12 março 2016

Resenha Crítica: "I compagni" (1963)

 "I compagni" poderia praticamente ser exibido com o acompanhamento de "La classe operaia va in paradiso" (1971 - Elio Petri), com ambos os filmes a abordarem temáticas relacionadas com os direitos laborais, as lutas do operariado e as dificuldades inerentes a estas "batalhas", para além de exibirem o quotidiano desgastante destes trabalhadores. Realizado por Mario Monicelli, "I compagni" coloca o espectador diante da luta operária, no final do Século XIX, em Turim, uma cidade em franca expansão industrial. As rotinas destes trabalhadores são desgastantes e as condições laborais pouco seguras, existindo um risco enorme dos operários sofrerem lesões graves ou um desgaste perigoso do ponto de vista mental. Estes perigos são expostos de forma paradigmática no primeiro terço de "I compagni", quando um dos trabalhadores fica gravemente ferido. Os colegas procuram iniciar um protesto, embora pareçam incapazes de criar uma estrutura sólida que permita uma luta articulada contra o patronato. Diga-se que muitos destes elementos são analfabetos, algo que se deve ao facto de terem começado a trabalhar desde muito cedo, tendo em vista a sustentarem as suas famílias. Pautasso (Folco Lulli), Martinetti (Bernard Blier) e Cesarina (Elvira Tonelli) procuram assumir as despesas da formação de uma espécie de comité que permita reunir os quinhentos trabalhadores da fábrica têxtil, com o grupo a decidir efectuar uma hora de greve. No entanto, os operários logo se amedrontam, com Pautasso, o indivíduo que se disponibilizou para tocar o sino, uma hora mais cedo, tendo em vista a assinalar o final do trabalho, a ser penalizado com uma suspensão de duas semanas. Pautasso é um indivíduo rude, de bom coração, mas agressivo e expansivo, com Folco Lulli a compor um personagem que surpreende pelo seu espírito combativo. As intenções de Pautasso e dos colegas são boas, mas estes elementos parecem incapazes de formar um grupo articulado forte, que consiga contrariar e enfrentar o patronato, algo que remete para os personagens dos filmes de Mario Monicelli que procuram alcançar grandes feitos, embora não tenham a argúcia e capacidade para colocar os planos em prática. No caso, estes operários pretendem o seguinte: diminuição do horário de trabalho de catorze para treze horas diárias; um aumento do intervalo para o almoço (de trinta minutos para uma hora); melhores condições de remuneração. Pautasso protagoniza alguns dos momentos de humor que pontuam o enredo, algo que a espaços permite desanuviar um pouco a atmosfera pesada da narrativa, com Mario Monicelli, conhecido pela sua mestria nas "comédias à italiana", a ter em "I compagni" um drama envolvente, complexo, dotado de um conjunto de personagens que deixam marca e uma representação intensa de uma greve operária. O momento de mudança na narrativa acontece com a chegada de Sinigaglia (Marcello Mastroianni), um professor que se encontra foragido da polícia, que procura estimular os operários a lutarem por melhores condições e direitos laborais.

De óculos, uma barba saliente, um guarda-roupa que explana a sua parca condição financeira e um apetite voraz, Sinigaglia é, muito provavelmente, o personagem que mais se destaca ao longo de "I compagni", ou não fosse uma figura pontuada por algumas contradições, capaz de despertar a admiração e o ódio de diversos elementos. Sinigaglia não é um operário, embora defenda os direitos dos mesmos como se fizesse parte deste núcleo de trabalhadores, apresentando um conjunto de ideais considerados subversivos, algo que se deve ao facto de lutar contra o poderio do patronato e do grande capital. Inicialmente, o personagem interpretado por Marcello Mastroianni é pouco consensual junto dos trabalhadores, embora o seu discurso comece a surtir efeito, com o actor a incutir um carisma indelével a este indivíduo com um dom notório para a oratória. Veja-se no último terço, quando Sinigaglia coloca a sua liberdade em risco, tendo em vista a estimular os diversos operários para não desistirem da luta, enquanto Mastroianni brilha em bom nível, exibindo mais uma vez que é um actor extraordinário. Marcello Mastroianni é uma das diversas peças que conseguem elevar a narrativa de "I compagni", com Mario Monicelli a mesclar elementos de drama social e familiar, enquanto explana, com sucesso, o quotidiano de um grupo de operários que decide tomar a atitude corajosa de tentar conquistar direitos laborais. É uma luta desigual, os operários sabem disso, tal como o espectador, algo que conduz a algumas discussões entre os protagonistas, enquanto o patronato procura jogar com o cansaço e a falta de dinheiro dos primeiros (que sobrevivem muitas das vezes graças às colectas que fazem entre si). "I compagni" coloca o espectador diante da criação de um movimento operário, com Sinigaglia a procurar que os trabalhadores percebam a necessidade de se encontrarem unidos para alcançarem os seus desideratos. Sinigaglia procura que os operários não cedam, enquanto alguns personagens começam a sobressair no interior do grupo, bem como os respectivos intérpretes, com Mario Monicelli a dar espaço para que os seus actores e actrizes componham personagens dotados de alguma dimensão e interesse. Entre esses operários que sobressaem encontram-se elementos como Raoul (Renato Salvatori), um indivíduo impetuoso, que inicialmente não parece bastante convencido das ideias de Sinigaglia, embora a dupla acabe por formar uma relação de respeito; Martinetti, um trabalhador ponderado, que luta pelos seus direitos apesar de apresentar algumas dificuldades em manter a postura belicosa contra o patronato; Cesarina, uma mulher de personalidade forte, robusta, pronta a tomar medidas e a envolver-se no interior das decisões tomadas maioritariamente por figuras masculinas; Omero (Franco Ciolli), um pré-adolescente que procura ajudar nas despesas da casa, tendo uma relação relativamente conturbada com a irmã mais velha (Raffaella Carrà) e o irmão mais novo.

Omero procura que o irmão estude e não se envolva no trabalho na fábrica (a cena em que agride o jovem para que este comece a estudar exibe esse receio), embora Mario Monicelli desfira um murro no estômago do espectador num determinado momento da narrativa. Diga-se que Monicelli tem uma predilecção para se "livrar" de personagens relevantes, algo notório em filmes como "I soliti ignoti", "La grande guerra" e "L'armata Brancaleone", com "I compagni" a não ser excepção. "I compagni" procura explanar as dificuldades inerentes ao dia a dia destes trabalhadores, mas também a heterogeneidade do operariado e as diferentes perspectivas com que cada elemento encara a possibilidade da greve. Veja-se o caso de Negrus, um siciliano que pede para furar a greve, embora esteja longe de ser representado como uma figura unidimensional, com "I compagni" a exibir as razões deste indivíduo. É certo que a educação e os valores conservadores de Negrus contribuem para esta atitude (o argumento explora ainda as diferenças culturais entre os habitantes de diferentes regiões de Itália), embora o mesmo viva em condições miseráveis com a esposa e os filhos. A casa de Negrus permite ainda explanar o cuidado colocado por Mario Monicelli na representação dos espaços habitados por estes elementos. Veja-se ainda a casa da família de Omero, um jovem que vive no limiar da pobreza, ou a necessidade de Sinigaglia ter de dormir na habitação de Raoul, com estes espaços a exibirem as dificuldades destes personagens. Renato Salvatore é um dos vários elementos do elenco que se destacam, com o actor a convencer em relação à tomada de consciência de Raoul, um operário que começa a perceber a relevância da luta protagonizada pelo grupo, com o jovem a manter ainda uma paixoneta por Adela (Gabriella Giorgelli). Aos poucos, assistimos ao nascimento de uma certa noção de classe ou de grupo por parte destes trabalhadores, mas também as dificuldades que atravessam, os laços que formam e se desfazem, enquanto somos surpreendidos muitas das vezes com os actos de alguns personagens. Veja-se o caso de Niobe (Annie Girardot), uma prostituta, filha de um operário, que forma uma relação de amizade e enorme afecto com o personagem interpretado por Marcello Mastroianni, ajudando este último num momento mais delicado. Annie Girardot tem uma interpretação competente como esta mulher de enorme beleza, que se envolveu na prostituição para não ter que trabalhar numa fábrica, com a actriz a exibir uma dinâmica convincente com Marcello Mastroianni (a própria banda sonora assume contornos melodiosos quando Niobe e Sinigaglia estão juntos), enquanto "I compagni" expõe a dura realidade que envolve estes personagens. Muitos operários não sabem ler e contam com finanças depauperadas, o dono da fábrica e os gerentes procuram apenas o lucro, parecendo difícil escapar a este ciclo vicioso de trabalho a baixo custo, enquanto Mario Monicelli realiza um drama de pendor social que não procura "pregar" as suas ideias, embora também não tenha problemas em expor as mesmas.

 A presença da fábrica têxtil marca este espaço citadino, com o seu fumo a contaminar os céus (o trabalho de Giuseppe Rotunno na cinematografia é fundamental para captar a atmosfera opressora em volta deste local), enquanto as regras estabelecidas no interior da mesma parece afectar o quotidiano de boa parte dos personagens. Veja-se o quotidiano opressivo no interior deste espaço pontuado por ritmos de trabalho intensos, imenso fumo e barulho, máquinas a funcionarem de forma imparável, com a fábrica a marcar este território de Turim, uma cidade que na época se encontrava a conhecer um rápido processo de industrialização. Diga-se que parte do interior da fábrica foi filmada em Zagreb, algo comentado por J. Hoberman no seu magnífico texto para a Criterion: "Because little was left of nineteenth-century Turin, the movie was actually shot in the nearby Piedmontese cities of Cuneo, Fasano, and Savigliano, with the vast factory interior filmed in Zagreb, Yugoslavia". Os protagonistas de "I compagni" a espaços fazem recordar os grupos de "I soliti ignoti" e "L'armata Brancaleone", com os personagens a tentarem realizar feitos aparentemente impossíveis, independentemente da incapacidade que apresentam para colocarem os mesmos em prática. Embora também tenha alguns momentos de humor, "I compagni" apresenta um tom mais sério do que os exemplos citados ou "comédias à italiana" de Monicelli como "Casanova '70" e "La ragazza con la pistola". Diga-se que o próprio cineasta (entrevista no vídeo colocado no final do texto) assumiu essa tentativa de expor um grupo que procura melhorar as suas condições de vida, em particular trabalhar menos uma hora por dia e receber uma melhoria salarial, embora os seus integrantes tardem em conseguir esse objectivo, uma situação que conduz quer a situações trágicas, quer cómicas. Veja-se quando encontramos Pautasso pronto a travar a vinda de trabalhadores de outro local, embora o seu desiderato não termine da melhor maneira, ou a forma como o professor consegue inicialmente escapulir-se da polícia ao fingir que é outra pessoa, entre outros episódios. A vinda de operários de outros locais exibe a procura dos elementos que gerem a fábrica de se aproveitarem do desemprego, utilizando as dificuldades destes trabalhadores para explorá-los ao máximo e assustá-los com o fantasma do despedimento (um comentário que continua relativamente actual). Temos ainda a representação da presença militar, com "I compagni" a expor como os grandes interesses económicos também estavam ligados aos políticos, com os trabalhadores a não encontrarem uma protecção nas figuras que governam este espaço citadino de Turim. No entanto, vale a pena realçar que Antonio (Enzo Casini), um militar que desperta a atenção da irmã de Omero, é representado de forma relativamente simpática, algo que transmite a procura de "I compagni" em problematizar o meio que aborda e apresentar uma visão sobre o mesmo que não seja "a preto e branco". "I compagni" surge como um drama de época de características neorrealistas, filmado fora dos espaços dos estúdios, pronto a abordar temáticas relacionadas com personagens das margens e a luta operária, sempre com alguma crueza e humor à mistura, com Mario Monicelli a realizar mais uma obra cinematográfica relevante e envolvente.

Título original: "I compagni".
Título no Brasil: "Os Companheiros".
Realizador: Mario Monicelli.
Argumento: Mario Monicelli, Age & Scarpelli.
Elenco: Marcello Mastroianni, Renato Salvatori, Annie Girardot, Folco Lulli, Gabriella Giorgelli, Franco Ciolli, Raffaella Carrà, Bernard Blier.

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