05 abril 2016

Entrevista a Greta Scarano sobre "Suburra"

 "Suburra" estreia em Portugal a 21 de Abril de 2016, tendo sido exibido em antestreia na nona edição do 8 1/2 Festa do Cinema Italiano. O Rick's Cinema, através da figura deste blogger (Aníbal Santiago), teve a oportunidade de entrevistar Greta Scarano, a intérprete de Viola, uma personagem que ganha uma relevância surpreendente com o decorrer da narrativa. O filme é realizado por Stefano Sollima, um cineasta que é cada vez mais uma certeza no panorama do cinema italiano contemporâneo, algo que "ACAB" e "Suburra" comprovam. Na entrevista, Greta Scarano falou sobre a sua colaboração com Stefano Sollima, bem como sobre a preparação efectuada para interpretar a personagem, as desigualdades entre homens e mulheres no cinema, o papel da Netflix, entre outros assuntos. Pelo meio, uma história sobre um episódio caricato que ocorreu nas filmagens, que envolve Claudio Amendola, o intérprete de Samurai e a certeza de que Greta Scarano é uma excelente entrevistada e uma actriz que cada vez mais está a perder o rótulo de "promissora" para ganhar o estatuto de certeza. Fotos da autoria da Kirane Project.

Rick's Cinema: A Greta Scarano já trabalhou com o Stefano Sollima em "Romanzo Criminale". Trabalhou com o Pierfrancesco Favini em "Senza nessuna pietà". Como foi reencontrar todas estas caras conhecidas em "Suburra"?

Greta Scarano: Foram experiências diferentes. O Stefano Sollima dirigiu-me em "Romanzo Criminale", mas eu tinha um papel muito pequeno. No "Suburra" é que tive uma verdadeira oportunidade para trabalhar com o Stefano Sollima. Ele é um excelente realizador. O Stefano dá-te os instrumentos para trabalhares, algo que não é muito comum. Ele dá-te tempo, insere-te na cena e faz com que te sintas viva nessa cena.
 No caso do Pierfrancesco Favino, foi algo completamente diferente, pois em "Senza nessuna pietà" estávamos muito ligados, já que interpretámos um casal de namorados. No "Suburra", eu nunca o vi, podemos nos ter cruzado uma vez nas filmagens, mas não no decorrer do filme. Não tive a oportunidade de trabalhar novamente com ele, mas penso que o Pierfrancesco Favino fez um excelente trabalho. Ele criou um personagem a sério, ele não é nada assim na realidade.

GS: O La Republica, através de Arianna Finos, intitulou-a de "la nuova star". Qual foi o impacto que "Suburra" trouxe para a sua carreira? 

GS: Fiquei contente e lisonjeada quando li o artigo. É difícil de dizer. Eu sinto que fiz parte de algo grande, que muita gente pode ver. Ao estar disponível na Netflix, o "Suburra" pode ser visto praticamente em todo o Mundo, algo que é incrível. Pode ser visto na América do Norte, na França, no Reino Unido, entre outros territórios.
 Eu estou aqui (em Lisboa, no âmbito do 8 1/2 Festa do Cinema Italiano), então é sinal de que o "Suburra" provocou um impacto. A Viola deu-me a hipótese de demonstrar que posso fazer algo como interpretar uma personagem de pendor dramático. Não é que eu quisesse provar algo. Em alguns casos fazes um filme, esforças-te imenso, mas praticamente ninguém o consegue ver. No caso de "Suburra", o filme foi visto por muita gente. Fiquei muito contente, penso que teve um grande impacto na minha carreira.

RC: A Viola consome drogas, tem uma relação intensa, ou venenosa, com Número 8, para além de não ter problemas em pegar numa arma e disparar. Interpretar a Viola foi uma experiência intensa? O que a atraiu nesta personagem?

GS: Foi difícil devido a todas essas razões mencionadas. Aquilo que é mais fascinante é o arco narrativo de Viola. Ela começa como uma pequena parte da grande estrutura. Inicialmente não tem impacto na estrutura narrativa. No final, ela quebra a estrutura. Ela é o "anjo da morte", o "Apocalipse", a "vingadora". Foi fantástico. Quando li o argumento fiquei bastante feliz, pois percebi o poder da personagem. A Viola tem um relacionamento doentio com o Número 8, mas esse é o único motivo que a mantém viva. Se ela não o tivesse conhecido, muito provavelmente estaria morta, ou completamente perdida. Se ela tem um pequeno papel no Mundo, essa situação acontece devido ao Número 8. Quando ele não está lá, ela poderia morrer, mas não é isso que acontece. A Viola encontra força para matar o Samurai. A vingança torna-se na única razão desta viver, porque ela não tem nada a perder. O que realmente me fascinou é que a Viola acaba por ter um grande impacto na vida de quase todos os personagens e ninguém espera isso dela. Foi isso que despertou o meu interesse.

RC: A Greta Scarano protagoniza uma cena de grande impacto nos momentos finais do filme, com o Stefano Sollima a incutir um tom relativamente estilizado à cena, enquanto a chuva cai, a sua personagem dispara e a música Outro dos M83 ganha um impacto indelével. O que sentiu quando filmou esta cena e posteriormente observou a mesma no grande ecrã?

GS: Estava a ocorrer tanta coisa naquele momento, quando filmámos aquela cena. Aconteceu algo muito engraçado. Eu disparei sobre o Samurai, o personagem interpretado pelo Claudio Amendola. Ele caiu, mas não estava na água. No entanto, o Claudio não podia ouvir se ainda estávamos a filmar, porque estava a cair imensa chuva. Ele estava a fingir que estava morto, ou seja, não podia respirar. É então que se levanta do nada, apercebe-se que ainda estamos a filmar e tenta rapidamente fingir de morto. Eu ri imenso. Foi muito divertido. No entanto, a certa altura estava a dar em louca. A minha personagem estava tão perdida e eu também estava tão perdida. A arma muitas das vezes não trabalhava devido à água. É uma arma falsa, como é óbvio, mas deixou de funcionar. Eu procurava puxar o gatilho mas não funcionava, a minha expressão naquele momento deve-se e muito à repetição que tive de efectuar desse movimento. Nós tivemos alguma diversão naquela altura, mas também foi difícil. Quando vi o filme pela primeira vez, parece que todas as memórias das filmagens regressaram, toda a energia, toda a tensão, toda a pressão, mas também me senti aliviada por finalmente ter visto o "Suburra". Eu coloquei muito de mim no filme. Muita paixão e muita dor. Chorei imenso no primeiro visionamento do filme. Quando ouvi as músicas dos M83 eu só senti: "Oh meu Deus". Existe muito de mim.

RC: Teve de efectuar alguma pesquisa para interpretar a Viola?

GS: Sim, eu pesquiso sempre. Neste caso, eu tive de pesquisar temas relacionados com a toxicodependência. Eu não sou viciada em drogas e não uso heroína, então tive de pesquisar. A Internet encontra-se recheada de documentários sobre o consumo de drogas. É terrível. Estava muito assustada, embora tenha conseguido ultrapassar esses receios para interpretar a Viola. Agora estou novamente assustada. Eu tenho medo de agulhas. Eu estou surpresa em relação àquilo que consegui fazer enquanto dava vida a Viola.

 RC: O debate sobre a igualdade de oportunidades laborais e salariais para as mulheres no cinema e televisão (e não só) é algo que tem sido mais intenso. No conta do Twitter do "Suburra", retweetado por si, podemos encontrar: "Don't mess with Viola" e a hashtag AddAWomanImproveAMovie. Embora interprete uma personagem que é capaz de fazer frente à maioria das figuras masculinas, sente que ainda existe alguma distinção a nível dos papéis atribuídos aos homens e às mulheres?

GS: Sim, penso que existe uma grande diferença quer em termos de quantidade de papéis, quer no tipo de papéis. Penso que o universo feminino devia ser mais explorado. Eu odeio clichés. Não sei como é aqui, mas as mulheres lutam imenso em Itália, porque não existem papéis para mulheres. Existe uma quantidade muito diminuta de papéis interessantes para mulheres. Não percebo porquê. Eu quero ser representada nos filmes. Eu quero ir ao cinema e sentir que posso ser aquela personagem que está no filme. Sonho com o dia em que o público masculino sinta uma ligação com uma protagonista. Eu sinto uma ligação com protagonistas masculinos. Penso que deveríamos ter as mesmas hipóteses. Penso que algo está a mudar em Itália. Estamos a começar a colocar o destaque nas mulheres. Estamos a começar. Nós vamos lá chegar.

RC: O "Suburra" foi co-financiado pela Netflix e pela RAI. A Greta Scarano conta com trabalhos quer no cinema, quer na televisão. Como é que encara a mudança de paradigma que a Netflix trouxe, com os episódios de cada série a serem disponibilizados em simultâneo e a não estarem dependentes de uma audiência imediata?

GS: Traz uma grande liberdade para o público. Eu utilizo. Eu tenho Netflix e Pay TV. Ainda não sei se vou integrar o elenco da série de "Suburra", mas penso que vai ser uma grande oportunidade para Itália. É a primeira série produzida pela Netflix em Itália. Penso que a Pay TV e a Netflix mudaram o modo como assistimos televisão e vemos os filmes. Estou bastante agradada porque me dá a oportunidade de ver coisas muitas boas, que anteriormente não tinha a hipótese de assistir. 

RC: Como se encontra o desenvolvimento de "La Verità sta in cielo"? O que podemos saber sobre o seu papel neste filme?

GS: Já terminei as filmagens. Penso que vai ser lançado no Outono de 2016, em princípio em Outubro. É um filme realizado por Roberto Faenza, um autor intelectual famoso. É inspirado numa história real, sobre o aparecimento de uma rapariga, nos anos 70. Eu interpreto uma mulher quando esta tem vinte e cinco anos e quando tem cinquenta anos de idade. Estou muito curiosa. Ainda não vi nada do filme.

RC: Muito obrigada à Greta Scarano pelo tempo disponibilizado, bem como à assessoria de imprensa do 8 1/2 Festa do Cinema Italiano.

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