10 março 2016

Nona edição do 8½ Festa do Cinema Italiano - Breve texto sobre a programação

 Heterogénea, promissora, pronta a trazer uma amostra alargada das produções cinematográficas italianas recentes e evocar a memória de alguns clássicos de outrora (sejam estes de um passado mais recente como "La vita è bella", ou mais distante como a obra-prima "8½"), a programação da nona edição do 8½ Festa do Cinema Italiano promete aquilo que esperamos deste certame: descobertas agradáveis, criar novas memórias cinéfilas, reencontrar velhas paixões cinematográficas, para além de possíveis desilusões impossíveis de evitar. Se o filme que empresta o nome ao certame continua a manter um valor inolvidável ao longo do tempo, parecendo melhorar a cada visualização, também o 8½ Festa do Cinema Italiano tem vindo a crescer de ano para ano. Mais espectadores, uma presença notória em mais cidades e a entrada no Cinema UCI - El Corte Inglés, sempre com o foco no essencial: dar a conhecer o cinema italiano. É verdade que alguns dos filmes contam com distribuição em sala, mas aquilo que nos chega em circuito comercial é sempre uma pequena amostra de um país com uma produção cinematográfica riquíssima e heterogénea. Essa diversidade ajuda a explicar as dicotomias entre o filme de abertura e a obra cinematográfica de encerramento. A escolha para o filme de abertura é "Il racconto dei racconti", uma obra cinematográfica realizada por Matteo Garrone, que surge como uma proposta ambiciosa, estimulante e envolvente, dotada de elevados valores de produção, um elenco talentoso e uma narrativa pontuada por três histórias inspiradas livremente em contos do livro "Lo cunto de li cunti" de Giambattista Basile. "Il racconto dei racconti" vai ser exibido no Cinema São Jorge, na Sala Manoel de Oliveira, no dia 30 de Março, às 21:30. Por sua vez, o filme de encerramento é a comédia "Quo vado?", realizada por Gennaro Nunziante. É uma oportunidade para aferir as razões do sucesso alcançado por Quo vado?", bem como para contactar com uma comédia de um país que contou (e conta) com grandes especialistas no género.

"Quo Vado?" e "Il racconti dei racconti" fazem parte da secção "Panorama" do 8½ Festa do Cinema Italiano. Esta secção conta com diversas obras cinematográficas recentes, entre as quais, "Suburra" (de Stefano Sollima); "A Bigger Splash" (em Portugal - "Mergulho Profundo", de Luca Guadagnino); "Per amoro vostro" (em Portugal - "Anna", de Giuseppe Gaudino); "Alaska" (de Claudio Cupellini); "Il nome del figlio" (Francesca Archibughi); "Latin Lover" (de Cristina Comencini); "Lea" (de Marco Tullio Giordana), "Ma che bella sorpresa" (de Alessandro Genovesi); "Nessuno si salva da solo" (de Sergio Castellitto), "Non essere cattivo" (de Claudio Caligari); "Sangue del Mio Sangue" (de Marco Bellocchio). Para além dos destaques óbvios dos filmes de abertura e encerramento, vale a pena realçar o recomendável "Suburra", a segunda longa-metragem realizada por Stefano Sollima. Inspirado no livro homónimo de Carlo Bonini e Giancarlo De Cataldo, "Suburra" transporta-nos para o interior de sete dias caóticos e marcantes de diversos personagens que habitam um espaço urbano pontuado pelo crime, imoralidade, violência e disputas de poder, enquanto Stefano Sollima consegue mexer nas peças que tem à disposição com enorme eficácia e inspiração. Outro dos destaques é "Sangue del Mio Sangue", o novo filme de Marco Bellocchio, uma obra cinematográfica que conta com presenças em certames como o Festival de Veneza e o Festival de Toronto. Tal como "Il racconto dei racconti", também "A Bigger Splash" reúne um elenco internacional de peso, contando com nomes como Ralph Fiennes e Tilda Swinton. O elenco é um dos destaques de "Nessuno si salva da solo", um filme protagonizado por Riccardo Scamarcio e a nossa mui adorada Jasmine Trinca. Vale a pena realçar que Sergio Castellitto, o realizador de "Nessuno si salva da solo" vai estar presente ao vivo e a cores na nona edição do 8½. Por fim, mas não menos importante, outra das obras cinematográficas que parecem merecer toda a nossa atenção é "Non essere cattivo", o último filme de Claudio Caligari, tendo sido apresentado no Festival de Veneza e seleccionado como o candidato italiano aos Oscars.

 Se "Non essere cattivo" não chegou a integrar a lista final de nomeados para Melhor Filme Estrangeiro ou em Língua Estrangeira, já "8½", uma das obras-primas de Federico Fellini e da História do Cinema, conquistou a vitória nessa categoria na trigésima sexta edição dos Oscars. A exibição da nova cópia restaurada de "8½" é, muito provavelmente, o grande evento dentro deste evento que é a Festa do Cinema Italiano. Diga-se que a exibição da nova cópia restaurada do filme ao qual o festival deve o nome abre ainda as portas do cinema UCI à dinâmica de festivais de cinema. A exibição de "8½", a 31 de Março, será acompanhada pela exposição “8½: A Viagem de Fellini”, que reúne fotos de cena do filme 8 ½, da autoria de Gideon Bachmann, em colaboração com Cinemazero, FNAC, UCI e o Instituto Italiano de Cultura de Lisboa. A exibição de "8½" surge integrada na secção Amarcord, uma das mais apreciadas por este blogger. Como não poderia deixar de ser, a secção Amarcord conta com uma homenagem/mini-retrospectiva. Este ano não é diferente, com o escolhido a ser Ettore Scola. O festival vai contar com filmes realizados pelo cineasta, bem como algumas obras cinematográficas nas quais este trabalhou como argumentista (para além de ser exibido o documentário "Ridendo e scherzando: Ritratto di un regista all'italiana", realizado por Paola e Silvia Scola). A homenagem conta com os seguintes filmes (títulos em Português): "Feios, Porcos e Maus" (de Ettore Scola); "O Terraço" (de Ettore Scola); "Tão Amigos que nós éramos" (de Ettore Scola); "A Família" (de Ettore Scola); "O Baile" (de Ettore Scola); "Um Italiano em Angola" (Ettore Scola); "Os Monstros" (Dino Risi); "Aquele que sabe viver" ("Il sorpasso", um filme magnífico de Dino Risi); "Conheço bem essa moça" (de Antonio Pietrangeli). A secção Amarcord conta ainda com a exibição de "La vita è bella" de Roberto Benigni, bem como do documentário "Marcello Mastroianni: mi ricordo, sì, io mi ricordo".

 Dos clássicos do cinema italiano passamos novamente para a actualidade, em particular, para a secção Competitiva do 8½. A secção competitiva traz mais uma amostra de obras cinematográficas italianas recentes, contando com os seguintes exemplares: "Arianna" (de Carlo Lavagna); "Asino Vola" de Marcello Fonte e Paolo Tropidi); "Banana" (de Andrea Jublin); "L'attesa" (de Piero Messina), "Lo chiamavano Jeeg Robot" (de Gabriele Mainetti), "Pecore in Erba" (de Alberto Caviglia). Um dos destaques desta secção é "L'attesa", uma co-produção entre França e Itália, que conta com Juliette Binoche como protagonista. A distribuição em Portugal já está garantida pela Alambique Filmes. Segundo a informação disponibilizada no dossier de imprensa, "L'attesa" apresenta "(...) um diálogo íntimo entre duas mulheres que aprendem a conhecer-se partilhando a mesma ausência (...)". Outro dos destaques é aquele já atingiu o estatuto de filme de culto em Itália: "Lo chiamavano Jeeg Robot", uma obra cinematográfica que mistura o cinema de género italiano com a banda desenhada japonesa. Vale ainda a pena realçar "Banana", descrito como um "filme de traço agridoce", centrado num  rapazinho “feio, gordo, anão e maluco” chamado Banana por causa das suas pobres qualidades como futebolista. A programação do festival não termina por aqui. Veja-se o caso das sessões especiais, onde consta "Estrada 47" de Vicente Ferraz, uma co-produção entre Portugal, Brasil e Itália, ou obras cinematográficas como "Mediterranea" de Jonas Carpignano, que estreou na Semana da Crítica do Festival de Cannes e foi finalista do Prémio Lux de Cinema Europeu 2015. Carpignano permite ainda efectuar uma ligação entre a secção dedicada a Sessões Especiais e Il Corto, o espaço dedicado às curtas-metragens. A secção "Il Corto" conta com curtas-metragens como "A Cimbra" (de Jonas Carpignano); "SK - Sonderkomando" (de Nicola Ragione); "E.T.E.R.N.I.T." (de Giovanni Aloi); "Pastorale Cilentana" (de Mario Martone); "Belissima" (de Alessandro Capitani).

É praticamente impossível acompanhar tudo aquilo que o 8½ Festa do Cinema Italiano propõe, embora a tentação seja grande, sobretudo na secção Amarcord e Panorama. Diga-se que o festival conta ainda com mais secções e uma série de eventos paralelos que podem ser consultados no site do certame (http://www.festadocinemaitaliano.com/) ou no seguinte documento (http://www.festadocinemaitaliano.com/files/FCI_Dossie_de_Imprensa_Final_2016.pdf). A programação foi apresentada a nove de Março, no cinema UCI - El Corte Inglés, tendo contado com a antestreia de "Maraviglioso Boccaccio", um simpático pontapé de saída para aquela que esperamos ser mais uma boa edição deste evento. A nona edição do 8½ Festa do Cinema Italiano decorre em Lisboa entre os dias 30 de Março e 7 de Abril. A Festa do Cinema Italiano segue posteriormente para outras cidades (tais como Porto, Coimbra, Almada, entre outras) e países lusófonos (Brasil, Moçambique, Angola).

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