20 abril 2016

Resenha Crítica: "Dramma della gelosia (tutti i particolari in cronaca)"

 Com uma série de ingredientes típicos das comédias à italiana, tais como encontrar o humor em situações trágicas, os sentimentos expostos de forma exacerbada, irreverência, desejo de cariz sexual e até algumas pequenas porções de comentário político e social, "Dramma della gelosia (tutti i particolari in cronaca)" coloca-nos diante da reconstituição dos episódios que antecederam um assassinato, enquanto nos apresenta a um trio de protagonistas deveras peculiar. Parte da narrativa é exposta em flashback, com alguns dos elementos que participam na reconstituição dos episódios, vivos ou mortos, a dirigirem-se em voice over para os seus interlocutores, ou para os espectadores, para além de quebrarem regularmente a "quarta parede". Diga-se que não faltam momentos de personagens a dirigirem-se para a câmara, ou a exporem as suas versões dos acontecimentos, enquanto os episódios do passado são reconstituídos no presente, sempre com alguma mordacidade, humor e tragédia. Uma das figuras fulcrais desta reconstituição é Oreste Nardi (Marcello Mastroianni), um indivíduo que trabalha na construção civil, comunista convicto, que a certa altura comete um acto violento, algo que descobrimos parcialmente no início de "Dramma della gelosia (tutti i particolari in cronaca)", com Ettore Scola a não ter problemas em utilizar as situações trágicas ao serviço do humor. O argumento ficou a cargo de Ettore Scola, bem como da dupla Age & Scarpelli, com o trio a contar com uma experiência notória na escrita de filmes deste subgénero, tendo em "Dramma della gelosia (tutti i particolari in cronaca)" mais um exemplar digno de merecer alguma atenção. Não faltam momentos românticos em autênticas lixeiras, personagens depauperados, traições, praias poluídas, tentativas de suicídio, uma morte, alguma violência e sentimentos expostos de forma bem viva, enquanto Ettore Scola cria mais um bom exemplar das comédias à italiana, contando com um elenco competente, ou Marcello Mastroianni, Monica Vitti e Giancarlo Giannini não elevassem e muito os personagens que interpretam. De roupas simples, cabelo desgrenhado, unhas degradadas devido ao trabalho nas obras, um feitio peculiar, Oreste tem em Marcello Mastroianni um intérprete à altura, com o actor a exibir mais uma vez a sua capacidade para o humor, protagonizando alguns momentos dignos de atenção, sobretudo quando está ao lado de Monica Vitti, recuperando uma parceria que já resultara, ainda que em moldes distintos, em "La Notte".

Marcello Mastroianni tanto é capaz de interpretar o protagonista galanteador e sedutor como consegue convencer a dar vida a um maltrapilho, algo que já tinha demonstrado em obras como "I soliti ignoti". No caso de "Dramma della gelosia (tutti i particolari in cronaca)", Marcello Mastroianni consegue expressar quer o lado mais ingénuo e psicologicamente frágil, quer a faceta mais intensa e rude de Oreste, bem como os valores algo conservadores deste personagem que apresenta uma enorme prontidão para expor as suas opiniões políticas, mesmo quando não é questionado sobre o assunto. Veja-se a cena na qual relata um encontro na praia com Adelaide Ciafrocchi (Monica Vitti), expondo de forma bem viva o desagrado pelo facto deste local se encontrar recheado de lixo, com Ettore Scola a não poupar em planos mais abertos nos quais podemos ficar com a noção das poucas condições destes espaços de Roma por onde circulam os personagens. Diga-se que este é um dos diversos momentos em que Ettore Scola incute alguma irreverência a "Dramma della gelosia (tutti i particolari in cronaca)", ou não ficássemos diante dos personagens interpretados por Marcello Mastroianni e e Monica Vitti na praia, num episódio aparentemente feliz entre a dupla, enquanto Oreste relata no presente, aquilo que aconteceu no passado, até parar o seu discurso para se unir a Adelaide, com os dois tempos da narrativa a colidirem de forma deveras inspirada. O momento na praia, descrito anteriormente, é marcado por algum humor e pela subversão de alguns clichés das comédias românticas, embora "Dramma della gelosia (tutti i particolari in cronaca)" seja muitas das vezes pontuado pela tragédia, com o seu final a não deixar margem para dúvidas, com Ettore Scola a respeitar, em parte, os princípios deste subgénero muito italiano. Veja-se o final de "La grande guerra" de Mario Monicelli, ou de "I soliti ignoti" do mesmo cineasta, ou "Divorzio all'italiana" de Pietro Germi, entre tantos outros exemplos. No caso de "I soliti ignoti" e "Divorzio all'italiana", ambos os cineastas optaram pelo falso final feliz, enquanto que em "Dramma della gelosia (tutti i particolari in cronaca)", Ettore Scola não deixa margem para dúvidas em relação ao estado caótico da mente do protagonista. Oreste e Adelaide entraram pela primeira vez em contacto numa Festa de l'Unità, um evento marcado por alguma diversão, mas também pelo seu pendor político. Adelaide e Oreste acabam por iniciar uma relação, algo que promete diversos problemas quer a nível inicial (devido ao protagonista ser casado), quer quando a dupla conhece Nello Serafini (Giancarlo Giannini), um pizzeiro, quer no final, quando o desastre acontece. Oreste é casado com uma mulher (Josefina Serratosa) robusta, que se queixa da falta de atenção do esposo, com esta a surgir como uma das diversas personagens que se dirigem para a câmara e "desabafam" com o espectador. Josefina Serratosa tem um momento para sobressair quando a personagem que interpreta resolve entrar em contacto com Adelaide, protagonizando um episódio mais violento. Adelaide é uma florista que procura aprender inglês (algo que resulta num gag recorrente no qual a personagem repete "what a lovely day today"), contando com uma situação financeira pouco famosa e uma enorme facilidade para se apaixonar.

Monica Vitti é exímia a conseguir transmitir os estados de espírito mais dicotómicos, algo que não é diferente neste filme, com a actriz a tanto exibir a alegria de Adelaide como a tristeza, ou a confusão, entre outros sentimentos que assolam a alma desta figura feminina que desperta a atenção dos homens. A relação entre Oreste e Adelaide é marcada por uma candura inicial, acompanhada por uma série de episódios que utilizam, subvertem e satirizam os clichés das comédias românticas, com a banda sonora a contribuir para adensar esta situação. O ritmo da música a espaços ganha contornos mais exagerados nas situações românticas entre Adelaide e Oreste, seja quando estes se encontram a correr na praia, ou num piquenique na lixeira. O espaço da cidade de Roma é exposto com alguma crueza e mordacidade, com Ettore Scola a estar longe de nos apresentar um local pronto a figurar nos cartões postais, mas sim um território marcado pelo lixo, gentes depauperadas, prostituição e uma atmosfera política fervilhante. Veja-se quando Oreste, antes de beijar Adelaide, pede para esta votar no Partido Comunista, algo que subverte por completo aquilo que esperamos num momento mais romântico, enquanto Marcello Mastroianni e Monica Vitti se parecem divertir imenso nestes trechos. Tudo muda quando Adelaide e Oreste vão a uma pizzaria, com a primeira a receber uma pizza em formato de coração. Quem envia a pizza é Nello, com Giancarlo Giannini a incutir um estilo engatatão a este pizzeiro que se envolve com Adelaide, após formar amizade com esta e Oreste. Adelaide, Nello e Oreste formam um triângulo amoroso que protagoniza alguns momentos intensos ao longo do filme, enquanto Ettore Scola não parece ter problemas em puxar pelos limites dos protagonistas. Os personagens interpretados por Marcello Mastroianni, Monica Vitti e Giancarlo Giannini contam com uma situação financeira pouco aprazível, algo comum a diversos elementos que povoam a narrativa do filme, com excepção de Amleto di Meo (Hercules Cortes), um dos pretendentes da segunda, um indivíduo robusto e algo abrutalhado, que não tem problemas em humilhar os seus subordinados. Diga-se que o filme conta com alguns personagens secundários que a espaços se conseguem destacar, entre as quais, Silvana (Marisa Merlini), a irmã de Adelaide, uma prostituta bastante religiosa, ou Ughetto (Manuel Zarzo), um amigo de Oreste que apresenta uma faceta lacónica, limitando-se muitas das vezes a ouvir o protagonista. No entanto, o maior destaque centra-se em Oreste, Nello e Adelaide, com o trio a não ter problemas em expor a sua opinião, ou versão, sobre os episódios que precederam um assassinato (uma situação que proporciona testemunhos divergentes, com a memória de alguns elementos a parecer demasiado selectiva). No hospital, a presença regular de Adelaide é encarada quase como uma piada por parte dos médicos e enfermeiros, com Ettore Scola a não ter problemas em pegar numa situação trágica e transformá-la num momento de humor: uma consulta no psicanalista ganha contornos caricatos quando o médico abandona a sala e deixa a paciente a falar sozinha; uma tentativa de suicídio pode transformar-se rapidamente num trecho simultaneamente romântico e peculiar, entre outras situações.

 A influência neorrealista também parece estar presente em "Dramma della gelosia (tutti i particolari in cronaca)", com Ettore Scola a apresentar um lado menos positivo da cidade de Roma, ou das suas margens, enquanto nos coloca diante de personagens que não contam com grandes possibilidades financeiras, ou enormes expectativas para o futuro. O lixo aparece muitas das vezes a contaminar os cenários, enquanto uma mosca teima em surgir diante de Oreste e Adelaide, quase como um sinal premonitório de que a relação não vai terminar da melhor forma. A presença da mosca surge como um gag recorrente (a própria câmara de filmar, a espaços, transmite a sensação de acompanhar os movimentos deste insecto díptero), com Ettore Scola a conseguir gerir habilmente as diferentes facetas desta obra cinematográfica, com "Dramma della gelosia (tutti i particolari in cronaca)" a deambular entre a comédia, a tragédia, o drama, a sátira social, enquanto aborda, ainda que levemente, o contexto político e económico de Itália. Pelo meio, não faltam diversas situações peculiares entre o trio de protagonistas, com Adelaide a viver relações distintas com os seus "dois amores" (a certa altura ainda tentam uma relação a três, mas como é esperado, a mesma não resulta). Oreste é mais maduro, mas nem por isso menos impulsivo e ingénuo. Nello é mais jovem, oriundo da região da Toscana, igualmente impulsivo e pronto a demonstrar os seus sentimentos. Monica Vitti brilha quer ao lado de Marcello Mastroianni (os close-ups favorecem imenso a expressividade e carisma do actor), quer quando se encontra na companhia de Giancarlo Giannini, com Ettore Scola a saber aproveitar as dinâmicas entre os elementos do elenco principal. Tudo começa com a reconstrução dos eventos que conduziram a um homicídio, tendo em vista a aferir a culpabilidade de um personagem, com o espectador a tornar-se testemunha e cúmplice destes episódios, enquanto é colocado diante de um conjunto de situações e figuras que facilmente captam a atenção. Com interpretações dignas de atenção por parte de Marcello Mastroianni, Monica Vitti e Giancarlo Giannini, uma representação mordaz da cidade de Roma, uma atenção notória à situação política e social de Itália, "Dramma della gelosia (tutti i particolari in cronaca)" surge como mais um dos bons exemplares das comédias à italiana.

Título original: "Dramma della gelosia (tutti i particolari in cronaca)".
Título em Portugal: "Ciúme, ciúmes e ciumentos"
Realizador: Ettore Scola.
Argumento: Age & Scarpelli e Ettore Scola.
Elenco: Marcello Mastroianni, Monica Vitti, Giancarlo Giannini, Hércules Cortés.
Data de estreia em Itália: 30 de Abril de 1970.

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