Penelope mantém uma relação fria com o pai, uma figura que apenas conheceu numa fase tardia da sua vida, enquanto Harry parece deliciar-se devido ao facto dos elementos de fora pensarem que a primeira é a sua namorada. Harry é um tipo que gosta de se exibir, sair com regularidade, festejar, relembrar os sucessos profissionais, incluindo o seu trabalho com os The Rolling Stones, bem como com Marianne, embora esconda, durante algum tempo, a frustração de ter desperdiçado a relação que manteve com esta última. Nesse sentido, Harry surge sobretudo como uma figura intensa, que a espaços ainda parece despertar a atenção de Marianne, embora esta última ame Paul, tendo seguido em frente com a sua vida. Nos flashbacks, somos colocados diante de alguns momentos desta mulher nos concertos, com esta a esgotar espectáculos e a vender imensos discos, embora a operação pareça ter contribuído para Marianne abrandar o seu estilo de vida, enquanto procura lamber algumas feridas do passado, contando com a companhia de Paul. A química entre Matthias Schoenaerts e Tilda Swinton é convincente, com a dupla a conseguir explanar a cumplicidade entre os personagens que interpretam. Por sua vez, a dinâmica entre os personagens interpretados por Ralph Fiennes e Matthias Schoenaerts é pontuada pela tensão, com este último a tolerar inicialmente a presença do primeiro, embora, aos poucos, comece a exibir o desagrado pela presença do antigo amigo. Veja-se quando Harry procura oferecer álcool a Paul, sabendo que este último é um ex-alcoólico, ou a procura do primeiro em imiscuir-se no quotidiano dos personagens interpretados por Schoenaerts e Swinton. É neste quarteto que se centra a narrativa de "A Bigger Splash", o remake de "La Piscine", com Luca Guadagnino a manter diversos "ingredientes" do filme original, incluindo um assassinato, traços da personalidade dos quatro protagonistas, o destino de Paul, as tensões de cariz sexual, o guarda-roupa pontuado por enorme leveza, embora incuta um estilo distinto e diversas modificações, com o próprio local onde se desenrola o enredo a permitir essa mudança. É certo que voltamos a ficar diante de personagens sem grandes problemas financeiros, embora não pareçam totalmente satisfeitos com as suas vidas, mas estamos longe da villa na Côte d'Azur de "La Piscine", com a ilha de Pantelleria a trazer a espaços uma sensação de claustrofobia, sobretudo quando chega o mau tempo. A ilha surge como um cenário e personagem, com "A Bigger Splash" a colocar-nos diante das suas ruas, das suas praias, terrenos arenosos e rochas negras, bem como perante a alimentação típica e as festividades do território. Diga-se que Luca Guadagnino aproveita ainda o espaço da casa onde Marianne e Paul se encontram a desfrutar de um período de férias, uma habitação dotada de algumas comodidades, incluindo uma piscina, diversos discos de música e uma mesa de refeições no espaço exterior que promete ser palco de um momento relativamente constrangedor. Tal como no filme original, inspirado no livro "La Piscine" de Alain Page (Jean-Emmanuel Conil), também "A Bigger Splash" conta com uma piscina como um dos espaços primordiais do enredo. Não falta um momento sexual mais quente entre Marianne e Paul, ou uma competição entre este último e Harry, bem como um assassinato que promete incutir um tom negro ao enredo, com a piscina a surgir como um espaço onde decorrem diversos episódios relevantes, enquanto Luca Guadagnino, auxiliado pelo argumento de David Kajganich, consegue construir uma tensão crescente entre diversos personagens.
A chegada de Harry é o ponto de charneira de "A Bigger Splash". O produtor musical não tem problemas em trazer estranhas para a casa de Marianne e Paul, em particular, Sylvie (Lily McMenamy) e Mireille (Aurore Clément), embora estas últimas praticamente não sejam aproveitadas ao longo do enredo, servindo sobretudo para expor a incapacidade de Harry em respeitar o espaço alheio. A relação entre Harry e Paul torna-se gradualmente tensa, com o primeiro a não esconder o interesse em Marianne, enquanto o segundo parece ter cada vez menos paciência para aturar o antigo amigo, para além de se envolver com a filha deste, uma jovem sedutora, que não tem problemas em insinuar-se e expor alguma da sua sensualidade. Veja-se quando Penelope decide atirar moedas para o fundo da piscina e apanhá-las, ou decide fazer o pino neste espaço, tendo em vista a despertar a atenção de Paul, quando Marianne não se encontra presente. Não faltam tensões de cariz sexual entre alguns personagens. Marianne e Harry chegam praticamente a consumar algo mais, após diversos episódios de maior intimidade, que vão desde um espectáculo de karaoke à confecção de um jantar. O momento no bar, onde Harry canta, Marianne dança, as luzes azuis tomam conta do cenário, permite explanar que ainda existe algo a ligar os dois personagens, com esta última a soltar-se um pouco mais, enquanto o espaço nocturno enche-se de clientes, prontos a assistirem a esta cena enérgica entre a estrela de rock e o produtor musical. A certa altura do filme, Penelope salienta que Marianne é demasiado "domesticada" para quem é uma estrela de rock, algo que ofende a segunda, embora Harry pareça tentar soltar o lado mais selvagem que a cantora apresentara noutros tempos. Por sua vez, a dinâmica entre Paul e Penelope é relativamente convincente, com Dakota Johnson a cumprir no papel de jovem sedutora, que não tem problemas em expor o lado negro do progenitor e esconder uma série de sentimentos, embora o argumento nem sempre ajude o trabalho da actriz, com uma reviravolta no último terço, em relação à idade da personagem, a não convencer e a trazer poucos efeitos práticos para o enredo. Se Dakota Johnson cumpre como Penelope, já Tilda Swinton consegue transmitir imenso como Marianne, praticamente sem falar, com a personagem a quem dá vida a deparar-se com o regresso de Harry, uma figura nostálgica, que não tem problemas em dançar (Ralph Fiennes tem alguns momentos de dança memoráveis) e cantar, embora pareça demasiado preso ao passado. As tensões são expostas de forma gradual, com "A Bigger Splash" a associar as mesmas às personalidades dos personagens e às características do território, um espaço de enorme beleza, embora capaz de transmitir uma sensação de claustrofobia. Luca Guadagnino aproveita alguns eventos locais, bem como os cenários desta ilha ao serviço do enredo, algo latente em episódios como um momento mais íntimo entre Penelope e Paul, junto a um lago, após uma longa caminhada. Tal como "La Piscine", também "A Bigger Splash" não exibe totalmente aquilo que acontece entre Penelope e Paul, embora a possibilidade destes dois se terem envolvido enfureça Harry. Diga-se que a relação entre Penelope e Marianne também é relativamente complicada, com a primeira a não parecer apreciar particularmente a presença da segunda, algo que fica latente no último terço de "A Bigger Splash".
O argumento incute ainda elementos relacionados com a chegada de migrantes, uma temática extremamente actual, enfiada a martelo para expor como estes são muitas das vezes escorraçados ou encarados praticamente como intrusos, enquanto figuras como os protagonistas, apesar de se encontrarem temporariamente no território, são vistas com alguma bonomia, incluindo quando ocorre uma morte suspeita. Existe uma tentativa de Guadagnino em efectuar uma crítica à nossa sociedade, sobretudo na forma como os migrantes são encarados, embora pareça demasiado escancarada e enfiada a martelo para provocar o efeito pretendido. Se a crítica social é esbatida e pouco aprofundada, já a capacidade de Guadagnino e David Kajganich concederem pertinência ao remake parece notória, com a dupla a manter um pouco da essência do filme original, embora não deixe de introduzir diversas alterações que concedem um tom muito próprio a "A Bigger Splash". Veja-se as diferenças entre os locais onde decorre a narrativa, bem como a distinção a nível da banda sonora, com o rock and roll a fazer parte da mesma em "A Bigger Splash", incluindo músicas dos The Rolling Stones. Diga-se que as menções aos The Rolling Stones, por parte de Harry, remetem para uma certa nostalgia, algo ainda visível no facto dos elementos mais velhos ouvirem música em discos de vinil, enquanto Penelope prefere o seu ipod. Esta é uma jovem que utiliza quase sempre roupas leves, tal como boa parte dos personagens, com o guarda-roupa a exacerbar a temperatura quente do território, pelo menos até ocorrer uma tempestade numa fase mais avançada da narrativa. Diga-se que Guadagnino não tem problemas em expor e explorar os corpos dos protagonistas, com estes a parecerem estar bastante à vontade com as suas fisionomias, embora as férias em Pantelleria prometam ser desastrosas. Os festejos efusivos de Harry quando reencontra Marianne e Paul preparam-se para serem trocados por sentimentos mais contraditórios, com "A Bigger Splash" a conjurar gradualmente o caos, até apresentar o mesmo com gosto e energia, enquanto os personagens principais vão ser obrigados a lidar com algumas das consequências dos seus actos. O desejo e os instintos mais primitivos parecem a espaços guiar Harry, Paul, Marianne e Penelope, algo que promete conduzir a algumas tensões, momentos de sedução, alguns trechos de humor e sentimentos mais exacerbados. Luca Guadagnino explora assertivamente as dinâmicas entre Matthias Schoenaerts, Tilda Swinton, Ralph Fiennes e Dakota Johnson, com o cineasta a incutir alguns elementos de thriller, romance, drama e erotismo a uma obra cinematográfica pontuada por uma cinematografia competente, um elenco talentoso e uma banda sonora envolvente, onde os sentimentos se encontram à flor da pele e as tensões são mais do que muitas.
Título original: "A Bigger Splash".
Título em Portugal: "Mergulho Profundo".
Realizador: Luca Guadagnino.
Argumento: David Kajganich.
Elenco: Tilda Swinton, Matthias Schoenaerts, Ralph Fiennes, Dakota Johnson.




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