27 fevereiro 2016

Resenha Crítica: "Vicky Cristina Barcelona" (2008)

Obra cinematográfica pontuada por ritmos e sentimentos quentes, interpretações de bom nível e um aproveitamento assertivo dos cenários, "Vicky Cristina Barcelona" transporta o espectador para o interior das férias de Verão de Vicky (Rebecca Hall) e Cristina (Scarlett Johansson), duas amigas que viajam até Barcelona. O narrador é essencial para ficarmos a conhecer diversos pormenores sobre a dupla de protagonistas e agilizar esta narrativa inebriante e envolvente, enquanto Woody Allen volta a colocar o espectador diante de temáticas e elementos que são transversais a diversas obras cinematográficas que realizou ao longo da sua carreira. Não falta o desejo e as frustrações de cariz sexual, um divórcio que deixou marca num dos personagens principais, as figuras femininas de características distintas e marcantes, a banda sonora a "rimar" com a narrativa, a utilização de um narrador que "comunique" com o espectador, a capacidade de Woody Allen em extrair boas interpretações dos intérpretes, entre outros elementos. "Vicky Cristina Barcelona" insere-se no périplo recente que este talentoso cineasta efectuou pela Europa, tendo realizado obras cinematográficas em Inglaterra ("Match Point", "Scoop", "Cassandra's Dream"), França ("Midnight in Paris") e Itália ("To Rome With Love"), com o filme que se encontra a ser alvo desta resenha a ter sido filmado em Barcelona, Avilés e Oviedo. O cineasta sabe tirar partido dos cenários, dos seus espaços históricos, das suas ruas mais pitorescas, para além de conseguir captar os seus ritmos, algo que também se parece dever à colaboração com Javier Aguirresarobe, um director de fotografia basco, que viria a trabalhar com Woody Allen em "Blue Jasmine". A própria banda sonora contribui e muito para os sentimentos quentes que envolvem a narrativa, em particular a canção "Barcelona" de Giulia y Los Tellarini, enquanto que a viagem de Vicky e Cristina à capital da Catalunha é pontuada por episódios que prometem marcar as vidas destas mulheres. Cristina é loira e sedutora, indecisa, impulsiva e incapaz de se envolver num relacionamento amoroso duradoiro. A personagem interpretada por Scarlett Johansson procura explorar as possibilidades proporcionadas pelo destino, embora não pareça encontrar algo que a satisfaça a longo prazo, ou um rumo para a sua carreira profissional, decidindo iniciar um novo hobbie nesta viagem a Barcelona, em particular, aprender a tirar fotografias. Vicky e Cristina ficam instaladas na casa de Judy (Patricia Clarkson) e Mark (Kevin Dunn), um casal que pertence à família da primeira e mantém uma relação aparentemente sólida. Vicky é morena e apresenta uma personalidade mais reservada do que Cristina, encontrando-se a aproveitar a viagem para consolidar os conhecimentos para os estudos que se encontra a efectuar sobre "Identidade Catalã", para o mestrado, sendo apaixonada pela arquitectura de Gaudí. A personagem interpretada por Rebecca Hall encontra-se noiva de Doug (Chris Messina), um indivíduo (demasiado) certinho, que ama Vicky, embora esta comece a colocar em dúvida os sentimentos que nutre em relação ao mesmo a partir do momento em que conhece Juan Antonio (Javier Bardem), um pintor que se apaixona com enorme facilidade.

 A primeira vez que Juan Antonio dialoga com Vicky e Cristina é num restaurante, após estas terem visto o pintor numa exposição de arte, onde Judy revelara que o personagem interpretado por Javier Bardem protagonizara um divórcio problemático com María Elena (Penélope Cruz), uma pintora. Os rumores sobre o divórcio são mais do que muitos, com uns a afirmarem que Juan Antonio agredia a esposa, enquanto outros salientam que María Elena procurou assassinar o pintor. O que é certo ao longo do filme é que María Elena e Juan Antonio viveram e vivem uma relação sentimental explosiva, onde parece existir paixão em excesso, sentimentos sempre prontos a serem expressos, embora falte o equilíbrio necessário para que consigam conviver de forma harmoniosa. Juan Antonio é um artista bem falante, que seduz as mulheres com facilidade e apresenta uma visão muito própria do amor e do mundo que o rodeia. Este convida Vicky e Cristina para visitarem Oviedo, num fim de semana, tendo em vista a observarem uma escultura que o inspira muito, comerem, beberem e fazerem amor. O próprio guarda-roupa utilizado inicialmente pelo personagem interpretado por Javier Bardem remete para a personalidade impulsiva do mesmo, com este a encontrar-se com uma camisa vermelha, uma tonalidade indicadora dos sentimentos quentes que se preparam para ser vividos por estas figuras. Vicky fica escandalizada com a proposta. Cristina fica intrigada, parecendo sempre mais aberta em relação aos avanços do protagonista. Em Oviedo, conhecemos um pouco mais sobre Juan Antonio, mas também sobre estas duas mulheres, com Vicky a ceder aos avanços do pintor, quando Cristina teve de ficar de cama devido a padecer de uma úlcera. Woody Allen capta o jogo de sedução entre Juan Antonio e Vicky de forma sublime, com o affair a deixar marca nesta mulher que começa a duvidar da relação com o noivo. Por sua vez, Mark decide viajar até Barcelona para casar com Vicky, com a relação entre ambos a ser marcada por uma segurança e palidez que contrasta com os momentos apimentados em Oviedo, onde a personagem interpretada por Rebecca Hall pareceu deparar-se com algo que mexeu com os seus sentimentos. Juan Antonio inicia posteriormente uma relação com Cristina, uma mulher que parece apresentar uma personalidade que combina mais consigo do que Vicky, embora María Elena ainda se junte ao ramalhete e prometa agitar o quotidiano dos protagonistas. A personagem interpretada por Penélope Cruz é explosiva, intensa e marcante, com a actriz a conseguir transformar esta mulher num autêntico furacão que não deixa ninguém indiferente, incluindo Cristina. María Elena desconfia de Cristina embora, aos poucos, comece a formar amizade com a mesma, gerando-se um estranho triângulo amoroso que parece funcionar demasiado bem para durar demasiado tempo. Veja-se quando o trio se encontra na sala de revelação das fotografias, com Woody Allen a fazer uso, mais uma vez, da tonalidade vermelha, num momento de enorme sensualidade e sedução entre os personagens interpretados por Scarlett Johansson, Penélope Cruz e Javier Bardem.

A relação aberta entre Cristina, Juan Antonio e María Elena choca de frente com os valores conservadores de Mark, embora estimule ainda mais a mente de Vicky. Esta ama o esposo mas deseja Juan Antonio, com o pintor a ter deixado marca na protagonista. Os espaços e a temperatura quente da Catalunha parecem contribuir para estes estados de espírito e relações, enquanto Woody Allen volta a abordar temáticas como as traições, o desejo e as frustrações de cariz sexual, ao mesmo tempo que explora as dinâmicas entre os elementos do elenco principal. O argumento de Woody Allen contribui para atribuir dimensão às personagens, embora as interpretações de Scarlett Johansson, Penélope Cruz, Javier Bardem e Rebecca Hall ajudem e muito a elevar um filme que gosta de surpreender o espectador em relação às opções tomadas pelos protagonistas. Scarlett Johansson interpreta uma figura sensual, algo naïve e pronta a efectuar novas descobertas, enquanto Rebecca Hall consegue exibir a procura de Vicky em manter o equilíbrio e reprimir as emoções que ameaçam tomar conta do seu corpo e da sua alma. Vicky tenta desfrutar dos prazeres deste território, parecendo hipnotizada quando alguém se encontra a tocar guitarra espanhola. Cristina procura encontrar-se a si própria, protagonizando uma série de episódios marcantes com Juan Antonio e María Elena. Penélope Cruz dá vida a um vulcão sempre pronto a explodir, enquanto Javier Bardem tem a tarefa "complicada" de interpretar um indivíduo que se envolve com estas mulheres, ainda que em níveis distintos. Diga-se que María Elena e Juan Antonio sobressaem acima de todos, formando um casal de pintores sempre pronto a discutir, amar e pintar, enquanto Woody Allen parece divertir-se a jogar com as emoções dos personagens e dos espectadores. Woody Allen explora com sucesso e inspiração esta miríade de relações intrincadas. O desejo que nasce e se desfaz, o amor que parece durar para sempre e se esvai num lampejo, as inseguranças e as discussões. Aos poucos somos inebriados para o interior deste universo narrativo marcado por jogos de sedução, traições e paixões, arte e sentimento, onde um conjunto de personagens vive uma série de episódios marcantes. É um Verão que promete marcar as vidas destas figuras que povoam a narrativa de "Vicky Cristina Barcelona", com Woody Allen a mesclar elementos de comédia, drama e romance, enquanto transporta diversas temáticas transversais às suas obras cinematográficas para o território de Barcelona. No final, Woody Allen cria mais um filme recheado de figuras marcantes, extrai interpretações de bom nível do elenco principal, aborda temáticas relacionadas com os relacionamentos humanos e explora os espaços por onde se encontrou a filmar, criando uma obra cinematográfica que, mais do que promover a cidade do título, exibe as qualidades de um cineasta e argumentista de grande valor.

Título original: "Vicky Cristina Barcelona".
Realizador: Woody Allen.
Argumento: Woody Allen.
Elenco: Javier Bardem, Penélope Cruz, Scarlett Johansson, Rebecca Hall, Patricia Clarkson, Kevin Dunn, Chris Messina.

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