24 março 2016

Resenha Crítica: "Il racconto dei racconti" (O Conto dos Contos)

 Matteo Garrone não tem problemas em desafiar as expectativas em relação ao rumo da sua carreira profissional. Em "Gomorra" transportou o espectador para o interior da máfia italiana, enquanto que em "Reality" procurou abordar temáticas relacionadas com a busca pela fama rápida e a febre dos reality shows. "Il racconto dei racconti" deixa transparecer a procura do cineasta em não se acomodar, em tentar novos desafios e criar algo que deixe marca e permita expor alguma da sua versatilidade. Matteo Garrone tem em "Il racconto dei racconti" a sua primeira longa-metragem falada em inglês, com esta obra cinematográfica a surgir como uma proposta ambiciosa, estimulante e envolvente, dotada de elevados valores de produção, um elenco talentoso e uma narrativa pontuada por três histórias livremente inspiradas em contos do livro "Lo cunto de li cunti" de Giambattista Basile. Estas histórias são expostas praticamente em "mini-episódios", que se completam com o desenrolar da narrativa e conseguem provocar uma miríade de sensações. Matteo Garrone mescla a fantasia com a crueza, o lirismo com o grotesco, desafia as catalogações fáceis e joga com as convenções dos contos de encantar, com as três histórias a encontrarem-se maioritariamente unidas graças a algumas temáticas transversais entre os diversos trechos. Veja-se o egoísmo de alguns personagens, ou o desejo de serem amados por aqueles que os rodeiam, bem como as obsessões que apresentam, ou a procura destas figuras em manterem as aparências, entre outras temáticas. O guarda-roupa, a decoração dos cenários e a cinematografia são primorosos, permitindo elevar a narrativa, enquanto "Il racconto dei racconti" deambula entre estes contos sobre três reinos dominados por regentes distintos. A primeira história tem como pano de fundo o reino de Selvascura, um território regido pelo Rei (John C. Reilly) e a Rainha de Longtrellis (Salma Hayek). Os personagens interpretados por John C. Reilly e Salma Hayek procuram conceber um herdeiro, embora esta última tarde em engravidar, uma situação que a parece afectar do ponto de vista psicológico. É então que surge um Necromante (Franco Pistoni), uma figura soturna, de vestes e comportamentos discretos, que se apresta a arranjar uma solução para resolver o problema do casal, apesar de salientar os riscos desta opção. O plano passa por eliminar um monstro marinho, tirar o coração do mesmo e fazer com que este órgão seja cozinhado por uma virgem. A caça ao monstro é exposta num misto entre a fantasia e o terror, com o Rei a morrer, enquanto a Rainha de Longtrellis apenas parece preocupada com o coração da criatura, tendo em vista a engravidar. Salma Hayek é um dos destaques deste elenco heterogéneo, com a actriz a conceder um tom aparentemente frio e egocêntrico a esta Rainha que procura ter um filho a todo o custo, mesmo que isso implique avançar para uma via bizarra que promete trazer custos elevados para todos os envolvidos.

 A cena em que a Rainha come o coração do monstro é uma das mais marcantes do filme, com a câmara a aproximar-se gradualmente da personagem interpretada por Salma Hayek, enquanto esta figura feminina, de vestes negras, sobressai diante do cenário recheado de paredes brancas, devorando o alimento de forma voraz, quase animalesca, com a sua boca e as suas mãos a encontrarem-se cobertas de sangue. Matteo Garrone arquitecta um momento poderosíssimo, simultaneamente grotesco, inquietante e mordaz, enquanto Salma Hayek alinha no jogo e cria uma personagem trágica, que se deixa dominar pelos desejos e anseios, com a procura incessante em ser mãe e a atitude possessiva em relação ao rebento a prometerem conduzi-la à desgraça. A obsessão da Rainha de Longtrellis em relação ao filho é desde logo visível no funeral do esposo, com a personagem interpretada por Salma Hayek a prestar imensa atenção ao rebento, exibindo-se pouco preocupada com a cerimónia fúnebre, um evento que marca a chegada de uma miríade de indivíduos, incluindo os regentes dos dois outros reinos onde se desenrola a narrativa, nomeadamente, o Rei de Strongcliff (Vincent Cassel) e o Rei de Highhills (Toby Jones). Quem também engravida, ainda que a cozinhar o coração do monstro é a empregada virgem (Laura Pizzirani), com esta a dar à luz o jovem Jonah (Jonah Lees), algo que promete afectar e muito a Rainha de Longtrellis. A narrativa avança dezasseis anos, com Jonah a tornar-se no melhor amigo de Elias (Christian Lees), o filho da Rainha, com os dois jovens a criarem fortes laços de amizade, algo que conduz a personagem interpretada por Salma Hayek a procurar eliminar o primeiro, o único elemento com quem o rebento parece conseguir formar laços de proximidade. Existe uma atitude possessiva e emocionalmente desequilibrada por parte da Rainha, com Matteo Garrone a explorar estes laços familiares venenosos, enquanto Christian Lees transmite a postura fria de Elias em relação à progenitora. Garrone exibe os laços de amizade entre Elias e Jonah com um misto de realismo e fantasia, com uma árvore a permitir que o primeiro saiba informações sobre o segundo, enquanto "Il racconto dei racconti" procura que nunca nos esqueçamos que estamos diante de um universo narrativo inspirado num conjunto de fábulas. A certa altura de "Il racconto dei racconti", encontramos a Rainha de Longtrellis num labirinto, em busca do filho, algo que parece surgir como uma metáfora para a vida desta mulher, sobretudo quando procura separar Elias de Jonah. A vida da personagem interpretada por Salma Hayek parece ter seguido um rumo labiríntico, com as decisões desta mulher a revelarem-se muitas das vezes desacertadas e propiciadores de adensarem os problemas que procura resolver. A relação problemática entre pais e filhos e as divergências entre elementos de diferentes gerações é algo que também marca o segundo segmento, com o personagem interpretado por Toby Jones a surgir como uma figura patética que pouco parece ligar a Violet (Bebe Cave), a sua filha. Diga-se que Matteo Garrone subverte por completo os contos que encontramos muitas das vezes adaptados de forma adocicada em diversos filmes da Walt Disney, algo latente quando a jovem princesa procura contrair matrimónio com o "príncipe encantado", embora seja obrigada a casar com um ogre (Guillaume Delaunay - longe de ser o simpático Shrek, um personagem da Dreamworks).

 O personagem interpretado por Toby Jones decidiu abrir um concurso público, tendo em vista a encontrar um noivo para Violet, com todos os habitantes a poderem participar no mesmo, algo que irrita a jovem. Aquele que adivinhasse a espécie animal à qual pertencia a pele em exposição, conquistaria o direito a casar com Violet, com esta decisão a revelar-se desastrosa para a jovem. O único a adivinhar é o ogre, uma figura deformada e agressiva, com a jovem a procurar livrar-se a todo o custo deste indivíduo, enquanto o Rei descura por completo o seu rebento. Diga-se que o Rei parece apenas nutrir afecto pelo seu animal de estimação, uma pulga gigante grotesca, que procura treinar e educar. Vale a pena salientar que Matteo Garrone abraça o grotesco e o mau gosto propositadamente, algo notório nas criaturas ou gestos dos personagens, com o cineasta a colocar o espectador diante do lado negro dos contos que estão longe de serem histórias de encantar. O personagem interpretado por Toby Jones surge como uma figura patética, que se procura impor junto daqueles que o rodeiam, embora apenas pareça ganhar o respeito da pulga que colecciona. O actor tem uma interpretação sólida, enquanto Bebe Cave, uma intérprete mais desconhecida, surpreende pela maneira orgânica como expõe quer o lado frágil, quer feroz desta jovem princesa. Violet é uma representante do cuidado colocado no guarda-roupa e nos penteados destas personagens, com Bebe Cave a utilizar o cabelo com cachos e vestidos que adensam inicialmente a sua fragilidade. O terceiro reino é Governado pelo Rei de Strongcliff, um indivíduo mulherengo, que não tem problemas em envolver-se num ménage à trois antes de uma cerimónia fúnebre ou cortejar uma estranha que apresenta uma bela voz. Este pensa que a voz pertence a uma jovem, um engano que promete mexer com a vida de duas mulheres, em particular, Dora (Hayley Carmichael) e Imma (Shirley Henderson), duas irmãs com uma idade algo avançada, de pele engelhada e cabelos brancos, ou seja, que não correspondem aos "ideais de beleza" pretendidos pelo Rei. Diga-se que esta é uma oportunidade para o filme efectuar um comentário sobre a obsessão pelas aparências, algo exibido de forma dramática, arrepiante e sangrenta (o filme não poupa nas doses de sangue) na figura de Imma. Dora e Imma tomam medidas desesperadas para apresentarem um aspecto mais jovem, algo que remete para uma temática completamente contemporânea, com "Il racconto dei racconti" a efectuar uma sátira às plásticas, tratamentos da pele, entre outras medidas que visam uma suposta conservação da juventude. Esta é uma das várias temáticas do filme que se encontra claramente com um pé na realidade e outro na fantasia, com Matteo Garrone a abordar questões como as divergências entre pais e filhos, ou entre diferentes gerações; a procura de manter as aparências; a obsessão maternal, entre outros assuntos que entroncam com problemáticas contemporâneas reais.

 A figura feminina que desperta a atenção do Rei é Dora, com esta a procurar traçar um plano para o primeiro não perceber a sua idade, embora acabe por ser defenestrada. Por sorte, ou azar, Dora permanece com vida, sendo temporariamente transformada numa jovem (Stacy Martin) que desperta a atenção do personagem interpretado por Vincent Cassel. O castelo do Rei de Strongcliff encontra-se decorado com alguns luxos, algo revelador do elevado estatuto social e financeiro do monarca, mas também do cuidado colocado por Alessia Anfuso na decoração dos cenários. Veja-se os lençóis vermelhos do quarto do personagem interpretado por Vincent Cassel, algo que remete para a personalidade intensa desta figura galanteadora que avalia as mulheres de acordo com o seu aspecto físico. Matteo Garrone reuniu uma equipa competente: o elenco é capaz de elevar a narrativa e entrar no "espírito" da mesma; a banda sonora de Alexandre Desplat é assertiva; o guarda-roupa a cargo de Massimo Cantini Parrini é um dos pontos altos do filme, com as vestimentas a apresentarem um estilo barroco. O cuidado é ainda visível nas escolhas dos cenários, com Matteo Garrone a filmar fora dos estúdios, uma situação salientada pelo cineasta no press kit: "These are buildings and panoramas which appear to be the fruit of the most fervent imagination, but which really exist, and bear within them the signs of the period and the weirdness of those who designed them, or else the unpredictable work of nature with its materials, rocks, water, plants. Besides some wonderful chateaus, I’m thinking of the Alcantara gorge, the Vie Cave, and the Bosco del Sasseto, which looks like a pre-Raphaelite set". Existe uma procura de manter um tom propositadamente fantasioso, mesclado com algum realismo, com Matteo Garrone a transportar-nos para um universo narrativo onde não faltam monstros marinhos, ogres, castelos, muito sangue, alguma violência e sentimentos expostos de forma bem viva. O argumento desta obra com um pendor gótico é eficaz, conseguindo aproveitar estas histórias distintas, pontuadas por uma miríade de personagens que protagonizam uma série de episódios que ficam na memória. Com um universo narrativo que deambula entre a fantasia e a realidade, bons valores de produção, um elenco talentoso e uma cinematografia merecedora dos mais variados elogios, "Il racconto dei racconti" surge como uma aposta ganha de Matteo Garrone, com o realizador a elaborar uma obra cinematográfica estimulante e visualmente poderosa.

Título original: "Il racconto dei racconti".
Título em Portugal: "O Conto dos Contos".
Realizador: Matteo Garrone.
Argumento: Edoardo Albinati, Ugo Chiti, Matteo Garrone, Massimo Gaudioso.
Elenco: Salma Hayek, Vincent Cassel, Toby Jones, John C. Reilly, Hayley Carmichael, Bebe Cave.

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