"Valley of Love" desafia as nossas expectativas e as
nossas crenças. A espaços testa a nossa paciência devido às suas
redundâncias e à personalidade nem sempre agradável de Gérard
(Gérard Depardieu) e Isabelle (Isabelle Huppert), a dupla de
protagonistas. No final, "Valley of Love" desperta a
estranha sensação de nos termos perdido pelo deserto do Death
Valley (Vale da Morte), um local que tanto tem de inóspito como de
desafiador, belo e monumental. Gérard e Isabelle encontram-se separados há vários anos, reunindo-se neste espaço da Califórnia a pedido do falecido filho. Aos poucos, Gérard e Isabelle exibem as suas
fragilidades, aquilo que os une e os separa, enquanto Guillaume
Nicloux realiza uma obra onde o pragmatismo e o misticismo parecem
andar lado a lado. A aridez do deserto do Death Valley, os seus
espaços montanhosos, o enorme calor e o misticismo surgem como
elementos transversais a diversos momentos de "Valley of Love",
uma obra cinematográfica que reúne Gérard Depardieu e Isabelle
Huppert, cerca de trinta anos depois de terem protagonizado "Loulou".
Depardieu e Huppert interpretam um casal de actores que se divorciara
há longos anos, que se reúne seis meses após a morte do filho,
tendo em vista a cumprir um desejo que o falecido expressara antes de
se suicidar. Gérard e Isabelle parecem ter cometido diversos erros
ao longo da vida, com as marcas da passagem do tempo a fazerem-se
sentir no corpo e na alma de ambos os personagens. Isabelle passa boa
parte do tempo a procurar falar ao telemóvel, penitencia-se por
pouco saber da filha e ter descurado o contacto com o falecido filho,
tendo outrora abandonado Gérard. Mais tarde descobrimos que Isabelle
vai divorciar-se do esposo, um advogado, com a personagem
interpretada por Huppert a surgir como uma figura de trato nem sempre
fácil, que se encontra claramente abalada pela morte do filho.
Gérard também não consegue manter relações afectivas sólidas,
padecendo de cancro na bexiga, embora continue a levar um estilo de
vida pouco recomendável, pontuado pelo consumo de tabaco e álcool em excesso. Ambos
reúnem-se no local devido ao facto de Michael, o filho da dupla de
protagonistas, ter enviado uma carta para cada um, com as missivas a
surgirem acompanhadas de um cronograma estabelecido e a estranha
promessa de que se voltariam a reunir por breves momentos no Vale da
Morte. Estes têm de se deslocar a sete locais distintos do Vale da
Morte, em diferentes períodos do dia, com este território a ser
exibido muitas das vezes em planos bem abertos que permitem expor a
grandiosidade do mesmo. Gérard apresenta algum cepticismo em relação
a esta ideia, embora essas dúvidas não o impeçam de se deslocar
até ao Vale da Morte. Isabelle acredita que vai reencontrar o filho,
encarando este "contrato" enviado pelo rebento como uma
última oportunidade para voltar a ver o mesmo e procurar alguma
redenção. Ela apresenta um sentimento de culpa notório por se ter
afastado durante largos anos do filho. Ele também pouco contactara
com Michael nos últimos anos. A mágoa de ambos os protagonistas
parece latente, com Gérard Depardieu e Isabelle Huppert a elevarem
estas figuras que tanto se odeiam como parecem não conseguir passar
um sem o outro. Depardieu sobressai com a sua presença física e
enorme carisma, com o actor a exprimir o carácter nem sempre
simpático do personagem que interpreta, uma figura que se queixa de
forma amiúde do calor, pretendendo inicialmente abandonar os planos
antes de tempo.
Isabelle Huppert destaca-se pela mescla de altivez e fragilidade
que incute à personagem que partilha o primeiro nome consigo. Gérard
e Isabelle ficam instalados num espaço hoteleiro nas imediações do
Vale da Morte, com este território desértico e montanhoso a surgir
praticamente como o terceiro protagonista de "Valley of Love",
com Guillaume Nicloux a incutir uma atmosfera misteriosa e mística a
este local. A cinematografia exacerba o calor que assola o
território, com a luz do Sol a embater de forma notória nos espaços
do Vale da Morte, enquanto o guarda-roupa dos personagens, pontuado
por vestes leves, remete para o facto da temperatura ser bastante
elevada. Diga-se que não são raras as vezes em que encontramos
os personagens a queixarem-se do calor, com Guillaume Nicloux a parecer
temer que o espectador não perceba à primeira que este espaço é
algo abrasivo, com a temperatura a contribuir para o
fervilhar dos sentimentos das figuras que pontuam a narrativa. O Vale
da Morte surge como um espaço simultaneamente inóspito, belo e
místico, com Gérard e Isabelle a esperarem entrar em contacto com o falecido
filho neste local, com o rebento a ter dado o prazo de uma semana
para aparecer diante dos progenitores. Gérard apenas quer virar esta
página da sua vida, embora pareça começar a acreditar, ainda que gradualmente,
em algo de transcendente. Isabelle procura cumprir o desejo do filho
ao mesmo tempo que (re)começa a exibir uma maior dinâmica com o
antigo marido, ou estes não fossem duas figuras marcadas pelo
sentimento de culpa e diversos erros cometidos no passado. A dinâmica
entre Gérard Depardieu e Isabelle Huppert eleva e muito "Valley
of Love", com Guillaume Nicloux a saber aproveitar o talento e
carisma da dupla, deixando-a brilhar quer nos momentos mais
dramáticos, quer nas situações mais desagradáveis, quer nos trechos mais leves. O humor é raro, ou não chegou totalmente a esta pessoa,
embora esteja presente em alguns momentos. Veja-se quando um
indivíduo reconhece o protagonista mas não sabe o seu nome, pedindo
para que o actor autografe o livro. Gérard assina o autógrafo como
"Bob De Niro", algo que promete gerar um mal-entendido.
Temos ainda momentos como o personagem interpretado por Depardieu a
atirar pão para os animais no espaço do deserto, algo que irrita a
protagonista devido a considerar que o ex-marido está a mexer com o
ecossistema. Gérard é uma figura que parece partilhar um pouco a
personalidade do seu intérprete (o facto de personagens e intérpretes partilharem os mesmos nomes e a mesma profissão contribui para esses paralelismos), com o protagonista a surgir como um
actor que se está a lixar para aquilo que os outros pensam
sobre a sua pessoa, não tendo problemas em assumir que está gordo e
vive de forma pouco saudável. Não são poucos os momentos onde
encontramos Gérard em tronco nu, pronto a queixar-se do calor e a
exibir a sua larga barriga "à Obélix", com o actor a
expor o seu físico anafado, enquanto demonstra algumas das suas
qualidades para a representação e eleva o personagem que
interpreta. Os gestos e falas de Gérard nem sempre são os mais
delicados, embora isso não o impeça de a espaços exibir um lado
mais frágil e vulnerável, algo latente durante o desenrolar da
narrativa, sobretudo quando parece voltar a ganhar um maior à
vontade com Isabelle e se depara com episódios que desafiam a razão.
Se o momento em que Gérard assina um autógrafo como "Bob De
Niro" tem o condão de despertar um largo sorriso no espectador,
já a cena em que o protagonista surge no último terço num estado
de enorme nervosismo, após uma experiência aparentemente
sobrenatural, exibe mais uma vez a capacidade de Depardieu em
atribuir uma credibilidade notável às diferentes situações em que
o personagem que interpreta se envolve ao longo de "Valley of Love".
Gérard Depardieu e Isabelle Huppert são as pedras de toque do
filme, com o argumento de Guillaume Nicloux a nunca conseguir incutir
figuras secundárias que sobressaiam verdadeiramente ao longo da
narrativa. É certo que ainda temos um casal que procura conversar
com os protagonistas, em particular o indivíduo que pediu o
autógrafo a Gérard e a esposa do mesmo, embora Guillaume Nicloux
descarte-se rapidamente dos mesmos. A esposa do indivíduo ainda
tenta meter conversa com Isabelle, embora a actriz pareça ter pouca
paciência para diálogos de circunstância. Huppert tanto sobressai
nos momentos de maior calmaria como a expor alguma da histeria da
personagem que interpreta, com a actriz a protagonizar alguns
momentos dignos de atenção ao lado de Depardieu. Veja-se quando
Gérard lê a carta que Michael escreveu à progenitora, ou os
momentos em que Isabelle desata num choro compulsivo ao ler a missiva
enviada para o primeiro. Gérard e Isabelle parecem inicialmente algo
distantes, com ambos a exibirem que já não se encontravam há longos anos.
Esta situação muda com o avançar do enredo, com Gérard e Isabelle
a começarem a abrir um pouco mais o jogo em relação às suas vidas
no presente e a assumirem alguns erros do passado, enquanto alguns
estranhos episódios prometem marcar o seu quotidiano nesta jornada
iniciada a pedido do falecido filho. "Valley of Love"
aborda temáticas como a perda de um filho, questiona o afastamento
entre progenitores e rebentos, exibe a complexidade dos
relacionamentos e sentimentos humanos, a irracionalidade inerente ao
sentimento de perda, os casamentos falhados, com os silêncios entre
os protagonistas a serem mais do que muitos mas também as falas
trocadas. O argumento, pese algumas redundâncias, apresenta alguns diálogos
bem construidos que ganham outra dimensão com intérpretes como
Gérard Depardieu e Isabelle Huppert. Depardieu interpreta uma
figura que surge praticamente como um ogre brusco, que apenas quer
seguir em frente com a vida, embora comece gradualmente a acreditar
em algo de transcendente, com dois beijos trocados com a ex-mulher a
indicarem que ainda sente algo pela mesma. Gérard parece apresentar
a espaços alguma fragilidade emocional, com Depardieu a exibir isso
mesmo, bem como as dificuldades do personagem que interpreta em
locomover-se, ou aguentar o calor. Huppert concede alguma elegância
a Isabelle, com Guillaume Nicloux a saber aproveitar o facto de
contar com uma dupla de grande talento como protagonistas, tendo em
vista a elevar esta obra cinematográfica. O enredo desenrola-se
maioritariamente entre as imediações do Vale da Morte, o carro do
protagonista (a espaços “Valley of Love” ganha características
de road movie) e o espaço do hotel onde Isabelle e Gérard se encontram instalados, com
"Valley of Love" a mesclar uma atmosfera que tanto tem de
real como de surreal, onde uma estranha figura pode surgir durante a
noite ou uma aparição deixar um elemento em pranto. A espaços
questionamos se os protagonistas acreditam mesmo na possibilidade de
reencontrarem o filho. Os próprios parecem apresentar algumas
dúvidas, mas o sentimento de perda parece toldar a racionalidade e
aumentar a crença em algo de transcendente. No final, Guillaume
Nicloux não nos oferece certezas ou conclusões peremptórias, pede
apenas que acreditemos nos seus protagonistas, com os próprios a
parecerem ter imensas dúvidas. "Valley of Love" mantém durante um
largo tempo as nossas duvidas em relação ao possível regresso de
Michael, enquanto aborda temáticas como a perda de um ente querido,
as relações sentimentais que falham, explora a dinâmica assertiva
entre Gérard Depardieu e Isabelle Huppert, utiliza o espaço do
deserto com alguma inspiração, com a dupla de protagonistas a
ajudar a elevar esta obra cinematográfica realizada por
Guillaume Nicloux.
Título original: "Valley of Love".
Realizador: Guillaume Nicloux.
Argumento: Guillaume Nicloux.
Elenco: Gérard Depardieu, Isabelle Huppert.

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