01 abril 2016

Resenha Crítica: "Suburra" (2015)

A violência, a corrupção, a imoralidade, os jogos de poder e os tentáculos da máfia apoderam-se de quase todos os poros da narrativa de "Suburra", um filme-mosaico realizado por Stefano Sollima, com o cineasta a demonstrar que os bons apontamentos exibidos em "A.C.A.B." não foram obra do acaso. O enredo acompanha um período compreendido entre os dias cinco e doze de Novembro de 2011, enumerados pelos intertítulos que anunciam a chegada do Apocalipse. Não é o fim do Mundo que se aproxima, mas sim uma tempestade poderosa que se prepara para assolar o território italiano, com Stefano Sollima a mesclar factos com ficção, enquanto preenche a narrativa de episódios como a queda do Governo em Itália, a crise financeira deste país, a abdicação do Papa, entre outros momentos que marcam o enredo e o espectador. A realidade apodera-se da ficção e vice-versa, com Stefano Sollima a não parecer ter problemas em explorar temáticas relacionadas com a corrupção política, festarolas berlusconianas, o envolvimento do crime organizado na tomada de decisões relevantes do foro governamental, o tráfico de droga e a violência na cidade de Roma. A chuva pontua diversos momentos da narrativa, exacerbando o tom estilizado de um filme eivado de elementos noir, com a noite a ser muitas das vezes testemunha de episódios negros, enquanto a atmosfera de malaise envolve "Suburra", uma obra cinematográfica marcada por uma miríade de personagens que, na sua maioria, apresentam uma falta de valores morais indelével e uma procura voraz para sobreviverem num meio onde apenas os mais fortes se parecem conseguir safar. Um dos personagens principais é Filippo Malgradi (Pierfrancesco Favino), um político corrupto, que mantém uma série de ligações com a máfia, procurando aprovar a Lei da Periferia, com uma emenda que visa transformar o território de Ostia numa espécie de Las Vegas. Diga-se que a cidade de Roma surge representada como um espaço de contrastes, entre os modernos néones e os edifícios históricos, com as relações entre alguns personagens a regerem-se por códigos de conduta que parecem exacerbar esta dicotomia entre o presente e o passado. Pierfrancesco Favino repete a colaboração com Stefano Sollima, após o recomendável "A.C.A.B.", com o cineasta a aproveitar a intensidade física que o actor é capaz de incutir nas suas interpretações. A espaços, Filippo traz à nossa memória o protagonista de "Indagine su un cittadino al di sopra di ogni sospetto", o chefe de um departamento de homicídios (que é transferido para outro cargo ainda no início do filme), que elimina a mulher com quem se envolveu, enquanto parece testar ao máximo os limites do poder inerente ao seu cargo. A certa altura de "Suburra", Filippo faz questão de salientar que é um deputado, enquanto desafia um possível inquérito do Ministério Público, algo que não só traz à memória o personagem interpretado por Gian Maria Volontè em "Indagine su un cittadino al di sopra di ogni sospetto", mas também os casos mais "esquisitos" de Silvio Berlusconi.

Pierfrancesco Favino interpreta um político casado, que tem um filho (a relação deste com a família é pouco aproveitada), embora não exiba problemas em envolver-se com prostitutas, ou em negócios obscuros. Veja-se quando encontramos Filippo acompanhado por Jelena (Yulia Kolomiets) e Sabrina (Giulia Elettra Gorietti), duas prostitutas, numa experiência nocturna marcada por imenso sexo, consumo de drogas e a morte da primeira, uma menor, algo que conduz o político a procurar que a personagem interpretada por Giulia Elettra Gorietti se livre do corpo da colega. A atmosfera é de algum erotismo, com as cores do quarto do hotel a transmitirem os momentos quentes que o trio protagoniza, até a jovem Jelena falecer e o panorama mudar por completo. Sollima exibe nestes momentos algumas das suas qualidades, conseguindo aliar estilo e substância, com a banda sonora, a cinematografia, a decoração do cenário interior e o trabalho dos actores e do cineasta a contribuírem para um dos diversos trechos marcantes de "Suburra". Quem se livra do corpo de Jelena é Spadino (Giacomo Ferrara), um traficante de drogas e proxeneta que não tem problemas em tentar extorquir Filippo, embora seja assassinado por Aureliano Adami (Alessandro Borghi), mais conhecido por "Número 8". Adami tinha recebido ordens de um conhecido de Filippo para tentar que Spadino mantivesse o silêncio, embora o primeiro exponha a sua personalidade impulsiva e violenta ao eliminar o personagem interpretado por Giacomo Ferrara. Adami é um gangster ambicioso, de cabelo rapado e largas tatuagens, que namora com Viola (Greta Scarano), uma toxicodependente de enorme beleza e personalidade. O gangster possui um clube nocturno e uma vasta influência em diversos territórios, fruto do seu pai ter sido um mafioso de renome, embora Adami tarde em conseguir granjear o estatuto, ou respeito do progenitor. Alessandro Borghi consegue transmitir a violência, impulsividade e ambição do personagem que interpreta, um indivíduo que procura integrar o circulo restrito de "Samurai" (Claudio Amendola), um mafioso da velha guarda, antigo membro do grupo criminoso "Banda della Magliana", que é respeitado pela maioria das figuras deste espaço romano. A influência do Samurai ocorre no mundo do crime, da política e religião, com o Vaticano a também ter uma palavra a dizer no meio de toda esta teia de corrupção, enquanto "Suburra" aproveita para explorar as ligações perniciosas entre estes três meios que deveriam estar claramente separados. Stefano Sollima parece atirar-se às entranhas dos filmes noir e transportá-las para o interior da actualidade. Não faltam figuras imorais, clubes nocturnos, elementos com enorme propensão para se envolverem em problemas, a noite como testemunha de diversas ocorrências caóticas, com Sollima a criar um filme neo-noir estilizado e envolvente, pontuado por enorme violência e emotividade, onde diversos personagens têm espaço para crescerem ao longo da narrativa e "darem-se" a conhecer ao espectador, com os seus intérpretes a contarem com espaço para sobressair, em particular Pierfrancesco Favino, Claudio Amendola, Alessandro Borghi, Greta Scarano, Adamo Dionisi. No caso do personagem interpretado por Alessandro Borghi, os seus planos de ascensão no mundo do crime prometem ser coartados por Manfredi (Adamo Dionisi), o irmão de Spadino, um gangster violento, de etnia cigana, que se prepara para efectuar uma perseguição implacável ao primeiro.

Manfredi é o líder de um grupo criminoso associado à agiotagem, que não apresenta problemas em cometer as maiores atrocidades, inclusive o rapto de um criança, tendo em vista a vingar-se de Filippo e Adami, procurando pelo caminho fazer parte do plano que o personagem interpretado por Favino se encontra a orquestrar. Diga-se que os planos de Manfredi envolvem ainda Sebastiano (Elio Germano), um indivíduo que trabalha como relações públicas e perdeu recentemente o pai, contando com uma vasta rede de conhecimentos. O pai de Sebastiano atolou-se em dívidas junto de Manfredi, com este último a procurar que o personagem interpretado por Elio Germano salde as mesmas, com muito daquilo que acontece em "Suburra" a remeter para os jogos de poder entre os diversos personagens. Stefano Sollima apresenta esta miríade de personagens, até conseguir unir a maioria destes elementos em episódios em comum, algo notório na forma como quase todos parecem sentir a influência de Samurai. Claudio Amendola explana a aura de poder e segurança que rodeia Samurai, um gangster que parece regido pelos antigos valores do seu ofício, procurando manter a calma na sua área de acção, embora elementos como Manfredi, ou Adami sejam demasiado impulsivos para serem controlados. É certo que Samurai consegue controlar os danos em alguns momentos, algo que fica particularmente notório quando se livra de Bacarozzo (Nazzareno Bomba), um antigo companheiro no mundo do crime, que se encontra frustrado por ter visto o primeiro e Filippo ascenderem em planos distintos da sociedade romana. Bacarozzo esteve preso durante vinte anos, procurando ser compensado pelo período em que esteve "fora de acção", embora Samurai não esteja para meias medidas. O encontro entre Bacarozzo e Samurai exibe paradigmaticamente a capacidade de Sollima para adensar o impacto e a carga dramática daquilo que nos tem para apresentar. Os néones de tonalidades azuis e lilases permeiam o Dubai Café, o espaço onde Bacarozzo e Samurai se reúnem, um dos vários cenários aproveitados de forma assertiva ao serviço da narrativa. O café aparece como um espaço moderno, onde se reúnem dois gangsters da "velha guarda", embora Samurai pareça ter conseguido adaptar-se às transformações da sociedade do seu tempo, enquanto que Bacarozzo ainda se encontra preso às memórias do passado, algo que adensa essas dicotomias entre a modernidade e a antiguidade deste espaço urbano. Diga-se que o título do filme remete ainda para um local homónimo da Antiguidade Romana, que era conhecido pela sua má fama, devido a ser um espaço marcado pela prostituição e negociatas. No caso de "Suburra", também não falta prostituição, assassinatos, tráfico de influências, consumo de drogas, enquanto somos apresentados a diversos personagens cujos destinos se cruzam ao longo de vários momentos do filme, com o argumento, o trabalho de montagem e a realização de Stefano Sollima a contribuírem para que a maioria destes encontros pareçam naturais e orgânicos.

A narrativa flui a um ritmo intenso, tal como as emoções, enquanto a banda sonora faz-se sentir e de que maneira, com a canção "Outro" dos M83 a surgir em dois momentos marcantes, embora fique particularmente na memória quando esta começa a tocar numa cena à chuva, onde tudo parece funcionar. As cores surgem propositadamente frias, a chuva cai de forma violenta, enquanto Stefano Sollima explana de forma paradigmática a violência que pontua a vida destes personagens e o dia a dia deste espaço urbano. Se "Gomorra", de Matteo Garrone, colocava o espectador diante dos elementos dos escalões mais baixos da Camorra, de forma crua e visceral, já "Suburra" opta por uma faceta mais estilizada e apresenta mafiosos de estatuto mais elevado. A comparação com "Gomorra" não surge ao acaso, ou Stefano Sollima não tivesse realizado a adaptação televisiva do livro de Roberto Saviano, com ambos os filmes a apresentarem uma estrutura alargada de personagens que são relativamente bem aproveitados e concedem espaço para os seus intérpretes sobressaírem. Os personagens interpretados por Favino e Amendola acordaram um plano para ganharem poder no interior deste território de Ostia, enquanto Manfredi procura vingar-se de Filippo e intrometer-se nos planos deste político que procura aprovar uma lei que parece agradar às diferentes esferas de poder. No fundo, quase todos os personagens procuram disputar o poder e ganhar influência, mesmo que tenham de cometer crimes, ou utilizar a violência. Veja-se os momentos intensos que Greta Scarano protagoniza ao lado de Alessandro Borghi, em particular quando o personagem interpretado por este último começa a ser perseguido, com "Suburra" a contar com algumas cenas de acção bem coreografadas. O tiroteio no interior do supermercado, que envolve os homens de Manfredi, Número 8 e Viola são exemplo disso, com esta última a não ter problemas em tratar de se vingar e exibir uma ferocidade surpreendente quando está armada. Diga-se que a relevância da personagem interpretada por Greta Scarano cresce e de que maneira com o avançar da narrativa. Veja-se quando decide entrar num spa e elimina violentamente alguns dos rivais de Adami, ou quando tem de se esconder num momento de enorme virulência e inquietação, até expor os sentimentos de forma intensa. Inspirado no livro homónimo de Carlo Bonini e Giancarlo De Cataldo, "Suburra" transporta-nos para o interior de sete dias caóticos e marcantes de diversos personagens que habitam um espaço urbano pontuado pelo crime, imoralidade, violência e disputas de poder, enquanto Stefano Sollima consegue mexer nas peças que tem à disposição com enorme eficácia e inspiração.

Título original: "Suburra".
Realizador: Stefano Sollima.
Argumento: Stefano Rulli, Sandro Petraglia, Carlo Bonini, Giancarlo De Cataldo.
Elenco: Pierfrancesco Favino, Alessandro Borghi, Elio Germano, Claudio Amendola, Greta Scarano, Giulia Elettra Gorietti.

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