21 março 2016

Resenha Crítica: "L'assassino" (1961)

 "L'assassino" ziguezagueia entra o presente e o passado, enquanto coloca o espectador perante um interessante estudo de personagem e uma investigação intrincada, naquela que é a primeira longa-metragem realizada por Elio Petri, com o cineasta a incutir um tom negro a esta obra cinematográfica que conta com mais uma interpretação de grande nível de Marcello Mastroianni. O elemento central da narrativa é Alfredo Martelli (Marcello Mastroianni), um vendedor de antiguidades mulherengo e egocêntrico, que se encontra a ser investigado devido ao assassinato de Adalgisa De Matteis (Micheline Presle), uma mulher com quem manteve um caso amoroso e partilhou um negócio. Alfredo habita num apartamento situado no interior da cidade de Roma, com este espaço citadino a ser bem visível através da janela da habitação, sobretudo quando o protagonista se encontra a dialogar com os elementos da polícia que se deslocaram à sua casa. Diga-se que alguns espaços desta cidade são relativamente bem aproveitados ao longo do filme (incluindo o Museo Delle Navi Romane), algo incrementado pelo recomendável trabalho de Carlo di Palma na cinematografia. Os cenários interiores também contam com alguma relevância, algo notório nas celas onde o protagonista é obrigado a passar a noite, dois espaços frios, dotados de paredes cinzentas marcadas pela passagem do tempo, com estes cenários a contrastarem com a habitação de Alfredo. No início de "L'assassino", encontramos Alfredo a relaxar, tratar do cabelo de maneira bastante peculiar e falar ao telefone com Nicoletta Nogaro (Cristina Gaioni), a sua noiva. Tudo muda quando Alfredo é confrontado com a chegada das autoridades, que procuram transportá-lo até à esquadra local. Alfredo não sabe inicialmente o motivo da detenção, um desconhecimento que é partilhado pelo espectador, uma situação que atribui algum mistério a estes momentos iniciais de "L'assassino". Veja-se o nervosismo de Alfredo na sala de espera da esquadra, com Elio Petri a deixar o espectador na dúvida se o protagonista não sabe mesmo nada sobre os motivos pelos quais foi detido, ou se apenas está nervoso devido a toda esta situação pouco agradável. Petri aproveita ainda para expor e criticar os abusos praticados por alguns elementos das autoridades, com Alfredo a ser transportado para a esquadra, tendo em vista a ser interrogado, sem a exibição de um mandato, para além de ser tratado de forma pouco recomendável. É então que entra em cena o Comissário Palumbo (Salvo Randone), um indivíduo bem falante que procura saber uma quantidade assinalável de informações sobre o protagonista, até revelar que Alfredo é o principal suspeito do assassinato de Adalgisa De Matteis. Palumbo parece acreditar que o protagonista é culpado, enquanto este último avalia diversos episódios da sua vida e Elio Petri aproveita para nos apresentar a uma investigação kafkiana e efectuar um comentário sobre a sociedade do seu tempo. A partir daqui nasce a dúvida se Alfredo é ou não o assassino, com o protagonista a jurar a sua inocência, embora Elio Petri faça questão de explorar o lado negro deste vendedor de antiguidades, com o discurso do mesmo a nem sempre condizer com os seus actos, bem pelo contrário.

 Elio Petri utiliza os flashbacks com uma eficácia notável, tendo em vista a explanar a personalidade de Alfredo, uma figura complexa que se encontra longe de ser recomendável. Os flashbacks permitem expor a faceta implacável do protagonista quer nos negócios, quer na vida pessoal, com Alfredo a não olhar a meios para atingir os seus objectivos. Veja-se logo no primeiro flashback, quando Alfredo salienta que é um homem sério e Elio Petri faz questão de desmentir o seu protagonista, com o cineasta a incutir alguns trechos de humor negro a esta obra cinematográfica, enquanto nos oferece diferentes perspectivas sobre este vendedor de antiguidades. Alfredo não tem problemas em trair um amigo e envolver-se com a esposa deste, tal como exibe uma enorme desfaçatez ao iniciar uma relação mais por interesse monetário do que por amor ou desejo. É certo que no último terço parece existir uma pequena réstia de esperança em relação a uma possível mudança de Alfredo, embora Elio Petri não tarde a escorraçar essa ideia, com o protagonista a expor o seu lado deliciosamente negro. Marcello Mastroianni consegue explorar quer o lado negro e confiante deste indivíduo, quer a sua faceta mais inquieta e insegura, elevando uma figura que tinha tudo para repelir o espectador, embora desperte todo o interesse e atenção. Mérito para Marcello Mastroianni, mas também para Elio Petri e os argumentistas, com os esforços combinados destes elementos a permitirem compor um protagonista intrigante que é eficazmente "dissecado" ao longo do enredo. O interrogatório efectuado por Palumbo permite exacerbar essas dúvidas em relação a Alfredo. Salvo Randone conta com uma interpretação segura, com o actor a transmitir a personalidade questionadora do comissário, uma figura que procura estudar o protagonista e perceber se este é mesmo culpado. Veja-se os momentos que Marcello Mastroianni e Salvo Randone partilham na sala onde o personagem interpretado pelo primeiro é interrogado, com o comissário a assumir uma série de posturas distintas para tentar quebrar as defesas do protagonista, esperando que este revele alguma informação relevante para o caso, ou melhor, que assuma a autoria do assassinato. Palumbo aquece as mãos no aquecedor, senta-se, levanta-se, fica em silêncio, fala incessantemente, enquanto Salvo Randone sobressai pela naturalidade que incute aos gestos do personagem que interpreta. Alfredo é colocado à prova, com as autoridades a procurarem que este ceda e expresse a verdade ou, pelo menos, aquilo que pretendem, enquanto ficamos diante desta investigação complexa. A busca pelo autor do assassinato e a procura do protagonista em provar a sua inocência ocupa uma parte relevante da narrativa, bem como a tentativa de destrinçar a personalidade de Alfredo e os episódios relevantes da sua vida. Aos poucos, as memórias do passado parecem tomar conta da mente do protagonista, enquanto a sua faceta aparentemente respeitável é colocada em causa, com Elio Petri a parecer aproveitar para efectuar uma crítica aos valores superficiais de uma sociedade muitas das vezes marcada por aparências. Alfredo veste-se bem, é um galanteador e negociador nato, embora os seus valores estejam muitas das vezes distantes de serem os mais recomendáveis, com o argumento a explorar uma miríade de episódios que envolvem este indivíduo.

 As figuras femininas conhecem quase todas a faceta menos positiva do protagonista. Adalgisa envolve-se com o protagonista e investe num negócio com o mesmo, até ser parcialmente descartada por este quando Nicoletta entra em cena. Esta é uma jovem bela e financeiramente abastada, que é facilmente seduzida por Alfredo, um indivíduo mulherengo e pragmático em diversas situações que toma. A outra figura feminina a ser alvo do cinismo do protagonista é a mãe do próprio, uma mulher idosa que se procura reunir com o filho, embora este não demonstre grande interesse na situação. Os flashbacks permitem ainda que o espectador fique a conhecer um pouco da falecida, bem como de Nicoletta. Micheline Presle transmite a experiência e a personalidade muito própria da personagem que interpreta, uma figura feminina que se envolve com o protagonista, um homem mais novo que parece utilizar as mulheres como uma forma de ascender socialmente. Esta decidiu restaurar um espaço hoteleiro chamado de Sangri-la, apresentando alguma independência, embora não esteja livre de "amolecer" diante do protagonista. Diga-se que Adalgisa e Alfredo encontraram-se no dia anterior ao assassinato desta mulher, algo que levanta ainda mais suspeitas sobre este indivíduo que se encontra envolvido com Nicoletta embora não se furte a umas escapadinhas com a primeira, uma mulher casada com um antigo amigo do personagem interpretado por Marcello Mastroianni. Já Nicoletta é uma mulher mais jovem e ingénua, com Cristina Gaione a exibir isso mesmo, sobretudo no primeiro encontro entre a primeira e Alfredo. Outra figura feminina que se depara com o lado imoral do protagonista é Rosetta (Giovanna Gagliardo), uma empregada do hotel que é contactada por Alfredo para tratar do problema do dedo junto de um amigo deste, embora o médico e o vendedor de antiguidades apenas queiram ver a rapariga sem roupa. O médico e Alfredo são dois exemplos paradigmáticos das figuras imorais que envolvem o enredo de "L'assassino", com Elio Petri a atirar o espectador para o interior de um universo narrativo de características negras, pontuado por personagens muitas das vezes desprovidos de valores ou prontos a enganar aqueles que os rodeiam. Alfredo é o paradigma dessa imoralidade, surgindo como um indivíduo egocêntrico e impertinente, que pensa acima de tudo em si próprio, embora tenha consciência que errou bastante ao longo da sua existência, algo latente quando começa a questionar e a relembrar alguns dos seus actos.

 A investigação avança ainda para espaços como o Sangri-La, um hotel situado perto do mar, onde são interrogados elementos como o antigo dono do local e um empregado, com Alfredo a parecer o único que não tem um álibi forte que o defenda, embora também não existam provas cabais para incriminá-lo. O Sangri-La surge como outro dos locais fulcrais desta narrativa ziguezagueante, com as memórias do passado a serem colocadas em paralelo com episódios do presente, com as primeiras a espaços a contaminarem estes últimos. Elio Petri exibe que, acima de tudo, Alfredo está agrilhoado aos valores consumistas e egocêntricos associados ao seu novo estatuto social, existindo uma crítica a toda esta superficialidade que rodeia o estilo de vida do protagonista, um representante das mudanças que ocorreram em Itália durante o início da década de 60. Alfredo é um indivíduo que ascendeu socialmente graças aos seus negócios e envolvimentos amorosos, embora esteja longe de se encontrar numa situação financeira completamente desafogada. O artigo interessantíssimo de Larry Portis expõe o caso do protagonista no prisma certo: "It is also about the mental formation of a working-class person on the make, someone who attempts to present himself as someone else, someone belonging to another social class". Diga-se que alguns representantes das autoridades também estão longe de serem apresentados como as figuras mais simpáticas ou cumpridoras da lei, tal como a imprensa, algo que permite a Elio Petri efectuar diversos comentários sobre a sociedade do seu tempo (uma situação comum a diversos trabalhos do cineasta), incluindo sobre o poder do rumor. A representação de autoridades que não cumprem as leis e a espaços assumem uma postura autoritária quase que remete para um dos filmes mais conhecidos de Petri, em particular "Indagine su un cittadino al di sopra di ogni sospetto", no qual o personagem interpretado por Gian Maria Volontè, um inspector, assassina Augusta Terzi (Florinda Balkan), uma mulher com quem mantinha um caso. Com uma utilização eficaz e pertinente dos flashbacks, uma narrativa pontuada por figuras imorais e um protagonista que permite a Marcello Mastroianni exprimir o seu talento para a interpretação, um trabalho de montagem assertivo e uma cinematografia cuidada, "L'assassino" marca uma estreia bastante interessante de Elio Petri na realização de longas-metragens.

Título original: "L'assassino".
Título em Portugal: "O assassino".
Realizador: Elio Petri.
Argumento: Pasquale Festa Campanile, Massimo Franciosa, Tonino Guerra, Elio Petri.
Elenco: Marcello Mastroianni, Salvo Randone, Cristina Gaioni, Micheline Presle.

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