18 abril 2016

Resenha Crítica: "Signore & signori" (1966)

 Comédia à italiana com uma estrutura tripartida, composta por três histórias interligadas por diversos personagens em comum, "Signore & signori" é mais um exemplar do género que surpreende pela positiva, com Pietro Germi, o realizador, a explorar o elenco alargado que tem à disposição, enquanto satiriza diversos elementos associados aos costumes de alguns sectores da sociedade do seu tempo. Não faltam traições, sentimentos expostos de forma bem viva, discussões, momentos rocambolescos e muito humor ao longo desta obra cinematográfica que conta com diversos elementos de sátira e tragicomédia. Diga-se que muitas destas comédias à italiana conseguem encontrar o humor em situações trágicas, algo que não é diferente em "Signore & signori". Veja-se desde logo no primeiro capítulo do filme, quando encontramos a suposta impotência de um personagem a surgir como alvo de troça por parte daqueles que o rodeiam. O personagem em questão é Toni Gasparini (Alberto Lionello), um engatatão que revela ser impotente a Giacinto Castellan (Gigi Ballista), um médico e amigo pessoal, com este último a espalhar a notícia no interior de uma festa. O evento festivo conta com diversos personagens que vão marcar os três capítulos de "Signore & signori", com Pietro Germi a utilizar esta estrutura narrativa para desenvolver as particularidades dos diversos elementos que povoam o enredo, enquanto extrai interpretações seguras do elenco. Os sentimentos são expostos de forma muitas das vezes enérgica, as expressões exibidas com exagero, as relações conturbadas e as traições parecem fazer parte da ordem do dia das figuras que povoam a narrativa de "Signore & signori". Veja-se que Giacinto não tem problemas em deixar Noemi Castellan (Beba Loncar), a sua esposa, dançar e passar algum tempo com Gasparini, pensando que o personagem interpretado por Alberto Lionello é impotente, com este último a aproveitar para se envolver com a mulher do amigo. A falsa impotência de Gasparini é revelada por Scarabello (Gustavo D'Arpe), um indivíduo conhecido por ser chato e falar pelos cotovelos, mesmo quando não pedem a sua opinião, com tudo e todos a procurarem que este não se dirija para a festa. O momento em que Giacinto descobre a traição é bem arquitectado por Pietro Germi, com uns simples suspensórios fora do sítio a fazerem com que a mentira de Gasparini seja descoberta pelo amigo. Diga-se que Gasparini e Castellan preparam-se para colocar a cabeça em água às respectivas esposas ao procurarem seduzir Alda Cristofoletto (Patrizia Valturri), uma jovem que posteriormente descobrem ser... menor de idade. Diversos homens deste espaço citadino de características praticamente rurais procuram seduzir a adolescente, algo que proporciona uma série de momentos de humor no terceiro capítulo do filme, com os personagens a fazerem figuras ridículas para despertarem a atenção de Alda, até serem colocados perante a chegada de Bepi Cristofoletto, o pai da jovem, que traz a "bomba": Alda é menor. Veja-se quando encontramos Lino Benedetti (Franco Fabrizi), o dono de uma sapataria, a colocar a placa de "volto já", após convidar a jovem a entrar neste estabelecimento, ou os telefonemas trocados entre as figuras masculinas que descrevem Alda como "Branca como o leite, dura como o mármore", com Pietro Germi a explorar estas situações ao serviço do humor.

Gasparini, Lino, Castellan, Giovanni Soligo (Quinto Parmeggiani) e Franco Zaccaria (Giulio Questi) encontram-se entre as figuras masculinas que procuram seduzir Alda, algo que promete trazer uma série de problemas para estes homens, sobretudo quando o caso chega aos ouvidos das suas esposas e das autoridades. Bepi não tem problemas em denunciar o caso, com estes indivíduos a ficarem diante da ira deste camponês que pretende levá-los a tribunal, algo que gera o pânico junto das figuras masculinas que procuraram seduzir a jovem. Este capítulo permite que Pietro Germi aborde temáticas como a relação entre o ser e o parecer, a promiscuidade entre o poder político e religioso, a influência que algumas figuras mais poderosas apresentam junto da sociedade e até da imprensa, com tudo a ser exposto com algum humor e um tom crítico à mistura. O caso adivinha-se complicado para estes indivíduos que se julgam acima da lei, embora a conclusão do capítulo exiba que o dinheiro resolve imensos problemas, bem como uma esposa disponível para dar o corpo ao manifesto. A figura feminina em questão é Ippolita Gasparini (Olga Villi), a esposa de Toni, com esta a surpreender-nos no último capítulo do enredo. Esta é uma mulher religiosa, que se encontra muitas das vezes acompanhada por Don Schiavon (Virgilio Scapin), um elemento que pertence à Igreja local. As esposas deste indivíduos encontram-se muitas das vezes em destaque. Veja-se o caso de Betty Soligo (Gia Sandri), a esposa de Giovanni Soligo, uma mulher que conta com uma personalidade explosiva e apresenta uma enorme facilidade para tirar a roupa quando se encontra furiosa. Betty e Giovanni mantêm uma relação conturbada, com ambos a trocarem regularmente agressões e diálogos acalorados. Temos ainda Giorgia Casellato (Moira Orfei), uma mulher casada que é olhada de soslaio pelas restantes figuras femininas devido a manter uma relação extraconjugal com Franco Zaccaria. Outra das figuras femininas de relevo é Gilda Bisigato (Nora Ricci), uma mulher pronta a gritar e discutir, sobretudo a partir do momento em que descobre que o esposo se encontra envolvido com Milena Zulian (Virna Lisi), a operadora de caixa do café frequentado por Osvaldo Bisigato (Gastone Moschin). Este é casado com Gilda, de quem tem dois filhos, parecendo já não ter paciência para a esposa, um sentimento que é recíproco, com a relação entre estes dois a parecer estar praticamente nas últimas, embora não se possam divorciar devido ao facto da lei não permitir. Diga-se que "Signore & signori", tal como em "Divorzio all'italiana" e "Sedotta e abbandonata", aproveita para satirizar diversos elementos da sociedade italiana, incluindo algumas das suas leis retrógadas, a procura de manter as aparências, os boatos, os estranhos códigos de honra, sempre com alguns exageros à mistura, enquanto Pietro Germi aborda situações relacionadas com alguns personagens que se encontram a viver em plena época do "milagre económico italiano". "Signore & signori" é o terceiro capítulo de uma trilogia informal composta ainda por "Divorzio all'italiana" e "Sedotta e abbandonata", com os filmes mencionados a contarem com territórios praticamente provincianos como pano de fundo, para além das temáticas e elementos mencionados.

O filme a ser comentado neste texto foi filmado em Treviso, com os cenários externos a contarem com alguma relevância, embora Pietro Germi intitule este espaço citadino com o nome de "Rezega", um local ficcional onde quase tudo e todos se conhecem, algo que permite traçar um retrato mordaz sobre estas gentes que representam alguns sectores desta sociedade italiana. Veja-se a presença de diversos personagens na esplanada do café, a comentarem sobre vários assuntos, inclusive sobre aqueles que passam no meio da rua, algo que se aplica no segundo capítulo. É neste capítulo que Gastone Moschin tem a oportunidade de sobressair como um bancário que se apaixona por Milena, uma mulher de enorme beleza e um passado pontuado por diversos rumores. Moschin apresenta um timing relativamente certeiro para o humor, com os momentos em que Osvaldo Bisigato tapa os ouvidos para não ouvir a esposa a serem hilariantes. A relação entre Osvaldo e Gilda é pontuada por fortes discussões e poucos momentos de desejo de cariz sexual, algo que não acontece quando o primeiro se encontra com Milena. Diga-se que a espaços, "Signore & signori" quase que se envolve pelos meandros das comédias românticas, ao mesmo tempo que satiriza as convenções destes filmes, algo latente nos poucos momentos idílicos entre Milena e Osvaldo. Bisigato é censurado pela Igreja e pelas autoridades, com tudo e todos a procurarem que volte para a esposa, apesar deste amar outra mulher. A igreja exerce uma influência relevante na vida destes indivíduos, enquanto as autoridades surgem muitas das vezes representadas por Mancuso (Aldo Puglisi), um indivíduo que procura cumprir o seu ofício com algum rigor. A seriedade de Mancuso é contrastada pela personalidade expansiva de elementos como Giacinto Castellan, um médico que aprecia bons momentos de diversão, embora acabe por ser surpreendido em algumas situações, com Gigi Ballista a surgir como um dos vários integrantes do elenco que se destacam. As gargalhadas de Ballista são bem sonoras, com o actor a incutir um estilo bastante descontraído a este médico que a espaços é obrigado a utilizar o seu lado mais agressivo, que o diga Gasparini. "Signore & signori" permite efectuar um sátira desta sociedade italiana na qual as aparências e os falsos valores morais escondem uma série de "esqueletos no armário", enquanto o elenco principal convence e protagoniza alguns momentos de humor que variam entre o exagerado e o inteligente. Pietro Germi aproveita os integrantes do elenco principal, enquanto explora o argumento recheado de falas e situações inspiradas, criando mais uma comédia à italiana bem construída e cheia de ritmo, pronta a satirizar diversos elementos da sociedade do seu tempo e a despertar o sorriso do espectador.

Título original: "Signore & signori".
Título em Portugal:"Senhoras e Cavalheiros".
Realizador: Pietro Germi.
Argumento: Age & Scarpelli, Luciano Vincenzoni e Pietro Germi.
Elenco: Virna Lisi, Gastone Moschin, Nora Ricci, Alberto Lionello, Olga Villi, Beba Loncar, Franco Fabrizi: Nora Ricci, Gigi Ballista: Gia Sandri, Quinto Parmeggiani, Moira Orfei, Aldo Puglisi.

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