"L'assassino" ziguezagueia entra o presente e o passado,
enquanto coloca o espectador perante um interessante estudo de
personagem e uma investigação intrincada, naquela que é a primeira
longa-metragem realizada por Elio Petri, com o cineasta a incutir um
tom negro a esta obra cinematográfica que conta com mais uma
interpretação de grande nível de Marcello Mastroianni. O elemento
central da narrativa é Alfredo Martelli (Marcello Mastroianni), um
vendedor de antiguidades mulherengo e egocêntrico, que se encontra a
ser investigado devido ao assassinato de Adalgisa De Matteis
(Micheline Presle), uma mulher com quem manteve um caso amoroso e
partilhou um negócio. Alfredo habita num apartamento situado no
interior da cidade de Roma, com este espaço citadino a ser bem
visível através da janela da habitação, sobretudo quando o
protagonista se encontra a dialogar com os elementos da polícia que
se deslocaram à sua casa. Diga-se que alguns espaços desta cidade
são relativamente bem aproveitados ao longo do filme (incluindo o
Museo Delle Navi Romane), algo incrementado pelo recomendável
trabalho de Carlo di Palma na cinematografia. Os cenários interiores
também contam com alguma relevância, algo notório nas celas onde o
protagonista é obrigado a passar a noite, dois espaços frios,
dotados de paredes cinzentas marcadas pela passagem do tempo, com
estes cenários a contrastarem com a habitação de Alfredo. No
início de "L'assassino", encontramos Alfredo a relaxar,
tratar do cabelo de maneira bastante peculiar e falar ao telefone com
Nicoletta Nogaro (Cristina Gaioni), a sua noiva. Tudo muda quando
Alfredo é confrontado com a chegada das autoridades, que procuram
transportá-lo até à esquadra local. Alfredo não sabe inicialmente
o motivo da detenção, um desconhecimento que é partilhado pelo
espectador, uma situação que atribui algum mistério a estes
momentos iniciais de "L'assassino". Veja-se o nervosismo de
Alfredo na sala de espera da esquadra, com Elio Petri a deixar o
espectador na dúvida se o protagonista não sabe mesmo nada sobre os
motivos pelos quais foi detido, ou se apenas está nervoso devido a
toda esta situação pouco agradável. Petri aproveita ainda para
expor e criticar os abusos praticados por alguns elementos das
autoridades, com Alfredo a ser transportado para a esquadra, tendo em
vista a ser interrogado, sem a exibição de um mandato, para além
de ser tratado de forma pouco recomendável. É então que entra em
cena o Comissário Palumbo (Salvo Randone), um indivíduo bem falante
que procura saber uma quantidade assinalável de informações sobre
o protagonista, até revelar que Alfredo é o principal suspeito do
assassinato de Adalgisa De Matteis. Palumbo parece acreditar que o
protagonista é culpado, enquanto este último avalia diversos
episódios da sua vida e Elio Petri aproveita para nos apresentar a
uma investigação kafkiana e efectuar um comentário sobre a
sociedade do seu tempo. A partir daqui nasce a dúvida se Alfredo é
ou não o assassino, com o protagonista a jurar a sua inocência,
embora Elio Petri faça questão de explorar o lado negro deste
vendedor de antiguidades, com o discurso do mesmo a nem sempre
condizer com os seus actos, bem pelo contrário.
Elio Petri utiliza os flashbacks com uma eficácia notável, tendo
em vista a explanar a personalidade de Alfredo, uma figura complexa
que se encontra longe de ser recomendável. Os flashbacks permitem
expor a faceta implacável do protagonista quer nos negócios, quer
na vida pessoal, com Alfredo a não olhar a meios para atingir os
seus objectivos. Veja-se logo no primeiro flashback, quando Alfredo
salienta que é um homem sério e Elio Petri faz questão de
desmentir o seu protagonista, com o cineasta a incutir alguns trechos
de humor negro a esta obra cinematográfica, enquanto nos oferece
diferentes perspectivas sobre este vendedor de antiguidades. Alfredo
não tem problemas em trair um amigo e envolver-se com a esposa
deste, tal como exibe uma enorme desfaçatez ao iniciar uma relação
mais por interesse monetário do que por amor ou desejo. É certo que
no último terço parece existir uma pequena réstia de esperança em
relação a uma possível mudança de Alfredo, embora Elio Petri não
tarde a escorraçar essa ideia, com o protagonista a expor o seu lado
deliciosamente negro. Marcello Mastroianni consegue explorar quer o
lado negro e confiante deste indivíduo, quer a sua faceta mais
inquieta e insegura, elevando uma figura que tinha tudo para repelir
o espectador, embora desperte todo o interesse e atenção. Mérito
para Marcello Mastroianni, mas também para Elio Petri e os
argumentistas, com os esforços combinados destes elementos a
permitirem compor um protagonista intrigante que é eficazmente
"dissecado" ao longo do enredo. O interrogatório efectuado
por Palumbo permite exacerbar essas dúvidas em relação a Alfredo.
Salvo Randone conta com uma interpretação segura, com o actor a
transmitir a personalidade questionadora do comissário, uma figura que
procura estudar o protagonista e perceber se este é mesmo culpado. Veja-se os momentos que Marcello Mastroianni e
Salvo Randone partilham na sala onde o personagem interpretado pelo
primeiro é interrogado, com o comissário a assumir uma série de
posturas distintas para tentar quebrar as defesas do protagonista,
esperando que este revele alguma informação relevante para o caso,
ou melhor, que assuma a autoria do assassinato. Palumbo aquece as mãos no
aquecedor, senta-se, levanta-se, fica em silêncio, fala
incessantemente, enquanto Salvo Randone sobressai pela naturalidade
que incute aos gestos do personagem que interpreta. Alfredo é
colocado à prova, com as autoridades a procurarem que este ceda e
expresse a verdade ou, pelo menos, aquilo que pretendem, enquanto
ficamos diante desta investigação complexa. A busca pelo autor do
assassinato e a procura do protagonista em provar a sua inocência
ocupa uma parte relevante da narrativa, bem como a tentativa de
destrinçar a personalidade de Alfredo e os episódios relevantes da
sua vida. Aos poucos, as memórias do passado parecem tomar conta da
mente do protagonista, enquanto a sua faceta aparentemente
respeitável é colocada em causa, com Elio Petri a parecer
aproveitar para efectuar uma crítica aos valores superficiais de uma
sociedade muitas das vezes marcada por aparências. Alfredo veste-se
bem, é um galanteador e negociador nato, embora os seus valores
estejam muitas das vezes distantes de serem os mais recomendáveis,
com o argumento a explorar uma miríade de episódios que envolvem
este indivíduo.
As figuras femininas conhecem quase todas a faceta menos positiva
do protagonista. Adalgisa envolve-se com o protagonista e investe num
negócio com o mesmo, até ser parcialmente descartada por este
quando Nicoletta entra em cena. Esta é uma jovem bela e
financeiramente abastada, que é facilmente seduzida por Alfredo, um
indivíduo mulherengo e pragmático em diversas situações que toma.
A outra figura feminina a ser alvo do cinismo do protagonista é a
mãe do próprio, uma mulher idosa que se procura reunir com o filho,
embora este não demonstre grande interesse na situação. Os
flashbacks permitem ainda que o espectador fique a conhecer um pouco
da falecida, bem como de Nicoletta. Micheline Presle transmite a
experiência e a personalidade muito própria da personagem que
interpreta, uma figura feminina que se envolve com o protagonista, um
homem mais novo que parece utilizar as mulheres como uma forma de
ascender socialmente. Esta decidiu restaurar um espaço hoteleiro
chamado de Sangri-la, apresentando alguma independência, embora não
esteja livre de "amolecer" diante do protagonista. Diga-se
que Adalgisa e Alfredo encontraram-se no dia anterior ao assassinato
desta mulher, algo que levanta ainda mais suspeitas sobre este
indivíduo que se encontra envolvido com Nicoletta embora não se
furte a umas escapadinhas com a primeira, uma mulher casada com um
antigo amigo do personagem interpretado por Marcello Mastroianni. Já
Nicoletta é uma mulher mais jovem e ingénua, com Cristina Gaione a
exibir isso mesmo, sobretudo no primeiro encontro entre a primeira e
Alfredo. Outra figura feminina que se depara com o lado imoral do
protagonista é Rosetta (Giovanna Gagliardo), uma empregada do hotel
que é contactada por Alfredo para tratar do problema do dedo junto
de um amigo deste, embora o médico e o vendedor de antiguidades
apenas queiram ver a rapariga sem roupa. O médico e Alfredo são
dois exemplos paradigmáticos das figuras imorais que envolvem o
enredo de "L'assassino", com Elio Petri a atirar o
espectador para o interior de um universo narrativo de
características negras, pontuado por personagens muitas das vezes
desprovidos de valores ou prontos a enganar aqueles que os rodeiam.
Alfredo é o paradigma dessa imoralidade, surgindo como um indivíduo
egocêntrico e impertinente, que pensa acima de tudo em si próprio,
embora tenha consciência que errou bastante ao longo da sua
existência, algo latente quando começa a questionar e a relembrar
alguns dos seus actos.
A investigação avança ainda para espaços como o Sangri-La, um
hotel situado perto do mar, onde são interrogados elementos como o
antigo dono do local e um empregado, com Alfredo a parecer o único
que não tem um álibi forte que o defenda, embora também não
existam provas cabais para incriminá-lo. O Sangri-La surge como
outro dos locais fulcrais desta narrativa
ziguezagueante, com
as memórias do passado a serem colocadas em paralelo com episódios
do presente, com as primeiras a espaços a contaminarem estes
últimos. Elio Petri exibe que, acima de tudo, Alfredo está
agrilhoado aos valores consumistas e egocêntricos associados ao seu
novo estatuto social, existindo uma crítica a toda esta
superficialidade que rodeia o estilo de vida do protagonista, um
representante das mudanças que ocorreram em Itália durante o início
da década de 60. Alfredo é um indivíduo que ascendeu
socialmente graças aos seus negócios e envolvimentos amorosos,
embora esteja longe de se encontrar numa situação financeira
completamente desafogada. O artigo interessantíssimo de Larry Portis
expõe o caso do protagonista no prisma certo: "It
is also about the mental formation of a working-class person on the
make, someone who attempts to present himself as someone else,
someone belonging to another social class". Diga-se que
alguns representantes das autoridades também estão longe de serem
apresentados como as figuras mais simpáticas ou cumpridoras da lei,
tal como a imprensa, algo que permite a Elio Petri efectuar diversos
comentários sobre a sociedade do seu tempo (uma situação comum a
diversos trabalhos do cineasta), incluindo sobre o poder do rumor. A
representação de autoridades que não cumprem as leis e a espaços
assumem uma postura autoritária quase que remete para um dos filmes
mais conhecidos de Petri, em particular "Indagine su un
cittadino al di sopra di ogni sospetto", no qual o personagem
interpretado por Gian Maria Volontè, um inspector, assassina Augusta
Terzi (Florinda Balkan), uma mulher com quem mantinha um caso. Com uma utilização eficaz e pertinente dos flashbacks, uma narrativa pontuada
por figuras imorais e um protagonista que permite a Marcello
Mastroianni exprimir o seu talento para a interpretação, um
trabalho de montagem assertivo e uma cinematografia cuidada,
"L'assassino" marca uma estreia bastante interessante de
Elio Petri na realização de longas-metragens.
Título original: "L'assassino".
Título em Portugal: "O assassino".
Realizador: Elio Petri.
Argumento: Pasquale Festa Campanile, Massimo Franciosa, Tonino Guerra, Elio Petri.
Elenco: Marcello Mastroianni, Salvo Randone, Cristina Gaioni, Micheline Presle.




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