14 abril 2016

Entrevista a Luca Marinelli sobre "Lo chiamavano Jeeg Robot" e "Non essere cattivo"

 Actor de talento reconhecido, que conta com um currículo cada vez mais interessante, Luca Marinelli esteve em Portugal na edição de 2016 do 8 ½ Festa do Cinema Italiano, tendo em vista a apresentar 'Lo chiamavano Jeeg Robot' e 'Non essere cattivo'. O Rick's Cinema, através deste blogger, aproveitou a oportunidade para entrevistar Luca Marinelli (fotografia de © Miguel Soares), numa conversa que teve lugar no Hotel Tivoli e contou com a preciosa ajuda da tradutora do Festival (as respostas de Luca Marinelli encontram-se a bold/negrito). Vale a pena recordar que 'Lo chiamavano Jeeg Robot' e 'Non essere cattivo' são os filmes que contam com mais nomeações na 60ª edição dos prémios David di Donatello, com cada obra cinematográfica a contar com dezasseis nomeações. Luca Marinelli está nomeado para Melhor Actor ('Non essere cattivo') e Melhor Actor Secundário ('Lo chiamavano Jeeg Robot') na 60ª edição dos prémios David di Donatello. A dupla nomeação é encarada de forma bastante respeitosa por parte de Luca Marinelli, algo que o próprio salientou quando foi questionado sobre o assunto "(...) estou muito contente, para nós este prémio é como os Oscars italianos. Eu respeito muitíssimo este prémio, sobretudo tendo visto os nomes daqueles que já ganharam no passado. O facto de ter sido nomeado para dois prémios deixa-me muito contente e honrado".



 Instado a falar sobre as principais diferenças e semelhanças do trabalho que Gabriele Mainetti e Claudio Caligari efectuaram com os actores, Luca Marinelli preferiu abordar algumas das semelhanças e diferenças entre 'Lo chiamavano Jeeg Robot' e 'Non essere cattivo', tendo comentado que "Ambos os filmes são falados no dialecto de Roma e desenrolam-se na periferia desta cidade, um em Ostia ("Non essere cattivo"), outro em Tor Bella Monaca ('Lo chiamavano Jeeg Robot'). Um é inspirado na banda desenhada, o outro é um filme tipicamente caligariano, ou seja, muito real, que fala sobre uma realidade que existe. O 'Lo chiamavano Jeeg Robot' tem algo de fantástico, mas também de muito real, ou seja, esta periferia de Tor Bella Monaca. 
 Ambos os filmes apresentam argumentos cheios de coragem. O 'Lo chiamavano Jeeg Robot' quer contar algo de fantástico e acreditar nisso. O 'Non essere cattivo' tem a coragem de contar algo que as pessoas depois de verem o filme até nos agradeceram, porque sentiram que lhes dava voz, ou que representava a voz de alguém que conheceram e passou por esta experiência".

  O território onde se desenrola o enredo parece fulcral para o modo de agir e viver de diversos elementos de "Non essere cattivo" e "Lo chiamavano Jeeg Robot", algo que me conduziu a questionar Luca Marinelli se podemos efectuar essa interpretação, bem como se existiu todo um cuidado por parte quer de Claudio Caligari, quer de Gabriele Mainetti, para que os personagens parecessem figuras que habitam nestes espaços 'das margens'. A resposta do actor não tardou a chegar, com Luca Marinelli a salientar que "Existiu esse cuidado de fazer com que os personagens parecessem verdadeiros e que habitavam nestes lugares. No caso do filme do Claudio Caligari, estamos a falar de Ostia nos anos 90. Ele queria demonstrar uma maneira de aparecer fisicamente e representar este estilo e tipo de vidas. Em 'Lo chiamavano Jeeg Robot', também era importante representar os personagens como se estes habitassem em Tor Bella Monaca. Se calhar em 'Lo chiamavano Jeeg Robot', o Zingaro, o personagem que eu interpreto, é o único que quebra esta dinâmica. Até me chegou a fazer rir e ao realizador, porque é um personagem que se passeia num bairro do género, vestido de forma muito peculiar. O local onde habitam condiciona muito estes personagens, pois as periferias representam modos de vidas diferentes, que contam com outras regras, outros comportamentos e atmosferas. São lugares que condicionam o modus vivendi dos personagens".



Terminadas as comparações entre os dois filmes, o tema seguinte passou para o legado de Claudio Caligari: "Eu posso falar daquilo que o Claudio Caligari deixou em mim. Eu acho que o Claudio Caligari foi o último 'intelectual pasoliniano' verdadeiro. Um intelectual como Pasolini. O Pier Paolo Pasolini era uma das suas paixões, assim como o Martin Scorsese. Para mim, ele deixou filmes que são muito importantes para o cinema italiano, tais como 'Amore tossico' e 'L'odore della notte'. É um realizador que em três filmes, conseguiu deixar três monumentos (nota da tradução - o actor utilizou o termo monólitos, algo que foi livremente traduzido para monumentos) na História do Cinema Italiano. Ele tinha um grande amor pelo cinema e um grande amor pelo público. Fez transbordar em mim o amor por este trabalho". O foco das perguntas a Luca Marinelli continuou em 'Non essere cattivo', ou o actor não interpretasse Cesare, um dos protagonistas do filme. O Cesare é um personagem complexo, uma bomba relógio, que tanto apresenta um comportamento intempestivo, imprevisível e violento, como é capaz de cometer alguns actos mais ternos com a sobrinha. Nesse sentido, Luca Marinelli foi questionado se a complexidade de Cesare foi um dos motivos que o atraíram em relação ao personagem. Na resposta a esta questão, Luca Marinelli comentou que, "Um dos aspectos foi este que tu mencionas, o Cesare é um personagem muito complexo. Mas existem mais elementos que me atraíram neste personagem. O que mais me fascina na história e aquilo que mais me emocionou foi a amizade entre Cesare e Vittorio. O Cesare é um personagem que foi ajoelhado pela vida e simplesmente não se consegue levantar. Tem um amigo que lhe estende a mão para ajudá-lo a levantar-se, mas o Cesare simplesmente não se consegue levantar. A parte que mais me tocou foi esta história de amor entre estes dois amigos".




A dinâmica convincente entre Luca Marinelli e Alessandro Borghi foi o tema de outra das questões colocadas ao primeiro, nomeadamente, como é que se prepararam para interpretar estes personagens e trabalharam a dinâmica entre ambos para que esta transparecesse para o espectador: "Existiu uma alquimia entre mim e o Alessandro. Eu tenho a certeza de que o próprio Claudio Caligari viu imediatamente esta alquimia entre nós, algo que depois passou para o público. Nós ficámos muito amigos. Passámos muito tempo juntos durante as filmagens, saíamos, etc. O argumento estava muito bem escrito. Não se tratou apenas de ler o que estava no argumento, nós vivemos aquilo que estava no guião". Uma das tradições, ou pelo menos, algo que se está a tornar um hábito neste espaço, passa por efectuar uma pergunta com uma certa dose de risco ou idiotice para o entrevistado responder, algo que aconteceu quando procurei questionar se o Cesare poderia viver de acordo com um dos lemas de Nick Romano, um dos personagens principais de 'Knock on Any Door', de Nicholas Ray. A pergunta foi a seguinte: "A certa altura fico com a ideia de que o Cesare quase que poderia viver segundo o lema 'Live fast, die young and have a good-looking corpse'. Considera que o Cesare está consciente das possíveis consequências dos seus actos, ou pura e simplesmente é a única maneira que o personagem encontra para sobreviver e se afirmar junto daqueles que o rodeiam?" Luca Marinelli discordou e expôs a sua interpretação: "Não. Absolutamente não. Eu não creio que o Cesare viva de acordo com este lema. Os seus comportamentos são os únicos que ele conhece: o uso das drogas, os roubos, entre outros. Para ele é mais fácil roubar do que trabalhar. É mais fácil consumir drogas do que falar com um amigo. Ele não acredita na salvação através do trabalho, não consegue chegar a esta conclusão. O Cesare é demasiado desesperado. Ele no fim é morto, mas acho que é o Cesare que procura a morte".



 O cinema italiano conta com as "comédias à italiana", os "giallos", os "spaghetti westerns", os "polizziotteschi", entre outros géneros e subgéneros adaptados à realidade italiana. Nesse sentido, Luca Marinelli foi questionado se 'Lo chiamavano Jeeg Robot' pode significar que vamos contar com os filmes de "super-herói à italiana". Marinelli não parece ter grandes dúvidas em relação a esta situação: "Sim, absolutamente, tanto que alguns elementos do público denominaram o filme de 'spaghetti Marvel', porque o 'Lo chiamavano Jeeg Robot' tem um pouco de tudo ali dentro. Desde elementos da comédia à italiana, até à paixão pelo spaghetti western, é um filme fortemente italiano. Estou convencido de que este pode ser o princípio de um novo género, o 'spaghetti Marvel', ou talvez o 'amatriciana Marvel'".  Quando questionado sobre as possíveis razões para 'Lo chiamavano Jeeg Robot' estar a ser recebido de forma tão calorosa quer pelo público, quer por alguns sectores da crítica, o actor comentou que: "O Gabriele Mainetti é um realizador muito competente. Ele soube trabalhar com este género e contar uma história fantástica, com um realismo muito forte. É uma história fantástica, cheia de super-poderes, mas é algo em que todos nós nos podemos rever, porque o protagonista de 'Lo chiamavano Jeeg Robot' não é uma divindade como Thor, não é um personagem de quem estamos distantes. É um super-herói um pouco semelhante ao Spider-Man. Penso que também foi por isso que o público gostou. O filme também responde a uma pergunta muito interessante: "O que é que tu farias se tivesses super-poderes".

Com os ponteiros do relógio a avançarem de forma inexorável e o tempo da entrevista a estender-se mais do que o previsto, diversas perguntas acabaram por ficar de fora, embora ainda tenha mantido a questão da "praxe", ou seja, sobre os próximos trabalhos do entrevistado, no caso, sobre 'Tutto per una ragazza" e "Lasciati andare'. Luca Marinelli abordou, ainda que brevemente, os seus próximos trabalhos: Eu diverti-me imenso em ambos os filmes. São duas comédias muito diferentes, onde eu faço pequenos papéis. Num interpreto um pai bastante jovem ('Tutto per una ragazza'), no outro um personagem algo estranho ('Lasciati andare'). Um tem o Toni Servillo ('Lasciati andare'), o outro a Jasmine Trinca ('Tutto per una ragazza'). Ambos os realizadores são muito interessantes, gostei muito de trabalhar com eles". Muito obrigado ao Luca Marinelli por ter concedido esta entrevista.

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