15 maio 2016

Resenha Crítica: "10 Cloverfield Lane" (2016)

 Realizado por Dan Trachtenberg (estreante na realização de longas-metragens), um dos novos Minions de J.J. Abrams, "10 Cloverfield Lane" surge como uma proposta intrigante dentro do cinema de género, embora nem sempre cumpra tudo aquilo que promete, sobretudo no último terço. O elenco é competente, com Mary Elizabeth Winstead, John Goodman e John Gallagher Jr. a segurarem muitas das vezes o enredo, mesmo quando o argumento tropeça, com o trio a contar com interpretações sólidas, enquanto Dan Trachtenberg dota "10 Cloverfield Lane" de uma atmosfera tensa e misteriosa. Como o título do filme indica, existem alguns elementos a ligarem "10 Cloverfield Lane" e "Cloverfield", apesar do primeiro não surgir como uma sequela directa do segundo, com esta união a tornar-se relativamente visível no último terço. Por vezes parece que a ligação é forçada, ou incutida de forma não harmoniosa (o filme viveria bem sem a referência a "Cloverfield"), embora faça algum sentido, com Dan Trachtenberg a aproveitar o último terço quer para destruir a estrutura contida de "10 Cloverfield Lane", quer para revelar aquilo que está a acontecer fora do abrigo onde se desenrola boa parte da narrativa. A introdução e desenvolvimento de "10 Cloverfield Lane" apresentam uma estrutura contida, pronta a exacerbar o baixo orçamento do filme (para os padrões de Hollywood), bem como o cuidado colocado na decoração e aproveitamento do cenário do abrigo, com este espaço a ser fundamental quer para demonstrar elementos da personalidade de Howard (John Goodman), quer para adensar a atmosfera inquietante e misteriosa que envolve o enredo, quer para Dan Trachtenberg construir episódios que contribuem para atribuir dimensão ao trio de protagonistas. As estranhas relações que se formam entre os personagens interpretados por Mary Elizabeth Winstead, John Goodman e John Gallagher Jr. são essenciais para "10 Cloverfield Lane" funcionar, com Dan Trachtenberg e a sua equipa a contarem com a noção de que seria impossível "comprarmos" algumas das suas ideias se não nos preocupássemos com os protagonistas. Não é um filme que arrebata, mas consegue despertar alguns sorrisos nervosos, inquietar, surpreender e exibir que existe espaço nas salas de cinema (em circuito comercial) para esta mescla entre a ficção científica low cost e o mistério. É certo que em determinados momentos a banda sonora é demasiado intrusiva e procura insuflar a narrativa, sobrepondo-se a algumas cenas, embora Dan Trachtenberg consiga manter a tensão e a atmosfera claustrofóbica em volta do trio de protagonistas, com o enredo a incidir especialmente em Michelle (Mary Elizabeth Winstead).

Com uma carreira mal gerida, Mary Elizabeth Winstead, demonstra mais uma vez que com o argumento e o papel certo é uma actriz a ter em atenção, com a intérprete a elevar muitas das vezes o filme (mesmo quando assume uma faceta de "MacGyver"), surgindo quase como o nosso duplo em "10 Cloverfield Lane". O que faríamos se, após um acidente rodoviário, acordássemos presos no interior de um abrigo que é liderado por um indivíduo aparentemente perturbado? Michelle procura fugir e ligar a algum conhecido, embora o telemóvel não tenha rede e esta acabe por ser dissuadida, ainda que temporariamente, de abandonar o local. O abrigo pertence a Howard, um personagem que apresenta um conjunto de atitudes peculiares que variam entre a agressividade e a afabilidade. Goodman muda de registos com enorme facilidade, tanto surgindo completamente lunático como simpático, com o actor a contribuir para o mistério que envolve o personagem que interpreta, um indivíduo paranóico que criou um abrigo a pensar na possibilidade de um dia ocorrer um desastre brutal (o cuidado que este antigo marinheiro colocou na construção e decoração do abrigo exacerba a sua faceta dada a teorias da conspiração). Supostamente esse desastre apocalíptico ocorreu, algo que conduziu Howard a prender Michelle no interior do abrigo, embora esta se encontre céptica em relação aos comportamentos do primeiro. Howard procura comprovar que o desastre aconteceu ao deixar que Michelle observe os corpos de dois porcos dilacerados, que se encontram no espaço exterior do abrigo, algo que supostamente permite demonstrar que é praticamente impossível sobreviver fora desta espécie de bunker. O abrigo conta com televisão, dvds e vhs, um sistema de ventilação (supostamente é impossível respirar no espaço exterior ao bunker), mantimentos, revistas, algo que evidencia o cuidado que Howard colocou nesta sua espécie de Arca de Noé. O olhar de John Goodman, as suas expressões e movimentos corporais demonstram que estamos diante de um actor capaz de elevar um personagem, algo que contribui para manter a tensão em volta de Howard, enquanto este procura ditar as suas leis junto de Michelle e Emmett (John Gallagher Jr.). De barba por fazer, chapéu na cabeça, uma personalidade aparentemente ponderada e medrosa, Emmett acredita inicialmente que Howard pretende proteger o grupo, enquanto Dan Trachtenberg diverte-se a jogar com as emoções do seu trio de protagonistas. Todos parecem contar com relacionamentos falhados ou objectivos por concretizar ao longo da vida, com o espaço fechado onde se encontram a contribuir para adensar os sentimentos que assolam a alma destes personagens. Michelle saíra recentemente de casa, tendo abandonado o namorado. Emmett não teve coragem para concretizar os seus sonhos. Howard apresenta uma estranha obsessão pela filha, que supostamente saiu de casa com a mãe. É um trio de características distintas, embora Emmett e Michelle pareçam ter algumas afinidades, com esta última a desconfiar de Howard, tal como o espectador, enquanto o personagem interpretado por John Goodman apresenta um conjunto de comportamentos que exibem os seus desequilíbrios emocionais.

Os planos fechados adensam a atmosfera tensa e claustrofóbica que a espaços pontua a narrativa, bem como alguns episódios que Dan Trachtenberg utiliza para dinamizar o enredo. As relações entre o trio de protagonistas são marcadas pela atmosfera de suspeição em volta dos objectivos de Howard, enquanto John Goodman se parece divertir a explorar as questões levantadas pelo personagem que interpreta. Revelar mais do que aquilo que já foi contado neste texto seria estragar o prazer da visualização de "10 Cloverfield Lane", com Dan Trachtenberg a pontuar a narrativa com algumas reviravoltas e episódios inquietantes. Veja-se quando a conduta de ar avaria, com Michelle a ter de penetrar pelo interior dos tubos, tendo em vista a consertar o aparelho, enquanto é criada a dúvida se esta vai conseguir sair deste local, até a personagem interpretada por Mary Elizabeth Wintead se deparar com outra revelação. As reviravoltas pontuam boa parte do enredo de "10 Cloverfield Lane". Será que Howard está a enganar Emmett e Michelle? O que aconteceu na zona exterior ao abrigo? Quais são os objectivos de Howard? Será que Emmett e Michelle vão ter coragem para desafiar as directivas de Howard? Será que é impossível respirar no espaço exterior ao abrigo? Quem vai sobreviver? É certo que poderia existir uma tensão psicológica ainda mais acirrada entre o trio de protagonistas, mas Dan Trachtenberg prefere construir algo certinho, sempre sem cometer grandes riscos, com excepção do último terço (curiosamente, aquele que é o ponto fraco do filme). O secretismo marcou todo o desenvolvimento do filme, bem como a campanha de marketing, algo que perpassa para o enredo, sempre muito marcado pelo mistério, paranóia e insegurança. Michelle surge quase como o nosso duplo, com esta a questionar as atitudes de Howard e as contradições do discurso deste indivíduo, algo que acaba por contaminar a mente de Emmett, até então mais resignado em relação a toda esta história. O perigo marca o quotidiano dos personagens interpretados por Mary Elizabeth Winstead e John Gallagher Jr., com as vidas de Michelle e Emmett a encontrarem-se em risco, sobretudo quando ameaçam desobedecer a Howard. Mary Elizabeth Winstead tem um papel intenso, com a actriz a convencer quer nas cenas emocionalmente inquietantes, quer nos trechos onde é obrigada a exibir uma intensidade notória a nível corporal, com Michelle a envolver-se em fugas, corridas, entre outros episódios. Com um trabalho notável na decoração e utilização do abrigo ao serviço do enredo, interpretações de grande nível de John Goodman e Mary Elizabeth Winstead, uma atmosfera inquietante e misteriosa, "10 Cloverfield Lane" tropeça um pouco no último terço mas tem material de sobra para nos prender ao longo da sua duração.

Título original: "10 Cloverfield Lane".
Título no Brasil: "Rua Cloverfield, 10". 
Realizador: Dan Trachtenberg.
Argumento: Josh Campbell, Matt Stuecken, Damien Chazelle.
Elenco: John Goodman, Mary Elizabeth Winstead, John Gallagher Jr.

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