09 março 2016

Resenha Crítica: "La decima vittima" (1965)

 Recheada de violência (ainda que desprovida de sangue), cor, romance, crítica social, reviravoltas, música a condizer com os ritmos da narrativa, um peculiar jogo entre o "gato e o rato", "La decima vittima" surge como uma obra cinematográfica deliciosamente envolvente e exagerada, pontuada por algum humor e uma química assinalável entre Marcello Mastroianni e Ursula Andress. É praticamente "batota" colocar Mastroianni e Andress como a dupla de protagonistas, sobretudo quando se atribui a ambos a faceta de figuras sedutoras, aparentemente impassíveis mas capazes de cederem ao desejo. Estes são presas e caçadores, implacáveis e vulneráveis, protagonizando um jogo de sedução que facilmente conquista o espectador. A narrativa tem como pano de fundo um futuro próximo, onde existe uma espécie de jogo denominado de "Grande Caça", que utiliza a violência como um meio de evitar guerras entre as nações e entreter as massas. Alguns concorrentes encaram a Grande Caça como um meio para ganharem reconhecimento e dinheiro, outros para satisfazerem os seus ímpetos violentos, existindo um conjunto de regras que visam incrementar o nível de dificuldade do jogo e evitar que os participantes eliminem inocentes. Cada jogador tem dez missões, divididas equitativamente entre o papel de caçador e de presa. O(A) caçador(a) sabe quem tem de caçar, enquanto que a presa não é informada da identidade do(a) primeiro(a), tendo de utilizar a sua capacidade de dedução. Poucos elementos conseguiram chegar vivos até ao final, com o feliz contemplado a receber um milhão de dólares e uma homenagem pública, com os concorrentes a serem admirados pelo público. Elio Petri não poupa tempo a expor as regras do concurso, enquanto aproveita para exibir a habilidade da dupla de protagonistas para a matança e efectuar uma série de críticas à sociedade do seu tempo, através desta narrativa futurista. O sensacionalismo, o capitalismo, o materialismo, a sede de alguns seres humanos pela violência, os mass media não passam incólumes, com "La decima vittima" a parecer prever ainda a popularidade dos reality shows e a audiência televisiva dos mesmos. Elio Petri realiza uma obra de arte delirante, envolvente, estilizada e sedutora, com as críticas a serem certeiras (algumas actuais), enquanto a narrativa consegue agarrar completamente a atenção. É um filme distinto de obras cinematográficas de Elio Petri como "L'assassino", "A Ciascuno il suo", "Indagine su un cittadino al di sopra di ogni sospetto", ou "La classe operaia va in paradiso", que abordavam questões sociais e políticas, embora tivessem como pano de fundo uma realidade próxima da década em que foram lançadas, com o primeiro exemplo a contar com Marcello Mastroianni como protagonista, tal como "La decima vittima". Mastroianni interpreta Marcello Polletti, um concorrente de cabelo loiro pintado, aparentemente passivo e galanteador, que procura ganhar dinheiro de todas as formas, incluindo como líder de um culto. Despreza os neorrealistas, procura manter a integridade física e evitar casar com Olga (Elsa Martinelli), uma figura feminina que se encontra atraída por este embora não saiba que Marcello não pretende continuar a relação, com o protagonista a não parecer interessado em manter envolvimentos sérios desde que se separou de Lidia (Luce Bonifassy), a sua ex-mulher.

 A primeira vez que encontramos Marcello em acção é quando o protagonista elimina um indivíduo, conseguindo ser bem sucedido na sua tarefa como caçador. No entanto, o pior está para vir, ou talvez não, com Marcello a preparar-se para ser a presa de Caroline Meredith (Ursula Andress), uma concorrente que ganhou o estatuto de estrela. Ursula Andress protagoniza uma das cenas mais marcantes do filme, nomeadamente, quando Caroline se encontra no interior de um bar, com um bikini prateado recheado de picos, a dançar para o público masculino, com os espectadores a encontrarem-se em êxtase. A música, a actriz e o trabalho de Petri permitem criar todo um ambiente de estranha sedução e exagero, pontuado por algum erotismo, que logo é quebrado quando Caroline pede para um indivíduo tirar a máscara que esta utiliza, disparando contra o mesmo. É a nona missão bem sucedida de Caroline, uma figura feminina que compreende o negócio proporcionado por este jogo. Veja-se a procura de uma equipa em filmar o assassinato, com Caroline a ser patrocinada pela companhia de chá Ming. Também Marcello conta com um empresário, embora ainda não tenha a noção daquilo que pode lucrar ao mediatizar ainda mais os espectáculos associados às mortes, com o personagem interpretado por Mastroianni a contar com seis missões bem sucedidas. A certa altura, Elio Petri coloca o espectador diante de situações tão caricaturais e mordazes como uma concorrente a dizer o nome do seu patrocinador para a câmara, antes de cometer um assassinato, ou os representantes da empresa a mudarem o apoio para um adversário que se encontra momentaneamente em vantagem, com o cineasta a não poupar na crítica às grandes empresas capitalistas que apenas visam o lucro. Diga-se que o discurso de pendor social é algo comum a diversos trabalhos de Elio Petri, incluindo os citados, embora "La decima vittima" mescle ainda elementos de acção, ficção-científica, sátira, romance e uma dupla de protagonistas que simplesmente consegue que compremos facilmente as ideias do cineasta. Marcello Mastroianni apresenta um estilo descontraído e galanteador, parecendo divertir-se a protagonizar esta obra cinematográfica, enquanto Ursula Andress incute uma faceta implacável e sedutora a Caroline, com a dupla a sobressair em bom nível. Inicialmente existem diversas reservas de parte a parte, com Caroline a procurar que Marcello acredite que esta é uma jornalista que pretende entrevistá-lo. O local para a entrevista é o Templo de Vénus, um espaço histórico da cidade de Roma, seleccionado pelos patrocinadores de Caroline, tendo em vista a criar todo um espectáculo em volta do assassinato. Diga-se que Elio Petri procura conciliar estes espaços citadinos reais com os cenários futuristas. Não falta um clube de luta onde dois elementos combatem até um morrer, um centro de treino para concorrentes, casas com portas automáticas, edifícios onde ficam situadas as sedes dos líderes deste "jogo", entre outros espaços que exibem toda uma procura em criar um universo narrativo credível e extravagante a envolver a história de Caroline e Marcello. O jogo entre o gato e o rato transforma-se num jogo de sedução de parte a parte, com Marcello Mastroianni e Ursula Andress a apresentarem uma química indelével. Existe espaço para o humor mas também para momentos mais tensos, com "La decima vittima" a não poupar em tiroteios e armadilhas. Veja-se quando encontramos Caroline ou Marcello a procurarem iludir o adversário, tendo em vista a transportá-lo para um local onde o tiroteio seja filmado com direito a patrocinador, ou a citada cena na qual a personagem interpretada por Ursula Andress dança sedutoramente até pegar na pistola e eliminar a sua vítima.

 A brutalidade deste jogo é encarada como algo benéfico para a sociedade, permitindo supostamente controlar a violência e entreter as massas. Não deixa de ser curioso e irónico que o Coliseu de Roma tenha sido um local ponderado pela equipa de Caroline, com este jogo a remeter para o "pão e circo" do Império Romano, ou a violência como entretenimento não fosse algo que tenha marcado este espaço e a História da Humanidade. No caso, ficamos diante de uma certa desumanização da sociedade, com homens e mulheres a procurarem vencer um jogo sanguinário, enquanto o público rejubila e a sociedade toma atitudes tão degradantes como idolatrar assassinos ou livrar-se dos idosos. Claro que os italianos não cumprem a última regra, com Elio Petri a incutir uma certa ironia a esta quebra da lei por parte do personagem interpretado por Marcello Mastroianni. Marcello é uma figura peculiar, que procura vencer o concurso, embora indique ser algo descontraído, ou pouco esforçado, parecendo não contar com paciência para se envolver num relacionamento sério, embora Caroline prometa mexer com a sua cabeça. Por sua vez, Caroline não consegue ficar indiferente em relação a este indivíduo, enquanto Elio Petri explora a dinâmica entre os dois protagonistas e lança a dúvida se algum deles será capaz de cumprir a missão, ou se procuram apenas salvar a respectiva "pele". O visual destes personagens varia ao longo do filme, embora caiba a Ursula Andress contar com as roupas mais extravagantes e exacerbadoras da sua capacidade de sedução e enorme beleza. Vale ainda a pena realçar as roupas futuristas de Olga quando decide encetar uma vingança pessoal, com "La decima vittima" a exibir todo um fascinante cuidado no guarda-roupa e design dos cenários tendo em vista a explanar esta atmosfera exagerada que envolve a narrativa do filme. O argumento, inspirado no livro "The Seventh Victim", de Robert Sheckley, cumpre os objectivos, embora "La decima vittima" seja um caso onde o estilo contribui e muito para adensar o valor da substância e os recursos são aproveitados de forma bastante inspirada. Diga-se que "La decima vittima" conta ainda com alguns personagens secundários que se conseguem destacar. Veja-se o caso de Rossi (Massimo Serato), o assistente e advogado de Marcello, ou Salvo Randone como o peculiar técnico de um espaço dedicado ao treino dos jogadores, com este último a surgir como uma figura sem uma mão, uma voz estranha e um visual que condiz com o tom estilizado da narrativa. Com uma dupla de protagonistas carismática, alguma violência, sátira e jogos de sedução, "La decima vittima" transporta-nos para um futuro algo surreal, com Elio Petri a não poupar na crítica social, enquanto brinda o espectador com uma obra cinematográfica que desperta um estranho fascínio.

Título original: "La decima vittima".
Título em Portugal: "A Décima Vítima".
Realizador: Elio Petri.
Argumento: Tonino Guerra, Giorgio Salvioni, Ennio Flaiano, Elio Petri, Ernesto Gastaldi.
Elenco: Marcello Mastroianni, Ursula Andress, Elsa Martinelli, Salvo Randone, Massimo Serato.

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