07 abril 2016

Resenha Crítica: "Alaska" (2015)

 O poder do cinema é algo de fascinante. Por vezes esperamos muito de um filme e este revela-se uma desilusão. Por vezes não contamos com grandes expectativas em relação a uma obra cinematográfica e sai uma agradável surpresa. "Alaska", a nova longa-metragem realizada por Claudio Cupellini, insere-se no lote das surpresas muito agradáveis. O nome Alasca provém da palavra Alakshak, que significa "grande terra" ou "grande península". No caso de "Alaska", Claudio Cupellini deixa-nos diante de um filme de grandes emoções e sensações, ou se preferirem, perante uma dupla de protagonistas que nos arrasta consigo para o interior de uma relação intensa, que parece tardar em encontrar o equilíbrio necessário. Se a região do Alasca é famosa pelo estereótipo do clima frio durante o ano inteiro, já "Alaska" não nos provoca indiferença ou frieza, bem pelo contrário. É um filme que nos aquece a alma, que faz com que nos aproximemos dos seus personagens e nos embrenhemos no interior da sua relação intrincada, com o argumento a apresentar alguns momentos de classe, enquanto Elio Germano e Astrid Bergès-Frisbey nos surpreendem com interpretações de relevo e uma química indelével. Germano e Bergès-Frisbey interpretam personagens de personalidades distintas, unidas pela solidão e pela procura de afirmação, mas também por sentimentos mais fortes, seja este um amor louco ou um desejo fervoroso que é incapaz de ser totalmente apagado pelas adversidades. A balança do destino parece andar quase sempre desequilibrada no que diz respeito à relação entre Fausto (Elio Germano) e Nadine (Astrid Bergès-Frisbey), com Claudio Cupellini a não ter problemas em testar estes dois personagens e colocá-los diante de situações mais negras. No início do filme, é Fausto quem se encontra numa posição mais confortável e confiante. Por sua vez, Nadine está numa posição pouco favorável. Nadine participa num processo de casting, em Paris, para ser modelo, a pedido de Nicolas (Antoine Oppenheim), um indivíduo que considera que a protagonista tem hipóteses de enveredar nesta profissão. Fausto é um italiano que vive em Paris, que trabalha num hotel cheio de regras de etiqueta, onde os clientes pouco ou nada se parecem preocupar com os funcionários. Nadine e Fausto encontram-se no terraço, com ambos a procurarem descontrair. Fausto procura descomprimir do stress diário, inerente ao facto de ter que apresentar uma enorme amabilidade e cuidado para com os clientes, mesmo quando estes apresentam comportamentos incorrectos. Nadine pelo facto do casting não ter começado da melhor maneira. Ela é frágil, quase como se fosse uma boneca que acabou de sair da embalagem e se depara com a crueza do mundo real, embora esta descrição não signifique que Nadine não conta com uma enorme vivacidade e determinação, bem pelo contrário. Ele é galanteador, bastante ambicioso e um pouco mais experiente do que Nadine. Esta encontra-se coberta com um casaco, a tapar parte do bikini, apresentando uma fragilidade latente quando se depara com Fausto no terraço do hotel. Fausto procura meter conversa com esta jovem, animá-la e conquistá-la, enquanto Nadine não tem problemas em brincar com a farda de "pinguim" do primeiro, embora pareça agradada com a conversa, após rejeitar uma aproximação inicial do protagonista. 

 A conversa no terraço, pontuada pela afabilidade, conduz Fausto a decidir mostrar um dos quartos mais caros do hotel a Nadine, daqueles que custam quinze mil euros a noite, com este espaço a ter sido alugado por um indivíduo que supostamente não deveria estar naquele local, àquela hora, ou pelo menos, é isso que o personagem interpretado por Elio Germano pensava. Ledo engano. O cliente chega, chama a gerência do hotel e Fausto perde a cabeça, acabando por agredir violentamente o primeiro. Os momentos mais cândidos e belos, quase infantis, entre Fausto e Nadine, neste espaço de luxo que inclui uma piscina, acabam por ser contrastados com a tensão e inquietação inerente à fuga, com o primeiro a procurar que a jovem fuja sem ser vista pela polícia. Claudio Cupellini desarma-nos por completo. Coloca-nos diante de dois estranhos, conseguindo que gostemos facilmente dos mesmos e geremos uma certa empatia em relação aos protagonistas, até desfazer a oportunidade destes se conhecerem melhor, pelo menos nos tempos mais próximos, ou Fausto não fosse preso, pelo período de dois anos. Por sua vez, Nadine é aceite e consegue o emprego como modelo. A balança entre estes personagens desequilibra-se por completo, com Fausto a encontrar-se agora na posição mais frágil. Ela ainda tenta visitá-lo uma vez, parecendo surgir como a única esperança de Fausto. Os dois anos na prisão parecem ter sido duros para Fausto, algo que este salienta quando reencontra Nadine e apresenta alguma rudeza nos seus gestos. As cartas que escreveu para Nadine, na prisão, surgiram como um meio para evitar perder o controlo ou o contacto com a humanidade e sanidade, com o espaço prisional a parecer mexer com Fausto de forma indelével. O espaço prisional pode contar com paredes verdes, mas este cor está longe de representar a esperança para a maioria dos presidiários, embora esta tonalidade quase que simbolize a confiança que Fausto deposita em Nadine, mesmo que esta não o visite, até ao dia da soltura. O reencontro demorou praticamente dois anos. Ambos mudaram e sabem disso, tal como o espectador. Ela já sabe falar italiano, fruto de trabalhar como modelo em Milão, tirou a carta de condução e comprou um carro, enquanto ele pura e simplesmente não parece ter ideia do que fazer da vida, com os sonhos que tinha a desfazerem-se a partir do momento em que foi preso. Na prisão, este encontra uma solidão atroz, tendo em Benoit (Roschdy Zem) uma das poucas companhias, com este último a desenvolver uma relação de respeito em relação a Fausto. Diga-se que Fausto é uma figura solitária, pelo menos no início do filme, algo latente quando é preso e não tem uma única visita, uma situação que adensa as dificuldades de viver neste espaço. A saída da prisão é marcada pela estranheza, mas também por uma condução magistral dos actores. Elio Germano transmite a ideia de que Fausto parece querer recuperar o tempo perdido, aquele que não teve ao lado de Nadine e finalmente poder estar ao lado desta figura que idealizou e venerou, enquanto esteve preso. Astrid Bergès-Frisbey exibe as dúvidas desta mulher, com os seus silêncios, num bar, bem como os seus gestos algo inseguros, a demonstrarem que Nadine não sabe bem aquilo que ainda sente em relação a Fausto. Diga-se que Astrid Bergès-Frisbey consegue muitas das vezes convencer-nos com gestos aparentemente simples. Veja-se quando Nadine se encontra no casting, com os gestos das suas mãos a indicarem alguma insegurança, com Astrid Bergès-Frisbey a incutir sobriedade e candura a esta figura feminina que procura encontrar o seu lugar no Mundo

 Fausto fica a viver na casa de Nadine, em Itália, embora a relação entre ambos nem sempre seja marcada por uma enorme felicidade, com o casal a raramente conseguir encontrar o equilíbrio necessário para conseguir viver de forma estável. Traições, mentiras, reviravoltas, surpresas do destino, ambição desmedida, obsessões e actos nem sempre pensados acabam por afectar a vida de Nadine e Fausto, com estes dois elementos a estarem quase sempre no centro de todo o enredo de "Alaska". Elio Germano incute uma intensidade latente a Fausto, conseguindo exprimir os sentimentos deste personagem de forma bem viva e convincente, ou não estivéssemos diante de uma figura que tanto parte facilmente para a violência, ou comete actos menos ponderados, como apresenta uma ternura latente em relação a Nadine. Astrid Bergès-Frisbey aparece mais frágil como Nadine, mas nem por isso menos complexa, com a actriz a convencer e surpreender, com a dupla de protagonistas a compelir o espectador a sentir-se quase um intruso no interior desta relação, que a espaços nos parece dizer imenso. Os sentimentos entre Fausto e Nadine são completamente universais, bem como as suas ansiedades, frustrações, obsessões e desilusões, algo que contribui para a afinidade entre os espectadores e os personagens. A banda sonora é muitas das vezes essencial para adensar os sentimentos que nos são transmitidos e os episódios vividos por estes personagens. Veja-se quando os protagonistas estão em fuga, no elevador, com a música a apresentar ritmos mais tensos e inquietantes, ou quando Fausto escreve a Nadine e é transmitida toda uma sensação de melancolia e esperança, ou os trechos no Alaska, um clube nocturno que promete surgir como um espaço essencial do enredo. A certa altura, Fausto conhece Sandro (Valerio Binasco), um indivíduo com uma personalidade peculiar e extrovertida, que necessita de dinheiro para abrir o Alaska, um clube nocturno que parece uma excelente oportunidade de negócio. Fausto utiliza as poupanças de Nadine, após estar farto de não conseguir um emprego que o motivasse, algo que irrita esta mulher. É a ambição de Fausto a falar mais alto, com este indivíduo a procurar afirmar-se a todo o custo, enquanto é colocado diante de uma tentação difícil de resistir. A discussão entre Nadine e Fausto ocorre, em parte, no carro da primeira, com um acidente a acontecer e a trazer uma nova reviravolta na vida do casal. Nadine fica ferida, necessitando de fazer um tratamento demorado para voltar a andar sem o auxílio de muletas, algo que altera novamente o equilíbrio entre a primeira e Fausto. A personagem interpretada por Astrid Bergès-Frisbey perde o trabalho como modelo. Fausto prospera. A relação entre Nadine e Fausto degrada-se, com o casal a ser colocados diante de diversas tentações e inquietações, com Claudio Cupellini a deixar-nos a certa altura na dúvida em relação àquilo que irá acontecer a ambos. Fausto e Nadine magoam-se, amam-se, discutem, apresentam comportamentos nem sempre correctos, com o Alaska a surgir como um espaço que representa paradigmaticamente a ambição do protagonista e o seu desejo de ascensão social. Não iremos revelar o desfecho do filme. No entanto, é quase impossível não torcer por estas duas figuras que facilmente despertam a nossa atenção e captam todo o nosso interesse, com "Alaska" a surgir como um romance de pendor dramático que consegue mexer com os sentimentos do espectador. 

 O argumento de Claudio Cupellini, Filippo Gravino, Guido Iuculano apresenta uma assertividade assinalável a explorar esta relação intensa e problemática, enquanto o cineasta consegue criar toda uma dinâmica envolvente que nos prende à história de Fausto e Nadine, algo elevado pela dupla de protagonistas. O filme conta ainda com alguns elementos secundários que sobressaem, tais como Antoine Oppenheim, Elena Radonicich, Paolo Pierobon e Valerio Binasco. Paolo Pierobon como Marco, o chefe de Nadine, a partir do momento em que esta decide trabalhar num bar, com o primeiro a surgir como uma figura algo violenta, que promete provocar estragos; Elena Radonicich como Francesca, uma mulher de largas posses financeiras, que chega a ficar noiva de Fausto; Valerio Binasco como Sandro, um indivíduo de personalidade completamente destrutiva, que não parece conseguir manter um negócio ou levar um estilo de vida estável; Antoine Oppenheim como Nicolas, um elemento que se chega a envolver com Nadine. Todos estes elementos contam com espaço para sobressair em determinados momentos do enredo, enquanto Claudio Cupellini nos deixa diante dos avanços e recuos de Nadine e Fausto, dois jovens que se amam, mas tardam em conseguir encontrar um equilíbrio. Quando é preso, Fausto pergunta a Nadine se esta vai visitá-lo à prisão de La Santé, com a protagonista a responder que não sabe. Numa fase mais avançada do enredo, quando Fausto se encontra noivo de Francesca e se reencontra num momento mais emotivo com Nadine, é este quem diz que não sabe se é o último encontro entre os dois. No final, Cupellini quase que nos deixa diante de um movimento circular, bem como com a certeza de que Nadine e Fausto vão encontrar sempre grandes dificuldades para manterem uma relação estável, embora tenham uma ligação demasiado forte para se conseguirem afastar por completo um do outro. É certo que no final, pelo menos um dos personagens parece ter encontrado o seu equilíbrio e percebido aquilo que mais importa na sua vida, mas essa percepção custou imenso a chegar. Aqueles momentos iniciais, onde Nadine e Fausto estão no terraço, em Paris, não pareciam indicar que este casal viria a conhecer tantos episódios marcantes em Itália. Nadine marca a vida de Fausto e vice-versa. Ambos marcam o espectador. São figuras solitárias, que cometem muitos erros, encontram sucessos e insucessos profissionais, procuram encontrar alguma estabilidade emocional e conciliar as suas ambições com a vida amorosa, enquanto Claudio Cupellini procura explorar esta relação ao máximo. Não quer dizer que Nadine e Fausto estejam sempre juntos, bem pelo contrário, mas é impossível conter o desejo de ver esta dupla a ser feliz. Pelo meio, "Alaska" aborda temáticas como as dificuldades em conseguir emprego, a vida na prisão, as ansiedades, sonhos, ambições e desilusões dos jovens, entre outras. O título do filme remete quer para o clube nocturno de Fausto, quer para uma região considerada algo hostil, um pouco a fazer recordar a relação por vezes abrasiva entre os protagonistas e os territórios que os rodeiam. No caso de Fausto, as suas ambições minam muitas das vezes o seu bom senso, tal como a sua personalidade impulsiva, agressiva e obsessiva, embora seja um personagem complexo, que facilmente consegue compelir o espectador a torcer para que este seja feliz. A influência dos filmes de François Truffaut, tais como "La Femme d'à cotê" e "La sirène du Mississipi", parece notória em "Alaska", com Claudio Cupellini a colocar-nos diante de uma relação amorosa marcada por alguns excessos, obsessões, traições, episódios conturbados e momentos de maior ternura. Em "La sirène du Mississipi", a personagem interpretada por Catherine Deneuve furtou o dinheiro do protagonista, algo que se inverte em "Alaska", enquanto em "La Femme d'à cotê" ficamos diante de uma dupla de protagonistas que mantém uma relação obsessiva. Com uma dinâmica e química assinaláveis entre Elio Germano e Astrid Bergès-Frisbey, uma banda sonora capaz de incrementar diversos episódios da narrativa e uma cinematografia primorosa, "Alaska" surge como um romance marcante e envolvente, que facilmente agarra a nossa atenção.

Título original: "Alaska".
Realizador: Claudio Cupellini.
Argumento: Claudio Cupellini, Filippo Gravino, Guido Iuculano.
Elenco: Elio Germano, Valerio Binasco, Paolo Pierobon, Astrid Berges-Frisbey, Elena Radonicich, Antoine Oppenheim, Roschdy Zem.

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