22 março 2016

Resenha Crítica: "Batman v Superman: Dawn of Justice"

 É praticamente impossível dissociar que "Batman v Superman: Dawn of Justice" surge como uma ponte para um universo cinematográfico expandido da DC Comics, um pouco à imagem daquilo que acontece com os diversos filmes da Marvel. A promessa passa por cada cineasta poder incutir o seu estilo nos filmes, algo que parece notório ao encontrarmos figuras tão distintas como David Ayer, James Wan, Zack Snyder e companhia no cargo de realizadores destas obras cinematográficas. Nesse sentido, aquilo que a Warner Bros. e a DC Comics prometem é uma maior liberdade criativa em relação à "mão controladora" de Kevin Feige na Marvel, embora os filmes de "The Flash", "Aquaman", "Cyborg", "Suicide Squad" e companhia façam parte de uma realidade mais lata. Tal como em "Man of Steel", também "Batman v Superman: Dawn of Justice" tem o cunho pessoal de Zack Snyder. Para o bem e para o mal, "Batman v Superman: Dawn of Justice" não engana que é um filme de Zack Snyder. Estilizado, recheado de cenas de acção (por vezes excessivas e cansativas), visualmente apelativo, pontuado por uma banda sonora pronta a incutir um tom operático ao enredo, "Batman v Superman: Dawn of Justice" tem os seus melhores momentos quando deixa os personagens a dialogar e dá tempo para a narrativa "respirar". Mérito para o argumento de Chris Terrio e David Goyer e para um elenco bastante coeso e competente, sobressaindo nomes como Ben Affleck (soberbo como Batman, provavelmente a maior surpresa ou confirmação), Jesse Eisenberg (é simplesmente delicioso observar o actor a lançar as falas de forma rápida e mordaz, incutindo um tom psicótico a dissimulado a Lex Luthor), Henry Cavill (mais à vontade como Superman, uma figura que procura proteger a Humanidade), Gal Gadot (a entrada da Wonder Woman em cena é uma lufada de ar fresco e deixa água na boca para o filme a solo), Scoot McNairy (como um indivíduo que é afectado pelos episódios que ocorreram no conflito entre o protagonista e Zod em "Man of Steel"), Jeremy Irons (o seu Alfred surge como uma figura paternal junto de Bruce Wayne, pronta a contrastar com a seriedade que este último apresenta em alguns momentos), entre outros. Nesse sentido, é frustrante notar que Zack Snyder prefere a espaços apostar em longas cenas de acção, muitas delas filmadas num estilo confuso e destrambelhado, que deixariam Michael Bay orgulhoso (embora as lutas "mano a mano" convençam, incluindo aquela que é prometida no título), ao invés de procurar explorar ainda mais as dinâmicas entre os personagens interpretados por este elenco de primeira.

 Zack Snyder consegue aproveitar os erros que cometeu em "Man of Steel" ao serviço da narrativa de "Batman v Superman: Dawn of Justice", embora não tenha problemas em repeti-los, com o combate que envolve a presença do Doomsday a estender-se de tal forma que o impacto do resultado final se perde, enquanto se regista mais uma comparação entre Clark Kent e Jesus Cristo. Clark surge mais uma vez como um elemento praticamente messiânico, embora cometa os seus erros, que aparece pronto a sacrificar-se pela Humanidade e a cumprir os desejos do seu pai adoptivo, encontrando-se quase sempre disponível para salvar Lois Lane. A relação entre Clark e Lois é relativamente aproveitada, sobretudo no último terço, com Amy Adams a ter espaço para sobressair, numa obra cinematográfica que é um hino à incoerência: não se esquece de desenvolver os personagens e as suas dinâmicas, mas também não poupa na pancadaria em doses esgotantes. O argumento de Chris Terrio (uma adição recomendável) e David Goyer aproveita ainda para incutir diversos elementos da realidade política e social recente, que trazem à memória episódios como o 11 de Setembro de 2001, ou outros atentados que se encontram a ocorrer pelo Mundo fora, algo latente numa explosão que acontece no Senado, com o objectivo de incriminar o Superman e levantar ainda mais dúvidas em relação a este super-herói. Os momentos que remetem para o 11 de Setembro ocorrem na perspectiva que Bruce Wayne tem dos trechos do último terço de "Man of Steel", com o personagem interpretado por Ben Affleck a procurar salvar os inocentes que se encontram em perigo devido à devastação provocada pelo embate entre os Kryptonianos. Este Batman que nos é apresentado surge como um super-herói, ou anti-herói cansado e pragmático, que já não parece acreditar na bondade da Humanidade, que fica aterrado com os episódios que visiona em Metropolis, em particular quando se depara com figuras com poderes até então inimagináveis e capazes de proporcionarem uma destruição a larga escala. Veja-se os diversos pesadelos que Bruce Wayne tem em relação a Superman, ficando particularmente na memória uma cena que ocorre num território pós-apocalíptico, onde o segundo tem uma espécie de exército que lhe presta culto, com Zack Snyder e a sua equipa a terem aqui um momento inspiradíssimo. "Batman v Superman: Dawn of Justice" volta a apresentar a morte dos progenitores de Bruce Wayne, um episódio que inicialmente parece desnecessário embora permita mais tarde efectuar uma ligação entre Martha Wayne e Martha Kent (Diane Lane), com todos os personagens, incluindo Batman, a parecerem muito ligados às memórias que guardam dos pais. Essa é uma situação que ocorre com Bruce Wayne (Ben Affleck), Clark Kent (Henry Cavill) e Lex Luthor (Jesse Eisenberg), com o trio a ser órfão de pai, uma temática explorada ao longo da narrativa, ainda que de forma distinta para cada personagem. Regressemos a Bruce Wayne. Ben Affleck consegue exibir o sentimento de impotência e raiva de Bruce Wayne quando se depara com algo que parece impossível de controlar, com o actor a transmitir o carisma e experiência deste personagem icónico. A fúria de Batman é alimentada pelo medo e desconhecimento que tem em relação a Superman, com "Batman v Superman: Dawn of Justice" a abordar, ainda que em subtexto, que alguns dos conflitos ocorrem exactamente devido a estes sentimentos.

 Se me pedissem para salientar aquilo que mais gostei em relação a "Batman v Superman: Dawn of Justice" não teria problemas em realçar: Ben Affleck como Batman. Este é um Batman soturno, adulto, cansado, que perdeu um amigo no embate entre estes seres oriundos de Krypton, que ocorrera no último terço de "Man of Steel". Diga-se que existem mais personagens que foram afectados por este episódio. Um desses elementos é Wallace Keefe (Scoot McNairy), um indivíduo que fica paraplégico num acidente provocado pela destruição que ocorreu em "Man of Steel". Quem também se encontra interessado em toda esta questão dos Kryptonianos é Lex Luthor, com o bilionário a procurar ter acesso ao corpo e nave de Zod (Michael Shannon), enquanto tenta fabricar uma arma que trave o Superman, bem como iniciar um conflito entre este último e Batman. Clark Kent prossegue a sua vida como jornalista no Daily Planet, encontrando-se a lidar com as consequências dos episódios que ocorreram em "Man of Steel". Uns encaram-no como uma bênção, outros como uma ameaça, com elementos como a Senadora Finch (Holly Hunter) a procurarem regular os actos do super-herói. Por sua vez, a relação entre Clark e Lois encontra-se mais sólida, com Amy Adams a ter um pouco mais de espaço para sobressair como a intrépida jornalista que surge como um baluarte importante da vida do primeiro. Se Bruce Wayne parece cada vez mais obcecado em relação a Superman, também Clark Kent começa a desenvolver algum interesse em relação a Batman, com as atitudes violentas deste último, em Gotham City, a não agradarem ao personagem interpretado por Henry Cavill. Enquanto isso, Lex não tem problemas em elaborar diversas armadilhas contra Superman, seja a colocar Bruce Wayne contra o Kryptoniano, ou a procurar criar incidentes que pareçam culpa deste último. Veja-se ainda na primeira metade do filme, quando Lois interroga um líder terrorista, acabando por ocorrer um tiroteio, com a jornalista a ser salva por Superman, ainda que as mortes tenham sido perpetradas por homens ao serviço de Lex Luthor, com armas fabricadas pela LexCorp, embora as culpas recaiam no super-herói. Jesse Eisenberg incute um tom dissimulado a Lex, um bilionário com um sentido de humor negro notório e uma malícia escondida num sorriso aparentemente afável. A reunião entre Lex, Clark, Bruce e Diana (Gal Gadot) ocorre num evento organizado pelo primeiro, com Zack Snyder a conseguir unir relativamente bem as peças e a explorar o trio masculino, até expor o espectador às consequências dos conflitos que se avizinham, com a Wonder Woman a também ter uma palavra a dizer. Luthor descobre Kryptonita, enquanto Bruce consegue roubar informações sobre este material rochoso que permite bloquear os poderes do Superman, com este último a preparar-se para ser colocado diante de um vigilante nocturno que pretende fazê-lo "sangrar". Se Superman surge como uma figura que procura ajudar os seres humanos, embora nem sempre seja compreendido e o embate com Zod tenha contribuído para consequências desastrosas, já Batman aparece como um elemento cansado, que ganhou um ódio crescente em relação ao primeiro.

 O embate entre Superman e Batman é um dos pontos altos do filme, com Zack Snyder a ter aqui um dos combates coreografados com mais inspiração. O problema é a entrada em cena de Doomsday, um personagem em CGI, completamente artificial, que permite o envolvimento da Wonder Woman, mas exibe mais uma vez a incapacidade de Snyder em controlar o ritmo e duração das cenas de pancadaria. A confusão é imensa, por vezes a fazer recordar o estilo incoerente de Michael Bay, com os efeitos em CGI a estarem longe de parecerem incutidos de forma assertiva. É certo que é entusiasmante ver a Wonder Woman a juntar-se ao grupo e andar à pancada, com Gal Gadot a apresentar uma dinâmica convincente com Ben Affleck e Henry Cavill, embora Snyder nem sempre consiga parar no momento certo. Diga-se que Zack Snyder não tem problemas em abraçar os excessos, algo que a espaços contribui para o filme derrapar em terrenos movediços. A música toca incessantemente (a espaços quase que apetece clamar por um pouco de silêncio). As explosões e cenas de acção são mais do que muitas (por vezes, menos é mais, algo que Snyder não parece compreender). No entanto, "Batman v Superman: Dawn of Justice" também conta com diversos elementos que funcionam, incluindo a forma orgânica como Zack Snyder explora a rivalidade entre Batman e Superman, bem como a posterior aliança entre estes dois, ou a abordagem assertiva das consequências inerentes aos episódios que ocorreram em "Man of Steel". A destruição não é esquecida, algo que torna ainda mais inaudito verificar que Zack Snyder não tem problemas em praticamente repetir a mesma façanha, ainda que numa zona supostamente abandonada de Gotham. Snyder consegue ainda incutir de forma orgânica os cameos de Aquaman (Jason Momoa), Flash (Ezra Miller) e Cyborg (Ray Fisher), com o cineasta a deixar um aperitivo para o filme da "Liga da Justiça" e para as obras cinematográficas a solo dos personagens mencionados. A própria aproximação entre Gotham City e Metropolis permite agilizar a narrativa e apresentar duas cidades distintas, com a primeira a surgir como um espaço dominado pelo crime, enquanto a segunda encontra-se a lidar com a presença do Superman. O Daily Planet surge como um dos espaços icónicos de Metropolis, com Clark e Lois a trabalharem sob as ordens de Perry White (Laurence Fishburne), com este último a apresentar uma visão pragmática do jornalismo. Diga-se que o quotidiano de Clark no Daily Planet nem sempre é explorado, com Zack Snyder a abordar esta faceta da vida do protagonista praticamente ao de leve. Para o bem e para o mal, estamos numa época onde proliferam os filmes e as séries de super-heróis. Uns merecem todos os elogios como "Deadpool", outros falham por completo como é possível verificar em "X-Men Origins: Wolverine", ou até nos dois filmes de "Thor". A decisão da Warner Bros. reunir Batman e Superman, no grande ecrã, soa inicialmente a uma fuga para a frente. No entanto, o resultado final de "Batman v Superman: Dawn of Justice" comprova que a decisão da Warner Bros. foi acertada, com Zack Snyder a conseguir reunir de forma orgânica a história de dois personagens distintos, que habitam em espaços urbanos de características dicotómicas.

 O realizador consegue desenvolver as motivações de Batman, Superman e Luthor, embora este último seja sempre uma caixinha de surpresas, enquanto os personagens interpretados por Ben Affleck e Henry Cavill parecem "condenados" a formar uma parceria. Os cenários por onde estes personagens circulam são relativamente bem aproveitados. Veja-se o esconderijo de Batman, onde este opera ao lado de Alfred, ou a Lexcorp, a empresa de Lex Luthor, dois espaços recheados de tecnologia moderna. Lex encontra-se imensamente interessado em travar Superman, uma figura que encara praticamente como uma divindade, desenvolvendo uma obsessão em relação ao super-herói. Jesse Eisenberg consegue transmitir os desequilíbrios emocionais deste personagem que congemina um plano complexo, prometendo causar uma enorme onda de destruição. Primeiro ao querer colocar Batman e Superman em confronto. Batman procura treinar o seu físico (Ben Affleck surge imponente como Bruce Wayne/Batman), fabricar uma armadura especial e armas com Kryptonita, enquanto Zack Snyder parece divertir-se com as maquinetas que o vigilante tem à sua disposição. Já Superman é uma figura aparentemente invencível que, ao ser colocado diante de Kryptonita, acaba por contactar de perto com os receios e medos sentidos pelos mortais. Lex chama ainda para a contenda a figura de Doomsday, algo que promete muita pancadaria e destruição. A espaços ainda existe algum humor, sobretudo na forma como Diana (ou Wonder Woman) é incluída na narrativa, com esta e Bruce Wayne a protagonizarem um peculiar jogo de sedução, tendo em vista a procurarem levar a melhor em relação ao roubo da informação que Lex Luthor conta ao seu dispor. Com um elenco coeso, um argumento que exibe um peso notório quando Zack Snyder dá tempo para a narrativa "respirar", "Batman v Superman: Dawn of Justice" a espaços perde-se diante dos devaneios do cineasta, com este a parecer delirar com as cenas de acção de longa duração, algo que nem sempre resulta, embora o resultado final seja bem superior a "Man of Steel".

Título original: "Batman v Superman: Dawn of Justice".
Título em Portugal: "Batman v Super-Homem: O Despertar da Justiça".
Título no Brasil: "Batman vs Superman: A Origem da Justiça".
Realizador: Zack Snyder.
Argumento: Chris Terrio e David S. Goyer.
Elenco: Ben Affleck, Henry Cavill, Amy Adams, Jesse Eisenberg, Jeremy Irons, Gal Gadot, Diane Lane, Laurence Fishburne.

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