28 março 2016

Resenha Crítica: "Eye in the Sky" (2015)

 Intenso, inquietante e perturbador, "Eye in the Sky" obriga-nos a "entrar" no interior das salas, gabinetes e escritórios dos militares e políticos, bem como no campo de guerra, enquanto aborda temáticas relacionadas com o recurso aos drones nos conflitos bélicos e no combate contra o terrorismo. Os danos colaterais e a legitimidade destas acções também são temáticas abordadas e exploradas ao longo de "Eye in the Sky", com Gavin Hood a realizar uma obra cinematográfica que procura questionar o espectador e envolvê-lo no interior dos episódios vividos pelos personagens. Não existem soluções fáceis na guerra, nem "Eye in the Sky" procura exibir o contrário, com Gavin Hood a efectuar uma obra cinematográfica relevante, pronta a estimular o debate sobre as temáticas que aborda e a frustrar-nos com a certeza de que não existem opções completamente perfeitas. Veja-se quando os personagens principais são colocados diante do dilema de salvarem cerca de oitenta vidas ao eliminarem um grupo de terroristas, ou pouparem uma jovem que se encontra a vender pão nas imediações do esconderijo dos criminosos. A probabilidade da jovem ser atingida pela explosão provocada pelo lançamento de um míssil, através de um drone, é bastante elevada, algo que promete levantar uma série de questões éticas, morais, políticas e militares. Tudo é exposto de forma intensa, com Gavin Hood a transmitir que as opções têm de ser analisadas de forma rápida e colocadas em prática antes que os alvos fujam, com o enredo a desenrolar-se em volta de uma operação militar conjunta que envolve forças dos EUA, Inglaterra e Quénia. Nesse sentido, somos apresentados aos diferentes palcos e aos elementos que tomam as opções e cumprem as ordens ao longo do filme, com a missão inicial a centrar-se na captura de Susan Danford, uma cidadã britânica, agora conhecida como Ayesha Al-Hady (Lex King), bem como do esposo desta, Abdullah Al-Hady (Dek Hassan), dois criminosos conhecidos e relevantes, que pertencem à Al-Shabaab, uma organização terrorista. A operação encontra-se a ser liderada pela Coronel Powell (Helen Mirren), uma mulher obstinada, que procura capturar estes elementos a todo o custo. Este grupo protagonizou uma série de atentados e eliminara recentemente um agente ao serviço de Inglaterra e do Quénia, com Powell a encontrar-se a trabalhar do lado inglês. A presença do casal Al-Hady em Nairóbi, no Quénia, é vista como uma oportunidade para que estas forças militares conjuntas capturem os terroristas. Powell é auxiliada por alguns militares que procuram aconselhá-la quer a nível legal, quer a nível dos danos colaterais da operação, enquanto esta contacta com diversas redes de comando, em particular com a COBRA (Cabinet Office Briefing Rooms), uma unidade que inclui a presença de elementos como o Tenente-Coronel Frank Benson (Alan Rickman), Brian Woodale (Jeremy Northam), Angela Northman (Monica Dolan), entre outros.

 Angela opõe-se à ideia de avançar para um ataque que pode contribuir para a morte de inocentes, enquanto Brian Woodale procura ponderar as diversas consequências desta opção mais "musculada", com o gabinete a contar com um conjunto de figuras que apresentam posições dicotómicas em relação a todo este caso. Nos EUA, um dos intervenientes principais é Steve Watts (Aaron Paul), um piloto de drones que tem a missão de disparar num momento crucial, contando ao seu lado com Carrie Gershon (Phoebe Fox), uma novata. No Quénia, Jama Farah (Barkhad Abdi) trabalha como agente secreto, conseguindo envolver-se nos locais mais perigosos, incluindo num bairro controlado pela Al-Shabaab. Estes personagens, situados em diferentes partes do Mundo, encontram-se ligados por uma missão em comum, que acaba por sair do controlo quando Ayesha e Abdullah abandonam o local onde se encontravam instalados. O casal dirige-se para uma casa onde constam mais elementos extremistas, incluindo Rasheed Hamud (Roberto Meyer), um negociador de armas, com o grupo a ser observado de perto por uma câmara de vigilância, em formato de escaravelho, utilizada por Farah. Quando Powell descobre que o grupo de terroristas se encontra a planear um atentado, a operação de captura logo se transforma num mandato de assassinato. Esta operação levanta uma miríade de dúvidas legais, éticas e morais, com tudo a piorar quando Alia (Aisha Takow), uma jovem muçulmana, filha de pais moderados, procura vender pão em frente à casa que se prepara para ser alvo do ataque militar, ou seja, numa zona de risco. Não vão faltar discussões sobre a melhor opção a tomar, enquanto "Eye in the Sky" exibe paradigmaticamente que os danos colaterais e as contingências da guerra não podem ser encarados de forma meramente estatística, embora os protagonistas e o espectador fiquem diante da terrível dúvida: salvar uma vida ou muitas vidas? Aos poucos, ficamos diante de um emaranhado de políticos, militares e burocratas dos EUA, Inglaterra e Quénia, com as opiniões a dividirem-se, incluindo a do espectador, ou pelo menos a deste que escreve esta espécie de resenha. A banda sonora atinge níveis palpitantes, enquanto a cinematografia contribui para transmitir a sensação de que nos encontramos a visionar os acontecimentos em simultâneo com os intervenientes, com Gavin Hood a optar por exibir diversas imagens em movimento como se estivessem a ser captadas por um drone ou por câmaras de segurança. Veja-se quando encontramos o grupo terrorista reunido, a preparar os coletes e as armas no interior da habitação, ou a jovem Alia a vender pão, enquanto o relógio joga contra a sua vida, com o próprio trabalho de montagem a contribuir para que o espectador seja praticamente preso pelos colarinhos e fique inquieto à espera dos próximos passos dos personagens.

 "Eye in the Sky" não obriga (felizmente) o espectador a aturar discursos patrióticos, com Gavin Hood a exibir que estamos diante de um grupo de militares e políticos que procuram tomar uma opção complicada. Nenhuma opção é boa: ou deixam escapar terroristas e permitem que estes cometam um atentado, ou explodem com a habitação e correm o risco de eliminar uma jovem inocente. Esta é uma dúvida que atravessa boa parte da narrativa de "Eye in the Sky", com Gavin Hood a incutir características de thriller a um filme capaz de mexer com as emoções do espectador. No final, ficamos arrasados. As emoções sentidas e as dúvidas foram mais do que muitas. Não temos a certeza de que os protagonistas tomaram a melhor decisão, nem alguns dos intervenientes parecem ter ficado à vontade com a mesma. Parece mais do que óbvio que o recurso aos drones está longe de tornar os conflitos "limpos", uma temática abordada com relativo sucesso em "Good Kill", embora neste último caso, Andrew Niccol procurasse explorar o desgaste dos elementos que trabalham a pilotar estes aparelhos. Gavin Hood procura levantar questões sobre estas operações, enquanto manipula as nossas emoções e estimula o debate em relação às temáticas abordadas. É certo que os elementos do grupo terrorista não passam de meras ameaças que nunca ganham uma dimensão humana, ou complexidade, embora a intenção de Gavin Hood não pareça ser essa. Diga-se que o cineasta consegue explorar o talento de alguns elementos do elenco principal. Veja-se os casos dos seguintes actores e actrizes: Helen Mirren como Powell, uma militar disposta a quase tudo para conseguir cumprir os seus intentos, decidida e capaz de sugerir a um subordinado que altere as estatísticas oficiais sobre a zona de risco; Aaron Paul como um piloto de drones que parece algo incomodado com a missão; Alan Rickman como um Tenente-Coronel que procura efectuar a ponte entre os militares e os representantes políticos, com o actor a incutir algum carisma ao personagem que interpreta. Temos ainda exemplos como Jeremy Northam como Brian Woodale, um burocrata que procura analisar as consequências das suas decisões não só a nível militar, mas também no plano político (ou seja, a forma como a opinião pública vai encarar o acto a ser tomado), ou Monica Dolan como a questionadora Angela. A maioria destes personagens encontra-se nos gabinetes ou numa sala de operações militares, enquanto Jama Farah está no terreno. Barkhad Abdi convence como um agente secreto que se arrisca por terrenos perigosos, algo que a espaços conduz Farah a protagonizar fugas intensas, enquanto tenta cumprir as ordens e salvar a vida da jovem Alia. Este território do Quénia surge representado como um espaço recheado de perigos, pontuado por habitações marcadas por poucas condições, milícias extremistas e população empobrecida. Veja-se a necessidade de Alia ter de trabalhar a vender pão para ajudar os pais, ou as diversas crianças que laboram nas ruas, com Gavin Hood a exibir que nem todos os muçulmanos são terroristas (algo que parece complicado de explicar a algumas pessoas), bem pelo contrário (diga-se que o cineasta nunca apresenta uma visão "a preto e branco" da "realidade" que aborda).

 Alia é uma rapariga frágil e inocente, que desperta uma enorme simpatia, algo que dificulta ainda mais o pensamento de que a opção mais pragmática, ou seja, aquela que permite salvar mais vidas, pode colocar em causa a existência desta jovem. Os pais desta rapariga são elementos ponderados e educados, enquanto Alia apresenta um enorme desconhecimento em relação ao facto da sua vida estar em jogo. Farah ainda procura retirar a jovem do local, embora uma série de acontecimentos pareça dificultar esta tarefa, algo que deixa tudo e todos diante de um dilema moral. Não existem soluções totalmente pragmáticas, com esta guerra contra o terrorismo a parecer trazer consigo uma carga negativa impossível de escamotear. É certo que o ataque permite eliminar terroristas mas, ao matarem inocentes, será que estes elementos não estão a instigar o ódio contra os representantes do Ocidente? O terrorismo tem de ser combatido mas, ao eliminar-se inocentes, considerando as suas mortes como "danos colaterais", não se estará a cometer actos criminosos? As questões são mais do que muitas e as respostas complicadas, embora pareça certo que esta guerra com recurso aos drones está longe de ser "limpa", bem como os actos e as ideias de diversos personagens (sobretudo Powell, alguns representantes dos EUA e, obviamente, os terroristas). Gavin Hood não tem problemas em questionar o espectador e inquietá-lo, ao longo de uma obra cinematográfica que procura apresentar, ainda que de forma ficcional, como decorre uma operação política e militar conjunta. Veja-se que estamos diante de uma operação que reúne elementos do Quénia, Inglaterra e Estados Unidos da América, com a acção militar a ocorrer na primeira Nação mencionada. A juntar a tudo isto, dois terroristas contam com nacionalidade inglesa, outro dos EUA, enquanto ainda se encontra presente pelo menos um elemento do Quénia, algo que exige todo um enorme jogo diplomático, político e militar, com o argumento de Guy Hibbert a revelar-se de grande nível ao contribuir para elevar a complexidade desta obra cinematográfica. "Eye in the Sky" consegue conjugar com sucesso as diversas reuniões em gabinetes, pontuados por ecrãs que permitem que os intervenientes dialoguem entre si e consigam visionar aquilo que acontece na área de acção do Quénia onde se preparam para intervir, com as cenas que decorrem no território. Não faltam ainda alguns momentos de humor, seja devido a uma intoxicação alimentar do Ministro dos Negócios Estrangeiros inglês, ou à procura do personagem interpretado por Alan Rickman em comprar uma boneca, embora estas situações raramente tirem impacto aos trechos mais tensos. Pertinente e inquietante, "Eye in the Sky" procura questionar o espectador, enervá-lo e expor uma série de temáticas associadas à guerra contra o terrorismo e à utilização de drones, com Gavin Hood a surpreender pela complexidade incutida a um thriller que não procura respostas fáceis, ou esconder os seus propósitos.

Título original: "Eye in the Sky".
Título em Portugal: "Operação Eye in the Sky".
Realizador: Gavin Hood.
Argumento: Guy Hibbert.
Elenco: Helen Mirren, Aaron Paul, Alan Rickman, Barkhad Abdi, Jeremy Northam, Phoebe Fox.

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