04 fevereiro 2016

Resenha Crítica: "Somewhere" (2010)

 A alienação do ser humano diante do meio que o rodeia é uma temática transversal a diversos filmes de Sofia Coppola. "Somewhere", a quarta longa-metragem realizada por Sofia Coppola através do argumento da própria, não é diferente, com a cineasta a incutir um tom muito próprio a uma obra cinematográfica que aborda temáticas como a solidão, a relação entre um pai e a sua filha, o quotidiano de uma estrela de cinema, entre outras. Coppola tem em Stephen Dorff um actor capaz de expressar o vazio que marca o quotidiano de Johnny Marco, o protagonista, uma estrela de cinema que aparentemente tem tudo aquilo que pretende: dinheiro, sucesso profissional, a companhia regular de belas mulheres, habita num hotel de luxo, possui um Ferrari preto topo de gama, é idolatrado pelo público e desfruta regularmente de prazeres que não são acessíveis à maioria dos seres humanos. Johnny Marco é uma figura recheada de contradições, que se encontra num estado algo letárgico, embora seja bem sucedido nível profissional e financeiro. Desfruta de prazeres momentâneos, embora também conte com alguns problemas, algo notório quando parte um braço num momento em que se encontra deveras alcoolizado. O actor recebe regularmente a companhia nocturna de duas dançarinas (Kristina e Karissa Shannon) no interior do quarto do hotel onde se encontra instalado, com estas a dançarem no varão em "espectáculos" temáticos privados. Para o espectador, a situação pode parecer meio caricata, ou algo insólita. No entanto, para Johnny Marco estes momentos são tão banais que chega a adormecer numa das ocasiões em que as gémeas se encontram a dançar em roupas sugestivas. Johnny Marco encontra-se instalado no Chateau Marmont, em Los Angeles, um espaço pontuado simultaneamente por um conjunto de luxos e uma sensação de vazio, onde as estrelas têm uma oportunidade de viver como se fossem figuras anónimas. O personagem interpretado por Stephen Dorff tem de corresponder com regularidade aos compromissos relacionados com a divulgação do seu novo filme, algo que inclui participar numa sessão fotográfica com Rebecca (Michelle Monaghan), a co-protagonista, uma mulher que não o suporta. Segue-se uma sessão de perguntas e respostas com a imprensa, um evento onde Johnny Marco surge lacónico, com o quotidiano desta estrela de cinema a ser bem mais enfadonho do que poderíamos esperar. Johnny tem dinheiro. Tem sucesso profissional. No entanto, os luxos tornaram-se banais ao ponto do protagonista não conseguir desfrutar totalmente dos mesmos, com Johnny a não parecer ter a imaginação ou vontade para "dar um safanão" nas suas rotinas.

O quotidiano de Johnny muda com a entrada em cena de Cleo (Elle Fanning), a sua filha, uma jovem de onze anos de idade. Basta uma simples diálogo para percebermos que Cleo e Johnny não convivem regularmente, apesar de ser notório que a relação entre ambos não é marcada por problemas. O momento enunciado surge quando Johnny questiona a filha em relação à data em que esta começou a praticar patinagem no gelo, com a jovem a responder num tom que mescla desilusão e compreensão: "Pratico há 3 anos". Percebemos que Johnny pouco sabe sobre os pequenos pormenores da vida de Cleo, algo que promete ser problemático quando Layla (Lala Sloatman), a ex-mulher do protagonista e mãe da jovem, decide viajar por tempo indeterminado e deixa a personagem interpretada por Elle Fanning ao cargo do actor. É o momento em que este tem de assumir responsabilidades como pai, uma situação para a qual não parecia estar totalmente preparado. Johnny Marco nem sempre parece ter a palavra certa para dizer à filha (veja-se quando esta chora por não saber quando a mãe regressa e pelo facto do progenitor se encontrar constantemente a viajar, com o protagonista a não saber encontrar uma palavra de conforto), com os momentos de silêncio entre ambos a serem mais do que muitos, embora pareçam compreender-se mutuamente. Cleo parece habituada ao estilo de vida do pai e aos luxos, sendo capaz de se desenrascar com enorme facilidade quer seja a jogar Guitar Hero, a nadar, a patinar no gelo, ou a efectuar uma refeição. Elle Fanning consegue transmitir a delicadeza desta jovem mas também a sua maturidade e desenvoltura, embora as dúvidas assolem regularmente a alma de Cleo. Diga-se que Cleo aguarda a chegada do dia em que vai ser transportada para Belmont, tendo em vista a participar num acampamento onde vai passar parte das suas férias. Esta ainda não sabe se vai habitar com o pai ou com a mãe, com a data do regresso desta última a ser incerta, algo que preocupa Cleo e Johnny. Durante este período de tempo em que vivem juntos, Johnny e Cleo reforçam os laços que pareciam esbatidos devido ao pouco convívio entre ambos, com o primeiro a parecer ter finalmente a noção das responsabilidades inerentes à paternidade. Sofia Coppola explora de forma minimalista mas certeira o quotidiano deste indivíduo que aos poucos conquista a nossa simpatia. Os momentos em que Johnny Marco se encontra reunido com a filha parecem de genuína felicidade, apesar de um ou outro trecho mais dramático, com Stephen Dorff e Elle Fanning a convencerem o espectador dos sentimentos expressos pela dupla. Veja-se quando viajam para Itália, onde Johnny tem de promover o seu novo filme, tendo de dar algumas entrevistas de circunstância e participar num programa televisivo, com a filha a encarar com alguma normalidade todo o aparato que envolve a presença do actor. Dorff convence como este actor que pratica um estilo de vida completamente desregulado e errático, que fuma e bebe muito, é solitário apesar de viver rodeado de pessoas, tendo em Sammy (Chris Pontius), um dos poucos amigos que o visita com regularidade.

O hotel onde o protagonista habita surge como um espaço que tanto tem de luxuoso como de vazio e impessoal, com Johnny a não parecer planear assentar a sua vida, pelo menos até à chegada de Cleo, com Sofia Coppola a abordar temáticas relacionadas com a alienação do ser humano, a relação entre um pai e a sua filha, o quotidiano das estrelas de cinema, as crises existenciais, entre outros exemplos. Sofia Coppola, tal como em "Lost in Translation" e "Marie Antoinette", volta a interessar-se por aqueles que vivem num meio acima da média, embora os problemas dos seus personagens sejam relativamente universais. A própria cineasta conviveu desde muito jovem com este meio artístico, com a representação do hotel a parecer ter sido inspirada em algumas experiências pessoais, com o Chateau Marmont a surgir como um local onde diversas estrelas se encontram e têm oportunidade de fugir aos holofotes da fama. Veja-se o receio que Johnny tem em relação à possibilidade de ser seguido por paparazzis, ou a quantidade de pessoas que se juntam à sua volta na chegada a Itália, algo que não acontece no hotel, onde apenas tem as companhias que pretende, sobretudo belas mulheres, pelo menos até a filha chegar. O próprio meio que envolve os artistas é abordado, com a conferência de imprensa e a sessão fotográfica a serem apresentados com um tom algo desencantado, surgindo para o protagonista (provavelmente, também para a cineasta) como uma obrigação pontuada por situações de enorme hipocrisia e puerilidade. Os momentos de silêncio protagonizados por Johnny Marco são imensos, com Sofia Coppola a não poupar nos mesmos, deixando muitas das vezes a magnífica banda sonora a dialogar com as imagens em movimento. Não faltam canções de bandas e artistas como Foo Fighters, The Police, Kiss, Bryan Ferry, Julian Casablancas, entre outros, com Sofia Coppola a revelar mais uma vez uma enorme inspiração na escolha e utilização das músicas, sobretudo se tivermos em conta o quanto estas contribuem para tom envolvente do filme (veja-se o momento belíssimo entre Johnny e Cleo no interior da piscina do hotel em Itália). "Somewhere" marca ainda uma mudança de tom em relação a "Marie Antoinette", com a cineasta a jogar um pouco mais no rumo de "Lost in Translation", embora não consiga emular o sucesso deste último, apesar da sua quarta longa-metragem confirmar a percepção de que estamos diante de uma realizadora que, para o bem e para o mal, procura incutir um estilo autoral aos seus trabalhos. Sofia Coppola confirma em "Somewhere" algumas das boas indicações que tem deixado ao longo da sua carreira, com a cineasta a criar uma obra cinematográfica onde quase tudo funciona, incluindo a dinâmica entre os personagens interpretados por Elle Fanning e Stephen Dorff, ou os momentos de silêncio que tanto dizem, ou um "simples" diálogo que pode ter um efeito arrasador. 

Título original: "Somewhere".
Título em Portugal: "Somewhere - Algures".
Realizadora: Sofia Coppola.
Argumento: Sofia Coppola.
Elenco: Stephen Dorff, Elle Fanning, Michelle Monaghan, Chris Pontius.

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