11 abril 2016

Resenha Crítica: "Sangue del mio sangue" (2015)

 Entre o passado e o presente, "Sangue del mio sangue", a nova longa-metragem realizada por Marco Bellocchio, coloca o espectador diante de duas histórias que se desenrolam em períodos de tempo distintos, unidas pelo espaço de Bobbio, bem como por elementos associados ao misticismo, ao catolicismo e à sociedade da época representada. É uma obra de enorme elegância, onde a música é utilizada de forma inspirada, sobretudo "Nothing Else Matters", enquanto elementos do elenco como Pier Giorgio Bellocchio, Lidiya Liberman e Roberto Herlitzka conseguem explanar o seu talento para a representação. "Sangue del mio sangue" coloca o espectador perante duas histórias aparentemente distintas, com a primeira parte do filme a surgir como o seu ponto forte, embora o seu final poderossísimo tarde em sair da memória, bem como a banda sonora de Carlo Crivelli. Nem sempre tudo é devidamente explorado ou aproveitado, algo visível na sociedade de vampiros da segunda metade de "Sangue del mio sangue", uma subtrama que praticamente permitiria fornecer material para outro filme, embora Marco Bellocchio prefira atirar um conjunto de ingredientes para o "interior da panela" e deixar o espectador cozinhar a gosto na sua memória. É uma obra cinematográfica que provoca um estranho efeito, que encanta e a espaços repele, com as suas imagens a seduzirem, a sua história, ou melhor, histórias, a conseguirem captar a atenção, com as duas metades a contarem com figuras tão distintas como supostas bruxas, vampiros, vigaristas, tresloucados, cavaleiros que se deixam cair em jogos de sedução ou iniciam os mesmos, com o desejo a parecer algo transversal aos dois capítulos de "Sangue del mio sangue", bem como o território de Bobbio, a cidade onde nasceu Marco Bellocchio (vale a pena salientar que "I pugni in tasca", a primeira longa-metragem realizada pelo cineasta, foi filmada em Bobbio). Na primeira metade de "Sangue del mio sangue", Marco Bellocchio apresenta-nos a Federico (Pier Giorgio Bellocchio), um cavaleiro que se dirige ao convento de Santa Chiara, tendo em vista a expor o seu desagrado devido ao facto de Fabrizio, o seu irmão, um padre, ter sido enterrado num espaço destinado aos criminosos. A razão oficial é que o padre cometeu suicídio e quebrou o voto de castidade, embora alguns eclesiásticos, tais como Cacciapuoti (Fausto Russo Alesi), um elemento da Inquisição, acreditem que o irmão do protagonista foi alvo de um feitiço por parte da irmã Benedetta (Lidiya Liberman), uma figura feminina sedutora. Federico pretende que o corpo de Fabrizio seja transferido para o cemitério da catedral, mas esse desejo só pode ser concretizado se os elementos eclesiásticos conseguirem provas de que Benedetta fez um pacto com o Diabo. Muitos elementos eclesiásticos acreditam que Benedetta é uma bruxa, com "Sangue del mio sangue" a abordar e explorar diversas superstições populares e actos pouco recomendáveis da Igreja durante diferentes períodos da nossa História, enquanto exibe um lado mais negro desta instituição. Estamos em pleno Século XVII, com o guarda-roupa, os cenários e os comportamentos dos personagens a remeterem para esta época, enquanto "Sangue del mio sangue" joga com alguns tabus desse período. Veja-se que o irmão de Federico deixou-se cair em tentação, enquanto o protagonista não tem problemas em procurar seduzir Maria (Alba Rohrwacher) e Marta Perletti (Federica Fracassi), duas irmãs católicas, bastante religiosas e castas, com quem vive temporariamente enquanto espera a resolução do julgamento de Benedetta.

 Maria e Marta vestem-se praticamente da mesma maneira, com ambas a apresentarem uma postura discreta, embora nem sempre consigam esconder que desejam Federico. A casa de Maria e Marta permite espelhar todo o requinte que "Sangue del mio sangue" conta na decoração de alguns cenários interiores, com este espaço a surgir recheado de tapeçaria e porcelanas, sendo muitas das vezes iluminado à luz das velas, permitindo reflectir a personalidade aparentemente certinha das duas irmãs, com estas a apresentarem uma postura inicialmente recatada. A presença de Federico parece mexer com os sentimentos das duas irmãs, enquanto este se prepara para viver um furacão de emoções, sobretudo a partir do momento em que se depara com Benedetta. Lidiya Liberman é uma das actrizes que mais se destaca ao longo do enredo, com esta a conseguir manter o mistério em volta da personagem que interpreta. Veja-se quando a freira é emparedada e ficamos diante do seu olhar misterioso, com Lidiya Liberman a conseguir ser bastante eficaz a expressar-se com o seu olhar, algo que contribui para adensar o estranho efeito que Benedetta provoca em Federico. Benedetta cometeu "o pecado" de despertar a paixão de um padre, com Federico a parecer odiar inicialmente esta mulher, embora não consiga ficar indiferente ao chamamento da mesma. De cabelos compridos, um ar galanteador, uma personalidade aparentemente impulsiva, Federico é o personagem em maior destaque nesta primeira parte de "Sangue del mio sangue", com Pier Giorgio Bellocchio a conseguir transmitir a intensidade deste cavaleiro e as dúvidas que o protagonista sente em relação a Benedetta. A personagem interpretada por Lidiya Liberman é alvo de três testes desumanos, que servem praticamente para que esta confesse que manteve um pacto com o Diabo. Inicialmente cortam o cabelo da jovem, tendo em vista a aferirem se esta conta ou não com a marca do Diabo, até testarem-na em situações degradantes. Uma desses testes passa por acorrentarem Benedetta e atirarem a freira para o lago, tendo em vista a provar se esta tem ou não um pacto com o Diabo. O momento é de enorme impacto e violência emocional, embora seja exposto de forma simultaneamente dura e bela, com Marco Bellocchio a incutir algum lirismo a esta cena. Veja-se quando encontramos Benedetta debaixo de água, com a música a fazer-se sentir, ou quando o cineasta opta por expor a queda a partir deste espaço aquático. Quase tudo e todos parecem querer que Benedetta confesse que mantém um pacto com o Diabo, com os actos praticados por estes elementos a trazerem à memória algumas medidas de coacção contemporâneas, que são efectuadas para obter informações junto de suspeitos, ou criminosos (basta recordar os casos relativamente recentes de Guantanamo, com Bellocchio a parecer criticar quem abusa do poder). Benedetta exibe, pelo menos a nível inicial, uma enorme força interior para resistir a estas provações, com Lidiya Liberman a interpretar uma personagem de personalidade forte, que representa um certo sentimento de liberdade, algo que contrasta com as figuras ligadas à Igreja que procuram coartar as acções desta figura feminina misteriosa. Como reagir diante da tortura? Falar a verdade, ou contar uma mentira para terminar com o sofrimento? No final, Benedetta acaba emparedada, embora ainda protagonize um jogo de sedução com Federico. Este parece nutrir algum desejo por Benedetta, mas também receio, algo latente quando teme as repercussões do resultado do julgamento, com Marco Bellocchio a explorar assertivamente a estranha dinâmica entre esta dupla.

  O momento em que Benedetta é emparedada surge como mais um trecho onde Marco Bellocchio exibe uma enorme classe (mérito também para Daniele Ciprì, o director de fotografia), com o cineasta a conseguir transmitir o sentimento de claustrofobia que envolve este acto desumano. A câmara de filmar é posicionada, ainda que a espaços, no interior do local onde Benedetta vai ficar emparedada, um recurso que permite transmitir uma sensação de claustrofobia e colocar o espectador praticamente na mesma posição desta mulher, algo que é acompanhado por planos dos elementos que se encontram a assistir à colocação dos tijolos em volta da freira, enquanto somos envolvidos para o interior deste momento marcante de "Sangue del mio sangue". Um dos elementos que apresenta um papel fundamental no julgamento é Cacciapuoti, com Fausto Russo Alesi a conseguir transmitir o rigor com que o padre procura seguir as regras religiosas, parecendo notório que este personagem se encontra empenhado em tentar que Benedetta confesse uma ligação com o Diabo. O desejo, a sedução, o pecado, o mistério, o misticismo, o catolicismo e a liturgia encontram-se presentes em ambas as partes de "Sangue del mio Sangue". A segunda parte conta com a presença de elementos como Federico Mai (Pier Giorgio Bellocchio - em dose dupla), um suposto inspector das finanças, que mais tarde descobrimos ser um vigarista que se encontra a procurar ludibriar Rikalkov (Ivan Franek), um comprador russo, tendo em vista a intermediar uma possível venda da prisão de Bobbio. A chegada inesperada de Federico e Rikalkov surpreende Angelo (Bruno Cariello), o indivíduo que se encontra a guardar este imóvel. Quem se encontra a habitar nesta prisão é o Conde Basta (Roberto Herlitzka), um vampiro de idade algo avançada e uma compleição física aparentemente frágil, que tem em Angelo um fiel ajudante. Roberto Herlitzka consegue transmitir a postura melancólica e experiente deste vampiro que parece ter perdido o desejo pelo sangue alheio, com o Conde Basta a encontrar-se a lidar com os efeitos da passagem do tempo. O Conde Basta apenas é avistado durante a noite, tentando evitar entrar em contacto com a Humanidade, sobretudo quando se trata da sua esposa (Patrizia Bettini), uma mulher com quem não contacta há oito anos. O vampiro procura manter uma postura discreta, tendo em vista a não ser descoberto, nem dar a conhecer os seus pares. Numa das suas saídas nocturnas, o Conde visita o Doutor Cavanna (Toni Bertorelli), um dentista e vampiro, que trata da dentição do primeiro, com ambos a apresentarem uma visão algo conservadora do Mundo. Cavanna e Basta têm uma visão muito própria sobre a sociedade que os rodeia, algo exposto com alguma mordacidade. Veja-se a aversão que estes exibem em relação ao acto de emitir facturas, ou as críticas que efectuam aos elementos que expõem o quotidiano na Internet. A menção à exposição excessiva da vida privada surge como uma crítica ou comentário sobre a sociedade actual, onde não faltam homens e mulheres a colocarem praticamente todos os episódios do seu dia-a-dia nas redes sociais, com Marco Bellocchio a procurar abordar as mudanças e as permanências que a cidade de Bobbio conheceu ao longo do tempo, quer a nível do território, quer dos valores dos seus habitantes. Para Basta, a condição de vampiro requer uma certa dose de reclusão, com este indivíduo a estar envolvido numa série de esquemas, enquanto procura afastar Federico, um indivíduo que contacta ainda com a esposa do primeiro (Patrizia Bettini) e um suposto louco (Filippo Timi).

 Patrizia Bettini incute um tom espalhafatoso à esposa do Conde Basta, uma mulher que não contacta com o marido há oito anos, enquanto Filippo Timi exibe a personalidade caótica do personagem que interpreta. Tanto Patrizia Bettini como Filippo Timi protagonizam alguns momentos mais leves, enquanto Roberto Herlitzka incute um tom melancólico a Basta, um vampiro que parece bastante apegado ao território de Bobbio e ao espaço onde habita. Este não parece lidar bem com as mudanças, algo visível no saudosismo que apresenta em relação ao passado. A unir as duas histórias encontra-se não só o espaço prisional, mas também temáticas e elementos como o desejo, a cidade de Bobbio (quase uma personagem), bem como a procura de Marco Bellocchio em criar uma obra cinematográfica pronta a mexer com as sensações e emoções do espectador. Se o personagem interpretado por Pier Giorgio Bellocchio gerou uma estranha obsessão em relação a Benedetta, já o conde parece sentir algo que não sabe explicar de forma paradigmática quando encontra Elena (Elena Bellocchio), a irmã de Federico, o indivíduo que o procura enganar e desmascarar, com estas duas histórias a estarem ligadas por diversas temáticas. No segundo segmento não temos a Igreja a dominar, embora a sociedade de vampiros actue nas sombras, com o Conde Basta a apresentar uma enorme afeição pelo espaço da prisão do convento, um local onde outrora Benedetta vira a sua liberdade ser coartada. A prisão está longe de ser um local acolhedor, embora permita que Basta consiga viver em reclusão, pelo menos até aparecer Federico. Não vão faltar temáticas sobre o vampirismo, fraudes, obsessões e desejo, entre outras ao longo deste segundo "capítulo", com Marco Bellocchio a abrir uma série de possibilidades sem estar propriamente preocupado em criar algo que nos ofereça todas as respostas ou conclusões previsíveis. Se a Inquisição é uma entidade que procura exercer a sua acção no primeiro segmento, já os inspectores das finanças parecem surgir como os elementos mais temidos pelos personagens do segundo segmento, algo notório no pânico que Federico desperta, pelo menos a nível inicial. A fuga aos impostos de elementos como Basta, bem como as falsas pensões de invalidez (algo salientado pelo personagem interpretado por Filippo Timi), a crise financeira em Itália (a procura de um milionário comprar um imóvel público é algo encarado a sério, pelo menos a nível inicial, devido a essa situação económica), aparecem como temáticas modernas, expostas com alguma mordacidade, enquanto a cidade de Bobbio apresenta semelhanças e diferenças entre as duas histórias. Marco Bellocchio faz com que o espectador viaje entre o presente e o passado, entre as memórias do cineasta sobre Bobbio e o imaginário colecctivo, ao mesmo tempo que nos desafia e intriga. Veja-se que temos três personagens chamados de Federico Mai, alguns actores a interpretarem personagens distintos nos dois segmentos (tais como Pier Giorgio Bellocchio e Fausto Russo Alesi), quase como se o cineasta nos estivesse a colocar entre as permanências e as mudanças deste local através do seu elenco e dos seus personagens. O espaço de Bobbio surge como um dos grandes pontos de ligação entre as duas histórias, com Marco Bellocchio a procurar aproveitar o mesmo e as suas tradições, ao mesmo tempo que conjuga o presente e o passado do território, aquilo que permaneceu e mudou no mesmo, sempre num tom que mescla o realismo e a fantasia. O final é pontuado por essa mescla, com Marco Bellocchio a criar um momento emocionalmente intenso e marcante, com "Sangue del mio sangue" a surgir como mais uma entrada de sucesso no currículo deste cineasta.

Título original: "Sangue del mio sangue".
Realizador: Marco Bellocchio.
Argumento: Marco Bellocchio.
Elenco: Pier Giorgio Bellocchio, Lidiya Liberman, Roberto Herlitzka, Alba Rohrwacher, Filippo Timi, Federica Fracassi, Fausto Russo Alesi.

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