02 abril 2016

Resenha Crítica: "L'attesa" (A Espera)

 A certa altura de "L'attesa", Anna, a personagem interpretada por Juliette Binoche, salienta que se habituou a observar certas partes do seu corpo na escuridão. Se Anna efectua este comentário num jeito depreciativo, já "L'attesa" provoca um impacto indelével na sala escura do cinema. A dor provocada por uma perda, a relação entre duas mulheres que não se conheciam pessoalmente, a sensação de isolamento e a dificuldade em conviver com a realidade são temáticas abordadas ao longo deste filme, com Piero Messina a estrear-se em grande nível na realização de longas-metragens de ficção. O cineasta não tem problemas em explorar as potencialidades dramáticas de Juliette Binoche e Lou de Laâge, duas actrizes talentosas, que contam com tempo para comporem personagens complexas, intrigantes, capazes de nos arrasarem com uma simples lágrima ou seduzirem com um simples gesto, enquanto os diálogos trazem memórias do passado para o presente e os silêncios escondem regularmente a dura realidade. Os planos, primorosamente arquitectados, exacerbam muitas das vezes a capacidade destas duas actrizes para a representação, enquanto estas apresentam uma dinâmica complexa em "L'attesa", ou, em português, "A Espera". Piero Messina não poderia ter sido mais feliz na sua estreia como realizador de longas-metragens de ficção, com o cineasta a realizar um filme cheio de simbolismo, pontuado por silêncios marcantes e diálogos capazes de deixarem marca, enquanto valoriza e potencia o trabalho das suas actrizes. O próprio título do filme foi uma escolha acertadíssima. É uma espera que contamina o enredo de "A Espera" (perdoem o pleonasmo). Uma espera que inquieta, desespera, intriga, desilude, traz consigo uma pequena réstia de esperança escondida numa mentira que ilude e adia a verdade, ou algo que se assemelhe a esta última, enquanto duas mulheres de gerações distintas se conhecem e dão a conhecer ao espectador. O cenário primordial é a larga propriedade de Anna, uma villa ancestral, localizada na Sicília. Piero Messina não se distancia dos cenários exteriores e das festividades sicilianas na Páscoa, parecendo trazer para o enredo algumas das suas memórias pessoais deste território, embora a narrativa decorra muitas das vezes no interior da habitação de Anna, um local de largas proporções, que a espaços quase que provoca um efeito claustrofóbico. A decoração da casa remete para a possibilidade desta habitação não ter conhecido muitas mudanças ao longo dos anos, algo latente no quarto de Giuseppe, o filho de Anna, ou na humidade que se encontra presente em algumas paredes, com a protagonista a habitar num espaço que parece exacerbar a sua solidão. No início do filme, encontramos Anna numa cerimónia fúnebre, com esta a mandar tapar os espelhos da sua casa com panos negros, encontrando-se claramente abalada pela perda. Dizem que quem morreu foi o irmão de Anna, mas percebemos que a perda foi outra, em particular, o filho da protagonista. 

 O rosto de Juliette Binoche, idolatrado e reverenciado pela câmara de filmar, exprime a desolação e a dor que vai na alma de Anna, uma figura feminina experiente e divorciada, conhecida por ser a primeira mulher daquela localidade a ter obtido o divórcio. Nem sempre fala muito. Diga-se que Juliette Binoche não precisa de falar imenso para se exprimir. Basta, por vezes, um close-up no seu rosto, para que Juliette Binoche se expresse imenso, com uma lágrima que cai, ou um simples abanar do cabelo, a parecerem ganhar todo um outro significado graças ao desempenho da actriz e ao trabalho de Piero Messina na realização e de Francesco Di Giacomo na cinematografia. Francesco Di Giacomo tem um trabalho inspirado, conseguindo transmitir não só a beleza e estranheza do espaço que rodeia a habitação de Anna, mas também a capacidade que este território tem em criar uma sensação de isolamento, mistério e melancolia. Anna recebe a visita de Jeanne (Lou de Laâge), a namorada de Giuseppe, uma jovem que surge inicialmente discreta, com roupas simples e uma postura estudiosa em relação à primeira. Diga-se que Jeanne não é uma figura completamente inocente, mas aparenta inicialmente um enorme desconhecimento em relação a Anna e à realidade que esta oculta. As duas nunca se tinham conhecido pessoalmente, algo notório nos diálogos que trocam inicialmente, bem como pelos receios que apresentam. Foi o filho de Anna quem convidou Jeanne, tendo em vista a reunirem-se neste local, embora, mais tarde, seja revelado que a relação do casal atravessava uma fase complicada. O atraso do filho de Anna preocupa Jeanne, algo que esta expõe regularmente nas mensagens de voz que deixa no telemóvel do amado, enquanto espera e desespera. As mensagens são expostas imensas vezes em off, enquanto nos apercebemos que quem tem o telemóvel é Anna, com esta a guardar uma verdade, ou uma mentira, para contar mais tarde a Jeanne, enquanto procura conhecer a jovem. Anna procura "ler" e "interpretar" os comportamentos de Jeanne, ao mesmo tempo que se dá a conhecer a esta jovem, ainda que não deixe a sua "alma" totalmente a descoberto. Existem receios de parte a parte, com ambas as mulheres a lidarem de forma distinta com esta "espera". Juliette Binoche e Lou de Laâge conseguem compor com classe e sobriedade duas protagonistas dotadas de alguma complexidade e mistério. Binoche é um dos grandes nomes do cinema francês, algo que demonstra em "L'attesa", onde o seu talento vem ao de cima e a actriz brinda o espectador com uma lição de interpretação. É praticamente impossível imaginar Anna sem Juliette Binoche, com a actriz a controlar os timings da exposição das falas e dos gestos de forma exímia, transformando-se nesta figura atormentada, que lida de forma peculiar com o luto. Os sentimentos de Anna e os seus gestos nem sempre são discerníveis ou compreensíveis, com as suas atitudes a parecerem a espaços carregadas de algum mistério, embora seja impossível lidar de forma pragmática com a morte de um familiar tão próximo, com a presença de Jeanne a contribuir quer para a protagonista conhecer um pouco mais sobre o filho, quer para adensar a dor pela perda deste último.

 Em certa medida, "L'attesa" traz um pouco à memória "Valley of Love", de Guillaume Niclaux, um filme onde um casal procura enfrentar a morte do filho e reencontrar o rebento, acreditando numa possível aparição deste no Death Valley. Anna é uma mulher solitária, que parece emocionalmente destroçada e incapaz de ultrapassar o período de luto, tendo em Jeanne um meio para descobrir um pouco mais sobre o filho, bem como sobre a relação entre os dois jovens, enquanto se recorda de episódios do passado. O presente e o passado reúnem-se em alguns diálogos, muitas das vezes recheados de significado e relevância. Diga-se que Messina não poupa no simbolismo e nas metáforas, ou, pelo menos, nos "pequenos" pormenores que dão a conhecer algo mais sobre Anna e Jeanne, bem como sobre Giuseppe. Um momento no lago tanto pode parecer um meio de descontração como permite dar a conhecer um pouco mais sobre Jeanne, uma jovem que gosta de nadar, embora tenha desistido da natação profissional, devido ao excesso de regras e obrigações. A utilização de um vestido vermelho, por parte de Jeanne, permite exibir a capacidade de sedução desta personagem, mas também que esta se encontra presa ao passado, ou o namorado não gostasse de a ver com esta peça de roupa. Lou de Laâge consegue explanar com sobriedade as mudanças da personagem que interpreta ao longo do enredo, uma jovem que aparece inicialmente receosa em relação aos comportamentos que deve ter junto de Anna, até se começar a soltar um pouco mais. A actriz confirma os bons pormenores deixados em "Respire", conseguindo explanar quer o lado mais frágil desta jovem, quer a sua faceta mais sensual e selvagem. Anna tenta manter a jovem junto de si, embora o atraso de Giuseppe comece a incomodar Jeanne, bem como a falta de respostas por parte do namorado. Jeanne deixa imensas mensagens, exibe algum desespero e parece temer a ocorrência de algo desastroso, com Piero Messina a deixar algumas pistas de que a jovem pode saber algo mais do que aquilo que dá a entender, enquanto Anna procura ocultar temporariamente a verdade. Aos poucos, assistimos a uma aproximação entre as protagonistas, com Piero Messina a explorar as dinâmicas entre estas duas figuras femininas com personalidades muito próprias. Inicialmente, Anna procura não falar, ou dirigir-se a Jeanne, até tentar sair com a mesma, expor alguns episódios do passado e encontrar nesta figura feminina uma companhia que parece compensar temporariamente uma perda, algo que pode explicar a tentativa da primeira em manter a jovem no território. Veja-se o momento em que se dirigem ao lago, com o território que precede a chegada a este espaço a parecer trazer toda uma sensação de isolamento. O lago é outro dos cenários com alguma relevância no filme. É neste espaço que Jeanne conhece dois estranhos, que convida para um jantar na casa de Anna, algo que surpreende esta última e exprime um pouco do carácter mais extrovertido da primeira e as diferenças em relação à faceta recatada que apresentara no início do filme. Jeanne não é a única a esconder informações, algo latente quando encontramos Pietro (Giorgio Colangeli), um funcionário de Anna, a procurar que esta última revele a verdade sobre o suposto atraso do rebento. As mentiras surgem a espaços como um meio para Anna fugir temporariamente à realidade que a rodeia, embora os sentimentos sejam difíceis de conter. Diga-se que Anna parece ter criado esta mentira para Jeanne e para si própria, enquanto aguarda por um milagre que nunca chega e sofre com o luto, com as "esperas" das duas mulheres a apresentarem características inicialmente distintas.

 Piero Messina não tem problemas em deixar a câmara a fitar o rosto das suas protagonistas, procurando captar aquilo que vai no fundo da alma das duas, enquanto intriga o espectador em relação a estas mulheres. O quarto de Giuseppe continua decorado da mesma maneira que este deixara antes de ter saído de casa, contando com o poster dos Wu-Tang, os discos de música, os livros, com a sua presença a fazer-se sentir embora, aparentemente, o jovem não esteja fisicamente no local. A música é uma componente relevante do filme, com Piero Messina a efectuar algumas escolhas inspiradas que, mais do que se sobreporem ao enredo, conseguem potenciar algumas cenas. Diga-se que Piero Messina, para além de ter realizado curtas-metragens, ainda trabalhou como assistente de Paolo Sorrentino em "A Grande Beleza", para além de ter laborado como compositor, com esta última actividade a parecer contribuir para o cineasta contar com um discernimento notório na utilização da banda sonora. Os silêncios são mais do que muitos ao longo do filme, embora a espaços os diálogos e a banda sonora se façam sentir, com a canção "Missing" a surgir recheada de significado, sentido e sentimento. Messina tem em "L'attesa" um trabalho que o coloca obrigatoriamente como um nome a ter em muita atenção, com o cineasta a saber controlar os ritmos da narrativa, contribuindo para elevar o trabalho de Juliette Binoche e Lou de Laâge, enquanto nos deixa diante de um drama pontuado por silêncios relevantes, momentos de enorme observação, uma atenção indelével aos gestos e olhares, algo que não impede que os diálogos sobressaiam e a banda sonora seja utilizada de forma exímia. Piero Messina apresenta uma segurança atípica para um estreante nas longas-metragens de ficção, com quase tudo a parecer ter sido planeado com cuidado, gosto e elegância. Veja-se quando encontramos Anna a espreitar Jeanne, após esta última tomar banho, observando a partir de uma fresta, enquanto parece procurar perceber as razões para o filho se ter sentido atraído por esta jovem. Temos ainda a própria exibição do espaço da casa, muitas das vezes com pouca luz, sobretudo no início, exacerbando o tom lúgubre que permeia o local. No último terço, verdades e mentiras são reunidas e confrontadas, enquanto o misticismo e a ilusão se parecem mesclar, com uma festividade pascal a não trazer uma ressurreição, nem uma revelação parece trazer satisfação. A procissão parece remeter para a influência dos rituais religiosos no território da Sicília, ou na forma como este é representado por Piero Messina. Veja-se que somos colocados diante de uma representação de Cristo, num momento fúnebre do início do filme, algo que permite efectuar uma ligação com o último terço e as festividades religiosas locais, embora o milagre tarde em acontecer, ou melhor, é impossível de se realizar. Temos ainda alguns trechos de enorme lirismo, tais como os momentos nos quais Jeanne nada no lago, enquanto parece exorcizar temporariamente alguns problemas que apoquentam a sua vida, com a cinematografia a contribuir para o tom poético que toma conta de algumas cenas "L'attesa".

 A convivência entre Jeanne e Anna é marcada pelas dúvidas iniciais, com ambas a protagonizarem saídas ao banho turco, ao lago, às redondezas da propriedade, com a habitação a contar com imensos segredos, tal como a dona deste espaço. Diga-se que a ida inicial ao lago, entre Anna e Jeanne, é marcada pela saída extemporânea da primeira, quando a segunda se encontrava a nadar, com esta última a ter de caminhar sozinha para a habitação, enquanto passa por um território simultaneamente belo e agreste. Jeanne e Anna formam uma relação de alguma cumplicidade, enquanto esperam por algo impossível de acontecer, ou seja, o regresso de Giuseppe para a celebração da Páscoa, com Piero Messina a parecer aproveitar o simbolismo desta época do ano ao serviço do enredo. Será que Anna procura acreditar na mentira que criou? Será que Anna e Jeanne preferem acreditar e viver na mentira? Jeanne não sabe inicialmente os motivos para o atraso do namorado, embora, aos poucos, pareça notório que procura evitar reunir as pistas que lhe são dadas. A certa altura, parece que Jeanne procura sabotar a realidade, tentando acreditar nas mentiras de Anna, enquanto esta última parece agir sem controlo aparente. Anna e Jeanne nasceram em França, com a primeira a viver em Itália, enquanto a segunda encontra-se temporariamente no território, procurando aprender a língua e os hábitos locais, com ambas a surgirem como figuras femininas distintas, que procuram lidar com o desaparecimento de uma figura bastante próxima. Diga-se que, apesar de estar ausente, Giuseppe é uma figura que se faz sentir, com os diálogos entre Anna e Jeanne, bem como as mensagens de voz desta última e a decoração do quarto do falecido, a permitirem dar a conhecer alguma informação sobre o primeiro. Entre sentimentos contidos e emoções prontas a serem exprimidas, diálogos que ocultam algo mais e gestos que exprimem imenso, "L'attesa" é uma obra bela e envolvente, dotada de todo um cuidado e atenção ao pormenor que procura estimular os sentidos e sentimentos do espectador. "A Espera" é exibido em antestreia na edição de 2016 do 8 1/2 Festa do Cinema Italiano, antes de estrear em circuito comercial em Portugal. Não sei se é o melhor filme do festival mas, até ao momento, é aquele que mais tarda em sair da minha memória, que mais desperta o meu desejo em regressar ao seu enredo e visualizar a obra cinematográfica múltiplas vezes, tendo em vista a poder apreciar novamente cada plano, cada trecho de maior contenção entre as protagonistas e o enorme trabalho de Juliette Binoche e Lou de Lâage. Grazie, Piero Messina.

Título original: "L'attesa".
Título em Portugal: "A Espera".
Realizador: Piero Messina.
Argumento: Giacomo Bendotti, Ilaria Macchia, Andrea Paolo Massara, Piero Messina.
Elenco: Juliette Binoche, Lou de Laâge, Giorgio Colangeli.

1 comentário:

Theo Lima disse...

Muito bom o comentário. vi o filme ontem e também fiquei muito seduzido pela beleza das interpretações e realização geral da obra.