11 fevereiro 2016

Resenha Crítica: "Steve Jobs" (2015)

 O argumento enérgico, intenso e fervilhante de Aaron Sorkin encontra em Danny Boyle um cineasta à altura para elevá-lo e criar um filme de pendor biográfico sobre Steve Jobs que tem em Michael Fassbender um intérprete capaz de explorar a personalidade vincada, recheada de virtudes e defeitos deste génio do marketing e da tecnologia. O filme em questão é "Steve Jobs", inspirado livremente no livro homónimo de Walter Isaacson. Ao contrário daquilo que o título pode indicar, "Steve Jobs" não pretende apresentar um retrato exaustivo sobre a vida da figura do título desde o seu nascimento até à sua morte, bem pelo contrário, com Aaron Sorkin e Danny Boyle a optarem por uma estrutura dividida em três actos, qual peça de teatro onde as falas são trocadas a uma velocidade estonteante, enquanto os sentimentos inquietam-se e ficamos diante de um ser humano recheado de contradições que deixou a sua marca na História da humanidade. Michael Fassbender não procura imitar totalmente Steve Jobs, embora o trabalho de caracterização para espelhar os três tempos diferentes em que decorrem a narrativa seja competente, com o actor a criar uma figura intensa, de ideias fixas, com um ego enorme e uma capacidade magnética de atrair a atenção daqueles que o rodeiam ou simplesmente afastá-los com uma facilidade indelével. Boyle deixa o seu elenco brilhar, sem esconder que também anda por ali, sempre pronto a incutir um estilo enérgico, enquanto procura transportar para o grande ecrã um argumento que tanto tem de Aaron Sorkin. As falas são imensas, bem trabalhadas e cuidadas, os personagens compostos para terem a dimensão necessária, enquanto os diálogos são trocados a um ritmo capaz de deixar marca. Qual jogo de ténis de mesa onde a bola é lançada de um lado para o outro a enorme velocidade, ou combate de boxe em que os dois oponentes se digladiam ferozmente para efectuar um golpe que permita o Knockout, os personagens de "Steve Jobs" apresentam uma intensidade assinalável, enquanto factos e ficção se unem num filme de cariz biográfico sem problemas em tomar riscos ao invés de seguir as cartilhas mais convencionais. É certo que o final, mais açucarado do que poderíamos esperar promete não trazer consensos, nem parece "casar" bem como todo o ritmo e tom da narrativa, embora afirme a faceta de ficção de um filme que procura espelhar um certo optimismo na humanidade, ou num ser humano em particular. Primeiro estranha-se, depois é um final que se entranha, numa obra em que Danny Boyle raramente se esquece de dar espaço aos actores e actrizes, deixando-os brilhar, sempre em grande ritmo, como se tivessem de falar por este filme sobre "Steve Jobs" e outros que estarão por vir, ou um de Joshua Michael Stern que soa sempre como um parente pobre quando comparado com aquilo que Michael Fassbender e companhia trazem na manga. Fassbender está no centro de tudo. É o Steve Jobs deste "Steve Jobs", a figura central e máxima, simultaneamente fria e dotada de algumas fragilidades emocionais, com quem quase tudo e todos entram em diálogos acalorados ou ficam diante das diferentes facetas do co-fundador da Apple Inc.

 O primeiro acto decorre em 1984, algum tempo antes da apresentação do Apple Macintosh. Jobs quer que a máquina diga "Hello" no início da apresentação, algo que o conduz a protagonizar alguns momentos mais tensos com Andy Hertzfeld (Michael Stuhlbarg), um dos membros principais da equipa de desenvolvimento do Macintosh, tendo em vista a coagir o colaborador a conseguir o objectivo a tempo da apresentação, um desiderato que parece praticamente impossível. É neste período que somos ainda apresentados a figuras de enorme relevo que vão atravessar os diversos arcos da narrativa, tais como Joanna Hoffman (Kate Winslet), a responsável pelo marketing e confidente de Steve Jobs ao longo do filme, com Kate Winslet a ter uma interpretação marcada pela capacidade de explorar quer o lado mais submisso, quer a faceta mais decidida desta mulher que procura coordenar os timings das apresentações e o contacto do protagonista com a imprensa. Winslet consegue que a personagem a quem dá vida acompanhe o ritmo frenético do co-fundador da Apple, ou pelo menos o Steve Jobs de Michael Fassbender, com a dupla a ter um momento particularmente marcante no último terço, quando se encontram a sós e este condena os actos do protagonista em relação à filha. É ainda no primeiro acto que ficamos diante da representação da relação conturbada entre Steve Jobs e Chrisann Brennan (Katherine Waterston), a antiga namorada do primeiro e mãe de Lisa, a filha do co-fundador da Apple, embora este tarde em reconhecer a paternidade da jovem de cinco anos de idade. Ficamos diante do lado negro de Jobs, com Michael Fassbender a ser capaz de expressar a frieza deste indivíduo que não tem problemas em procurar descredibilizar Chrisann junto da opinião pública, mesmo que os testes de paternidade praticamente não tenham deixado dúvidas de que é o progenitor de Lisa. A jovem inicialmente não parece totalmente consciente destes problemas que a rodeiam, embora a relação entre Lisa e Steve Jobs conheça alguns contornos complexos que são abordados ao longo do filme, surgindo como uma das temáticas que acompanham os três actos de "Steve Jobs". Mais do que os discursos emotivos sobre produtos que Steve Jobs proferia com enorme engenho, o filme de Danny Boyle interessa-se pelos bastidores destes momentos, por exibir a convulsão interior deste indivíduo e o ritmo frenético da sua vida (é raro o momento em que encontramos este personagem quieto ou em silêncio). Neste primeiro acto, temos ainda alguns diálogos entre Steve Jobs com Steve Wozniak (Seth Rogen), outro dos fundadores da Apple. Wozniak pede encarecidamente para que Jobs reconheça publicamente o trabalho da equipa que contribuiu para o Apple II, algo que o protagonista recusa, com o filme a não ter problemas em exibir um lado mais implacável deste indivíduo que é capaz de ignorar alguns elementos importantes no crescimento da empresa. Seth Rogen, a tirar uma folga das comédias, é um dos elementos que consegue surpreender. O seu Steve Wozniak é alguém que parece ressentido com a falta de reconhecimento de Steve Jobs, embora continue a acompanhar alguns momentos relevantes da vida deste último, com ambos a partilharem dois dos momentos mais intensos do filme, em particular uma troca de diálogos que ocorre antes da apresentação do iMac, bem como um episódio antes da apresentação do NeXT Computer. A certa altura do segundo acto do filme, Wozniak questiona Steve Jobs: "You can't write code... you're not an engineer... you're not a designer... you can't put a hammer to a nail. I built the circuit board. The graphical interface was stolen from Xerox Parc. Jef Raskin was the leader of the Mac team before you threw him off his own project! Someone else designed the box! So how come ten times in a day, I read Steve Jobs is a genius? What do you do?", com a resposta a não se fazer esperar e a exibir a personalidade do protagonista: "I play the orchestra, and you're a good musician. You sit right there and you're the best in your row". 

 Os diálogos surgem maioritariamente trocados entre um grupo restrito de personagens, durante um período específico de tempo, quase como se estivéssemos diante de uma peça teatral onde o grande protagonista é Steve Jobs, ainda que em modo ficcional, apesar do argumento não ter problemas em envolver-se no lado mais obscuro da personalidade deste homem, embora de forma nem sempre acutilante. Cada acto corresponde ao período que antecede um lançamento importante na vida do protagonista: o Macintosh em 1984; o NeXT Computer em 1988, após o protagonista ter fundado a NeXt; o lançamento do iMac em 1998, que decorre quando Steve Jobs já regressou à Apple, enquanto os espaços onde os produtos vão ser lançados são aproveitados com algum primor. Existem algumas figuras recorrentes com quem Steve Jobs dialoga ou discute antes de cada lançamento, uma opção narrativa que dota o enredo de várias liberdades históricas e permite condensar alguns acontecimentos em trechos específicos. Entre essas figuras encontram-se Joanna Hoffman, Steve Wozniak, John Sculley (Jeff Daniels), Chrisann Brennan, Lisa e Andy Hertzfeld. Diga-se que se efectuarmos uma comparação entre factos e ficção, percebemos que Danny Boyle e Aaron Sorkin tomaram diversas opções que desvirtuam os primeiros, embora estas alterações resultem no âmbito de uma narrativa que procura criar um fresco sobre a personalidade de um indivíduo que tinha tanto de notável e genial como de problemático e egocêntrico. Outros dos diálogos marcantes ocorrem ainda entre Jobs e John Sculley (Jeff Daniels), o CEO da Apple na época em que Steve Jobs saiu da empresa, com ambos a reencontrarem-se em diferentes fases da narrativa. "Steve Jobs" é, acima de tudo, um filme de interpretações de relevo, que privilegia as dinâmicas entre os actores e actrizes, enquanto efectua um interessante estudo de personagem sobre uma figura marcante da História recente. Não é um filme que procure agradar a todos, com Danny Boyle a optar por uma estrutura tripartida que apresenta diferentes períodos da vida do personagem do título, com diversos elementos a ligarem e separarem os mesmos. A caracterização exibe o avançar do tempo, os cenários (e os seus longos corredores) são aproveitados de forma pertinente, a banda sonora apresenta tonalidades distintas em cada acto, para além de que o próprio modo como "Steve Jobs" foi filmado permite realçar essas diferenças. Veja-se que Danny Boyle e Alwin H. Küchler (director de fotografia) decidiram filmar o período que antecede cada lançamento em 16mm (Macintosh), 35mm (NeXT) e digital (iMac), uma medida que se insere de forma orgânica no interior da narrativa. A câmara acompanha os movimentos constantes do protagonista quer quando se encontra a andar pelos corredores, ou simplesmente inquieto, enquanto os flashbacks permitem explorar alguns episódios marcantes que contribuíram para os momentos que são expostos. Um desses flashbacks remete para o afastamento de Steve Jobs da Apple, com a cinematografia, a banda sonora e o estilo de Danny Boyle a fazerem-se sentir. O momento é tenso, pontuado pela presença da chuva, ângulos propositadamente seleccionados para exacerbar a inquietação que envolveu este episódio, enquanto o elenco sobressai. Michael Fassbender tem em Steve Jobs mais um papel marcante do seu (recomendável) currículo, com Danny Boyle a realizar um filme de pendor biográfico que se interessa pela figura que retrata, sendo alicerçado por um argumento de grande qualidade de Aaron Sorkin, enquanto ficamos diante de uma obra cinematográfica emocionalmente intensa e envolvente.

Título original: "Steve Jobs".
Realizador: Danny Boyle.
Argumento: Aaron Sorkin.
Elenco: Michael Fassbender, Kate Winslet, Seth Rogen, Jeff Daniels, Katherine Waterston, Michael Stuhlbarg.

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