18 março 2016

Resenha Crítica: "L'Ombre des femmes" (À Sombra das Mulheres)

 "L'Ombre des femmes" poderia contar com o subtítulo: o amor e os relacionamentos amorosos de acordo com Philippe Garrel. Este é um cineasta com uma visão muito própria do amor e dos sentimentos nem sempre fáceis de explicar ou compreender, algo latente em diversos trabalhos que marcaram a sua vasta carreira, tais como "Sauvage Innocence", "Les Amants Réguliers", "La Jalousie", entre outros. "L'Ombre des femmes" coloca-nos diante de relacionamentos conturbados, traições, figuras ligadas às artes, longos silêncios, ou seja, temáticas e elementos que atravessam diversos trabalhos de Philippe Garrel, tais como os citados, com o cineasta a apresentar-nos a Pierre (Stanislas Merhar) e Manon (Clotilde Courau), um casal cujo matrimónio já conheceu melhores dias. Pierre é um realizador falhado, que dirige documentários pouco conhecidos, encontrando-se a trabalhar num filme do género sobre um suposto elemento da Resistência Francesa (Jean Pommier). Manon trabalha no argumento e montagem dos filmes de Pierre, embora as parcas condições financeira do casal tenham conduzido a primeira a laborar como auxiliar de acção educativa, ainda que em part-time. Esta procura apoiar o esposo, com quem vive num apartamento barato, pontuado por paredes cobertas com papel florido e marcas de humidade, muitos livros e alguma desorganização, com este espaço habitacional a permitir explanar quer as dificuldades financeiras de Manon e Pierre, quer a confusão que percorre a mente dos protagonistas. A mãe de Manon (Antoinette Moya) encontra-se preocupada em relação ao futuro profissional da filha, embora a personagem interpretada por Clotilde Courau pareça manter-se fiel ao esposo e disponível para ajudá-lo a ser bem sucedido. Manon acredita no potencial de Pierre, embora o suposto talento deste para a realização, que nunca é exibido ao longo do filme, tarde em aparecer. É então que Pierre conhece Elisabeth (Lena Paugam), uma estagiária de um arquivo, licenciada em História, com quem o protagonista se envolve e inicia um affair. Lena Paugam consegue explanar a solidão de Elisabeth, uma figura pontuada por alguma estranheza, que tem conhecimento do facto de Pierre ser casado, embora não tenha problemas em ficar chocada quando descobre que Manon trai o protagonista. Elisabeth ama e deseja Pierre, embora o personagem interpretado por Stanislas Merhar apenas pareça nutrir este último sentimento em relação à amante. Pierre é um realizador errático, com uma olhar muitas das vezes vazio e comportamentos letárgicos, algo incutido com enorme sobriedade por Stanislas Merhar, com o actor a conseguir transformar este indivíduo numa figura que a espaços se torna num enigma, sobretudo em relação à forma como consegue atrair as mulheres com tanta facilidade quando é um tipo completamente machista, falhado do ponto de vista profissional, que é capaz de cometer actos de enorme crueldade para com Manon e Elisabeth. Estamos diante de uma figura que a espaços nos intriga, ou Pierre não surgisse como um indivíduo que parece incapaz de aceitar traições, embora não tenha problemas em cometê-las, que ama e deseja as mulheres mas é capaz dos actos menos delicados para com as mesmas.

Manon varia entre a posição submissa e independente, parecendo muitas das vezes à sombra de Pierre, embora Philippe Garrel comprove que a situação não é tão linear como parece, algo paradigmaticamente demonstrado no último terço do filme. Se o affair entre Pierre e Elisabeth é relativamente desenvolvido ao longo de "L'Ombre des femmes", com Lena Paugam a ter algum tempo para sobressair como esta figura atormentada e solitária, que procura o amor do primeiro embora apenas consiga conquistar o desejo, já o relacionamento adúltero entre Manon e o amante (Mounir Largoum) praticamente não é aproveitado, com este último a parecer quase um objecto decorativo que permite explanar a crise do casal de protagonistas. Pierre procura manter o casamento com Manon e o caso com Elisabeth, tentando esconder o affair, embora a esposa seja mais inteligente e denote uma sensibilidade que este nunca é capaz de apresentar. Pierre e Manon lidam de forma distinta com os affairs. Pierre pretende continuar envolvido com as duas figuras femininas, considerando que a traição é um acto relativamente normal devido a ser homem, ou pelo menos esta é a justificação que encontra para cometer um acto que demonstra pouco respeito para com a esposa. A palavra talvez, tão querida a Pierre, ajuda a definir este personagem indeciso, que tanto ama as mulheres como é capaz dos actos mais cruéis. A certa altura, Pierre descobre que é traído. Manon desiste do affair com o personagem interpretado por Mounir Largoum, apesar de começar a perceber que o casamento está numa fase demasiado venenosa. A personagem interpretada por Clotilde Courau também descobre que é traída, algo que obriga os protagonistas a tomarem opções que prometem marcar o futuro do seu matrimónio. Não vamos aqui revelar aquilo que acontece a este emaranhado de relações, que parece enclausurado por uma cúpula de sentimentos contraditórios que prometem envenenar muitos destes relacionamentos. Diga-se que estas relações têm muito de Philippe Garrel. Veja-se o caso de "Sauvage Innocence", uma obra cinematográfica onde tínhamos um realizador de pouco sucesso como protagonista, com este indivíduo a manter uma estranha relação com a estrela do seu novo filme, uma mulher que traíra o anterior namorado, ou os relacionamentos falhados e peculiares dos personagens principais de "La Jalousie" e "Les Amants Réguliers". Tal como nos três exemplos citados, também "L'Ombre des Femmes" é filmado a preto e branco, num estilo a espaços a remeter para a Nouvelle Vague, em particular para cineastas como Jean-Luc Godard (as relações intrincadas entre homens e mulheres, como por exemplo em "Masculin Féminin", aparentemente citado num cabeleireiro onde encontramos o letreiro inverso "Feminin Masculin") e François Truffaut (os relacionamento adúlteros de "La peau douce" e "Jules et Jim"), entre outros. Não faltam as relações conturbadas entre homens e mulheres, as traições, as filmagens fora dos locais dos estúdios, o aproveitamento dos espaços externos (no caso de "L'Ombre des Femmes, a cidade de Paris, com as suas ruas e cafés a serem bem aproveitados), entre outros elementos que remetem quer para a Nouvelle Vague, quer para outros trabalhos de Philippe Garrel. O cineasta coloca-nos diante de um casal que mantém uma relação que atravessa uma fase complexa, com a figura masculina a pensar que se encontra a controlar tudo, embora seja Manon quem apresenta a sensibilidade para compreender aquilo que se passa. Se Pierre precisa que Elisabeth descubra que este se encontra a ser traído, já Manon necessita apenas de observar os gestos e comportamentos do esposo, com Clotilde Courau a ter a interpretação que mais sobressai.

Clotilde Courau interpreta uma figura feminina que pretende ser desejada e amada, bem como manter o casamento, embora não esteja disposta a tudo para alcançar os seus desideratos, surgindo como uma mulher recheada de virtudes e defeitos, ou seja, completamente humana e dotada de alguma complexidade. Philippe Garrel está longe de nos apresentar a personagens completamente livres de defeitos, algo que a espaços faz com que estas figuras intriguem minimamente o espectador, mesmo quando não compreendemos totalmente os gestos e atitudes dos protagonistas. Pelo meio, Philippe Garrel aproveita ainda para abordar o papel da memória e da História, das fontes e da relevância de aferir a veracidade das mesmas, algo latente nos discursos aparentemente convincentes do elemento da Resistência, que reforçam a necessidade de encararmos os depoimentos de alguns documentários com muita parcimónia. É um método eficaz, prático, sucinto e irónico de Garrel desmontar alguns discursos de falsos patriotas (o desinteresse que a esposa do elemento da Resistência apresenta em relação às falas do marido é algo que ganha toda uma ironia no final do filme), enquanto expõe a incompetência do protagonista, ou a falta de sensibilidade de Pierre, com este a depender e muito de Manon quer a nível profissional, quer a nível pessoal. Muitos dos diálogos decorrem nos quartos destes personagens, seja na casa de Pierre e Manon, ou na divisória da habitação de Elisabeth, com esta última a parecer ter alguma dificuldade em lidar com a solidão. A casa de Elisabeth conta com uma decoração simples, um adjectivo que pode aparentemente ser aplicado a "L'Ombre des Femmes", embora essa simplicidade seja apenas ilusória, com Philippe Garrel a jogar com situações aparentemente banais para nos colocar diante de uma obra cinematográfica capaz de nos deixar a reflectir sobre os personagens e os seus actos, bem como sobre as temáticas abordadas. Os momentos de silêncio são mais do que muitos e dotados de significado, enquanto que as falas aparecem marcadas por um tom muito próprio, seja sobre o estado de um matrimónio ou questões tão banais como a dúvida se é mais nojento urinar na banheira ou tomar banho na sanita. Com uma carreira e uma história de vida fascinante, um conjunto de obras cinematográficas que dividem opiniões e contribuem para debates saudáveis sobre a Sétima Arte, Philippe Garrel exibe em "L'Ombre des Femmes", tal como demonstrara recentemente em "La Jalousie", que é um cineasta que merece toda a nossa atenção. Diga-se que "L'Ombre des Femmes" desperta um estranho fascínio. Nem sempre compreendemos totalmente as atitudes e comportamentos dos personagens, os planos apresentam uma beleza que não é de descartar, a banda sonora aparece em momentos-chave e certeiros, o narrador (Louis Garrel) inclui algumas falas relevantes, enquanto somos praticamente hipnotizados para o interior desta obra cinematográfica que tem o condão de permanecer na nossa memória.

Título original: "L'Ombre des femmes".
Título em Portugal: "À Sombra das Mulheres".
Realizador: Philippe Garrel.
Argumento: Philippe Garrel, Jean-Claude Carrière, Caroline Deruas-Garrel, Arlette Langmann.
Elenco: Clotilde Courau, Stanislas Merhar, Lena Paugam, Mounir Margoum.

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