13 abril 2016

Resenha Crítica: "Per amor vostro" (Anna)

 "Per amor vostro" é o filme de Valeria Golino, ou melhor, da sua Anna, da personagem que providencia o título alternativo da nova longa-metragem de ficção realizada por Giuseppe M. Gaudino. O cineasta procura que o espectador conheça Anna, que descubra os sentimentos desta mulher, aquilo que percorre a alma e o corpo da protagonista, a sua forma de encarar o Mundo que a rodeia e a vida, as suas ilusões e devaneios, enquanto Valeria Golino eleva o filme com uma interpretação de relevo. "Per amor vostro" procura estimular os sentidos e as sensações do espectador, enquanto nos transporta para o interior da vida conturbada de Anna Ruotolo Scaglione (Valeria Golino), uma figura feminina que parece não ter ultrapassado por completo os traumas do passado e encontrado todas as forças para lidar com os problemas do presente. Não é uma figura totalmente inexperiente, mas é muitas das vezes enganada, ou deixa-se enganar, enquanto ascende profissionalmente, conhece um novo interesse amoroso e atravessa uma fase complicada a nível matrimonial. O valor da família, a religiosidade, os negócios obscuros, tudo tão associado ao território de Nápoles, o espaço citadino onde se desenrola o enredo, encontram-se presentes em "Per amor vostro", mas também os sentimentos bem vivos, ainda que aliados a alguma melancolia, letargia e surrealismo, com Giuseppe Gaudino a procurar aproveitar as especificidades deste local ao serviço do enredo. É certo que o cineasta perde-se em alguns excessos e devaneios, algo latente quando procura apresentar a protagonista como uma santa, com estas situações específicas a serem marcadas pela presença de uma legenda e uma narração em forma de canção, ou as estranhas ilusões que afectam a mente de Anna e proporcionam alguns trechos mais surreais. Giuseppe Gaudino não tem problemas em atirar-nos para fora da zona de conforto, tendo em vista a procurar incutir alguma poesia e irreverência a uma história que, no seu cerne, é completamente convencional. Anna é casada com Gigi Scaglione (Massimiliano Gallo), um agiota de gestos rudes, violento e abusivo, que agride regularmente a esposa e apresenta uma relação conflituosa com Arturo (Edoardo Crò), um dos três rebentos do casal. Arturo é irmão de Santina (Elisabetta Mirra) e Cinzia (Daria D'Isanto), com Anna a contar com uma relação relativamente próxima com o primeiro, um adolescente mudo, que gosta de imitar alguns trechos de filmes e séries que vê na televisão. A relação entre Anna e a família é deveras atribulada, com esta a procurar ajudar tudo e todos, embora nem sempre tenha quem a apoie. Os pais outrora abandonaram Anna num convento de freiras, embora esta procure ajudar os progenitores no presente, apesar destes apenas parecerem interessados no dinheiro da filha.

Se a vida pessoal de Anna parece atravessar uma fase complicada, ao ponto desta praticamente começar a ver tudo aquilo que a rodeia a preto e branco, algo revelador do seu estado de espírito, com a vivacidade e a alegria a parecerem sentimentos que raramente contaminam a protagonista, já a sua carreira profissional vai de vento em popa. Anna trabalha no ramo televisivo, a organizar e exibir os cartões com as falas que os actores e as actrizes devem proferir, bem como a escrever algumas anotações, tendo em vista a ajudar a guiar os elementos do elenco nas suas interpretações. O trabalho da protagonista é elogiado, embora esta nem sempre pareça sentir confiança, ou não estivéssemos diante de uma mulher insegura, que atrai problemas ou figuras nem sempre recomendáveis. Um dos elementos que se sente supostamente atraído pela protagonista é Michele Migliaccio (Adriano Giannini), um actor canastrão, que necessita sempre de anotações para se recordar das falas, embora seja uma estrela de grande sucesso. Adriano Giannini incute um estilo galanteador e aparentemente afável a Migliaccio, um actor que procura demonstrar que se sente interessado em Anna. Valeria Golino consegue transmitir as fragilidades emocionais da protagonista, uma figura feminina simples na sua forma de se vestir e dialogar, que nem sempre parece confiar nas suas capacidades profissionais ou contar com um amor próprio elevado (uma situação que Gaudino faz questão de repetir excessivamente ao longo do filme), enquanto a actriz tem tempo para construir uma personagem que se encontra no cerne de quase tudo aquilo que acontece ao longo de "Per amor vostro". A câmara segue-a com enorme atenção, pronta a captar as expressões da protagonista (não faltam close-ups, muitas das vezes extremos), os seus sentimentos e incutir quase a sensação de que estamos a vivenciar algo ao lado da mesma, ou a partir do prisma de Anna. A própria decisão de filmar "Per amor vostro" maioritariamente a preto e branco, remete para a procura de Gaudino em tentar que o espectador observe o enredo do mesmo modo que Anna observa o Mundo que a rodeia, algo adensado pelo trabalho de câmara. A câmara de filmar é sentida, por vezes em excesso, bem como o trabalho do realizador, que não se imiscui a dizer presente quando deve e não deve, enquanto a primeira "dança" ao ritmo de Anna, ou melhor de Gaudino. Diga-se que o cineasta não tem problemas em repetir até à exaustão que estamos diante de uma protagonista com baixa auto-estima, que se encontra a lidar com uma depressão, algo que poderia ser abordado de forma mais incisiva ao invés da opção pelo caminho redundante e pueril.

O casamento de Anna parece estar nas últimas, mantendo-se praticamente por receio e conveniência, com a protagonista a ser alvo de agressões e maus tratos por parte do marido, um elemento exposto de forma unidimensional, que parece contribuir e muito para o estado depressivo desta mulher, embora o argumento nunca atribua a densidade necessária a este personagem. Diga-se que o argumento concentra quase todas as atenções em Anna e descura muitas das vezes os restantes elementos. Veja-se a abertura de uma subtrama relacionada com o namoro de Santina, algo atirado à bruta no enredo e explorado de forma sensaborona, ou a relação entre Anna e Salvatore (Massimo De Matteo), o irmão mais velho, pouco ou nada aproveitada ao longo do filme. As fragilidades de Anna são latentes, algo que contrasta com as atitudes de Gigi. Massimiliano Gallo transforma Gigi numa figura a espaços ameaçadora e pouco confiável, que não tem problemas em partir para as agressões físicas e verbais, ou efectuar negócios ilícitos para a máfia. Diga-se que parte dos negócios de Gigi afectam figuras como Ciro (Salvatore Cantalupo), o elemento que outrora ocupara o cargo profissional que foi atribuído a Anna. Ciro é uma das várias figuras masculinas que se imiscuem no quotidiano de Anna, com Salvatore Cantalupo a exibir o desespero deste indivíduo que se endividou até à raiz dos cabelos, culpando a protagonista por ter perdido o emprego, embora este tenha sido demitido devido a contar com uma personalidade problemática. A espaços, Ciro torna-se um elemento intrusivo, embora saiba mais do que Anna pensa, sobretudo em relação a Gigi e Michele, apesar de importunar esta mulher de forma extrema, ao ponto de quase nos incomodar. Anna é o cerne do filme, com "Per amor vostro" a procurar expor o quotidiano desta figura feminina que procura conciliar o seu papel de mãe de família e a carreira profissional. Nem sempre é fácil, com esta a habitar num apartamento relativamente modesto, com o esposo e os três rebentos, embora a sua vida pessoal esteja longe de se encontrar numa fase apolínea. A casa onde esta habita conta com vista para o mar, um dos poucos espaços que Anna consegue ver a cores, ainda que de forma intermitente, com a imensidão do mesmo a parecer simbolizar uma libertação que a protagonista tarda em conseguir.

Anna parece demasiado imersa no papel de mãe, filha, esposa, profissional, para conseguir soltar a alma da letargia que contaminou a sua existência. Esta vive praticamente para os outros, ou pelo menos assim parece no início do filme, denotando alguma dificuldade em lidar com o pragmatismo do Mundo que a rodeia. É, acima de tudo, a história de Anna que nos é apresentada, uma mulher que a espaços parece demasiado ingénua, ou simplesmente procura não acreditar naquilo que se encontra mesmo à sua frente. A religião e os valores religiosos parecem fazer parte da vida de Anna desde a infância: o nome do irmão e da irmã da protagonista remetem para elementos religiosos; Anna foi, em parte, educada num convento; o próprio realizador faz questão de traçar paralelos entre a personagem interpretada por Valeria Golino e uma "santa". Giuseppe Gaudino não tem problemas em incutir ingredientes de diversos géneros e subgéneros em "Per amor vostro", com a narrativa a deambular entre o drama a descair para o melodrama, o romance, a comédia e o filme sobre a máfia. Os negócios obscuros de Gigi e as ramificações dos mesmos permitem traçar esse paralelo com as obras cinematográficas que envolvem a máfia, enquanto a vida familiar e sentimental de Anna a espaços descai para o melodrama. Temos ainda situações meio surreais, tais como as cenas em que Anna se encontra no interior do autocarro e a chuva parece permear todo o interior deste espaço, ou as vozes distorcidas que esta ouve em alguns momentos, ou as estranhas nuvens que a espaços aparecem a cobrir parte da vista que a protagonista tem a partir da janela da sua habitação. O argumento nem sempre incute a profundidade necessária às temáticas abordadas, com Giuseppe Gaudino a procurar explorar uma miríade de temas ao longo do filme, embora de forma nem sempre assertiva. Veja-se o vício de Ciro pelo jogo, ou o trabalho de Gigi como agiota, ou a relação entre Anna e os pais, entre outros exemplos de temas que poderiam ser explorados de forma mais incisiva. Também Cinzia, Arturo e Santina são expostos de forma relativamente superficial, com o argumento a dar uma "primeira demão", embora pareça por vezes esquecer-se de terminar o fresco que começou a pintar. "Per amor vostro" compensa os tropeços e redundâncias com algumas decisões inspiradas, com Giuseppe Gaudino a incutir uma estranha mescla de crueza, lirismo e melancolia ao filme, enquanto Valeria Golino brinda o espectador com uma interpretação que, por si só, vale o preço do bilhete de cinema.

Título original: "Per amor vostro".
Título em Portugal: "Anna".
Realizador: Giuseppe M. Gaudino.
Argumento: Giuseppe M. Gaudino, Isabella Sandri e Lina Sarti.
Elenco: Valeria Golino, Massimiliano Gallo, Adriano Giannini, Elisabetta Mirra, Edoardo Crò, Daria D'Isanto, Salvatore Cantalupo.

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