12 abril 2016

Entrevista a Claudio Santamaria sobre "Lo chiamavano Jeeg Robot"

 Sucesso junto do público e de alguns sectores da crítica em Itália, "Lo chiamavano Jeeg Robot" foi exibido pela primeira vez em Portugal na edição de 2016 do 8 ½ Festa do Cinema Italiano. "Lo chiamavano Jeeg Robot" venceu o Prémio do Público Canais TV Cine & Séries e o Prémio 8 ½ Festa do Cinema Italiano para Melhor Filme, algo revelador da boa aceitação que o filme teve no Festival. O Rick's Cinema teve a oportunidade de entrevistar Claudio Santamaria, o intérprete de Enzo Ceccotti, o protagonista de "Lo chiamavano Jeeg Robot". Na entrevista, falámos sobre os "super-heróis à italiana", o trabalho de Claudio Santamaria com Gabriele Mainetti (realizador), bem como com Ilenia Pastorelli, a campanha de marketing de "Lo chiamavano Jeeg Robot", entre outros assuntos. Fotografia retirada da página do Facebook do 8 ½ Festa do Cinema Italiano (autoria de © Ben Do Rosario - fotos/pictures).


Rick's Cinema: O Claudio Santamaria é um espectador de filmes de super-heróis?

Claudio Santamaria: Sim, gosto desde jovem. Para mim, os super-heróis são como "a procura de Deus", de uma divindade que te salva. Quando era pequeno gostava muito do Homem-Aranha e do Super-Homem, mas este último é demasiado burguês, poderia ser o que queria mas estava mais preocupado com a Lois Lane, como se fosse um Deus. Também gosto dos X-Men.


RC: O cinema italiano conta com as "comédias à italiana", os "giallos", os "spaghetti westerns", os "os polizziotteschi", entre outros géneros e subgéneros adaptados à realidade italiana. "Lo chiamavano Jeeg Robot" pode significar que vamos contar com os filmes de "super-herói à italiana"?

CS: Actualmente, em Itália, não se fazem filmes de género, parece que estás a "insultar Deus". Parece que não é possível fazer filmes de género. Em Itália são feitas comédias, ou filmes de autor, daqueles que apenas quatro pessoas compreendem. Não é que apenas se faça isso, por vezes existem obras cinematográficas como "Suburra", que são filmes de género.
 O Gabriele Mainetti demorou cinco anos para conseguir fazer o "Lo chiamavano Jeeg Robot". Ninguém queria produzir o filme. Agora que o filme estreou nas salas de cinema, todos os produtores querem trabalhar com o realizador. Mas é algo muito novo em Itália. Ninguém fez um filme como esse. Muitas críticas dizem: "cinema italiano: ano zero", porque é um género novo. Totalmente novo.




RC: O filme tem sido bem recebido pelo público e por alguns sectores da crítica, mesmo tendo a concorrência de colossos como "Batman v Superman: Dawn of Justice". Quais são as características de "Lo chiamavano Jeeg Robot" que considera terem contribuído para agradar quer ao público, quer a alguns sectores da crítica? 

CS: O "Lo chiamavano Jeeg Robot" é um filme de entretenimento, mas também tem muito nível. É feito na extrema periferia, da cidade, quase como se fosse uma mescla entre os super-heróis da Marvel com Pier Paolo Pasolini. O filme sabe apresentar a periferia de uma maneira que Pasolini sabia fazer, ou Claudio Caligari, o realizador de "Amore tossico" e "Non essere cattivo".
 As pessoas que vêem o filme dizem "finalmente, nós também temos super-heróis". O "Lo chiamavano Jeeg Robot" não procura imitar os filmes de super-heróis americanos, é um filme italiano. Também tem elementos das "comédias à italiana", algo que os americanos não sabem fazer, que é pegar numa situação dramática e de repente sai algo de ridículo. Tem os dois lados da vida humana. O filme conta com humor, um lado dramático, uma história de amor, com todos estes elementos a serem muito bem mesclados.


RC: Uma das componentes relevantes é a cidade de Roma e a sua periferia, com a maioria dos personagens a morarem nas margens. Considera que este espaço urbano é fundamental para os comportamentos de personagens como o Enzo e até o Zingaro?

CS: Sim, absolutamente. Todos os sentimentos são extremos. Este bairro é Tor Bella Monaca, mas poderia ser qualquer periferia do Mundo. No caso do Enzo, a vida tirou-lhe todos os afectos, tudo aquilo que ele tinha. A família, os amigos, o amor, tudo. A vida é mais dura do que no centro da cidade. Os meninos têm de construir uma armadura desde crianças, têm que começar a falar com voz grossa. A história de amor entre Enzo e Alessia também é mais forte. O grupo do Zingaro também é um fenómeno que pode acontecer na periferia.
 O mais interessante é dar super-poderes a um homem que não tem esperança, que não tem nada, que não tem jeito para socializar, um indivíduo que se importa acima de tudo consigo próprio. Essa é a pergunta interessante do filme: "o que um homem egoísta pode fazer com esse poder?" Para mim, esta é uma metáfora sobre os políticos: "quem tem o poder, também tem um dever". Em Itália parece que é um privilégio. O Enzo pensa "agora vou procurar alcançar tudo aquilo que a vida não me deu". É através da relação com Alessia, que o Enzo percebe que ter esse poder, também é ter um dever.





RC: Inicialmente, Enzo está longe de ser o típico super-herói, surgindo como um criminoso misantropo que vive numa casa marcada por uma enorme desorganização e uma miríade de pornografia, algo que é utilizado para expor um pouco da personalidade do protagonista. As características simultaneamente negras e humanas de Enzo surgiram como elementos que o atraíram para aceitar interpretar o personagem? 

CS: Tudo me atraiu. Quando li o argumento, liguei para o realizador e disse: "esse filme é genial, temos de fazer este filme". O Gabriele Mainetti disse que eu tinha de participar num casting, acabando posteriormente por me seleccionar para interpretar o personagem. Foi um trabalho muito interessante e completo como actor. O Gabriele disse que eu tinha a transparência emotiva do Enzo, mas tinha que construir uma "couraça", um personagem com um corpo grande, quase como se fosse um urso. É um personagem que tem um corpo bastante presente. Ele fez-me treinar com pesos. Trabalhámos muito o jeito de falar dos personagens, porque na periferia, como é o caso de Tor Bella Monaca, tu não dizes "podes sair daqui por favor", mas sim "vai embora". Não têm um jeito burguês de falar, apresentam uma maneira distinta de dialogar. Trabalhei muito sobre a história de Enzo e da sua família para criar essa falta de amor e afecto, algo que foi muito interessante. As cenas de acção com cabos também foram muito interessantes.


RC: Já trabalhou com realizadores como Bernardo Bertolucci, Nanni Moretti, Gabriele Muccino, Luca Guadagnino, Martin Campbell. Em “Lo chiamavano Jeeg Robot” trabalha pela primeira vez com Gabriele Mainetti, um estreante na realização de longas-metragens. Como foi a vossa colaboração/relação profissional?

CS: Eu fiz muitas primeiras obras. Se o filme é bom, não me importa se é realizado por um mestre ou um estreante. Conheço o Gabriele Mainetti há quase vinte anos. Conhecemo-nos na escola de teatro. Ele queria aprender a dirigir os actores. Trabalhámos juntos no teatro, como actores. Vi as curtas-metragens que o Gabriele Mainetti realizou e sempre gostei do jeito dele filmar, ele é muito capaz. Estudou realização nos EUA, bem como fotografia, estudou como actor, o Gabriele conhece todos os aspectos de um filme. Depois do casting, começámos a trabalhar juntos neste personagem, bem como com o Luca Marinelli e a Ilenia Pastorelli. Fizemos muitas improvisações, chegámos a trocar dez chamadas telefónicas por dia. Temos uma relação de amizade muito forte. Sempre gostei do seu trabalho.
  O Gabriele é muito atento ao trabalho dos actores. Ele favorece sempre o trabalho dos actores ao invés da câmara. O Gabriele sabe que para conseguires envolver o espectador, tens de conseguir que este gere empatia com o personagem. Para mim, o sucesso do filme é esse. Nos EUA, abres um armário e tens um super-herói lá dentro, no teu quarto, é normal. Em Itália não é normal. Para fazeres que o público acredite nesses super-poderes, tens que agarrá-lo do ponto de vista emocional. Tens que construir personagens reais e colocá-los num mundo irreal. Apenas podes criar um mundo irreal se tiveres personagens reais, que contam com relações reais.




RC: A relação entre Enzo e Alessia é no mínimo peculiar, com esta a pensar que o Enzo é Hiroshi Shiba. O Claudio Santamaria apresenta um tom sempre mais sério, enquanto Ilenia Pastorelli interpreta uma personagem que apresenta um tom mais naïf, que parece ter criado toda uma realidade alternativa para se proteger. Como foi trabalhar com a Ilenia Pastorelli e criar uma dinâmica convincente entre dois personagens tão distintos?

CS: No começo foi difícil. Ela chega do "Grande Fratello" ("Big Brother" em Itália). O Gabriele Mainetti fez audições a várias actrizes de Roma. Um dos argumentistas escreveu as falas da Alessia a ver o "Grande Fratello", tendo a Ilenia como inspiração. Ele disse ao Gabriele: "Porque é que não vês esta mulher?". E o Gabriele respondeu: "Não, não, não, eu tenho dois actores, quero trabalhar com actores, não pretendo trabalhar com não actores". A Ilenia fez o casting. Quando ela saiu, o casting director começou a sorrir para o Gabriele. O realizador disse: "não rias assim para mim, não olhes assim para mim, fuck you" (risos). Depois de outra audição, o Gabriele decidiu contratá-la. Ela trabalhou com um amigo nosso, que estudou connosco há muitos anos, que ajudou a prepará-la para o filme. Nós tivemos muitos ensaios, fizemos improvisações, leituras, trabalhámos muito. Ela teve de ser ajudada. Ela tem um grande talento para transmitir emoções. A Ilenia nasceu em Tor Bella Monaca, então a maneira como ela fala é perfeita para a personagem. Ela não teve que trabalhar nesse quesito. A Ilenia teve que trabalhar no campo das emoções, algo que é muito difícil. No final, ela conseguiu construir uma personagem verdadeira. É fácil ler umas falas e dizer as mesmas de um modo natural, mas não é isso que faz de ti um actor, a Ilenia fez algo mais para expressar os seus sentimentos interiores e criar uma personagem que é quase como uma criança num corpo de adulto.


RC: O filme tem contado com uma campanha de marketing bastante inspirada no Twitter.  Qual tem sido a importância das redes sociais para chegarem ao público? 

CM: Tem sido enorme. Este filme conseguiu captar todo o tipo de público. Desde os jovens com catorze anos até aos espectadores com sessenta e cinco anos. Do intelectual ao não intelectual. Muita gente não vê televisão, então as redes sociais permitem chegar a um público underground. O "Lo chiamavano Jeeg Robot" é um filme um pouco underground. É um tipo de filme que fazíamos em Itália nos anos 70, que agora se encontra praticamente "adormecido".


RC: O Claudio Santamaria dobrou a voz de Batman na trilogia de Christopher Nolan, bem como em "The Lego Movie". Como foi a experiência de dobrar a voz de Batman? Já se estava a preparar para interpretar um super-herói?
 
CS: Foi muito divertido, sobretudo quando ele faz aquela voz. Mas, foi ainda mais divertido dobrar o "The Lego Movie", onde o Batman é um imbecil. Foram experiências diferentes, são filmes muito diferentes. Talvez tenha sido um pressentimento para aquilo que aconteceria posteriormente. 

RC: Muito obrigado ao Claudio Santamaria por ter concedido esta entrevista.

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