11 março 2016

Resenha Crítica: "Pride and Prejudice and Zombies" (Orgulho e Preconceito e Guerra)

 Irregular e temeroso, "Pride and Prejudice and Zombies" parece ter receio de arriscar ou assumir uma identidade, algo que deixa esta obra cinematográfica a meio caminho de quase tudo aquilo a que se propõe. É certo que está longe de ser um desastre, ou uma completa perda de tempo. Também é notório que consegue mesclar em alguns momentos a história do clássico livro de Jane Austen com o contexto pós-apocalíptico que envolve os protagonistas, sobretudo nos momentos iniciais, embora Burr Steers, o realizador e argumentista, nunca pareça saber o rumo que pretende seguir. Steers esgueira-se pelas fronteiras dos filmes de época, acção, zombies, terror, romance, paródia ou sátira, ainda que não consiga mesclar os diversos "ingredientes" de forma assertiva, algo que não impede "Pride and Prejudice and Zombies" de ter alguns bons apontamentos, apesar do parco desenvolvimento de diversos personagens secundários, da necessidade extrema de apressar alguns acontecimentos da narrativa ao ponto de parecerem forçados e expor as cenas mais violentas de forma sensaborona (tendo em vista a manter a sua classificação PG-13). O conceito é peculiar, apesar de se esvaziar com facilidade, com esta adaptação cinematográfica do livro de Seth Grahame-Smith a reunir o universo narrativo de "Pride and Prejudice" com zombies e um contexto pós-apocalíptico. Nem tudo funciona, embora confesse que gostei imenso de ver Lily James como esta Elizabeth Bennet simultaneamente frágil, pronta para a pancadaria, inteligente e independente, com a actriz a convencer quer nas cenas de acção, quer nas mais dramáticas, embora não faça esquecer Keira Knightley na magnífica adaptação do livro de Jane Austen, realizada por Joe Wright. Diga-se que o propósito de "Pride and Prejudice and Zombies" não é copiar a obra cinematográfica de Joe Wright, até pelos filmes apresentarem propostas e conceitos distintos. A sensibilidade num toque entre Mr. Darcy (Sam Riley) e Elizabeth é trocada por um confronto entre a dupla, muito a fazer recordar "The Mask of Zorro", onde a batalha conduziria a uma abertura de vestimentas. O Mr. Darcy que nos é apresentado é um caçador de zombies implacável, conhecido pela sua personalidade austera e lacónica, bem como pelas suas vastas propriedades (dono de metade de Derbyshire). Sam Riley convence em relação à arrogância de Darcy e à sua habilidade para a matança (se esquecermos por vezes o seu tom de voz), embora o romance entre este personagem e Elizabeth não seja devidamente desenvolvido. A dinâmica entre Sam Riley e Lily James não é totalmente aproveitada, bem como o choque de classes entre os personagens que interpretam, algo notório quando chega o primeiro pedido de casamento e uma carta reveladora, duas situações que deveriam causar impacto embora Burr Steers não consiga atribuir-lhes a relevância que mereciam. Burr Steers parece ficar enredado entre algumas das suas limitações e aquelas que lhe foram impostas pelo estúdio, algo que, muito provavelmente, impede "Pride and Prejudice and Zombies" de ganhar uma voz forte ou atirar-se de cabeça para o absurdo que envolve toda a sua premissa.

 O enredo do filme desenrola-se em Inglaterra, durante o Século XIX, com o país a encontrar-se num estado caótico devido a um vírus que transformou boa parte da população em zombies devoradores de cérebros. Diga-se que estes zombies estão longe de serem figuras desprovidas de inteligência, com alguns destes seres a conseguirem falar e montar armadilhas, existindo até uma espécie de aristocracia de mortos-vivos que supostamente apenas se alimenta de cérebros de macacos. O número elevado de zombies conduziu os elementos não infectados a treinarem técnicas de defesa e ataque na China ou no Japão, tendo em vista a defenderem-se de um possível ataque. A possibilidade de um Apocalipse Zombie é real, com a maioria dos não infectados a estar em alerta, enquanto procuram seguir com as suas vidas. As irmãs Bennet, nomeadamente, Elizabeth (Lily James), Jane (Bella Heathcote), Kitty (Suki Waterhouse), Lydia (Ellie Bamber) e Mary (Millie Brady), foram treinadas na China (algo parece remeter para um estatuto social inferior, enquanto que quem treinou no Japão tem mais posses), a pedido do pai de ambas, Mr. Bennet (Charles Dance). Destas irmãs, apenas Elizabeth e Jane conseguem sobressair, enquanto Kitty, Lydia e Mary surgem praticamente como material de decoração. As cinco irmãs vivem com os pais, Mr. Bennet e Mrs. Bennet (Sally Phillips), um casal de personalidade distinta. Se Mr. Bennet é um indivíduo cuidadoso e discreto, que raramente é aproveitado ao longo da narrativa, já Mrs. Bennet é uma mulher expansiva que procura casar as filhas a todo o custo, mesmo que estas não estejam para aí viradas (como é o caso de Elizabeth). Mrs. Bennet surge como uma figura quase ridícula, exposta de forma caricatural, que procura casar as filhas a todo o custo, com "Pride and Prejudice and Zombies" a falhar muitas das vezes na crítica social, ou de costumes, embora talvez esteja a ser demasiado optimista ao pensar que Burr Steers considerou esta hipótese. A personagem interpretada por Sally Phillips procura juntar Jane com Mr. Bingley (Douglas Booth), um indivíduo abastado, que chega a este território do interior acompanhado pelas suas irmãs e pelo melhor amigo, Mr. Darcy. Bingley e Jane apaixonam-se com facilidade, enquanto Elizabeth e Darcy apresentam uma animosidade latente, ainda que a nível inicial. Os personagens interpretados por Douglas Booth e Bella Heathcote entram em contacto num baile, com Burr Steers a ser fiel à época representada ao expor estes eventos como um meio de convívio, embora acrescente ataques de mortos-vivos à equação. O design a nível dos cenários interiores é competente, enquanto o guarda-roupa procura transmitir o período em que se desenrola a narrativa, apesar das jovens estarem acompanhadas de armamento para o caso de se depararem com zombies. Veja-se logo no início de "Pride and Prejudice and Zombies", quando encontramos as irmãs Bennet a limparem as suas armas, algo que evidencia a preparação destas figuras femininas para a arte do combate. Os militares procuram defender o território, embora a ameaça provocada pelos zombies pareça aumentar exponencialmente, uma situação que promete colocar a vida de vários personagens em perigo. Diga-se que o perigo raramente é sentido, com Burr Steers a parecer ter medo de mexer com alguns personagens relevantes, algo que piora quando existe um parco aproveitamento e desenvolvimento das figuras secundárias. Veja-se o caso das irmãs de Elizabeth, ou a unidimensionalidade de Mr. Bingley, um indivíduo simpático, interpretado por Douglas Booth, um actor incapaz de incutir sentimento ao personagem, ou o episódio da procura de Mr. Wickham (Jack Huston) em envolver-se com Lydia como meio de se vingar de Elizabeth e Darcy.

 A notícia de que Lydia fugiu com Wickham perde todo o poder devido ao facto da primeira pouco ou nada ter sido desenvolvida ao longo da narrativa, embora Jack Huston interprete eficazmente uma figura manipuladora, dotada de malícia, que nos apresenta a uma "aristocracia" de zombies. Se a desinspiração nas cenas de acção pode ser perdoada, já o pouco desenvolvimento de alguns personagens e a incapacidade de tornar os zombies em criaturas que despertem receio no espectador revelem acima de tudo imenso desleixo e incompetência. É certo que Steers procura manter diversos diálogos e momentos que pertencem à obra literária de Jane Austen, algo notório quando Mr. Darcy descreve Elizabeth como "tolerável", ou na procura da tia deste em afastar a jovem do sobrinho. A tia de Darcy é Lady Catherine de Bourgh (Lena Headey), uma figura caricatural, conhecida por ser uma caçadora de zombies temível, que utiliza uma pala num olho e é completamente impossível de levar a sério. O mesmo acontece com Matt Smith, embora o actor pareça perceber melhor do que ninguém o filme em que está inserido, acertando nos timings cómicos como Padre Collins, um pretendente de Elizabeth. A relação entre Elizabeth e Darcy acontece no interior deste contexto violento, com os zombies a colocarem diversos elementos em perigo, embora Burr Steers não consiga transportar esse receio ou medo para o espectador, bem pelo contrário. Essa incapacidade de despertar o medo no espectador, ou criar algum desassossego em relação ao destino dos personagens, remete para a falta de um argumento forte, que contribua para a construção de figuras com quem seja possível gerar alguma identificação ou preocupação, bem como para a inconsistência de "Pride and Prejudice and Zombies" e a falta de inspiração com que Burr Steers filma esta obra cinematográfica. Por vezes quase que existe vontade de clamar para que Steers assuma de vez o tom camp do filme, ou simplesmente que mantivesse a história original mesclada com zombies. Algumas ideias funcionam, tais como a criação de uma espécie de a aristocracia zombie, embora sejam desperdiçadas pela falta de desenvolvimento. É certo que a premissa de "Pride and Prejudice and Zombies" pede para desligarmos muitas das vezes o nosso lado mais pragmático, algo que permite apreciar algumas trocas de diálogos, ou o desempenho de Lily James como Elizabeth Bennet, ou soltar alguns risos, embora Burr Steers deixe o travo amargo de que poderia ter pegado em todos os elementos que lançou e efectuado um filme que não se limitasse a sobressair pela sua ideia inicial. No final, não senti que tivesse perdido tempo a ver "Pride and Prejudice and Zombies", mas também não consegui deixar de pensar em tudo aquilo que o filme poderia ter sido, mas não foi, ou não conseguiu ser...

Título original: "Pride and Prejudice and Zombies".
Título em Portugal: "Orgulho e Preconceito e Guerra".
Realizador: Burr Steers.
Argumento: Burr Steers.
Elenco: Lily James, Sam Riley, Jack Huston, Bella Heathcote, Douglas Booth, Matt Smith, Charles Dance, Lena Headey.

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