02 março 2016

Resenha Crítica: "L'armata Brancaleone" (1966)

 Em "I soliti ignoti", Mario Monicelli colocou-nos diante de um grupo de assaltantes e vigaristas de pouca monta que procurava efectuar um assalto que transcendia e muito as capacidades e recursos dos criminosos. Em "L'armata Brancaleone", Mario Monicelli deixa-nos perante um grupo de incompetentes que inicia uma jornada para chegar a Aurocastro e tomar conta da cidade, utilizando um pergaminho roubado, escrito por Otão I, que autorizava essa situação. O pergaminho pertencia a Arnolfo Mano-di-ferro (Alfio Caltabiano), tendo sido furtado no início do filme, quando "L'armata Brancaleone" exibe paradigmaticamente àquilo que vem: não falta violência exposta de forma exagerada e caricatural (incluindo pintainhos degolados e braços cortados), situações completamente estapafúrdias, sangue falso, reboliço e elementos de tragicomédia, com Mario Monicelli a efectuar um retrato ácido e mordaz da Idade Medieval. Mario Monicelli volta a colocar o espectador diante dos elementos à margem da sociedade, com o grupo de maltrapilhos que inicia a jornada a ser composto por indivíduos incompetentes e depauperados. O líder desta pandilha, Brancaleone da Norcia (Vittorio Gassman), um cavaleiro, é o paradigma da mesma: trapalhão e pouco competente. Abacuc (Carlo Pisacane), Pecoro (Folco Lulli), Taccone (Gianluigi Crescenzi) e Mangold (Ugo Fangareggi) procuram que Brancaleone se junte ao grupo, tendo em vista a liderar o mesmo e partilhar os benefícios da tomada do novo território, embora o cavaleiro rejeite inicialmente a oferta. Abacuc é um mercador judeu, medroso e pronto a fazer um bom negócio; Taccone é um jovem que participa no assalto a Arnolfo Mano-di-ferro, um cavaleiro que tentava defender o território; Pecoro é um indivíduo robusto e pouco polido; Mangold procurou inicialmente atacar o espaço onde habitavam os elementos do grupo. O território habitado por elementos como Pecoro, Taccone e Abacuc é alvo de uma incursão violenta por parte de um grupo pronto a matar, agredir mulheres, pilhar e destruir tudo aquilo que aparece pela frente, com Arnolfo a procurar atacar os agressores, embora seja aparentemente eliminado e roubado pelos habitantes deste espaço. Mario Monicelli não tem problemas em expor quer o lado negro dos inimigos, quer dos protagonistas, um grupo que procura fazer de tudo para sobreviver, tentando levar a cabo uma tarefa ambiciosa, sobretudo se tivermos em conta a inaptidão dos seus membros, algo que nos traz novamente à memória "I soliti ignoti", uma das obras-primas do cineasta. Diga-se que Mario Monicelli também exibe níveis elevados de inspiração em "L'armata Brancaleone", com o cineasta a efectuar uma representação ácida e hilariante da Idade Média e dos seus estereótipos, com poucos elementos a passarem incólumes, sejam camponeses, cavaleiros, religiosos, mercadores, ou a jovem virginal. Brancaleone é o exemplo dessa inaptidão, com Vittorio Gassman a expor novamente o seu talento para o humor, muitas das vezes físico, com o protagonista a surgir como uma figura completamente incompetente, embora tenha alguns valores morais. Brancaleone é um cavaleiro sem grandes posses, que conta com a companhia de Aquilante, um cavalo amarelo que raramente obedece ao dono. Veja-se desde logo o momento em que Brancaleone perde um combate de forma ridícula e vergonhosa, com o cavalo a não obedecer às ordens, contribuindo para um episódio constrangedor que conduz o cavaleiro a juntar-se a Taccone, Pecoro, Mangold e Abacuc.

A jornada do grupo é o fio condutor do enredo de "L'armata Brancaleone", com esta "comédia à italiana" a contar com uma estrutura narrativa episódica, pontuada pela entrada em cena de uma miríade de personagens e a passagem por um número alargado de cenários. Um desses personagens que entra em contacto com o grupo é Teofilatto dei Leonzi (Gian Maria Volontè), um príncipe bizantino que não tem praticamente onde "cair morto". Teofilatto procura convencer o quinteto a simular que o rapta, tendo em vista a extorquir dinheiro dos seus pais, um plano que é inicialmente rejeitado, com o grupo a não parecer encarar esta ideia com seriedade. No entanto, quando os integrantes do grupo decidem colocar o falso rapto em prática, tendo em vista a obterem divisas, logo ficamos diante de diversas situações hilariantes e rocambolescas, com segredos antigos a serem revelados, uma Sado-masoquista (Barbara Steele) a exibir os seus dotes, enquanto tudo parece correr mal para os protagonistas. Gian Maria Volontè incute algum do seu carisma e talento ao personagem que interpreta, um indivíduo mulherengo, sem grandes planos para a vida que acaba por se juntar a este grupo caótico. Diga-se que o elenco principal tem espaço para sobressair ao longo de "L'armata Brancaleone", algo que advém não só da capacidade de Mario Monicelli e do talento dos actores e actrizes mas também do argumento de Age e Scarpelli (acompanhados pelo cineasta). O argumento consegue usar e abusar dos estereótipos ao serviço do humor, satirizar as convenções associadas à Idade Média e aos filmes que abordam a mesma, contando com algumas falas e momentos dignos de enorme atenção. É certo que raramente existe tensão a rodear estes episódios, embora Monicelli volte a colocar o espectador diante da morte de um personagem relevante, tal como em algumas situações parece existir uma gestão demasiado pueril dos figurantes (veja-se quando encontramos uma série de "sarracenos" a atirarem-se sozinhos do cimo de uma montanha), algo que raramente tira valor a esta obra cinematográfica ou distrai o espectador de forma indelével. O que desperta claramente à atenção são estes personagens e as situações em que são envolvidos. Veja-se quando entram felizes e contentes numa cidade aparentemente abandonada, recheada de comida e bens para furtar, embora a descoberta de uma viúva (Maria Grazia Buccella) de enorme beleza traga a revelação de que o espaço se encontra desértico devido à Peste Negra. A fuga deste local conduz estes elementos a depararem-se com Zenone (Pietro l'Eremita), um líder religioso excêntrico que lidera um grupo até Jerusalém, tendo em vista a "libertar o Santo Sepulcro". Brancaleone, Teofilatto, Pecoro, Taccone, Mangold e Abacuc procuram seguir Zenone, pensando que este indivíduo pode contribuir para escaparem à Peste Negra. Escusado será dizer que estas figuras vão protagonizar mais alguns episódios dotados de humor e alguma tragédia, incluindo Abacuc a ser baptizado e dois personagens a caírem de uma ponte, com um deles a ser "acarinhado" por uma ursa que literalmente toma conta dele. Não poderia avançar o texto sem dedicar alguns caracteres a Carlo Pisacane, com o actor a criar um personagem peculiar, implacável nos negócios e medroso, que facilmente desperta o nosso sorriso, sobretudo no gag recorrente de se esconder no interior de um baú.

O grupo depara-se ainda com Matelda (Catherine Spaak), uma mulher de enorme beleza, que desperta a atenção das figuras masculinas e pretende conquistar Brancaleone. Matelda e o seu tutor foram alvos de um ataque, enquanto viajavam em direcção ao castelo de Guccione di Rampazzo (Joaquín Díaz), o futuro esposo da primeira, um indivíduo conservador e abastado, que pretende contrair matrimónio com uma virgem. Brancaleone aceita transportar Matelda até ao castelo de Guccione di Rampazzo, prometendo ao tutor da mesma, um indivíduo prestes a falecer, que esta vai manter a virgindade, uma tarefa que parece difícil de cumprir, sobretudo se tivermos em conta que o grupo é composto por homens. Não vão faltar mais mal-entendidos, fugas aparatosas e confusões, com Mario Monicelli a não poupar também na abordagem satírica aos costumes da época. Diga-se que alguns destes valores e costumes, expostos através da época medieval, permitem efectuar uma crítica ao conservadorismo de alguns sectores da sociedade do tempo em que "L'armata Brancaleone" foi lançado. Veja-se o desejo de Guccione em casar com uma virgem, algo que remete para "comédias à italiana" como "Sedotta e abbandonata", na qual um pai procura casar a filha à força com o indivíduo que tirou a virgindade à jovem. Temos ainda casos como "La ragazza con la pistola", um filme do género realizado por Mario Monicelli, com Monica Vitti a dar vida a Assunta, uma siciliana que procura eliminar o indivíduo que tirou a sua virgindade e fugiu sem casar, com ambos os exemplos a remeterem para alguns sectores retrógrados da sociedade italiana. Tal como nos exemplos citados, "L'armata Brancaleone" encontra muitas das vezes o humor na tragédia, ou não colocasse o espectador diante de diversos personagens com poucas posses que procuram acima de tudo sobreviver. Diga-se que "L'armata Brancaleone" traz ainda a temática do grupo improvável que se reúne para colocar em prática um plano ambicioso, tal como "I soliti ignoti", com Mario Monicelli a demonstrar mais uma vez que é um cineasta exímio a aproveitar a dinâmica entre os elementos que povoam o elenco. Mario Monicelli aproveita esta estrutura episódica para apresentar uma série de personagens e cenários, explorar uma miríade de situações rocambolescas e satirizar os estereótipos associados às histórias e figuras da época em que se desenrola o enredo: o cavaleiro é um tipo inapto ao ponto de não conseguir controlar o seu cavalo; a jovem pura quer fazer sexo com o primeiro que lhe aparecer pela frente; o representante da Igreja é um chanfrado de primeira; as Cruzadas são mencionadas com mordacidade, entre outros exemplos. Existe ainda algum cuidado a nível dos cenários e do guarda-roupa, tendo em vista a que estes contribuam para a representação satírica da época, sobressaindo espaços como o castelo dos pais de Teofilatto, ou o local onde deveria decorrer a festa de casamento de Matelda. Recheado de ritmo, episódios rocambolescos, uma miríade de personagens que sobressaem, um elenco sólido e uma realização inspirada de Mario Monicelli, "L'armata Brancaleone" transporta-nos para uma representação mordaz da Idade Medieval, enquanto desperta sorrisos, apresenta momentos que ficam na memória e permite que os diversos actores e actrizes se destaquem.

Título original: "L'armata Brancaleone".
Título em Portugal: "O Capitão Brancaleone".
Realizador: Mario Monicelli.
Argumento: Age e Scarpelli, Mario Monicelli.
Elenco: Vittorio Gassman, Gian Maria Volontè, Catherine Spaak, Carlo Pisacane, Luigi Sangiorgi, Ugo Fangareggi, Folco Lulli, Enrico Maria Salerno, Maria Grazia Buccella, Barbara Steele.

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