15 março 2016

Resenha Crítica: "A Tale of Love and Darkness" (Uma História de Amor e Trevas)

 O talento de Natalie Portman para a interpretação é sobejamente conhecido, embora a qualidade dos filmes que esta protagoniza nem sempre se adequem ao seu valor como actriz, algo notório em "Your Highness", "Thor", "Thor: The Dark World", as prequelas da saga "Star Wars", entre outros. "A Tale of Love and Darkness", um filme inspirado no livro homónimo de Amos Oz, marca a estreia de Natalie Portman na realização de longas-metragens, com a actriz a assumir ainda o cargo de argumentista e protagonista desta ambiciosa obra cinematográfica. A palavra ambição não significa competência ou assertividade, com Natalie Portman a não parecer ter unhas para, pelo menos nesta sua fase da carreira, conseguir tocar esta guitarra. O maior elogio que podemos fazer a "A Tale of Love and Darkness" surge com algum veneno pelo meio: é semelhante à carreira de Natalie Portman como actriz, ou seja, alterna entre o bom, o razoável e o medíocre. No entanto, "A Tale of Love and Darkness" perde-se em demasia em alguns tropeços de iniciante, aliados a uma devoção excessiva de Natalie Portman em relação ao material que tem entre mãos. É certo que existem alguns planos belíssimos, dotados de enorme lirismo e inspiração, sobretudo quando Fania (Natalie Portman), a mãe de Amos Oz (Amir Tessler), se encontra a contar histórias ao seu rebento ou parece perder-se em sonhos alegóricos que tanto têm de descartáveis como de relevantes. Algumas destas histórias ocorrem no deserto, com os tons quentes destes momentos a contrastarem por vezes com a frieza que marca alguns acontecimentos do quotidiano de Fania, com os sonhos que esta guardava da juventude a parecerem dilacerar-se diante da realidade. As histórias contadas por esta mulher, a espaços fazem recordar o momento em que a personagem interpretada por Monica Vitti conta uma historieta ao seu filho em "Il deserto rosso". Tal como a personagem interpretada por Monica Vitti, também Fania parece ter algumas dificuldades em enfrentar a realidade com que se depara, com Natalie Portman a conseguir transmitir que esta figura feminina por vezes parece carregar o peso do Mundo no seu olhar, apresentando uma fragilidade desarmante e uma força interior que não é de descurar. Fania é casada com Arieh (Gilad Kahana), um intelectual pouco dado a grandes demonstrações de afecto, que parece mais absorto nos livros e na escrita do que na sua esposa. A relação entre Arieh e Fania é marcada pela falta de uma chama forte que envolva estas duas figuras que encontram na literatura um meio de refúgio. A casa destes personagens é pontuada por diversos livros e uma falta de paixão entre este casal, enquanto Fania procura dar o máximo de atenção possível a Amos, um jovem que se apresenta em pleno crescimento num período histórico fervilhante. Fania é oriunda de Rovno, enquanto Arieh é proveniente da Lituânia, com este casal de origem judaica a ter partido em direcção ao Mandato Britânico da Palestina, ainda nos anos 30, do Século XX, tendo em vista a escapar às perseguições efectuadas aos judeus.

 A narrativa de "A Tale of Love and Darkness" centra-se sobretudo no período em que Amos tem cerca dez anos de idade, com o enredo a acompanhar, ainda que superficialmente, diversos eventos históricos que marcaram Israel e a vida destes personagens inspirados em figuras reais. Veja-se o momento em que encontramos diversos personagens reunidos para ouvirem o reconhecimento da Independência do Estado de Israel, por parte das Nações Unidas, a 14 de Maio de 1948. A medida foi aplicada após uma resolução das Nações Unidas, "de onde sairia, no final de 1947, o plano de partição da Palestina, dividindo-a entre um estado árabe e um estado judeu". O momento é de festa, embora os conflitos logo se façam sentir ao longo do filme. Diga-se que a "guerra intestina entre as comunidades árabes e judaicas começou ainda durante o mandato britânico e prolongou-se até ao final de 1948, quando também acabou a primeira guerra israelo-árabe que se iniciou mal Israel declarou a independência, a 14 de Maio de 1948 (vale a pena ler o artigo de José Manuel Fernandes no Observador). "A Tale of Love and Darkness" não procura dar uma lição de história, nem tenta, embora seja frustrante verificar que Natalie Portman não consegue incutir a profundidade necessária a uma obra cinematográfica que tinha material para resultar em algo mais do que um filme bem intencionado (basta efectuarmos uma pesquisa rápida para percebermos a complexidade dos assuntos abordados, com a cineasta a optar por uma via demasiado simplista). É certo que a cineasta procura a espaços representar os conflitos e tensões políticas, bem como alguns dos elementos culturais e religiosos. Veja-se quando Amos, um rapaz judeu, aleija inocentemente uma criança, numa festa na casa de uma família de árabe, algo que logo promete causar problemas, ou os sonhos que a mãe do jovem criou em relação à Independência de Israel. Fania é natural de Rovno, de onde partiu com as suas duas irmãs e a sua mãe, apresentando uma mente sonhadora e uma personalidade demasiado romântica para perceber que a realidade nem sempre acalenta a concretização de todos os sonhos. A chegada a Jerusalém e a independência de Israel pareciam simbolizar todo um conjunto de sonhos que se concretizaram, embora Fania encare a realidade com um romantismo que contrasta com a crueza do Mundo que a envolve, com Natalie Portman a compor uma personagem que facilmente desperta o nosso desejo para gostarmos mais de "A Tale of Love and Darkness" do que aquilo que conseguimos. Fania tem no filho a sua maior paixão, procurando incutir um conjunto de valores que Amos parece carregar consigo para a vida, enquanto assistimos a situações típicas do crescimento de um jovem. Os problemas na escola, em particular com os bullies, a forma algo ingénua como Amos encara o mundo que o rodeia, com "A Tale of Love and Darkness" a variar o foco entre a história da relação do jovem e a sua mãe, bem como destes dois personagens em separado, enquanto Natalie Portman polvilha a narrativa de alguns elementos do contexto histórico que necessitam sempre de uma consulta prévia para serem totalmente apreendidos. O jovem Amir Tessler tem uma interpretação convincente como Amos Oz, um rapaz observador e inteligente, embora caiba a Natalie Portman contar com alguns dos momentos de maior destaque, sobretudo a partir do momento em que a personagem que interpreta começa a padecer de uma depressão, algo que afecta a sua vida, do seu filho e do esposo. A depressão de Fania é abordada de forma pueril, tosca e redundante. Veja-se quando esta é enviada para casa das irmãs, supostamente para ver se anima, quando até então as familiares pouco ou nada tinham sido desenvolvidas.

 A relação entre Fania e a mãe, bem como com os sogros, parece algo conturbada, embora a maioria dos personagens secundários raramente ultrapassem a exposição inicial. Não faltam ainda subtramas como o envolvimento de Arieh com outra mulher, ou a entrada em cena da "nova melhor amiga" de Fania, ou uma estranha figura denominada de "The Pioneer" que aparece nas divagações de Fania (que simboliza um ideal de Israel), entre outras, que pouco são exploradas, com Natalie Portman a parecer querer dizer imenso na sua estreia como realizadora de longas-metragens, embora nem sempre encontre a maneira certa para o fazer. O pouco desenvolvimento das figuras secundárias é revelador de alguns dos problemas de "A Tale of Love and Darkness", bem como a necessidade de Natalie Portman usar e abusar da narração em off para expor os sentimentos dos personagens e aquilo que se encontra a ocorrer. A utilização destrambelhada e excessiva da narração em off é a prova de algum amadorismo de Portman, mas também da incapacidade do argumento em conseguir explorar as temáticas que apresenta sem necessitar de uma "muleta" para expor as mesmas. Torna-se cansativo, redundante e exibe ainda uma falta de confiança na capacidade do espectador em interpretar aquilo que está a ser exibido. É certo que Portman procura expor o ponto de vista de Amos Oz, sobretudo em relação a Fania, mas aquilo que a cineasta deveria tentar é que o espectador interpretasse e sentisse, sem ter um narrador completamente intrusivo. O próprio tom de voz de Moni Moshonov, demasiado monocórdico, não ajuda, com este a surgir como o narrador de serviço, como Amos já nos seus setenta anos de idade. Diga-se que três actores interpretam Amos Oz: Amir Tessler (juventude); Yonatan Shiray (quando entra para o Kibbutz Hulda, uma fase explorada de forma sensaborona); Alex Peleg (setenta e poucos anos de idade). A relação entre Amos Oz e a mãe é uma das temáticas fundamentais do filme, com o jovem a apresentar uma postura protectora em relação à progenitora, enquanto esta última exibe uma afinidade latente com o petiz. Este inicialmente não pretende ser um escritor, algo que muda com avançar da vida, ou Amos Oz não surgisse como um autor literário de relevo (e não só). Natalie Portman tem em "A Tale of Love and Darkness" um trabalho de amor, tendo demorado diversos anos até conseguir tirar o projecto do papel e transformado o mesmo numa obra cinematográfica que quase beira a mediania, embora as boas intenções não sejam tudo. Diga-se que é praticamente impossível não procurar gostar do filme. As temáticas são relevantes. As interpretações de Natalie Portman e Amir Tessler são convincentes. O retrato do espaço de Jerusalém no final dos anos 40 é bem arquitectado (com as cores esbatidas e frias, bem como alguns episódios que ocorrem neste local, a exporem que a expressão trevas não foi colocada no título ao acaso). Alguns planos são belíssimos. Queria imenso gostar do filme, de abraçá-lo sem reservas e agraciar a estreia de Natalie Portman como realizadora de longas-metragens. No entanto, se o valor de Natalie Portman como actriz está comprovado, já o talento como realizadora e argumentista não encontra uma resposta cabal em "A Tale of Love and Darkness". Com uma história relevante, que se perde devido à inépcia de Natalie Portman na realização e um argumento que dispara para vários lados sem incutir profundidade a diversas temáticas, "A Tale of Love and Darkness" deixa-nos com um travo amargo. Tem bons pormenores, promete que pode dar algo mais, mas perde-se em demasia para conseguir que nos esqueçamos das suas limitações e problemas.

Título original: "A Tale of Love and Darkness".
Título em Portugal: "Uma História de Amor e Trevas".
Realizador: Natalie Portman.
Argumento: Natalie Portman.
Elenco: Natalie Portman, Gilad Kahana, Amir Tessler.

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