comprovou a crise no mercado do crédito imobiliário de alto risco. No entanto, outros bancos foram resgatados graças ao dinheiro dos contribuintes, com estes resgates a instituições bancárias e medidas do género a continuarem na ordem do dia em países como Portugal, algo que evidencia os contornos alargados desta crise. "The Big Short" embrenha-se pelos meandros dos mercados, enquanto surge como um testamento relevante sobre os bastidores de uma crise que ainda não foi totalmente ultrapassada, ao mesmo tempo que nos apresenta a diversos personagens que se envolvem numa série de negociatas para ganharem algo com a estupidez alheia. Adam McKay deixa elementos como Steve Carell, Ryan Gosling, Brad Pitt e Christian Bale sobressaírem, com os intérpretes a conseguirem explorar as características muito próprias dos personagens a quem dão vida. Veja-se o estilo nervoso e revoltado de Mark, ou a incapacidade de Michael em contar uma piada ou perceber uma anedota, ou o entusiasmo de Charlie e Jamie em relação a este mundo onde acabam de entrar. É certo que nem todos os personagens são aproveitados, algo latente em figuras como os funcionários de Mark e Michael, ou a esposa do personagem interpretado por Steve Carell, embora o elenco principal consiga destacar-se a interpretar estes elementos que se surpreendem com o panorama caótico que encontram, com a maioria dos reguladores e dos banqueiros a parecer ignorar os indicadores negativos que lhes chegavam. Nesse sentido, chega a ser quase revoltante verificar a forma despreocupada e negligente como diversos elementos encaravam os empréstimos de alto risco, ou as operações financeiras que efectuavam, com quase tudo e todos a parecerem viver numa ilusão de prosperidade condenada a terminar. O argumento de "The Big Short" foi inspirado no livro homónimo da autoria de Michael Lewis, com Adam McKay e Charles Randolph, a dupla de argumentistas, a procurarem evitar conceder lições rápidas sobre o "mercado financeiro para totós", conseguindo construir algo fluido, capaz de mesclar a tragédia e a sátira, bem como de prender a atenção, mesmo quando não percebemos nada das terminologias apresentadas. Apesar das temáticas e o caso que retrata não serem propriamente apetecíveis, "The Big Short" consegue contrariar uma possível rejeição inicial ao surgir como uma obra cinematográfica dotada de algumas doses de irreverência, criatividade e humor, com Adam McKay a comprovar o seu valor como realizador num registo relativamente distinto em relação a comédias como "Anchorman: The Legend of Ron Burgundy", "Step Brothers", "The Other Guys", entre outras.

Título original: "The Big Short".
Título em Portugal: "A Queda de Wall Street".
Realizador: Adam McKay.
Argumento: Charles Randolph e Adam McKay.
Elenco: Christian Bale, Steve Carell, Ryan Gosling, Brad Pitt, John Magaro, Finn Wittrock.

Sem comentários: