04 março 2016

Resenha Crítica: "La ragazza con la pistola" (1968)

 Monica Vitti seduz, é seduzida, procura vingar-se, dispara, dança, canta, grita, expõe exageradamente os sentimentos e encanta em "La ragazza con la pistola", uma comédia realizada por Mario Monicelli. O cineasta satiriza os hábitos e rituais associados aos sicilianos, utiliza elementos de filmes de vingança e transporta a sua protagonista para uma miríade de locais, sempre com muito humor e situações delirantes à mistura. Monica Vitti interpreta Assunta Patanè, uma mulher oriunda de uma pequena vila na Sicília, que é raptada por indivíduos ao serviço de Vincenzo Macaluso (Carlo Giuffrè), uma espécie de Don Juan destrambelhado, que procurava conquistar a prima da protagonista à força. Quem é raptada é Assunta, uma mulher que parecia nutrir algum desejo por este homem, embora não demonstrasse directamente esse sentimento. Esta é uma figura feminina apegada às tradições e aos "bons valores morais", com toda a sua família a ser composta apenas por mulheres, algo que remete para a violência no território e para o modo como as suas gentes resolvem os problemas. Diga-se que a própria Assunta exibe essa violência, sobretudo quando passa uma noite com Vincenzo e este foge para a Escócia. Escusado será dizer que Assunta fica revoltada, com a sua família e o seu noivo a obrigarem-na a eliminar Vincenzo, tendo em vista a "limpar" a desonra (o filme aproveita o humor para abordar e satirizar a prática de fuitina e os estranhos códigos de honra dos habitantes deste local). Assunta domina mal a língua inglesa e a arte do disparo, mas viaja com uma pistola, uma quantia monetária generosa e vestes negras, apresentando um conjunto de valores rígidos e conservadores que vão chocar de frente com a realidade que encontra na Escócia. A estrutura narrativa é relativamente episódica, com Assunta a deslocar-se para diversos locais, enquanto se cruza com um conjunto alargado de personagens, com a vingança a surgir como parte do fio condutor do enredo. Vincenzo procura escapar desta mulher a todo o custo, enquanto esta convive com realidades distintas que permitem explorar o talento de Monica Vitti para o humor. Capaz de compor personagens complexas como demonstrou em obras cinematográficas como "L'Avventura", "La Notte", "L'Eclisse" e "Il deserto rosso", Monica Vitti tem em "La ragazza con la pistola" um papel que permite apresentar um registo bem distinto em relação aos exemplos citados. O humor domina este filme, bem como o desejo de vingança da protagonista e até alguns salpicos de romance. Assunta conquista muitos dos elementos que a rodeiam, embora não tenha problemas em despachar quase todos e exibir a arma que guarda na sua mala. Para Assunta, as tradições são para levar a sério, embora a própria a espaços ceda ao desejo, ou às tentações, enquanto acaba por se adaptar gradualmente à cultura e hábitos britânicos.

 Mario Monicelli não tem problemas em usar e abusar dos exageros, utilizando alguns estereótipos ao serviço do humor, ao mesmo tempo que cria alguns momentos hilariantes. Veja-se quando Assunta trabalha como empregada de um casal na Escócia. O facto de Assunta não dominar a língua inglesa é inicialmente problemático, bem como a inadaptação da protagonista aos hábitos locais. Essa situação é particularmente visível quando o casal organiza uma festa, com Assunta a emitir uma gargalhada bem sonora quando se depara com um convidado que chega de kilt. A gargalhada, exposta em fora de campo, espelha paradigmaticamente a personalidade expansiva desta mulher que tem os sentimentos à flor da pele, bem como o facto de ainda se encontrar pouco adaptada à nova realidade. Diga-se que Assunta depara-se com alguns italianos quer na Escócia, quer em Inglaterra, com "La ragazza con la pistola" a explanar o fluxo emigratório neste período, enquanto Mario Monicelli, um dos mestres da "comédia à italiana", aproveita para abordar esta situação e efectuar alguns comentários de cariz social. Veja-se que os valores inicialmente conservadores de Assunta, expostos de forma exagerada, permitem discernir uma Itália recheada de assimetrias, pontuada por locais citadinos modernos mas também espaços mais conservadores e retrógados, com a chegada da protagonista à Escócia e Inglaterra a exacerbar essas dicotomias. Inicialmente, Assunta procura por Vincenzo num restaurante, em território escocês, embora este "D. Juan" consiga fugir. A busca protagonizada por Assunta continua em Inglaterra, enquanto esta mulher encontra uma série de figuras que prometem marcar a sua vida e a narrativa. Um dos elementos que se destaca é John (Anthony Booth), um mecânico e jogador amador de rugby, fã desta modalidade, que parece interessado nesta mulher embora seja facilmente descartado pela mesma. A personalidade desta é bem visível quando se encontram na casa de John e este visiona um jogo de rugby. Assunta questiona como é possível um homem estar sozinho com uma mulher e preferir assistir a um jogo de rugby, algo que este encara como uma tentativa de avanço, embora a protagonista faça questão de ameaçar o personagem interpretado por Anthony Booth. Diga-se que este momento deixa-nos diante de dois lados de Assunta: provocador e conservador. Esta é uma figura feminina recheada de contradições, algo que John pode comprovar. Este é um jovem loiro e enérgico que procura ajudar Assunta na busca por Vincenzo, enquanto a protagonista entra em choque com os valores locais, não tendo problemas de adjectivar "carinhosamente" de "puta" todas as mulheres que se cruzaram com o fugitivo. Assunta descarta o jogador de rugby quando descobre que Vincenzo se encontra a trabalhar no transporte de doentes num hospital em Bath. É nas proximidades do hospital que esta conhece Dr. Osborne (Stanley Baker) e Frank Hogan (Corin Redgrave). Frank é um estudante que tentou cometer suicídio. Este revela interesse em casar com Assunta, embora esta logo descubra que o pretendente é homossexual. O Dr. Osborne surge como uma figura ponderada, que procura ajudar Assunta, incluindo a nível laboral e de adaptação ao território e à língua. O personagem interpretado por Stanley Baker parece despertar a atenção da protagonista, embora seja um homem casado, com a dupla a protagonizar alguns episódios marcantes.

 Assunta começa a entender que a sua personalidade efervescente e os seus "valores sicilianos" nem sempre se adaptam a toda uma nova realidade, com a própria a conhecer algumas alterações ao longo do enredo. Vitti é um furacão que mexe com a narrativa, com as figuras masculinas e conquista o espectador (ou pelo menos este que escreve o texto). As explosões da protagonista são hilariantes, bem como o choque dos seus valores em relação àqueles que a rodeiam, embora até acabe por formar uma estranha dinâmica com algumas figuras masculinas. Esta começa a adaptar-se à vida em Inglaterra e a formar sentimentos mais fortes pelo Dr. Osborne, parecendo desistir da ideia de regressar a casa, embora seja constantemente atormentada por pensamentos relacionados com a forma como poderá ser recebida na Sicília se descobrirem que não eliminou Vincenzo. As divagações da protagonista funcionam, tal como diversos momentos de humor, com Mario Monicelli a criar uma obra cinematográfica capaz de satirizar elementos culturais quer da protagonista, quer daqueles que esta encontra na Escócia e em Inglaterra. Por vezes existem algumas incoerências, incluindo na forma como diversas figuras comunicam em inglês ou italiano consoante estão viradas, embora pouco incomodem ao longo deste enredo dominado pelos exageros. Se Stanley Baker interpreta sobriamente uma figura calma e compreensiva, já Carlo Giuffrè não tem problemas em explorar a faceta conquistadora e sacana de Vincenzo, um indivíduo que se prepara para provar do seu próprio veneno. Veja-se no último terço, quando procura reencontrar Assunta, com esta a apresentar toda uma nova postura e visual, parecendo adaptada a Inglaterra e às suas gentes. Esta forma uma relação de proximidade com o Dr. Osborne, algo que atribui uma faceta de comédia romântica a este filme recheado de emoções fortes, com o desejo de vingança de Assunta a servir como o combustível para diversos episódios elevados por Monica Vitti. A actriz é explosiva e intensa, apresentando uma capacidade notável para elevar uma obra cinematográfica na qual Mario Monicelli não tem problemas em exacerbar os estereótipos associados aos sicilianos, ingleses e escoceses, enquanto desenvolve uma comédia recheada de episódios que ficam na memória e efectua alguns comentários sobre a sociedade do seu tempo. Diga-se que esta abordagem satírica aos valores muito próprios e conservadores dos sicilianos a espaços remete para "comédias à italiana" como "Divorzio all'italiana" e "Sedotta e abbandonata", realizadas por Pietro Germi. Os dois exemplos citados colocam o espectador diante de uma sociedade siciliana pontuada por falsas aparências, estranhos códigos de honra e valores retrógados, com "Sedotta e abbandonata" a contar com situações como um pai a procurar casar a sua filha com o homem que a "desonrou" e um rapto para forçar um casamento, enquanto Pietro Germi recorre à sátira, ao exagero e ao humor negro para expor esta realidade. Com um conjunto de momentos de humor que funcionam, uma vingança destrambelhada e uma protagonista marcante, "La ragazza con la pistola" exibe o talento de Monica Vitti para a comédia e de Mario Monicelli para a realização de filmes do género.

Título original: "La ragazza con la pistola".
Título em Portugal: "A Rapariga da Pistola".
Realizador: Mario Monicelli.
Argumento: Luigi Magni e Rodolfo Sonego.
Elenco: Monica Vitti, Stanley Baker, Carlo Giuffrè, Corin Redgrave, Anthony Booth.

Sem comentários: