29 abril 2016

Resenha Crítica: "Olmo e a Gaivota" (Olmo & the Seagull)

 "Olmo e a Gaivota" entra de mansinho, quase sorrateiramente, até agarrar o espectador e fazer com que este se torne cúmplice da sua dupla de protagonistas. É uma obra cinematográfica onde a ficção e a realidade se diluem, ou a genuinidade e a encenação se reúnem, sempre com enorme classe e engenho, enquanto Petra Costa e Lea Glob, a dupla de realizadoras, jogam com o espectador e mostram que estão no cinema para deixarem a sua marca. O que é realidade em "Olmo e a Gaivota"? O que é ficção? A ficção contamina o real ou, simplesmente, acontece o contrário? O que é genuíno? O que é manipulado? Sabemos que Olivia Corsini e Serge Nicolai, a dupla de protagonistas, são reais, bem como a gravidez da primeira, embora tudo o resto possa ser, ou não, questionado, com Petra Costa e Lea Glob a criarem algo que tanto tem de estimulante como de envolvente. Petra Costa e Lea Glob conseguem pegar numa situação particular, nomeadamente, a gravidez da protagonista, tendo em vista a abordarem a gestação de forma mais lata e alcançarem quer o público feminino, quer o masculino. Diga-se que "Olmo e a Gaivota" é muito mais do que um filme sobre uma mulher que tem de lidar com uma gravidez inesperada. É um documentário híbrido que nos coloca não só perante a mente de uma figura feminina que se encontra num período delicado da sua vida, mas também diante do relacionamento entre um casal, para além de nos exibir as dúvidas que assolam a protagonista. Esta é Olivia Corsini, uma actriz italiana, de trinta e quatro anos de idade, que conta com uma larga experiência no teatro, diversos sonhos por realizar e uma energia aparentemente inesgotável. Olivia namora com Serge Nicolai, um actor francês, com quem se encontra a trabalhar numa encenação da peça "A Gaivota", de Tchekov. Serge e Olivia conheceram-se no Théâtre du Soleil, com o teatro a ter um papel relevante no quotidiano deste casal de intérpretes, algo que é explanado ao longo de "Olmo e a Gaivota". A certa altura de "Olmo e a Gaivota", Olivia chega mesmo a questionar se a relação com Serge teria perdurado ao longo do tempo se estes tivessem permanecido sempre "eles próprios" ao invés de interpretarem personagens ficcionais em diversas peças, com o namoro a parecer ter conhecido um tempero distinto consoante cada espectáculo teatral que protagonizaram. No fundo, aquilo que Olivia parece realçar é a importância da sua profissão para o seu modo de viver, ao mesmo tempo que evidencia alguma insegurança, ou este comentário não surgisse na fase em que a protagonista já se encontra grávida. Teatro, vida, encenação, emoção, problemas existenciais e filosóficos, realidade, ficção e poesia juntam-se em "Olmo e a Gaivota", enquanto Olivia e Serge se dão a conhecer ao espectador. Estes expõem parte das suas vidas, ou exibem uma encenação do seu quotidiano, enquanto "Olmo e a Gaivota" vagueia entre as barreiras da ficção e da realidade. É um exercício criativo bastante interessante, que não retira força às temáticas abordadas, bem pelo contrário, com Petra Costa e Lea Glob a conseguirem que o espectador seja arrastado para o interior da narrativa e dos fragmentos do quotidiano da dupla de protagonistas. A partir do momento em que Olivia e Serge aparecem no ecrã, as suas histórias passam a ser partilhadas com o espectador, num período específico da vida da primeira, ou seja, a sua gravidez, enquanto ficamos perante dois personagens que são sempre interessantes de acompanhar.

No início de "Olmo e a Gaivota", ficamos diante dos ensaios de "A Gaivota", no interior da companhia de teatro onde Olivia e Serge trabalham. Este local tem uma importância especial para Olivia. É no teatro onde esta se pode "transformar" e ser o centro das atenções, algo que promete mudar por completo quando Olivia descobrir que está grávida. O momento em que Olivia descobre estar grávida é pontuado por algum humor. Olivia encontra-se no interior da casa de banho, a efectuar o teste de gravidez, enquanto Serge está fora desta divisória, com ambos a apresentarem alguma curiosidade em relação ao resultado. Esta divisão, propositada, ou não, permite discernir desde logo que estes dois personagens vão avaliar e viver a gravidez de forma distinta, ou Olivia não se sentisse muitas das vezes solitária e inquieta, sobretudo no período inicial da gestação. Quando é revelado que a peça vai estrear em Nova Iorque, onde a companhia vai ficar durante alguns meses, até passar para Montreal, Olivia não tem escolha a não ser revelar que está grávida, algo que apanha os seus colegas de surpresa. Olivia não quer perder o direito de trabalhar e exercer a arte que ama, embora não pareça ter outra escolha. Um problema de saúde, em particular um hematoma no útero, obriga Olivia a ficar praticamente confinada ao espaço da sua casa, tendo em vista a repousar e evitar a possibilidade de sofrer um aborto espontâneo, algo que parece aumentar as dúvidas e inseguranças da actriz, enquanto "Olmo e a Gaivota" explora algumas temáticas e possibilidades relacionadas com a gravidez a partir de uma perspectiva feminina. Olivia é uma figura feminina complexa, que se depara com uma série de alterações nas suas rotinas a partir do momento em que descobre estar grávida, com "Olmo e a Gaivota" a colocar-nos diante das dúvidas, inquietações, alegrias, tristezas e transformações corporais desta mulher, bem como a forma como a protagonista encara todas estas mudanças, ou seja, a sua jornada física e psicológica. Não é uma super-heroína que se encontra a aprender a utilizar as suas habilidades, mas sim uma mulher que engravida, com esta jornada de Olivia a prometer ser mais intrincada do que se tivesse de lidar com super-poderes, ou enfrentar um antagonista com um plano pueril para dominar o planeta. Petra Costa e Lea Glob concedem uma especial importância ao modo como Olivia encara o seu corpo, algo que permite realçar as mudanças que ocorrem no físico desta mulher (o comprometimento de Olivia Corsini é louvável), enquanto esta se questiona sobre tudo aquilo que está a viver. As formas corporais alteram-se por completo, o tédio inerente ao facto de passar os dias em casa é mais do que muito, uma situação que se adensa pelo facto de Serge, a gaivota, continuar em movimento, ou melhor, a trabalhar. Este é um actor de personalidade afável, de barba por fazer, que ama Olivia (a relação entre ambos é essencial para o espectador criar um elo de ligação com o filme), embora a espaços não pareça saber que está a entrar em "terreno minado". Veja-se quando salienta as qualidades de Camille, a colega que substituiu Olivia como Arkadina na peça "A Gaivota", com a esposa a apresentar alguma inquietação em relação à possibilidade da substituta interpretar melhor a personagem.

O facto de Serge continuar a trabalhar e passar os dias praticamente fora de casa, aliado à noção de que a gravidez e a maternidade vão afectar a carreira profissional, surgem como elementos que contribuem para que a inquietação e ansiedade de Olivia aumentem. Tudo é uma novidade para Olivia, com "Olmo e a Gaivota" a expor-nos não só às transformações do corpo da actriz, mas também ao modo como esta encara a gravidez, com a protagonista a começar a tratar a gestação de forma mais objectiva e menos abstracta. Veja-se que inicialmente ficamos diante da inquietação desta em relação às mudanças de rotinas, às alterações do seu corpo, aos receios em relação à possibilidade da sua liberdade poder vir a ser coartada por um "extraterrestre" que a comanda a partir do ventre, entre outros exemplos. Com o desenrolar do enredo, começamos a observar Serge e Olivia a falarem sobre o nome do bebé (o Olmo), a pensarem na educação do rebento, a organizarem festas para darem a conhecer a gravidez aos amigos, ou seja, somos conduzidos a entrar no processo de maturação deste casal. Inicialmente pouco preparados, Serge e Olivia passam a ter de lidar com a gravidez desta última, com o cerne de "Olmo e a Gaivota" a estar na perspectiva feminina. A gravidez é algo que Olivia parece encarar como incontrolável, até começar a aprender a conviver consigo mesma e com a gestação, ao mesmo tempo que se depara com uma série de receios e ansiedades. As experiências do passado são recordadas no presente, enquanto a narração de Olivia, muitas das vezes em off, permite criar uma certa relação de cumplicidade entre o espectador e a actriz, quase como se nos tornássemos confidentes invisíveis desta mulher. Veja-se quando esta fala em italiano sobre as mudanças do seu corpo, em particular ter perdido um dente (a espaços parece que não é inocente o facto desta falar na língua do seu país natal em situações de maior fragilidade ou mais íntimas), ou aborda as suas ansiedades e aquilo que teme, ou temia. A relação com Serge também é avaliada por Olivia, embora não seja colocada em causa, com "Olmo e a Gaivota" a deixar-nos diante de alguns momentos que parecem demasiado "reais" para terem sido encenados, com Petra Costa e Lea Glob a pegarem num casal real e a transportarem-no para a ficção. Num determinado momento de "Olmo e a Gaivota", encontramos Olivia a colocar a hipótese de Serge poder vir a conhecer uma actriz mais jovem e interessar-se pela mesma, uma possibilidade que parece atormentar a primeira, embora esta não deixe de salientar que espera contactar com actores mais novos. Esta troca de diálogos, sobre a possibilidade de Serge conhecer actrizes mais jovens, evidencia paradigmaticamente algumas das inquietações que Olivia sente em relação à passagem do tempo e ao avançar da idade. As rugas começam a aparecer, o corpo está em mudança, enquanto as personagens que Olivia interpretou parecem ter deixado marcas na actriz. Esta é obrigada a superar os desafios colocados pela gravidez e pela sua mente, enquanto levanta uma série de questões relacionadas com o seu futuro quer a nível pessoal, quer do ponto de vista laboral. Nesse sentido, ficamos diante do modo como uma actriz encara a sua arte, bem como as suas tormentas, enquanto Olivia interpreta uma versão de si própria, embora também possa ser Arkadina ou Nina, duas personagens de "A Gaivota". A carreira profissional de Olivia promete conhecer um hiato, mesmo após a gravidez, algo inerente aos cuidados relacionados com o crescimento do rebento, uma situação que não acontece com Serge, pelo menos à mesma escala, algo que este não parece compreender totalmente, pelo menos a nível inicial, quando realça as qualidades da substituta da primeira.

Por muito que o homem "viva a gravidez", nunca poderá senti-la da mesma forma que uma mulher, com "Olmo e a Gaivota" a procurar expor e dar a conhecer a perspectiva feminina. Olivia é o cerne de "Olmo e a Gaivota" e do nosso olhar. A cinematografia contribui a espaços para essa sensação de proximidade, com o quotidiano de Olivia e Serge, no interior da casa, a ser exposto de forma amiúde, com a câmara a estar bem próxima de ambos. Os close-ups são mais do que muitos, com o rosto de Olivia Corsini a tomar muitas das vezes conta do ecrã, tal como os seus anseios, alegrias e tristezas. O espaço do teatro e da habitação ganham especial relevância ao longo do filme, bem como o território do jardim nas imediações da casa de Olivia, com uma saída a surgir como um momento libertador para esta mulher, enquanto acompanhamos a sua jornada de nove meses. "Olmo e a Gaivota" é uma produção que envolve países como Portugal, Brasil, Dinamarca, França (o enredo desenrola-se em Paris), uma conjunção feliz que resulta num filme corajoso, que pode não chegar no imediato a um público alargado, mas promete perdurar no tempo, com Lea Glob e Petra Costa a abordarem temáticas relevantes de forma criativa, complexa e sensível. O filme conta ainda com um ingrediente essencial: temos duas mulheres a abordarem temáticas ligadas às figuras femininas ao invés de contarmos mais uma vez com um homem a realizar uma obra cinematográfica sobre algo que nunca poderá interpretar e percepcionar da mesma forma que uma mulher. Diga-se que, a certa altura, a presença das realizadoras é sentida, com estas a pedirem para Olivia e Serge exporem os diálogos de modo distinto, com "Olmo e a Gaivota" a nunca esconder que é um documentário que se esgueira pela ficção e acaba por escapar a possíveis catalogações que lhe queiramos colocar. Nesse sentido, o próprio trabalho de Olivia e Serge, a interpretarem versões de si próprios, também é claramente merecedor de elogios, com estes a exporem a sua vida e a sua arte, enquanto vivem e representam. Ficamos diante do processo criativo de dois actores, que interpretam outras figuras e versões de si próprios, enquanto se expõem diante das câmaras e se dão a conhecer. Confesso que não conhecia o trabalho de Lea Glob, uma falha que vou tentar colmatar, algo que não acontece no caso de Petra Costa, uma cineasta que tem em "Elena" uma obra cinematográfica magnífica (diga-se que a cineasta repete a capacidade de pegar em situações particulares e transformá-las em algo que conquista um alcance mais lato). No caso de "Olmo e a Gaivota", o trabalho de Costa e Glob não engana, é de enorme qualidade, faltando saber se esta colaboração é para continuar nos tempos mais próximos, ou se ambas vão voltar a "caminhar a solo". No entanto, a solo, ou como dupla, o cinema só tem a ganhar se Petra Costa e Lea Glob continuarem a realizar, a desafiarem o espectador e a prenderem o mesmo com os filmes que realizam. Retrato complexo sobre uma gravidez, dotado de uma protagonista assaz interessante, que é apresentada com arte e engenho por uma dupla de realizadoras que incute um toque especial a uma obra cinematográfica que deveria ser de visualização obrigatória para quem pensa ser mãe ou pai, "Olmo e a Gaivota" esgueira-se entre a realidade e a ficção, a genuinidade e a encenação, o palco de um teatro e uma habitação, enquanto nos envolve, questiona e problematiza os temas abordados.

Título original: "Olmo & the Seagull".
Título em Portugal: "Olmo e a Gaivota".
Realizadoras: Petra Costa e Lea Glob.
Argumento: Petra Costa e Lea Glob em colaboração com Olivia Corsini e Serge Nicolaï.
Elenco: Olivia Corsini e Serge Nicolaï.

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