14 abril 2016

Entrevista a Claudio Cupellini sobre "Alaska"

 Claudio Cupellini esteve em Portugal para apresentar "Alaska" na edição de 2016 do 8 ½ Festa do Cinema Italiano. Na entrevista foram abordados temas como a relação entre a dupla de protagonistas, as filmagens de uma cena específica que despertou a atenção deste blogger, bem como a influência de François Truffaut no trabalho do realizador, entre outros assuntos. Entrevista conduzida e transcrita por Aníbal Santiago. Edição e ajuda na transcrição: Vanessa Rosa.


Rick's Cinema: Nos momentos iniciais do filme, o Fausto demonstra alguma felicidade por ver o Sol, enquanto a Nadine aproveita este comentário para questionar se o personagem interpretado pelo Elio Germano é italiano. O "Alaska" foi filmado quer em França, quer em Itália. Que elementos dos dois países e das suas culturas é que procurou transportar para o interior do filme?

Claudio Cupellini: Eu não realizei um filme que tentasse abordar os estereótipos de ser italiano ou francês. Existe apenas uma fala que aborda essa situação, que é uma piada sobre o Sol. Em Itália nós falamos sempre sobre o Sol, porque, como sabes, a Itália é o país do Sol. É apenas uma pequena piada para começar uma ligação entre os dois personagens. No início, a Nadine é algo hostil enquanto o Fausto está fascinado em relação a esta jovem e tenta ser agradável. Não queria centrar os meus esforços na tentativa de contar o que é ser italiano ou francês. Eu preocupo-me com a verdade dos sentimentos. Na minha opinião, é algo mais profundo do que isso, eu queria uma história que, por exemplo, pudesse ser sobre uma rapariga portuguesa e um rapaz inglês, ou seja, que fosse universal.


RC: Ainda sem sair de França. O Claudio Cupellini numa entrevista ao Devenir Realisateur salientou que o François Truffaut foi uma das suas influências. O que podemos encontrar dessas influências de François Truffaut em "Alaska"?

CC: Eu digo sempre isso porque, para mim, o François Truffaut é como se fosse uma estrela polar. O primeiro filme que assisti com alguma curiosidade de ver algo diferente, em relação àquilo que tinha visto anteriormente, foi "L'Argent de poche", do François Truffaut. Eu tinha dezasseis anos. A partir daí, procurei ver todos os filmes realizados pelo François Truffaut. Senti algo nos seus filmes que mexia comigo, com todos a apresentarem histórias maravilhosas nas quais o amor nunca é abordado de forma comum. Todos os filmes que ele realizou, que abordam histórias de amor, contam sempre com algo de extremo. Por exemplo, num dos seus últimos filmes, "La fêmme d'a Côté" é dito "Nem contigo, nem sem ti". Em certa medida, é assim que eu quero filmar este tipo de histórias de amor. Eu sinto o mesmo quando escrevo e realizo. Eu quero contar histórias como as de François Truffaut, onde o amor é algo que te pode dar vida ou morte, é sempre algo extremo. Por exemplo, existe uma homenagem a Truffaut em "Alaska", em particular uma cena de "La fêmme d'a Côté", onde os protagonistas se encontram no parque de estacionamento do supermercado. Eu cresci com estas influências e penso que é visível. As relações obsessivas também são abordadas em "Alaska". O "La sirène du Mississipi" foi outro filme que serviu de inspiração. É uma história onde os protagonistas precisam um do outro, mas a personagem interpretada pela Catherine Deneuve rouba o dinheiro do Louis Mahé (Jean-Paul Belmondo) e eles se encontram, separam-se e voltam novamente a encontrar-se.




RC: A banda sonora parece muitas das vezes essencial para adensar os sentimentos que nos são transmitidos em diversos momentos de "Alaska". Veja-se quando os protagonistas estão em fuga, no elevador, com a música a apresentar ritmos mais tensos e inquietantes, ou quando Fausto escreve a Nadine e é transmitida toda uma sensação de melancolia e esperança, ou os trechos no Alaska, o clube nocturno. Qual foi o seu papel na escolha da banda sonora do filme?

AS: Quando escrevo, trago sempre alguma música comigo, tendo em vista a inspirar-me em relação ao filme. Algumas vezes ouço as músicas e penso que podem ser adequadas para o filme. Nunca sabes ao certo aquilo que vai acontecer. Estava completamente seguro de que iria utilizar uma música do Elvis Presley numa cena da prisão, mas quando estava a editar, percebi que não estava a resultar. No caso do suicídio do Sandro, percebi que a música das The Supremes seria perfeita, porque existe este contraste entre esta canção pop, que diz "my world is empty without you", que é sobre aquilo que o Sandro se encontra a sentir, mas ao mesmo tempo é uma canção alegre, com uma pequena dose de melancolia, que é colocada num momento em que alguém se está a suicidar. Adoro este tipo de contraste.
 Então, quando estava a editar e a construir o alinhamento musical, eu tive a ajuda do meu editor, que conhece muito bem as músicas, os estados de espírito e as cenas. Ele sabia que aquela música dos Interpol, que utilizo na prisão, seria perfeita para contar aquilo que acontece. De novo, existia uma frase na música que nos fez pensar que estávamos a fazer a escolha certa: "Surprise, sometimes, will come around". A surpresa acontece porque a Nadine regressa. Quando estava a filmar as cenas no Alaska, eu não queria ouvir as canções que colocam habitualmente nas cenas de discoteca dos filmes, onde tens aquela música barata onde ouves apenas "tumps, tumps, tumps". Eu queria algo mais inquietante e perturbador, como se fosse a música punk colocada no interior da disco music. É algo agressivo, porque a cena no interior da discoteca também é muito agressiva. Depois fizemos o trabalho normal com o músico que se encontra encarregue da banda sonora, com este a ajudar a realçar os sentimentos. Esse é o trabalho que procuro fazer.


RC: O título de "Alaska" remete para o clube nocturno de Fausto, mas também para um território associado ao frio. Existe no título uma mescla de procurar expor quer um dos símbolos da ambição de Fausto, quer as dificuldades que estes personagens encontram para se imporem?

CC: Essa é uma boa opinião sobre o título, mas nós pensámos em algo bem mais simples do que isso. Estávamos a pensar na corrida ao ouro no Século XIX, onde tínhamos aquelas pessoas desesperadas, numa terra hostil, a procurarem encontrar ouro, a lutarem contra lobos, ursos e outras pessoas que se encontravam prontas para te matar pelo mesmo ouro. Em certa medida, é uma pequena metáfora para o que está a acontecer ao Fausto e a Nadine e para o mundo onde vivem, que é cheio de obstáculos, enquanto estes se encontram desesperados para conseguirem ser bem sucedidos.




RC: A Nadine e o Fausto parecem estar constantemente em desequilibro. Procurou desenvolver as dinâmicas destes personagens a partir dessa procura, por vezes falhada, de Fausto e Nadine tentarem encontrar um equilíbrio entre as ambições profissionais de cada um e a relação amorosa? Esse desequilíbrio constante faz parte do processo de maturação dos dois personagens?

CC: Sim, quando eu estava a escrever a história, pensei sempre que, quando um ascende, o outro tem de descer. É como se fosse um romance de transição para a idade adulta, no qual ambos os personagens precisam de crescer. Os personagens fazem sempre algo errado porque faz parte do crescimento. Pensei nisso, mas também tentei descrever como o Fausto ascende algumas vezes, enquanto a Nadine desce. Quando Fausto está na prisão, a Nadine encontra-se a subir na carreira. Acontece o mesmo no plano emocional. Quando um elemento procura o outro, ou este não se encontra preparado, ou não pretende estar junto do mesmo. O Fausto tenta permanecer junto de Nadine, após sair da prisão, enquanto esta não pretende estar inicialmente junto deste e acaba por traí-lo. Eles reencontram-se na discoteca e é o Fausto que não quer reiniciar a relação com Nadine. No final, o Fausto sente que necessita de Nadine e não de Francesca. Vagarosamente, estes chegam a uma situação em comum, ainda que nas cenas finais, quando percebem aquilo que é importante para as suas vidas, ou seja, ambos precisam um do outro.


RC: O Elio Germano e a Astrid Bergès-Frisbey conseguem que acreditemos nestes personagens e nos seu sentimentos. O trabalho de ambos corresponde àquilo que idealizou quando pensou inicialmente nos personagens?

CC: Sim. Eles são os actores ideais para estes papéis. Eu escrevi o argumento a pensar no Elio Germano como Fausto e não desisti até encontrar a actriz ideal para interpretar Nadine. Ainda fiz diversos ensaios e castings em França. Encontrei duas ou três actrizes que poderiam adequar-se à personagem, mas não estava totalmente satisfeito. Perto do final, encontrei a Astrid Bergès-Frisbey e percebi imediatamente que existia uma chama. Precisava de uma química imediata na cena em que vemos o Fausto e Nadine a falarem pela primeira vez. Eu tento sempre seguir esta lição, que também vem de François Truffaut: "Não é o personagem que vai ao encontro do actor, mas é o actor que tem de servir este personagem e é então que o personagem se torna outra coisa.". Por vezes, durante as filmagens, os personagens ganham contornos distintos graças ao trabalho dos actores.


RC: A relação entre Nadine e Fausto é bastante intensa. Ambos são personagens solitários, que cometem erros, são colocados perante tentações, dúvidas, por vezes magoam-se psicologicamente, mas também parece existir uma ligação muito forte entre os dois. A espaços quase que nos sentimos dois intrusos que se envolvem no meio da vida dos dois. Para si, quais são as razões para estes personagens agarrarem por completo o espectador?

CC: Eles são muito frágeis e cometem muitos erros. Eles tentam encontrar e alcançar a felicidade, mas fazem aquilo que fazemos muitas das vezes ao longo da vida, ou seja, cometem uma série de erros. Este foi o ponto principal para mim quando estava a escrever o argumento e a realizar o filme. Na maior parte das vezes a escrever, porque inspirei-me imenso naquilo que aconteceu comigo e às pessoas que me rodeiam. Estas são experiências que vivi e que vi os outros a viverem.




RC: O personagem interpretado por Elio Germano tem alguns momentos intensos como Fausto. Uma dessas situações acontece quando Nadine se reúne com Fausto num bar, após este ter saído da prisão, onde esta não parece estar certa em relação aos sentimentos que nutre pelo protagonista. O personagem interpretado por Elio Germano quer que esta agarre a sua mão e beijá-la, mas esta praticamente não sabe o que fazer. Como decorreu a preparação desta cena?

CC: Esta foi uma das primeiras cenas que trabalhámos muito bem no primeiro esboço do argumento. Mudámos poucas coisas nesta cena, enquanto escrevemos e rescrevemos a história. A Nadine foi ter com o Fausto, porque prometeu que iria estar naquele local. Mas a verdade é que estes não se conhecem. Ao mesmo tempo, o Fausto perdeu a capacidade de se relacionar com as pessoas. Eles estão desencontrados. O Fausto chega a dizer que se esqueceu de lidar com as pessoas enquanto esteve na prisão. Ele tenta agarrar a mão dela e tenta abraçá-la. Mas tudo está errado, porque é o momento errado. Foi um momento importante para exibir o quanto o Fausto mudou quando esteve na prisão e as dificuldades deste reencontro, mas também para mostrar o quão incrível é o amor destes dois personagens. Após a discussão, eles fazem amor nas escadas do prédio. Eles comportam-se sempre desta maneira.


RC: Na entrevista ao The It Factor Magazine, o Claudio Cupellini comentou sobre as dificuldades de filmar no espaço prisional. Qual a pesquisa efectuada para representar o quotidiano neste espaço prisional e para demonstrar o efeito psicológico que este local provoca em Fausto?

CC: Eu estudei imenso a forma como as prisões francesas funcionam: as suas regras, aquilo que os presos fazem, como falam quando se encontram, falei com alguns presidiários, procurei perceber como estes se sentiam. O facto de estares no interior da prisão faz com que te sintas compelido a filmar de uma certa maneira. Todos aqueles espaços estreitos, todos aqueles corredores, as grades, eles dão-te inspiração, tanto que é a única parte em que filmámos algo que não estava no argumento. Nós contámos com a presença de prisioneiros e alguns figurantes que eram antigos presidiários. Então, eu e o director de fotografia, decidimos efectuar uma cena que permitisse expor o quotidiano destes presidiários. Num dia dissemos: "Nós precisamos de filmar tudo aquilo que assistimos ao longo desta semana" e decidimos mostrar como os presidiários vivem, enquanto intercalámos com o Fausto a escrever as cartas. As pessoas a tomarem banho, a lavarem os seus sapatos, a jogarem futebol, que é um dos poucos momentos onde têm alguma felicidade, ou seja, o quotidiano dos presos. A inspiração veio de observar a realidade.




RC: O "Alaska" foi lançado em Itália e França. A crítica italiana e francesa abordaram o filme a partir de prismas distintos?

CC: Nós tivemos críticas boas em Itália e em França. Mas em França, os críticos viram algo mais político e socialmente orientado, mais do que eu pensei quando estava a desenvolver o filme, pelas cenas da prisão e pelo facto de ter personagens ricos e personagens que não têm nada. É uma parte do filme, mas não foi abordado da mesma forma em Itália.


RC: Entre "Una vita tranquilla" e "Alaska", o Claudio Cupellini realizou alguns episódios da série "Gomorra". O que o motivou a trabalhar nesta série? Sente que conseguiu incutir algum cunho pessoal nos episódios que realizou?

CC: Eu decidi realizar os episódios porque é uma oportunidade importante. As séries televisivas são cada vez mais importantes. Por vezes tens a oportunidade de realizar e fazer coisas quase como se estivesses no cinema. A qualidade de "Gomorra" é elevada, os argumentos são muito bons, muito interessantes. Também me senti fascinado por esta violência, que é verdadeira em Nápoles. Para além disso, deram-me a oportunidade de realizar três episódios sobre um jovem, cuja história é muito tocante. Eu não queria falar de novo sobre o François Truffaut, mas vou fazer. Tive a oportunidade de trabalhar com um actor não profissional, que tem quinze anos de idade. Foi muito interessante e entusiasmante contar a história sobre este jovem rapaz que é tirado da Camorra e a sua namorada é morta. Foi muito tocante.

Rick's Cinema: Obrigado por conceder esta entrevista.

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