25 fevereiro 2016

Resenha Crítica: "Valley of Love" (2015)

 "Valley of Love" desafia as nossas expectativas e as nossas crenças. A espaços testa a nossa paciência devido às suas redundâncias e à personalidade nem sempre agradável de Gérard (Gérard Depardieu) e Isabelle (Isabelle Huppert), a dupla de protagonistas. No final, "Valley of Love" desperta a estranha sensação de nos termos perdido pelo deserto do Death Valley (Vale da Morte), um local que tanto tem de inóspito como de desafiador, belo e monumental. Gérard e Isabelle encontram-se separados há vários anos, reunindo-se neste espaço da Califórnia a pedido do falecido filho. Aos poucos, Gérard e Isabelle exibem as suas fragilidades, aquilo que os une e os separa, enquanto Guillaume Nicloux realiza uma obra onde o pragmatismo e o misticismo parecem andar lado a lado. A aridez do deserto do Death Valley, os seus espaços montanhosos, o enorme calor e o misticismo surgem como elementos transversais a diversos momentos de "Valley of Love", uma obra cinematográfica que reúne Gérard Depardieu e Isabelle Huppert, cerca de trinta anos depois de terem protagonizado "Loulou". Depardieu e Huppert interpretam um casal de actores que se divorciara há longos anos, que se reúne seis meses após a morte do filho, tendo em vista a cumprir um desejo que o falecido expressara antes de se suicidar. Gérard e Isabelle parecem ter cometido diversos erros ao longo da vida, com as marcas da passagem do tempo a fazerem-se sentir no corpo e na alma de ambos os personagens. Isabelle passa boa parte do tempo a procurar falar ao telemóvel, penitencia-se por pouco saber da filha e ter descurado o contacto com o falecido filho, tendo outrora abandonado Gérard. Mais tarde descobrimos que Isabelle vai divorciar-se do esposo, um advogado, com a personagem interpretada por Huppert a surgir como uma figura de trato nem sempre fácil, que se encontra claramente abalada pela morte do filho. Gérard também não consegue manter relações afectivas sólidas, padecendo de cancro na bexiga, embora continue a levar um estilo de vida pouco recomendável, pontuado pelo consumo de tabaco e álcool em excesso. Ambos reúnem-se no local devido ao facto de Michael, o filho da dupla de protagonistas, ter enviado uma carta para cada um, com as missivas a surgirem acompanhadas de um cronograma estabelecido e a estranha promessa de que se voltariam a reunir por breves momentos no Vale da Morte. Estes têm de se deslocar a sete locais distintos do Vale da Morte, em diferentes períodos do dia, com este território a ser exibido muitas das vezes em planos bem abertos que permitem expor a grandiosidade do mesmo. Gérard apresenta algum cepticismo em relação a esta ideia, embora essas dúvidas não o impeçam de se deslocar até ao Vale da Morte. Isabelle acredita que vai reencontrar o filho, encarando este "contrato" enviado pelo rebento como uma última oportunidade para voltar a ver o mesmo e procurar alguma redenção. Ela apresenta um sentimento de culpa notório por se ter afastado durante largos anos do filho. Ele também pouco contactara com Michael nos últimos anos. A mágoa de ambos os protagonistas parece latente, com Gérard Depardieu e Isabelle Huppert a elevarem estas figuras que tanto se odeiam como parecem não conseguir passar um sem o outro. Depardieu sobressai com a sua presença física e enorme carisma, com o actor a exprimir o carácter nem sempre simpático do personagem que interpreta, uma figura que se queixa de forma amiúde do calor, pretendendo inicialmente abandonar os planos antes de tempo.

Isabelle Huppert destaca-se pela mescla de altivez e fragilidade que incute à personagem que partilha o primeiro nome consigo. Gérard e Isabelle ficam instalados num espaço hoteleiro nas imediações do Vale da Morte, com este território desértico e montanhoso a surgir praticamente como o terceiro protagonista de "Valley of Love", com Guillaume Nicloux a incutir uma atmosfera misteriosa e mística a este local. A cinematografia exacerba o calor que assola o território, com a luz do Sol a embater de forma notória nos espaços do Vale da Morte, enquanto o guarda-roupa dos personagens, pontuado por vestes leves, remete para o facto da temperatura ser bastante elevada. Diga-se que não são raras as vezes em que encontramos os personagens a queixarem-se do calor, com Guillaume Nicloux a parecer temer que o espectador não perceba à primeira que este espaço é algo abrasivo, com a temperatura a contribuir para o fervilhar dos sentimentos das figuras que pontuam a narrativa. O Vale da Morte surge como um espaço simultaneamente inóspito, belo e místico, com Gérard e Isabelle a esperarem entrar em contacto com o falecido filho neste local, com o rebento a ter dado o prazo de uma semana para aparecer diante dos progenitores. Gérard apenas quer virar esta página da sua vida, embora pareça começar a acreditar, ainda que gradualmente, em algo de transcendente. Isabelle procura cumprir o desejo do filho ao mesmo tempo que (re)começa a exibir uma maior dinâmica com o antigo marido, ou estes não fossem duas figuras marcadas pelo sentimento de culpa e diversos erros cometidos no passado. A dinâmica entre Gérard Depardieu e Isabelle Huppert eleva e muito "Valley of Love", com Guillaume Nicloux a saber aproveitar o talento e carisma da dupla, deixando-a brilhar quer nos momentos mais dramáticos, quer nas situações mais desagradáveis, quer nos trechos mais leves. O humor é raro, ou não chegou totalmente a esta pessoa, embora esteja presente em alguns momentos. Veja-se quando um indivíduo reconhece o protagonista mas não sabe o seu nome, pedindo para que o actor autografe o livro. Gérard assina o autógrafo como "Bob De Niro", algo que promete gerar um mal-entendido. Temos ainda momentos como o personagem interpretado por Depardieu a atirar pão para os animais no espaço do deserto, algo que irrita a protagonista devido a considerar que o ex-marido está a mexer com o ecossistema. Gérard é uma figura que parece partilhar um pouco a personalidade do seu intérprete (o facto de personagens e intérpretes partilharem os mesmos nomes e a mesma profissão contribui para esses paralelismos), com o protagonista a surgir como um actor que se está a lixar para aquilo que os outros pensam sobre a sua pessoa, não tendo problemas em assumir que está gordo e vive de forma pouco saudável. Não são poucos os momentos onde encontramos Gérard em tronco nu, pronto a queixar-se do calor e a exibir a sua larga barriga "à Obélix", com o actor a expor o seu físico anafado, enquanto demonstra algumas das suas qualidades para a representação e eleva o personagem que interpreta. Os gestos e falas de Gérard nem sempre são os mais delicados, embora isso não o impeça de a espaços exibir um lado mais frágil e vulnerável, algo latente durante o desenrolar da narrativa, sobretudo quando parece voltar a ganhar um maior à vontade com Isabelle e se depara com episódios que desafiam a razão. Se o momento em que Gérard assina um autógrafo como "Bob De Niro" tem o condão de despertar um largo sorriso no espectador, já a cena em que o protagonista surge no último terço num estado de enorme nervosismo, após uma experiência aparentemente sobrenatural, exibe mais uma vez a capacidade de Depardieu em atribuir uma credibilidade notável às diferentes situações em que o personagem que interpreta se envolve ao longo de "Valley of Love".

Gérard Depardieu e Isabelle Huppert são as pedras de toque do filme, com o argumento de Guillaume Nicloux a nunca conseguir incutir figuras secundárias que sobressaiam verdadeiramente ao longo da narrativa. É certo que ainda temos um casal que procura conversar com os protagonistas, em particular o indivíduo que pediu o autógrafo a Gérard e a esposa do mesmo, embora Guillaume Nicloux descarte-se rapidamente dos mesmos. A esposa do indivíduo ainda tenta meter conversa com Isabelle, embora a actriz pareça ter pouca paciência para diálogos de circunstância. Huppert tanto sobressai nos momentos de maior calmaria como a expor alguma da histeria da personagem que interpreta, com a actriz a protagonizar alguns momentos dignos de atenção ao lado de Depardieu. Veja-se quando Gérard lê a carta que Michael escreveu à progenitora, ou os momentos em que Isabelle desata num choro compulsivo ao ler a missiva enviada para o primeiro. Gérard e Isabelle parecem inicialmente algo distantes, com ambos a exibirem que já não se encontravam há longos anos. Esta situação muda com o avançar do enredo, com Gérard e Isabelle a começarem a abrir um pouco mais o jogo em relação às suas vidas no presente e a assumirem alguns erros do passado, enquanto alguns estranhos episódios prometem marcar o seu quotidiano nesta jornada iniciada a pedido do falecido filho. "Valley of Love" aborda temáticas como a perda de um filho, questiona o afastamento entre progenitores e rebentos, exibe a complexidade dos relacionamentos e sentimentos humanos, a irracionalidade inerente ao sentimento de perda, os casamentos falhados, com os silêncios entre os protagonistas a serem mais do que muitos mas também as falas trocadas. O argumento, pese algumas redundâncias, apresenta alguns diálogos bem construidos que ganham outra dimensão com intérpretes como Gérard Depardieu e Isabelle Huppert. Depardieu interpreta uma figura que surge praticamente como um ogre brusco, que apenas quer seguir em frente com a vida, embora comece gradualmente a acreditar em algo de transcendente, com dois beijos trocados com a ex-mulher a indicarem que ainda sente algo pela mesma. Gérard parece apresentar a espaços alguma fragilidade emocional, com Depardieu a exibir isso mesmo, bem como as dificuldades do personagem que interpreta em locomover-se, ou aguentar o calor. Huppert concede alguma elegância a Isabelle, com Guillaume Nicloux a saber aproveitar o facto de contar com uma dupla de grande talento como protagonistas, tendo em vista a elevar esta obra cinematográfica. O enredo desenrola-se maioritariamente entre as imediações do Vale da Morte, o carro do protagonista (a espaços “Valley of Love” ganha características de road movie) e o espaço do hotel onde Isabelle e Gérard se encontram instalados, com "Valley of Love" a mesclar uma atmosfera que tanto tem de real como de surreal, onde uma estranha figura pode surgir durante a noite ou uma aparição deixar um elemento em pranto. A espaços questionamos se os protagonistas acreditam mesmo na possibilidade de reencontrarem o filho. Os próprios parecem apresentar algumas dúvidas, mas o sentimento de perda parece toldar a racionalidade e aumentar a crença em algo de transcendente. No final, Guillaume Nicloux não nos oferece certezas ou conclusões peremptórias, pede apenas que acreditemos nos seus protagonistas, com os próprios a parecerem ter imensas dúvidas. "Valley of Love" mantém durante um largo tempo as nossas duvidas em relação ao possível regresso de Michael, enquanto aborda temáticas como a perda de um ente querido, as relações sentimentais que falham, explora a dinâmica assertiva entre Gérard Depardieu e Isabelle Huppert, utiliza o espaço do deserto com alguma inspiração, com a dupla de protagonistas a ajudar a elevar esta obra cinematográfica realizada por Guillaume Nicloux.

Título original: "Valley of Love".
Realizador: Guillaume Nicloux.
Argumento: Guillaume Nicloux.
Elenco: Gérard Depardieu, Isabelle Huppert.

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