Com uma carreira mal gerida, Mary Elizabeth Winstead, demonstra mais uma vez que com o argumento e o papel certo é uma actriz a ter em atenção, com a intérprete a elevar muitas das vezes o filme (mesmo quando assume uma faceta de "MacGyver"), surgindo quase como o nosso duplo em "10 Cloverfield Lane". O que faríamos se, após um acidente rodoviário, acordássemos presos no interior de um abrigo que é liderado por um indivíduo aparentemente perturbado? Michelle procura fugir e ligar a algum conhecido, embora o telemóvel não tenha rede e esta acabe por ser dissuadida, ainda que temporariamente, de abandonar o local. O abrigo pertence a Howard, um personagem que apresenta um conjunto de atitudes peculiares que variam entre a agressividade e a afabilidade. Goodman muda de registos com enorme facilidade, tanto surgindo completamente lunático como simpático, com o actor a contribuir para o mistério que envolve o personagem que interpreta, um indivíduo paranóico que criou um abrigo a pensar na possibilidade de um dia ocorrer um desastre brutal (o cuidado que este antigo marinheiro colocou na construção e decoração do abrigo exacerba a sua faceta dada a teorias da conspiração). Supostamente esse desastre apocalíptico ocorreu, algo que conduziu Howard a prender Michelle no interior do abrigo, embora esta se encontre céptica em relação aos comportamentos do primeiro. Howard procura comprovar que o desastre aconteceu ao deixar que Michelle observe os corpos de dois porcos dilacerados, que se encontram no espaço exterior do abrigo, algo que supostamente permite demonstrar que é praticamente impossível sobreviver fora desta espécie de bunker. O abrigo conta com televisão, dvds e vhs, um sistema de ventilação (supostamente é impossível respirar no espaço exterior ao bunker), mantimentos, revistas, algo que evidencia o cuidado que Howard colocou nesta sua espécie de Arca de Noé. O olhar de John Goodman, as suas expressões e movimentos corporais demonstram que estamos diante de um actor capaz de elevar um personagem, algo que contribui para manter a tensão em volta de Howard, enquanto este procura ditar as suas leis junto de Michelle e Emmett (John Gallagher Jr.). De barba por fazer, chapéu na cabeça, uma personalidade aparentemente ponderada e medrosa, Emmett acredita inicialmente que Howard pretende proteger o grupo, enquanto Dan Trachtenberg diverte-se a jogar com as emoções do seu trio de protagonistas. Todos parecem contar com relacionamentos falhados ou objectivos por concretizar ao longo da vida, com o espaço fechado onde se encontram a contribuir para adensar os sentimentos que assolam a alma destes personagens. Michelle saíra recentemente de casa, tendo abandonado o namorado. Emmett não teve coragem para concretizar os seus sonhos. Howard apresenta uma estranha obsessão pela filha, que supostamente saiu de casa com a mãe. É um trio de características distintas, embora Emmett e Michelle pareçam ter algumas afinidades, com esta última a desconfiar de Howard, tal como o espectador, enquanto o personagem interpretado por John Goodman apresenta um conjunto de comportamentos que exibem os seus desequilíbrios emocionais.
Os planos fechados adensam a atmosfera tensa e claustrofóbica que a espaços pontua a narrativa, bem como alguns episódios que Dan Trachtenberg utiliza para dinamizar o enredo. As relações entre o trio de protagonistas são marcadas pela atmosfera de suspeição em volta dos objectivos de Howard, enquanto John Goodman se parece divertir a explorar as questões levantadas pelo personagem que interpreta. Revelar mais do que aquilo que já foi contado neste texto seria estragar o prazer da visualização de "10 Cloverfield Lane", com Dan Trachtenberg a pontuar a narrativa com algumas reviravoltas e episódios inquietantes. Veja-se quando a conduta de ar avaria, com Michelle a ter de penetrar pelo interior dos tubos, tendo em vista a consertar o aparelho, enquanto é criada a dúvida se esta vai conseguir sair deste local, até a personagem interpretada por Mary Elizabeth Wintead se deparar com outra revelação. As reviravoltas pontuam boa parte do enredo de "10 Cloverfield Lane". Será que Howard está a enganar Emmett e Michelle? O que aconteceu na zona exterior ao abrigo? Quais são os objectivos de Howard? Será que Emmett e Michelle vão ter coragem para desafiar as directivas de Howard? Será que é impossível respirar no espaço exterior ao abrigo? Quem vai sobreviver? É certo que poderia existir uma tensão psicológica ainda mais acirrada entre o trio de protagonistas, mas Dan Trachtenberg prefere construir algo certinho, sempre sem cometer grandes riscos, com excepção do último terço (curiosamente, aquele que é o ponto fraco do filme). O secretismo marcou todo o desenvolvimento do filme, bem como a campanha de marketing, algo que perpassa para o enredo, sempre muito marcado pelo mistério, paranóia e insegurança. Michelle surge quase como o nosso duplo, com esta a questionar as atitudes de Howard e as contradições do discurso deste indivíduo, algo que acaba por contaminar a mente de Emmett, até então mais resignado em relação a toda esta história. O perigo marca o quotidiano dos personagens interpretados por Mary Elizabeth Winstead e John Gallagher Jr., com as vidas de Michelle e Emmett a encontrarem-se em risco, sobretudo quando ameaçam desobedecer a Howard. Mary Elizabeth Winstead tem um papel intenso, com a actriz a convencer quer nas cenas emocionalmente inquietantes, quer nos trechos onde é obrigada a exibir uma intensidade notória a nível corporal, com Michelle a envolver-se em fugas, corridas, entre outros episódios. Com um trabalho notável na decoração e utilização do abrigo ao serviço do enredo, interpretações de grande nível de John Goodman e Mary Elizabeth Winstead, uma atmosfera inquietante e misteriosa, "10 Cloverfield Lane" tropeça um pouco no último terço mas tem material de sobra para nos prender ao longo da sua duração.
Título original: "10 Cloverfield Lane".
Título no Brasil: "Rua Cloverfield, 10".
Realizador: Dan Trachtenberg.
Argumento: Josh Campbell, Matt Stuecken, Damien Chazelle.

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