05 abril 2016

Resenha Crítica: "Latin Lover" (2015)

 Entre intrigas familiares, revelações surpreendentes, discussões, traições, momentos acalorados e a desconstrução da imagem do "amante latino", "Latin Lover" coloca-nos diante de um núcleo familiar disfuncional, pontuado por diversas figuras femininas com personalidades muito próprias. A unir estas personagens encontra-se o décimo aniversário da morte de Saverio Crispo (Francesco Scianna), um actor que granjeou o estatuto de galã e conquistador, tendo (supostamente) cinco filhas de cinco mulheres distintas. Este foi um pai ausente e um amante incapaz de manter uma relação estável, com "Latin Lover", a décima segunda longa-metragem realizada por Cristina Comencini, a colocar-nos diante do confrontar das memórias do passado por parte de diversas figuras que foram marcadas pela existência de Saverio. O falecido é apresentado com recurso a excertos de obras cinematográficas protagonizadas pelo actor ficcional, que remetem para filmes como "Divorzio all'italiana", "La classe operaia va in paradiso", "Indagine su un cittadino al di sopra di ogni sospetto", spaghetti westerns, entre outros, com este intérprete a parecer mesclar elementos de diversos artistas italianos, entre os quais Marcello Mastroianni e Gian Maria Volontè. Francesco Scianna convence e exibe um carisma indelével para conseguir compelir o espectador a acreditar que este actor era capaz de gerar os sentimentos mais assolapados em volta da sua figura, embora "Latin Lover" apenas nos apresente aos trabalhos e entrevistas de Saverio, ainda que de forma bastante inspirada. A certa altura de "Latin Lover", a imagem de conquistador e mulherengo, que Saverio construiu ao longo da sua carreira, começa a ser desmontada, sobretudo quando percebemos que este é um homem de muitas mulheres, embora tenha sido fiel a uma figura masculina, em particular a Pedro del Rio (Lluís Homar), o seu duplo. Pedro del Rio é um indivíduo falador, pronto a defender as familiares de Saverio e a memória deste actor, embora não tenha problemas em assumir algum destaque junto dos holofotes da fama, após vários anos na sombra do falecido. Esta desconstrução da figura do conquistador latino a espaços traz à memória "Casanova '70", um filme onde Marcello Mastroianni interpreta um "Casanova" que apenas consegue colocar a "máquina" a funcionar se estiver em perigo. A ligar "Casanova '70" e "Latin Lover" encontra-se Virna Lisi, com a actriz a ter aqui a sua última participação numa obra cinematográfica. Lisi interpreta Rita, a primeira esposa de Saverio, uma das várias mulheres que foram traídas pelo actor, um indivíduo sobre o qual quase todos sabem imensas histórias, embora pareçam incapazes de chegar ao âmago de quem foi este intérprete famoso e icónico. É na casa de Rita, em Itália, uma habitação espaçosa, que se reúnem as várias filhas de Saverio, com quase todas a terem contactado muito pouco umas com as outras ao longo do tempo, algo que promete uma reunião pontuada por emoções fortes, com as incompatibilidades de diversas personagens a virem ao de cima, bem como aquilo que as une.

A filha mais velha de Saverio é Susanna (Angela Finocchiaro), fruto da relação entre o primeiro e Rita, com a primogénita a apresentar uma animosidade latente em relação a Stephanie (Valeria Bruni Tedeschi), o segundo rebento do actor. Stephanie é o resultado de um affair entre Saverio e uma figurinista francesa, apresentando uma falta de confiança notória, sobretudo devido a ser alvo da má língua de Susanna e de Rita, com esta última a não ter problemas em errar propositadamente o nome da filha do falecido. A personagem interpretada por Valeria Bruni Tedeschi é uma actriz que tem três filhos de três pais diferentes, embora apenas traga para o evento um dos seus rebentos, o jovem Saverio. Se Stephanie tem três filhos de três pais distintos e continua solteira, já Segunda (Candela Peña) apresenta um núcleo familiar que parece saído de um catálogo, apesar dos problemas não tardarem a surgir, sobretudo quando Alfonso (Jordi Mollà), o seu esposo, apresenta a sua veia mulherenga e exibe o interesse por Solveig (Pihla Viitala), a quarta irmã. Segunda é a única destas mulheres que é casada, trazendo consigo os seus dois filhos, bem como Ramona (Marisa Paredes), a mãe, com esta última a contar com uma estranha relação de amizade com Rita, ou ambas não tivessem sido as figuras femininas que mais marcaram a vida do falecido. Rita e Ramona apresentam personalidades mordazes, frustrações, algumas dores devido a certas diatribes do destino, enquanto Virna Lisi e Marisa Paredes sobressaem a interpretar estas duas figuras femininas. Veja-se quando encontramos Rita e Ramona a exibirem as suas facetas mais venenosas quando dialogam sobre a mãe de Stephanie, ou o desprezo que espelham em relação a esta última. Mais tarde, estas mulheres recebem ainda a companhia de Shelley (Nadeah Miranda), outra filha de Saverio, fruto de um affair que este manteve quando se encontrou a filmar nos EUA. Diga-se que a carreira de Saverio conheceu diversos períodos, algo exposto por Picci (Toni Bertorelli), um crítico de cinema e especialista na vida do actor, logo nos momentos iniciais de "Latin Lover", com o primeiro a ter coleccionado trabalhos bem sucedidos e imensas relações amorosas. "Latin Lover" apresenta Saverio como um mistério nem sempre fácil de decifrar, mesmo para aqueles que o rodearam, com Cristina Comencini a realizar uma obra cinematográfica que varia entre a comédia e o drama, enquanto dá espaço para as actrizes que compõem o elenco principal sobressaírem e exibirem as personalidades e problemas das personagens que interpretam. Angela Finocchiaro transmite a mescla de pragmatismo e nervosismo de Susanna, uma mulher que dirige a Fundação Crispo e mantém um caso secreto com Walter (Neri Marcorè), um indivíduo que trabalhou na montagem de alguns filmes de Saverio. É Susanna quem se encontra a procurar organizar a cerimónia de comemoração, em honra do pai, embora não disfarce que mantém alguma animosidade em relação a Stephanie, uma actriz que nunca esconde a frustração por ser olhada de soslaio por diversas familiares. Diga-se que a mãe de Stephanie é encarada como aquela que contribuiu para arruinar com o casamento entre Rita e Saverio, enquanto este último coleccionou casos em diversos países: Stephanie nasceu em França; Segunda é fruto de uma relação de Saverio em Espanha; Solveig é sueca; Shelley é oriunda dos EUA. A mãe de Segunda é encarada de forma relativamente simpática por Rita, com ambas a parecerem partilhar os mesmos sentimentos em relação a Saverio. Candela Peña interpreta uma figura inicialmente pacífica, que procura apenas recordar os bons momentos e unir a família, embora seja surpreendida pela negativa. Por sua vez, Solveig é a mais nova, pelo menos até chegar Shelley, com a "filha sueca" de Saverio a despertar a atenção de Alfonso, um produtor de vinhos que apresenta uma personalidade mulherenga. 

A juntar a estes elementos, temos ainda Marco Serra (Claudio Gioè), um jornalista que procura descobrir mais informações sobre a história de Saverio e as figuras que fizeram parte da vida deste homem. Se Alfonso surge como o estereótipo do latino mulherengo que não resiste a um bom rabo de saias, já Marco Serra aparece como um indivíduo curioso, que apresenta alguma afinidade com Stephanie. Esta é uma actriz que nem sempre apresenta uma confiança inabalável em si própria, embora quase todas as mulheres que povoam o enredo de "Latin Lover", sobretudo as mais velhas, contem com alguns problemas e neuroses. A narrativa decorre ao longo de quarenta e oito horas, contando com episódios como comemorações em honra a Saverio, uma conferência de imprensa peculiar, discussões acaloradas, revelações sobre o passado destas mulheres e do falecido, enquanto Cristina Comencini procura desenvolver uma narrativa onde as figuras femininas se encontram em destaque. Veja-se o caso das personagens interpretadas por Virna Lisi (uma colaboradora habitual de Comencini) e Marisa Paredes, com ambas a interpretarem figuras femininas mordazes, de personalidade forte, embora não tenham problemas em exibirem as suas fraquezas. A casa onde Rita habita encontra-se pontuada por diversos quadros e retratos, com a presença do falecido a parecer que ainda se faz sentir, com este espaço a surgir como um dos cenários primordiais da narrativa. Embora entregue um filme demasiado redondinho, que não incomoda, mas também não deixa marca ou gera entusiasmo, Cristina Comencini consegue desenvolver de forma relativamente eficaz as temáticas a que se propõe abordar, com o seu final, meio feel good, a surgir como um dos momentos mais interessantes de "Latin Lover". A arte surge como um ponto de união entre a vida e a morte, enquanto a nossa mente viaja para os sentimentos que nutrimos por certos actores, actrizes, realizadores, músicos, escritores, que não conhecemos mas permanecem vivos através dos seus trabalhos, sempre prontos a encontrar novos públicos e a despertar uma miríade de emoções. Nesse sentido, "Latin Lover" também é um filme sobre o poder da arte, que relembra um período de ouro do cinema italiano, sempre com alguma nostalgia, surgindo como uma dramédia que procura mesclar elementos de tragédia e comédia, apresentando um conjunto de personagens que conseguem manter o nosso interesse. Lluís Homar protagoniza aquele que é muito provavelmente um dos momentos mais comoventes do filme. Veja-se quando começa a falar sobre os sentimentos que Saverio transmitiu em vida, comentando alguns dos trechos dos filmes protagonizados pelo actor e os bastidores dos mesmos, enquanto Comencini corta de forma amiúde para Ramona, Rita, Stephanie, Susanna, Segunda e Solveig, com estas a encontrarem-se comovidas com as imagens que são transmitidas no grande ecrã, bem como com as palavras ternas de Pedro. Também "Latin Lover" surge como uma carta de despedida, em particular, a Virna Lisi, com Cristina Comencini a criar uma obra cinematográfica onde a actriz e as restantes figuras femininas têm oportunidade para sobressair, enquanto apresenta uma nostalgia desarmante em relação ao mistério das grandes estrelas de outrora e à História do Cinema Italiano, com "Latin Lover" a desmontar a figura do amante latino e a exibir uma reunião familiar fervilhante, sempre com algum drama e humor à mistura.

Título original: "Latin Lover".
Realizadora: Cristina Comencini.
Argumento: Giulia Calenda e Cristina Comencini.
Elenco: Marisa Paredes, Angela Finocchiaro, Valeria Bruni Tedeschi, Candela Peña, Francesco Scianna, Pihla Viitala, Jordi Mollà, Virna Lisi.

Sem comentários: