09 abril 2016

Resenha Crítica: "Non essere cattivo" (2015)

 Vittorio (Alessandro Borghi) e Cesare (Luca Marinelli) são amigos de infância, na casa dos vinte anos de idade, que praticam crimes como tráfico de droga e burlas, com as suas vidas a estarem muitas das vezes em risco, enquanto estes procuram encontrar um meio de se afirmarem. Cesare e Vittorio são os protagonistas de "Non essere cattivo", a última longa metragem realizada por Claudio Caligari, com o cineasta a atirar o espectador para o interior de Ostia, em 1995, enquanto nos apresenta a um grupo de personagens que vive "nas margens", com este espaço da periferia a parecer um viveiro de deslocados da sociedade, com tudo e todos a procurarem a sua afirmação, embora nem sempre escolham o caminho mais correcto. Claudio Caligari interessa-se por estes personagens que se procuram afirmar num meio algo hostil, onde as oportunidades não parecem abundar e os negócios ilícitos são encarados de forma quase banal. Veja-se quando encontramos Vittorio e Cesare a procurarem traficar droga, mas também a consumirem substâncias estupefacientes em quantidades assinaláveis, com Alessandro Borghi e Luca Marinelli a contarem com interpretações de grande nível. No início de "Non essere cattivo", encontramos Vittorio e Cesare em êxtase, após consumirem drogas, com estes a parecerem caminhar para um abismo, ou o quotidiano de ambos não fosse marcado por rotinas completamente destrutivas. Ambos praticam um estilo de vida marcado por excessos, crimes, consumo e tráfico de droga, com a noite a ser muitas das vezes uma companheira e cúmplice de Cesare e Vittorio. Cesare é uma bomba-relógio, surgindo como um elemento pouco ponderado e dado a alguns excessos. Vittorio é amigo de longa data de Cesare, algo notório nos momentos iniciais de "Non essere cattivo", embora, a certa altura, decida seguir um caminho distinto do segundo. O consumo de drogas marca e marcou o quotidiano de Vittorio e Cesare, embora o primeiro comece a reagir mal a esta situação, algo notório quando alucina e perde o controlo. Este episódio parece ter contribuído para Vittorio tentar mudar de estilo de vida, sobretudo a partir do momento em que inicia uma relação amorosa com Linda (Roberta Mattei), com esta a contribuir para despertar um lado mais apolíneo do personagem interpretado por Alessandro Borghi. Se Vittorio começa a exibir objectivos de vida distintos, já Cesare parece ter alguma dificuldade em começar a abrandar. Com o cabelo comprido, roupa simples, uma expressividade e intensidade notórias, Luca Marinelli incute um estilo intempestivo a Cesare, um indivíduo que a espaços apresenta enormes demonstrações de humanidade, embora pareça destinado a errar e a ser incapaz de sair do estilo de vida errático que definiu para a sua existência. O actor é capaz de nos conseguir compelir a querer seguir este personagem, a esperar que este mude, tal como acontece com algumas figuras que o rodeiam, tais como Vittorio e Viviana (Silvia D'Amico), a ex-namorada do amigo, uma mulher visualmente vistosa que iniciou uma relação com Cesare.

Cesare ainda pensa em casar e ter filhos com Viviana, o problema é que escolhe muitas das vezes o caminho errado, ou simplesmente não parece ponderar as consequências dos seus actos, enquanto o destino tem o condão de lhe pregar umas quantas partidas, algo que contribui para adensar o estilo auto-destrutivo e rebelde do personagem interpretado por Luca Marinelli. Veja-se que Cesare perdeu a irmã devido a esta última ter contraído SIDA, com o protagonista a apresentar uma enorme afinidade e cuidado para com Debora (Alice Clementi), a sua sobrinha, uma jovem que se encontra gravemente doente. Diga-se que a SIDA, a toxicodependência, as relações "tóxicas", o tráfico de droga, a procura de afirmação, os clubes nocturnos e os bares como espaço de encontro entre os jovens, surgem como elementos e temáticas abordadas ao longo do filme, com Claudio Caligari a efectuar um retrato bem vivo do quotidiano dos personagens principais de "Non essere cattivo". Cesare é algo conservador no que diz respeito à família, com este a procurar cuidar da mãe, bem como de Debora, protagonizando alguns momentos mais ternos com esta última, que exibem a capacidade de Luca Marinelli em interpretar uma figura que tanto tem de violenta como apresenta uma humanidade desarmante. Já a relação entre os personagens interpretados por Luca Marinelli e Alessandro Borghi é marcada por alguns momentos mais intensos, inclusive quando ambos parecem querer tomar rumos distintos para as suas vidas, algo que chega a conduzir a um ou outro desaguisado mais inquietante. Vittorio procura começar a trabalhar nas obras e levar uma vida estável ao lado de Linda, tentando arrastar Cesare consigo, embora este último não pareça capaz de se desfazer da ideia de ganhar dinheiro fácil. Diga-se que, no final, Claudio Caligari traça um retrato simultaneamente pessimista e optimista, com um nascimento inesperado a acontecer, enquanto Vittorio percebe que as dificuldades financeiras inerentes ao parco salário do trabalho nas obras se encontram a minar o quotidiano com Linda e o filho (Andrea Orano) desta. Vittorio e Cesare procuram afirmar-se no interior de sociedade que os rodeia, com o mundo do crime a parecer o caminho mais fácil e prático para enriquecer, ou pelo menos para sobreviver, com o segundo a sentir-se bastante atraído por este estilo de vida. Diga-se que Vittorio ainda apresenta alguns recuos, algo notório quando tenta abrir um espaço dedicado ao jogo ilegal e tem uma recaída no consumo de drogas, embora a presença de Linda pareça fundamental para este endireitar a sua vida. Cesare ainda esboça uma tentativa de estabelecer uma família com Viviana, mas é demasiado intempestivo e ambicioso para conseguir levar um estilo de vida completamente calmo, parecendo sentir-se atraído pelos perigos. Viviana e Cesare ainda vão viver juntos, com a decoração da habitação a parecer reflectir a personalidade intempestiva do segundo. Veja-se que não faltam objectos vermelhos, com esta tonalidade a remeter exactamente para sentimentos mais quentes ou confusos, com a casa de Cesare e Viviana a remeter ainda para todo um cuidado colocado na decoração dos cenários interiores ao serviço do enredo.

A dupla de protagonistas comete muitos erros ao longo do enredo de "Non essere cattivo", enquanto o território de Ostia parece fundamental para propiciar alguns comportamentos apresentados por Cesare e Vittorio, com Claudio Caligari a procurar capturar o espírito e a alma deste local durante o período de tempo representado, uma situação que vai desde a maneira dos personagens falarem e vestirem, passando pelas suas inquietações, até aos espaços por onde estes circulam, incluindo clubes nocturnos, ruas e praias. O espaço da praia permite expor o quão abrasivo pode ser este território, com Cesare a picar-se acidentalmente numa agulha de uma seringa que se encontrava no local. Ainda espera pelos toxicodependentes que se costumam injectar no local, tendo em vista a vingar-se, ainda que a espera não resulte em nada, embora permita expor quer o carácter abrasivo deste espaço, quer a personalidade impulsiva de Cesare, que não tem problemas em partir para a violência. Veja-se quando procura roubar os clientes de Vittorio na sala de jogo ilegal criada pelo amigo, algo que conduz a um confronto entre os dois, embora o personagem interpretado por Alessandro Borghi, tal como Viviana, pareça guardar a esperança de que Cesare ainda vai mudar. Diga-se que o momento na sala de jogo é um dos trechos mais inspirados de "Non essere cattivo", com Claudio Caligari a colocar dois "irmãos" em confronto, enquanto deixa as luzes azuis e vermelhas do local adensarem o tom inquietante desta cena. Se Alessandro Borghi e Luca Marinelli são os destaques óbvios do elenco, com estes a contarem com interpretações intensas e carismáticas, capazes de nos convencerem dos defeitos, virtudes e enorme união dos personagens que interpretam, também Roberta Mattei e Silvia D'Amico merecem algum destaque. Roberta Mattei dá vida a uma figura feminina que entra em contacto com Vittorio de forma peculiar, com este a procurar esconder a arma de Cesare da polícia, após a dupla de protagonistas ameaçar um grupo de traficantes rival, algo que proporciona o estranho início de uma relação que promete mudar o personagem interpretado por Alessandro Borghi. Linda é uma das várias personagens de classe trabalhadora deste local, que vive sem grandes luxos ou comodidades, com a habitação desta mulher a ser bastante simples. A personagem interpretada por Roberta Mattei trabalha como empregada de limpezas, tendo em Tommasino, o seu filho, a melhor companhia. Vittorio começa a procurar mudar a partir do momento em que conhece Linda. A mudança não é extemporânea, com Claudio Caligari a saber gerir o ritmo do enredo e as interpretações dos seus actores, conseguindo que este arco de Vittorio seja convincente. Vittorio ainda procura arrastar Cesare, mas este parece demasiado impulsivo e ambicioso para evitar sair do mundo do crime, embora a relação com a personagem interpretada por Silvia D'Amico pareça trazer alguma esperança para o segundo. Claudio Caligari expõe o quotidiano destes personagens sem contemplações, com alguma crueza à mistura, ou Vittorio e Cesare não fossem inicialmente dois viciados em drogas e traficantes, que praticam uma série de excessos.

"Non essere cattivo" é o último volume de uma trilogia de Claudio Caligari, que foi iniciada em "Amore tossico" (1983), contando ainda com "L'odore della notte" (1998), com o cineasta a ter aqui uma última obra cinematográfica de grande nível. Caligari explora as temáticas sem contemplações, conseguindo que sejamos praticamente presos a todo este enredo onde a noite é muitas das vezes companheira e testemunha. Imensa droga é consumida e traficada (sempre com enorme realismo, parecendo que estamos no meio destes personagens), alguns actos violentos são cometidos, enquanto somos colocados diante de personagens que escolheram modos de vida distintos, algo latente na dupla de protagonistas. A dinâmica entre Alessandro Borghi e Luca Marinelli é essencial para boa parte de "Non essere cattivo" funcionar, com estes a convencerem o espectador da amizade de longa data entre Vittorio e Cesare, uma dupla que se conhece desde a infância e apresenta uma enorme união e lealdade. Diga-se que os valores de lealdade muito próprios, o respeito pela família, entre outros, remete para algo de "muito italiano", com o território a parecer essencial para os comportamentos de alguns personagens. É um espaço onde as oportunidades não abundam, os crimes ocorrem com regularidade, as relações são marcadas por alguma intensidade, algo que acontece com Vittorio e Cesare. A própria banda sonora procura muitas das vezes servir como uma extensão dos momentos protagonizados pelos personagens, algo latente quando encontramos Cesare e Viviana no carro, a beberem, com a música, os gestos dos personagens e os seus diálogos a exibirem paradigmaticamente o estilo de vida da maioria destas figuras. O consumo e o tráfico de droga marcam boa parte da narrativa, com Claudio Caligari a colocar-nos diante de uma miríade de substâncias e todo o meio "venenoso" que envolve as mesmas quer a nível do consumo, quer do tráfico, algo latente no quotidiano de Vittorio e Cesare no início do filme. Com uma dinâmica assinalável entre Alessandro Borghi e Luca Marinelli, dois actores de talento praticamente inegável, uma representação crua, intensa e realista dos episódios que pontuam o enredo, "Non essere cattivo" mostra mais uma vez a relevância de festivais como o 8 1/2 Festa do Cinema Italiano, ou este certame não trouxesse até nós esta recomendável obra cinematográfica de Claudio Caligari.

Título original: "Non essere cattivo".
Título em inglês: "Don't Be Bad".
Realizador: Claudio Caligari.
Argumento: Claudio Caligari, Francesca Serafini, Giordano Meacci.
Elenco: Luca Marinelli, Alessandro Borghi, Silvia D'Amico, Roberta Mattei.

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