06 março 2016

Resenha Crítica: "Casanova '70" (1965)

 Comédia à italiana recheada de situações rocambolescas, mal-entendidos, diversos episódios perigosos e um "Casanova" que apenas consegue colocar a "máquina" a funcionar quando está em perigo, "Casanova '70" surge como mais um triunfo cinematográfico de Mario Monicelli, com o cineasta a voltar a explorar uma estrutura narrativa relativamente episódica, enquanto apresenta a miríade de conquistas do Major Andrea Rossi-Colombotti (Marcello Mastroianni), um elemento ao serviço da NATO. Monicelli volta a apostar em situações quase trágicas ao serviço da comédia, enquanto desconstrói a figura do "macho latino" ao contar com um protagonista que é um conquistador incapaz de satisfazer sexualmente as mulheres quando não sente o perigo a aproximar-se. Andrea finge que assalta casas, envolve-se com a esposa do seu chefe, finge que é um médico para analisar a suposta virgindade de uma jovem da Sicília, inicia um affair com uma mulher casada com um conde perigoso, procura os serviços de uma "pedicure" mortífera, protagonizando um conjunto de situações hilariantes para conseguir os seus intentos, ou seja, sentir perigo e concluir os actos sexuais com sucesso. Marcello Mastroianni parece divertir-se a desconstruir a sua persona de conquistador, com os momentos em que Andrea se encontra junto do psiquiatra (Enrico Maria Salerno), tendo em vista a aferir o problema que o apoquenta, a contarem com trechos dominados pelo bom humor. O consultório é pontuado por uma decoração semelhante a uma habitação oriental, com o psiquiatra a apresentar um conjunto de atitudes peculiares, algo que permite a Enrico Maria Salerno sobressair no meio deste elenco bastante alargado. Os flashbacks permitem que o espectador descubra alguns dos casos falhados do protagonista e os planos hilariantes e destrambelhados que este engendra para se livrar das mulheres que conquista, algo que acontece quando não consegue colocar a "maquineta" a trabalhar. As mulheres que este conquista são belíssimas, com quase todas a cederem perante a presença de Andrea, embora nem sempre consigam sair completamente satisfeitas. Veja-se o caso de uma hospedeira de bordo (Seyna Seyn) que é alvo do interesse do protagonista, embora este procure forjar um plano para se livrar da mesma, tendo em vista a evitar expor a sua inabilidade para manter relações sem perigo. Após a sessão com o psiquiatra, Andrea procura seguir os conselhos do médico e levar uma vida casta, iniciando uma relação séria com Gigliola (Virna Lisi), uma jovem loira belíssima, que fez votos de castidade e pertence a uma família conservadora. Virna Lisi é uma das figuras femininas que conta com mais tempo para sobressair, com esta jovem a procurar despertar o desejo sexual do namorado, embora não esteja inicialmente na disposição da informação de que Andrea é impotente quando se sente confortável. A relação sofre um revés quando Gigliola e a sua família visitam o circo com Andrea, com o protagonista a não controlar os seus ímpetos e a beijar ardentemente a domadora de leões do local. Segue-se mais uma fuga aparatosa, com Mario Monicelli a dotar a narrativa de uma estrutura episódica, um pouco a fazer recordar "comédias à italiana" do cineasta como "L'armata Brancaleone", "La ragazza con la pistola", entre outras.

 Marcello Mastroianni é o elemento que mais sobressai no elenco, com o actor a incutir um estilo simultaneamente galanteador e destrambelhado a Andrea, um indivíduo que se deixa conduzir pelos seus ímpetos. Veja-se quando decide iniciar um affair com Dolly (Margaret Lee), a esposa do seu general, ou finge que é um médico, tendo em vista a "analisar" se uma jovem siciliana é virgem. Diga-se que o episódio relacionado com a jovem siciliana permite a Mario Monicelli expor os valores retrógrados dos habitantes deste espaço italiano, sempre com alguns exageros e estereótipos à mistura, enquanto denuncia a precariedade da condição feminina (uma temática presente em filmes do género como "La ragazza con la pistola", "Sedotta e abbandonata", entre outros). A outra personagem feminina que sobressai é Thelma Tiacca (Marisa Mell), uma vamp que se encontra casada com um conde (Marco Ferreri) relativamente mais velho, supostamente surdo e coleccionador de arte. O cenário do castelo onde o conde habita com a esposa e o criado é aproveitado de forma exímia ao serviço da narrativa, com este espaço a encontrar-se em franca decomposição, assim como os valores dos personagens interpretados por Marisa Mell e Marco Ferreri. Se Mastroianni interpreta o galanteador quase infantil e ingénuo, já Ferreri incute alguma malícia a este conde sem problemas em procurar eliminar os seus rivais. Por sua vez, Marisa Mell é a sedução em pessoa, procurando livrar-se do esposo, enquanto entra no jogo de Andrea. Temos ainda Santina (Moira Orfei), uma "pedicure" que é conhecida por dar azar aos seus clientes, uma característica que parece despertar o desejo de Andrea. Este desloca-se de local em local, conhece uma miríade de mulheres, descura muitas das vezes o trabalho, enquanto Mario Monicelli parece divertir-se a colocar o protagonista nas situações mais hilariantes. O cineasta não tem problemas em desconstruir a figura do "Casanova" engatatão, ou satirizar os valores da sociedade siciliana, ou expor um casamento por interesse, ou ironizar com os problemas de impotência de Andrea. O personagem interpretado por Marcello Mastroianni parece ser movido pelo perigo, caso contrário a sua vida sexual torna-se miserável, tendo em Gigliola uma das poucas figuras que lhe é leal. Gigliola é uma das mulheres que marcam a vida de Andrea, enquanto este depara-se com uma série de figuras femininas e masculinas que permitem aos elementos do elenco secundário sobressaírem. Andrea procura descrever os episódios do seu dia a dia num diário, tal como aconselhado pelo médico, com alguns momentos a contarem com a narração de Marcello Mastroianni, enquanto ficamos diante de uma comédia que não tem problemas em assumir os exageros e divertir o espectador. Não faltam jogos de sedução, um julgamento rocambolesco (provavelmente um dos momentos mais inspirados de "Casanova '70"), alguns exageros, uma banda sonora a incrementar os diversos trechos da narrativa, figuras femininas em roupas sugestivas, embora o maior alvo de troça seja o engatatão que tarda em superar as suas inseguranças. Pronto a desconstruir a figura do "macho latino", "Casanova '70" surge como mais um exemplar recomendável das "comédias à italiana", com Mario Monicelli a aproveitar de forma exímia a estrutura episódica da narrativa, enquanto Marcello Mastroianni volta a exibir o seu talento e carisma.

Título original: "Casanova '70". 
Título em Portugal: "Casanova 70". 
Realizador: Mario Monicelli.
Argumento: Suso Cecchi D'Amico, Tonino Guerra, Mario Monicelli, Giorgio Salvioni, Age & Scarpelli.
Elenco: Marcello Mastroianni, Virna Lisi, Enrico Maria Salerno, Marisa Mell, Moira Orfei, Marco Ferreri.

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