01 abril 2016

Resenha Crítica: "Asino Vola" (Donkey Flies)

 Filmes simples e bem intencionado, destinado sobretudo aos mais novos, embora também consiga roubar um ou outro sorriso aos adultos, "Asino Vola" conta com uma candura e inocência desarmantes, bem como algo muito típico do cinema italiano, em particular, a capacidade de encontrar humor na tragédia. Não é um filme de enorme profundidade, ou capaz de nos desafiar, procurando compensar a sua simplicidade com uma história relativamente suportável, que a espaços apenas parece ter conteúdo para menos de uma hora de duração, enquanto nos coloca diante de um jovem que procura realizar o sonho de fazer parte da banda da aldeia. Realizado por Marcello Fonte e Paolo Tripodi, "Asino Vola" apresenta-nos a Maurizio (Francesco Tramontana), um rapaz de sete anos de idade, que vive com os pais e outros familiares, com todos a apresentarem poucas posses materiais e financeiras, enquanto o jovem conta com uma mente fantasiosa e um enorme desejo de fazer parte da banda local. A história de Maurizio é exposta em flashback, com o protagonista, em idade adulta (Luigi Lo Cascio), a narrar alguns dos episódios que ocorreram naquele que considera ser um dos anos mais marcantes da sua vida. Maurizio é um jovem solitário, que fala com N’Giulina (voz de Maria Grazia Cucinotta, uma escolha bastante feliz, com esta a apresentar um timing assinalável para os momentos cómicos), uma galinha sardónica e provocadora, bem como com Mosè (voz de Lino Banfi), um burro que se auto-intitula de inteligente, com este último a surgir como o maior confidente do protagonista. Embora não tenha uma expressividade portentosa, Francesco Tramontana convence como Maurizio, um jovem que procura fazer de tudo para aprender a tocar um instrumento musical. O problema é que os pais de Maurizio não têm dinheiro para comprar um instrumento musical, com Rosa (Silvia Gallerano - numa interpretação que serve os propósitos da personagem a quem dá vida), a mãe do protagonista, a encarar o desejo do filho como mais um devaneio do mesmo, enquanto o pai (Marcello Fonte) parece acreditar que o rebento pode alcançar o seu sonho. Quem também parece acreditar em Maurizio é o maestro Angelo (Antonello Pensabene), o indivíduo que ensina os jovens da banda local, procurando emprestar um tambor ao rapaz, enquanto este último começa a desenvolver um enorme gosto pela música. O tambor pertence a Don Lauro (Marcello Fonte), o antigo líder do grupo musical, um indivíduo que perdeu parte das suas capacidades vocais. Don Lauro é um indivíduo vetusto e algo rezingão, que inicialmente se opõe à utilização do seu tambor, bem como à possibilidade de Maurizio tocar este instrumento, algo que deixa o jovem de volta à estaca zero, até encontrar Don Paolino (Marcello Fonte). Se Don Lauro apresenta algumas reticências em relação à possibilidade de Maurizio aprender a tocar tambor, já Don Paolino procura ensinar e incentivar o rapaz, com Maurizio a parecer ter neste desejo algo mais profundo do que um mero devaneio de um petiz que ainda nem chegou à adolescência. É um sonho deveras complicado de realizar, com Maurizio, o protagonista, a perceber que é necessária imensa persistência, muito trabalho, doses consideráveis de talento e alguma sorte, tendo em vista a a colocar o mesmo em prática, algo que não parece dissuadir o rapaz.

 Como podem ter reparado, a resenha a "Asino Vola" já conta com três menções a Marcello Fonte, um actor (e realizador) que ainda dá vida a Mimi, um mecânico local, algo que exibe o empenho do intérprete, embora este nem sempre convença, parecendo muitas das vezes que o seu trabalho para compor personagens passa por alterar o tom de voz e utilizar uma caracterização distinta. Não chega para tirar o espectador do enredo, mas a espaços parece que estamos diante do espectáculo de variedades de Marcello Fonte, embora o actor consiga apresentar um ou outro bom apontamento (não é Peter Sellers quem quer, mas quem pode). Por sua vez, o trabalho vocal de Maria Gracia Cucinotta e Lino Banfi surpreende pela positiva, com N’Giulina e Mosè a protagonizarem alguns momentos de humor, sobretudo a primeira, com a galinha a apresentar uma personalidade deveras peculiar, escarnecendo muitas das vezes de Maurizio. Veja-se quando salienta a Maurizio que os jovens que aprendem a tocar tambor ficam anões, com N'Giulina a parecer uma versão extremista da mãe do protagonista. Se o pai do jovem parece acreditar no potencial do filho, já a mãe conta com algumas reservas, pensando que o desejo de Maurizio é apenas mais um devaneio do rapaz, com esta mulher a apresentar as suas ideias de forma bem viva. Maurizio habita numa casa modesta, dotada de poucas condições materiais, tal como diversos habitantes deste espaço das "margens" de Itália, situado na região da Calábria (Fiumara). Veja-se o espaço onde Maurizio e os jovens têm lições de música, um local degradado, com parcas condições para o ensino. O personagem interpretado por Francesco Tramontana vive nas imediações de uma lixeira, um espaço onde é despejado tudo aquilo de que as pessoas não necessitam, com Maurizio a aproveitar os objectos que se encontram na local ao serviço da imaginação. Não faltam televisores estragados, carros que deixaram de funcionar, ferros de engomar, entre outros objectos, com Maurizio a ter aqui o seu "parque de diversões", com este local a permitir que o rapaz dê largas à sua imaginação. Diga-se que Maurizio não é o único a contar com uma imaginação fértil, com Marcello Fonte e Paolo Tripodi a exibirem, ainda que a espaços, alguma criatividade e irreverência, algo visível quando optam por incluir "nuvens" em formato de animação no meio das imagens em movimento, quase como se estivéssemos num livro de banda desenhada, que ilustram os pensamentos de alguns personagens.

"Asino Vola" é, sobretudo, um feel good movie, pontuado por um tom quase de fábula, que evidencia uma característica muito italiana de encontrar humor em situações trágicas (basta recordar alguns trabalhos magníficos de Mario Monicelli ou Pietro Germi). Veja-se que o protagonista e a sua família vivem de forma muito modesta, enquanto a população local também não prima pela saúde financeira. Maurizio protagoniza uma série de peripécias e conhece uma miríade de figuras, até concretizar o seu sonho, enquanto ficamos a conhecer um pouco deste espaço de características quase rurais, onde quase tudo e todos se parecem conhecer. Marcello Fonte e Paolo Tripodi nem sempre conseguem aproveitar e aprofundar as temáticas e os elementos que lançam, algo latente no pouco desenvolvimento das dinâmicas entre Maurizio e os restantes colegas da banda, ou a superficialidade de diversos personagens secundários, entre outros exemplos. O filme conta ainda com uma mensagem mais lúdica para miúdos e graúdos, em particular, para nunca se desistir dos sonhos, independentemente das adversidades, ou Maurizio, no presente, não fosse um maestro de sucesso, que não esquece a sua galinha e mantém o seu amor pela música. Maurizio não esquece o passado e o território onde habitou, um local marcado por diversas tradições e gentes trabalhadoras que, aos poucos, também ficamos a conhecer ao longo do enredo de "Asino Vola", uma obra cinematográfica que conta com uma atmosfera fantasiosa e sonhadora. Com um tom naïf que facilmente nos desarma, algumas doses de humor e candura, uma banda sonora que se adequa à leveza da narrativa, "Asino Vola" surge como um pedacinho simples de cinema, que procura chegar aos mais novos e conquistar pelo caminho os mais velhos.

Título original: "Asino Vola".
Realizador: Marcello Fonte e Paolo Tripodi.
Argumento: Marcello Fonte, Paolo Tripodi, Giuliano Miniati.
Elenco: Francesco Tramontana, Antonello Pensabene, Silvia Gallerano, Marcello Fonte, Luigi Lo Cascio.

Sem comentários: