01 março 2016

Resenha Crítica: "I soliti ignoti" (1958)

 Considerada uma das obras cinematográficas fundadoras da chamada "Commedia all'italiana", "I soliti ignoti" coloca o espectador diante de um grupo de ladrões e vigaristas de pouca monta, que procura efectuar um golpe ambicioso. É um grupo peculiar e heterogéneo, composto por elementos que vivem com poucas condições materiais e financeiras, embora apresentem uma enorme aversão ao trabalho. Diga-se que alguns personagens apresentam mais respeito pela "arte de roubar" do que pelo trabalho, surgindo como figuras relativamente ingénuas, preguiçosas e trapalhonas, que conseguem conquistar a nossa simpatia e atenção. Realizado por Mario Monicelli, um dos mestres da "comédia à italiana", "I soliti ignoti" subverte as nossas expectativas em relação aos filmes de assalto, satiriza os mesmos e as suas convenções, enquanto o cineasta aproveita o elenco que tem à sua disposição e as dinâmicas estabelecidas entre os integrantes do mesmo. O argumento é inteligente e bem construído, permitindo explorar algumas das capacidades de intérpretes como Marcello Mastroianni, Memmo Carotenuto, Renato Salvatori, Tiberio Murgia, Carlo Pisacane, Rossana Rory e até revelar o talento de Vittorio Gassman para o humor. Estes interpretam criminosos que vivem nas margens da cidade de Roma, com Mario Monicelli a colocar o espectador diante de um bando de ladrões de pouco relevo, que se encontra longe de contar com a classe e argúcia de Danny Ocean, o protagonista de "Ocean's Eleven". Um desses assaltantes é Cosimo Proietti (Memmo Carotenuto), um indivíduo que é preso no início do filme, quando se encontrava a tentar furtar um carro. Cosimo tenta sair o mais depressa possível da prisão, procurando que Norma (Rossana Rory), a sua namorada, contacte com Pierluigi Capannelle (Carlo Pisacane), tendo em vista a encontrar alguém que assuma a culpa pela tentativa de furto. Capannelle encontrava-se com Cosimo durante a tentativa de assalto ao carro, embora tenha conseguido escapulir-se a tempo. Pisacane interpreta uma figura franzina, pelintra, desdentada e destrambelhada, que não consegue impor respeito a quem quer que seja, embora conheça diversos criminosos de pouca monta que habitam nas redondezas destes bairros de Roma, com o actor a exibir um timing relativamente certeiro para o humor. Mario Monicelli aproveita esta busca para apresentar os diversos personagens do grupo, com Capannelle a contactar uma série de indivíduos, enquanto circula pelos bairros de Roma. A cidade de Roma surge praticamente como uma das protagonistas, sendo representada como um espaço pontuado pelas assimetrias económicas e sociais, algo latente nas parcas condições de vida da maioria dos personagens que povoam a narrativa, uma situação exposta por Mario Monicelli ao longo de "I soliti ignoti", com o cineasta a utilizar os estereótipos e os exageros ao serviço do humor e do comentário social.

 O primeiro elemento que Capannelle procura é Mario (Renato Salvatori), um indivíduo apegado à sua mãe, ou melhor, às suas três mães, que é conhecido por vender produtos roubados, inclusive carrinhos de bebé. Este não aceita a tarefa, algo que conduz Mario e Capannelle a deslocarem-se a casa de Ferribotte (Tiberio Murgia), um siciliano de valores rígidos, que não deixa Carmelina (Claudia Cardinale), a sua irmã, sair de casa, nem falar com figuras masculinas quando este se encontra ausente. Diga-se que esta situação promete gerar algumas discussões, sobretudo quando Mario e Carmelina se apaixonam, algo que desperta inicialmente a fúria de Ferribotte e o sorriso do espectador. Ferribotte também recusa a oferta, com o trio a contactar Tiberio Braschi (Marcello Mastroianni), um fotógrafo arruinado, que seca a roupa no interior da sua casa e cuida das lides domésticas devido ao facto da esposa (Gina Rovere) se encontrar a cumprir uma pena de três meses de prisão. Tiberio está falido ao ponto de ter vendido a sua máquina fotográfica, com Marcello Mastroianni, um actor talentoso e carismático, a criar mais um personagem marcante, com Mario Monicelli a atribuir-lhe algumas das falas mais inspiradas. Perante mais uma recusa, estes decidem recorrer a Giuseppe Marchetti (Vittorio Gassman), conhecido como Peppe, um pugilista fanfarrão, que aceita a oferta após ter perdido um combate. Peppe tem punhos de aço e um queixo de manteiga, com as suas habilidades para a conquista de figuras femininas e envolver-se em confusões a serem dicotómicas da sua capacidade para organizar um furto de largas proporções. Os momentos na prisão são pontuados por trechos de humor bem arquitectados, com os planos de Cosimo a saírem completamente furados, enquanto o seu poder no espaço prisional é diminuto ao ponto de nem conseguir um cigarro. Este é um ladrão pouco polido e bastante intenso na exposição dos sentimentos, que pretende assaltar o cofre de uma casa de penhores. A situação é a seguinte: um criminoso revelou a Cosimo que trabalhou na construção de uma parede de estuque, facilmente penetrável, situada entre uma habitação supostamente vazia e uma divisória da casa de penhores que conta com a "comadre" (o cofre). Cosimo pretendia que alguém assumisse a culpa pelo crime que cometeu, tendo em vista a sair da prisão e organizar o assalto ao cofre. No entanto, o juiz não iliba Cosimo, com o criminoso a ficar na prisão com Peppe. O ex-pugilista engana Cosimo, tendo em vista a descobrir o plano, aproveitando a liberdade condicional para colocar o mesmo em prática. Peppe reúne Mario, Tiberio, Capannelle, Norma e Ferribotte, ou seja, um grupo completamente inexperiente em furtos desta dimensão, embora pretendam efectuar um "assalto profissional". O problema é que estes elementos não contam com a habilidade, experiência e recursos necessários para um golpe desta envergadura, parecendo certo que, mais tarde ou mais cedo, o assalto vai dar para o torto. O único elemento relativamente profissional que contacta com o grupo é Dante Cruciani (Totò), um indivíduo que ensina Mario, Tiberio, Capannelle, Peppe e Ferribotte a quebrarem a segurança do cofre, para além de vender o material necessário para esse efeito, encontrando-se radiante pelo seu negócio estar a prosperar, enquanto o famoso Totò aproveita para expor algum do seu talento num papel secundário de algum relevo.

 Mario Monicelli nunca se esquece de desenvolver os personagens e as suas dinâmicas, concedendo tempo para os actores e actrizes comporem os elementos a quem dão vida, algo que eleva esta comédia que aproveita ainda para parodiar filmes de assalto como "Du rififi chez les hommes". Esta faceta de paródia a filmes de assalto e aos noir torna-se evidente nos momentos que envolvem a procura dos assaltantes em planearem e executarem o furto de forma profissional (ou "científica"), embora o lado destrambelhado e pouco preparado dos elementos do grupo venha ao de cima. Os planos nem sempre correm como inicialmente planeado, bem pelo contrário, algo que proporciona momentos de humor como Tiberio e companhia a procurarem roubar uma máquina de filmar, ou a descoberta de que a habitação ao lado da casa de penhores afinal não se encontra vazia. A casa é habitada por duas mulheres e a funcionária das mesmas, a jovem Nicoletta (Carla Gravina), com Peppe a procurar conquistar esta última, tendo em vista a penetrar na habitação, embora o galanteador nem sempre consiga manter a frieza, com Carla Gravina e Vittorio Gassman a apresentarem uma dinâmica convincente. Os momentos que se seguem à entrada na casa são hilariantes e desconstroem por completo a ideia de que poderia existir "profissionalismo" no seio desta pandilha de assaltantes com "mais olhos do que barriga", com uma degustação de feijão com massa a marcar de forma indelével esta obra cinematográfica que exibe algumas características inerentes a diversas "comédias à italiana" que proliferaram entre o final dos anos 50 e o início dos anos 70. Não faltam algumas situações que resvalam para a tragicomédia, algo latente na morte de um dos personagens principais do filme, ou nas parcas condições da vida destas figuras; alguns elementos incapazes de alcançarem os planos iniciais; o comentário social; os personagens das "margens", entre outros exemplos. É certo que a maioria destes personagens não trabalha, nem pretende entrar no mercado laboral, com excepção de Mario que, a certa altura, decide seguir o rumo certo para conquistar a confiança do irmão de Carmelina. Estes elementos funcionam sobretudo como um grupo disfuncional, com Mario Monicelli a conseguir que despertem facilmente a nossa simpatia. Não são criminosos perigosos ou profissionais, mas sim homens e mulheres que parecem ter entrado numa espiral negativa impossível de sair. O crime é encarado por estes personagens como um meio rápido para garantirem os fundos necessários para sobreviverem, embora esta situação não seja exposta de forma dramática, com Mario Monicelli a encontrar humor na tragédia e a fazer com que os seus intérpretes sobressaiam.

 Um dos intérpretes que se destaca é Marcello Mastroianni, com o actor a demonstrar mais uma vez o seu talento. Veja-se quando encontramos Tiberio a degustar massa com feijão no final do filme, ou a procurar que o filho não acorde com o barulho, ou a exibir os vídeos que gravou à distância para desvendarem o código da "comadre", entre outros momentos elevados por Mastroianni e pelo argumento. Por sua vez, Vittorio Gassman exibe um talento assinalável para o humor, com o personagem a quem dá vida a tanto ter de brutal como de infantil, contrastando com a seriedade constante do elemento interpretado por Tiberio Murgia. Estes circulam por vários locais de Roma, com Mario Monicelli a utilizar diversos espaços das margens desta cidade, algo que contribui para atribuir algum realismo a esta história pontuada por situações que pedem para desligarmos o nosso lado mais pragmático. Diga-se que o trabalho de Mario Monicelli com Gianni Di Venanzo, o director de fotografia, é bastante inspirado, algo notório na composição dos planos. Veja-se desde logo a tentativa de assalto ao carro por parte de Cosimo, durante a noite, com o contraste entre a luz e as sombras a ser bem aproveitado, ou os diversos planos em que os elementos do grupo aparecem em conjunto, algo que transmite a estranha unidade desta equipa destrambelhada. O filme resulta ainda como uma espécie de paródia ao neorealismo, ainda que utilizando elementos do mesmo, algo comentado por Mario Monicelli em entrevista ao OffScreen: "(...) It was more a parody that was aligned with a certain realism around us, with the poverty, and with people who had to do the best they could with whatever means possible to survive, with petty crimes. I couldn’t make the same film today, with a group of people robbing a bank with drills, small bombs, etc., it wouldn’t be realistic". Entre criminosos pouco competentes, situações que tanto têm de trágicas como de hilariantes, interpretações de relevo, diálogos inspirados, um bom aproveitamento dos espaços interiores e exteriores, uma banda sonora ao ritmo do jazz, "I soliti ignoti" surge como uma comédia envolvente, bem estruturada e inteligente, que facilmente rouba a atenção e o sorriso do espectador.

Título original: "I soliti ignoti".
Título em Portugal: "Gangsters Falhados".
Realizador: Mario Monicelli.
Argumento: Age e Scarpelli, Suso Cecchi d'Amico, Mario Monicelli.
Elenco: Vittorio Gassman, Totò, Marcello Mastroianni, Renato Salvatori, Carlo Pisacane, Memmo Carotenuto, Tiberio Murgia, Claudia Cardinale.

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