14 março 2016

Resenha Crítica: "La classe operaia va in paradiso" (1971)

 A certa altura de "La classe operaia va in paradiso", encontramos Ludovico Massa (Gian Maria Volontè), mais conhecido como Lulù, a manejar uma máquina de forma incessante, quase como se estivesse numa relação sexual com a mesma, utilizando um método peculiar para manter este ritmo: fabricar uma peça e pensar no rabo de Adalgisa (Mietta Albertini), uma colega de trabalho na B.A.N., uma fábrica. Lulù é um operário sem consciência de classe, algo rude e pouco polido a nível da fala, que vive para trabalhar e parece pouco dado a formar grandes amizades, orgulhando-se de ser o funcionário mais rápido da fábrica, embora os seus métodos e atitudes apenas despertem alguma fúria junto dos colegas que procuram melhores condições laborais e salariais. "La classe operaia va in paradiso" marca mais uma colaboração entre Gian Maria Volontè e Elio Petri, com o cineasta a elaborar uma obra cinematográfica de pendor abertamente político e social, sempre com alguma mordacidade, enquanto o actor empresta a sua intensidade, talento e carisma a este operário de personalidade vincada. Lulù habita num apartamento modesto com Lidia (Mariangela Melato), a sua companheira, bem como com Arturo (Federico Scrobogna), o filho desta, fruto de outra relação. Lulù é casado com Ginevra, embora já não viva com esta mulher, de quem tem um filho, o jovem Armando. O ambiente na fábrica é pontuado por rotinas quase desumanas, com a alienação a predominar, enquanto os operários são colocados perante objectivos praticamente impossíveis de alcançar sem colocarem em risco a sua integridade física e mental, algo que Lulù vai perceber da pior forma. Fora da fábrica, os protestos são mais do que muitos quer dos estudantes universitários, quer dos sindicalistas, com Elio Petri a procurar representar o ambiente fervilhante da época e a expor a sua visão sobre a incapacidade de alguns intelectuais em compreenderem as necessidades dos trabalhadores destes espaços. Diga-se que existe uma incompreensão mútua, algo notório nas atitudes do protagonista, um operário que inicialmente parece pouco preocupado em relação a estes assuntos laborais. O ambiente que rodeia a entrada e a saída da fábrica é intenso, com os sindicalistas e os estudantes universitários a procurarem que os trabalhadores se unam para lutarem por melhores condições laborais, embora tenham ideais distintos, com os segundos a apresentarem uma atitude mais extremista. Alguns operários parecem ter consciência da necessidade de lutarem por melhores condições de trabalho, enquanto outros pouco se preocupam com o assunto quer por falta de vontade, quer por terem medo de perder o emprego. Lulù procura sobretudo cumprir as tarefas que lhe são designadas, tendo pouca paciência para perder tempo, incluindo quando é para falar com os colegas ou a ensinar novatos como Tarcisio Mena (Corrado Solari) e Salvatore. Elio Petri exibe esta fábrica como um meio de isolação e exploração do ser humano, algo que conduz muitos destes elementos a começarem a contar com problemas físicos e mentais. Veja-se o caso de Militina (Salvo Randone), um antigo colega de trabalho de Lulù, conhecido pelos seus feitos laborais, que se encontra actualmente internado num hospital psiquiátrico.

 Salvo Randone, uma presença habitual nos filmes de Elio Petri, tem em "La classe operaia va in paradiso" mais um papel secundário relevante, com o actor a transmitir quer a perturbação de Militina, quer a consciência que este tem em relação aos motivos que o conduziram à loucura, com o antigo operário a ser um dos poucos amigos do protagonista. Militina permite a Elio Petri exibir paradigmaticamente os perigos que envolvem o ser humano quando este se abstrai imensamente da realidade que o rodeia, mas também a crueldade do mundo laboral, com o primeiro a ser praticamente um desconhecido no interior da fábrica, um local onde outrora deixara marca. Este é um espaço onde os operários repetem diariamente, durante horas a fio, os mesmos procedimentos e gestos, muitas das vezes sem entenderem a utilidade da sua actividade, parecendo praticamente escravos que laboram de forma coordenada para uma entidade que nunca chegam a conhecer, uma situação que o protagonista chega a salientar ao comentar com a companheira que não percebe ao certo quem são os elementos que comandam a multinacional onde trabalha. O stress e as rotinas laborais parecem mexer com a mente de Lulù, com tudo a piorar quando sofre um acidente, provocado quer pelo perigo da sua função, quer pela sofreguidão que apresenta no cumprimento da mesma. Este perde um dedo, algo que altera a sua vida, com diversos colegas a manifestarem-se em sua defesa, enquanto Lulù começa a exibir uma maior consciência em relação à luta sindical, participando em reuniões e protestos. Diga-se que Lulù também vai ganhar consciência das contradições que existem no interior dos movimentos sindicais e estudantis, sobretudo quando é despedido e estes últimos desinteressam-se pelo caso devido a não ser uma questão de classe, mas sim algo individual. Os sindicatos procuram chegar a consensos, enquanto o protagonista depara-se com uma existência recheada de contradições, trabalhando como operário embora desfrute dos produtos capitalistas. Veja-se quando começa a analisar o preço de diversos objectos que se encontram no interior da sua casa e o tempo que despendeu para conseguir a verba para adquiri-los, ou o seu interesse por futebol, um desporto que envolve verbas avultadas. Diga-se que a casa do protagonista conta com a presença de um boneco do Tio Patinhas, algo que não deixa de ser irónico, ou este personagem não fosse um símbolo do capitalismo e riqueza, com o brinquedo a não parecer ter sido colocado ao acaso na casa de Lulù. Elio Petri também procura desenvolver temáticas relacionadas com a vida pessoal do protagonista, algo que permite explanar que a alienação e solidão destes indivíduos no local de trabalho tem repercussões na vida social e familiar dos mesmos. A relação do protagonista com as mulheres é problemática, uma situação notória quando encontra um esconderijo para fazer sexo com Adalgisa, embora não consiga satisfazer esta figura feminina que fica pouco impressionada com o desempenho de Lulù, um indivíduo pouco romântico, que parece transportar o seu modo de trabalhar prático e rápido para a vida sexual. A relação entre Lulù e Lidia também é conturbada. Esta é uma cabeleireira que gosta de alguns luxos e utilizar perucas, parecendo gostar de Lulù, embora este seja rude e agressivo. Já Ginevra apenas pretende que o protagonista envie o dinheiro para ajudar na educação do filho, algo que este nem sempre efectua. Gian Maria Volontè atribui uma intensidade notória a Lulù, um indivíduo pronto a exprimir os seus sentimentos quando se encontra na fábrica, embora a espaços pareça exibir uma atitude letárgica, sobretudo quando a sua vida parece entrar num marasmo impossível de fugir.

 Na fábrica, Lulù grita, exibe expressões intensas, procura desafiar os seus colegas, pelo menos até perder um dedo, com Elio Petri a conceder um ritmo quase vertiginoso ao trabalho destes indivíduos nas máquinas. A cinematografia, o trabalho de montagem e a banda sonora de Ennio Morricone contribuem para a intensidade de alguns momentos na fábrica. Veja-se quando encontramos Lulù a fabricar peças que servem para colocar num motor, com os close-ups, muitas das vezes extremos, adensados pela troca de planos rápida, a exibir o fervor e concentração do protagonista. É dada atenção aos movimentos efectuados por Lulù, bem como às diferentes peças da máquina, com o espaço da fábrica a ser aproveitado de forma exímia, incluindo as divisões entre os trabalhadores e os seus superiores, com estes últimos a encontrarem-se numa zona completamente distinta. Nos momentos iniciais de "La classe operaia va in paradiso", encontramos Lulù e os companheiros a entrarem na fábrica, com as massas a surgirem enfileiradas, enquanto a música de Ennio Morricone se faz sentir e de que maneira no interior desta cena poderosíssima. Os movimentos dos operários parecem praticamente mecanizados, com a entrada na fábrica a exibir paradigmaticamente essa situação, enquanto Elio Petri procura explorar temáticas relacionadas com o quotidiano destes trabalhadores. Elio Petri é um cineasta politicamente engajado, algo que volta a exibir em "La classe operaia va in paradiso", procurando expor com alguma intensidade e crueza o trabalho dos trabalhadores de uma fábrica, numa fase fervilhante da vida política e social italiana (o filme foi lançado em 1971). Como salienta Larry Portis, o cineasta procura questionar aquilo que significa a "classe operária/trabalhadora", bem como a relação entre os elementos que compõem a mesma e a entidade patronal: "The working class is structured by social relations of capitalist production, but the perceptions and consciousness of working-class people are conditioned by ideology and values engendered by capitalist enterprise and commercial processes". No caso de "La classe operaia va in paradiso", Lulù começa a tomar consciência da sua posição precária na sociedade, com o final a trazer um sabor agridoce, a fazer recordar obras cinematográficas de Elio Petri como "A ciascuno il suo" (vale a pena salientar que o filme a ser alvo de resenha é o segundo volume da chamada "trilogia della nevrosi", iniciada com "Indagine su un cittadino al di sopra di ogni sospetto"). Diga-se que algumas das temáticas não se desactualizaram assim tanto quanto isso, algo notório na procura dos donos desta grande empresa capitalista em maximizarem a produção sem aumentarem os salários dos trabalhadores. Elio Petri consegue explanar as suas ideias, sem esconder para onde pende a sua simpatia e os seus ideais de esquerda, efectuando uma exposição bem viva do quotidiano no interior de uma fábrica, enquanto exibe algumas das contradições dos movimentos estudantis e sindicais, bem como dos próprios operários ao longo desta obra cinematográfica relevante, pontuada por mais uma interpretação intensa e marcante de Gian Maria Volontè.

Título original:"La classe operaia va in paradiso".
Título no Brasil: "A Classe Operária Vai para o Paraíso". 
Realizador: Elio Petri.
Argumento: Elio Petri e Ugo Pirro.
Elenco: Gian Maria Volonté, Mariangela Melato, Salvo Randone, Federico Scrobogna, Mietta Albertini.

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