11 março 2016

Resenha Crítica: "Indagine su un cittadino al di sopra di ogni sospetto" (1970)

 Entre protestos populares, polícias reaccionários, interrogatórios que parecem infringir claramente a lei, um homicídio macabro, flashbacks que trazem uma miríade de memórias e uma investigação que se encontra corrompida pelo facto do assassino se encontrar ligado à mesma, "Indagine su un cittadino al di sopra di ogni sospetto" coloca-nos diante do quotidiano de um Inspector (Gian Maria Volontè) do Departamento de Homicídios de uma esquadra localizada em Roma. Este é o cidadão acima de qualquer suspeita do título desta longa-metragem realizada por Elio Petri, com o realizador e agumentista a colocar-nos diante de uma narrativa pontuada por algumas reviravoltas, uma investigação intrincada a um assassinato e um interessante estudo de personagem. O protagonista é um inspector reaccionário e homofóbico, que apresenta uma personalidade violenta e ideais fascistas, encontrando-se em plena ascensão na carreira, embora se prepare para hipotecar o seu futuro ao assassinar Augusta Terzi (Florinda Balkan), uma mulher com quem mantinha um caso. Augusta é uma mulher sensual, provocadora e masoquista, que conhecemos sobretudo através dos diversos flashbacks que povoam a narrativa de "Indagine su un cittadino al di sopra di ogni sospetto", com Elio Petri a utilizar este recurso de forma pertinente. O início do filme é marcado pelo assassinato de Augusta. A música de Ennio Morricone, bastante sentida e pronta a mesclar o tom simultaneamente inquietante e algo peculiar que rodeia esta obra cinematográfica, silencia-se durante a colocação do assassinato em prática. Os lençóis negros não enganam, o momento é de luto, embora o som emitido por Augusta ludibrie temporariamente o espectador, ou esta não se encontrasse em pleno acto sexual com o personagem interpretado por Gian Maria Volontè. O protagonista aproveita o momento para assassinar Augusta com uma lâmina, um acto frio, aparentemente planeado antecipadamente. Não sabemos se o protagonista pretende escapar incólume ao assassinato ou simplesmente desafiar a capacidade de investigação dos seus colegas. Nesse sentido, tanto encontramos este inspector a encobrir provas como a deixar pistas para serem descobertas pelos seus colegas, sejam impressões digitais, um pedaço de tecido de uma gravata, pegadas manchadas de sangue, para além de ser visto por Antonio Pace (Sergio Tramonti), um vizinho e amante de Augusta, um jovem radical, que se prepara para embater de frente com o protagonista. Diga-se que este acto vai ocupar o tempo de diversos elementos da esquadra, com o inspector a procurar ter um papel activo na investigação, embora tenha sido destacado para liderar o Departamento Político e Social, tendo em vista a reprimir os protestos populares. Esta ascensão na carreira do protagonista surge como um meio para Elio Petri e Ugo Pirro, a dupla de argumentistas, abordarem a atmosfera política e social fervilhante deste período, algo latente nas notícias de ataques bombistas, protestos populares, entre outros episódios que a espaços são expostos ao longo do enredo de "Indagine su un cittadino al di sopra di ogni sospetto".

A ascensão profissional confirma alguns dos méritos do percurso laboral do protagonista, um inspector conhecido pela competência e violência no cumprimento dos seus serviços. Para o personagem interpretado por Gian Maria Volontè, a "repressão é a nossa vacina", algo que diz muito dos valores deste elemento que deveria zelar pelo cumprimento da lei, embora as suas práticas estejam longe de serem recomendáveis, parecendo consumido pelo poder e pelos benefícios que a sua posição pode trazer. Diga-se que Elio Petri efectua um retrato nem sempre simpático das autoridades, algo que a espaços resvala propositadamente para o exagero, com quase todos os elementos a não terem problemas em utilizar a violência física e verbal nos interrogatórios (embora esta temática nem esteja assim tão desactualizada, basta pensarmos nas polémicas relacionadas com o Campo de Detenção da Baía de Guantánamo). O comentário político e social é transversal a diversas obras cinematográficas de Elio Petri, algo bem visível em "Indagine su un cittadino al di sopra di ogni sospetto", com o cineasta a efectuar uma crítica latente à impunidade dos mais poderosos, bem como ao autoritarismo de alguns elementos das autoridades. Veja-se os discursos praticamente fascistas do protagonista, algo que remete para o retrato pouco simpático das autoridades de outras obras de Elio Petri como "L'assassino" e "A ciascuno il suo". Gian Maria Volontè consegue expressar as contradições deste inspector que tanto surge implacável e vivaz no cumprimento do seu ofício como se revela frágil e incapaz a nível pessoal. A relação entre o inspector e Augusta é paradigmática dessas contradições do protagonista, com este a sentir-se fascinado por esta figura que o compele a colocar em prática os actos mais bizarros. Veja-se nos flashbacks, quando encontramos Augusta a simular as posições das vítimas de homicídio dos casos investigados pelo protagonista, enquanto este último fotografa a amante, ou os momentos em que o personagem interpretado por Gian Maria Volontè finge que se encontra a interrogar esta figura feminina, utilizando alguma violência. Augusta parece apreciar estes episódios, tal como o protagonista, com a relação entre ambos a ser marcada pela estranheza desde os momentos iniciais. A personagem interpretada por Florinda Balkan efectuara telefonemas misteriosos para o inspector, algo que despertou a curiosidade deste indivíduo em relação a esta mulher casada. O assassinato de Augusta muda o quotidiano do protagonista, com este acto a parecer uma maneira bizarra para o inspector avaliar o seu poder e influência, para além de explanar que este se sentiu despeitado devido a alguns gestos e palavras desta mulher.

Os flashbacks são essenciais para desenvolver a personagem interpretada por Florinda Balkan (remetendo praticamente para "L'assassino", uma obra cinematográfica onde Elio Petri utilizou este recurso de forma exímia), com a actriz a convencer em relação à personalidade magnética desta figura feminina dotada de enorme beleza e estranheza, que procura estimular o protagonista a transgredir a lei, acabando por ser vítima deste último. Este parece não se encontrar totalmente consciente das possíveis consequências do seu acto, ou talvez até esteja demasiado convencido de que sairá incólume, uma situação notória quando o protagonista sai do local do crime acompanhado por duas garrafas de champanhe, tendo em vista a comemorar a promoção para o novo departamento. Os colegas parecem respeitar e apreciar o seu trabalho, enquanto a imprensa é relativamente controlada através de algumas figuras com acesso a informação privilegiada. Veja-se quando o protagonista pede a um jornalista (Massimo Foschi) para que este último destaque a possibilidade do marido de Augusta ser o assassino, bem como a particularidade desta mulher não utilizar cuecas, algo que permite começar a mexer com a opinião pública. O esposo de Augusta é homossexual, sendo alvo de diversos preconceitos no interior da esquadra, incluindo por parte do protagonista. O inspector interroga o suspeito, embora ilibe o mesmo de culpas, considerando que este se encontra inocente, indo tomar uma série de medidas que prometem desafiar os seus colegas e a lógica. Veja-se quando pede a um canalizador (Salvo Randone - um colaborador habitual de Elio Petri, em mais um papel secundário de relevo) para comprar vinte e cinco gravatas com o mesmo tecido e cor do fio que se encontrava preso na unha da vítima, obrigando o primeiro a dirigir-se à esquadra e a descrever o assassino. Ninguém se acredita na descrição, enquanto o personagem interpretado por Gian Maria Volontè tanto parece pretender ser descoberto como procura esconder provas de tudo e todos. O actor consegue transmitir a personalidade complexa deste indivíduo que apresenta comportamentos mais próximos de um criminoso do que de alguém pronto a defender a lei, com Volontè a não ter problemas em cair em exageros propositados para explanar alguns momentos mais expansivos deste inspector. A banda sonora permite incrementar alguma da inquietação que envolve a investigação e os actos do protagonista, bem como a cinematografia. Os close-ups são utilizados com precisão, algo notório quando encontramos o inspector a dialogar com o canalizador que é obrigado a transportar as gravatas para a esquadra. Este é um dos vários momentos em que Gian Maria Volontè tem oportunidade para se destacar, com o actor a criar um personagem que tanto nos repele como consegue despertar a atenção.

Em certa medida, o personagem principal de "Indagine su un cittadino al di sopra di ogni sospetto" traz à nossa memória Mark Dixon (Dana Andrews), o protagonista de "Where the Sidewalk Ends", um agente da autoridade que cometeu um homicídio involuntário e procura inicialmente esconder esse acto dos seus superiores. No caso de "Indagine su un cittadino al di sopra di ogni sospetto", o personagem interpretado por Gian Maria Volontè cometeu um crime de forma propositada, embora também se sinta gradualmente compelido a revelar o seu acto, enquanto Elio Petri realiza um filme que a espaços nos remete para as tradições das obras noir dos EUA, mas também para as fitas policiais deste país. Não falta uma atmosfera de insegurança, personagens de carácter dúbio, polícias pouco confiáveis, com "Indagine su un cittadino al di sopra di ogni sospetto" a mesclar ainda elementos meio surreais, algo visível no final em que Kafka é citado e um sonho parece momentaneamente tomar conta da realidade. Diga-se que Elio Petri volta a colocar-nos diante de uma narrativa a espaços kafkiana, tal como em "L'assassino", com o final a exibir paradigmaticamente essa situação, enquanto o cineasta aproveita ainda para incutir alguma mordacidade e humor negro ao enredo, algo visível nos gestos e acções do personagem interpretado por Gian Maria Volontè. O protagonista a espaços parece denotar algum sentimento de culpa, tendo de lidar com as consequências de ter cometido um crime que se encontra longe de ser perfeito, com o personagem interpretado por Volontè a surgir como uma figura recheada de contradições que se encontra consumida pelo poder. Existe quase um tom farsesco na forma como o protagonista descredibiliza aqueles que o podem incriminar ou apresentam receio em efectuar a denúncia, algo latente no caso do canalizador que transporta as gravatas para a esquadra. O filme permite ainda que alguns personagens secundários se destaquem, sobretudo Augusta e Antonio Pace (um anarquista que tem um papel fundamental num dos protestos "musculados", embora o argumento nem sempre problematize os gestos e ideias destes elementos). Vale ainda a pena destacar Mangani (Arturo Dominici) e Biglia (Orazio Orlando), dois colegas do protagonista, que também se encontram envolvidos na investigação. "Indagine su un cittadino al di sopra di ogni sospetto" convida-nos a acompanhar um inspector de personalidade complexa, com Gian Maria Volontè a ter um desempenho marcante ao longo desta obra cinematográfica onde Elio Petri não tem problemas em expor uma visão menos simpática sobre as autoridades e a sua conduta, enquanto nos coloca diante de um thriller bastante recomendável.

Título original: "Indagine su un cittadino al di sopra di ogni sospetto".
Título em Portugal: "Inquérito a Um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita".
Realizador: Elio Petri.
Argumento: Elio Petri e Ugo Pirro.
Elenco: Gian Maria Volontè, Florinda Bolkan, Gianni Santuccio, Salvo Randone.

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