01 fevereiro 2016

Resenha Crítica: "Reprise" (2006)

 O título de uma obra é deveras importante. Erik (Espen Klouman Høiner), um dos protagonistas de "Reprise" sabe disso, algo que o conduz a procurar manter o título do primeiro livro que vai publicar. Joachim Trier também parece estar consciente desta situação, com o título da sua primeira longa-metragem a contribuir para estimular diversas interpretações em relação ao mesmo e à obra cinematográfica. O título é "Reprise", algo que remete para repetição. Desde logo a necessidade de ver "Reprise" repetidamente para captar tudo aquilo que o cineasta tem para nos oferecer, com Joachim Trier a criar uma obra que deambula entre o presente e o passado, entre os pensamentos e os actos efectuados, entre a energia e a letargia, enquanto nos estimula a seguir a história dos seus protagonistas, duas figuras com ideais muito próprios. "Reprise" remete também para a repetição de episódios que ocorreram na vida de alguns personagens, com uma viagem a Paris para emular algo que aconteceu no passado a poder ter tanto de inocente como de perturbador e devastador. Também pode remeter para a inevitabilidade de alguns personagens terem de repetir os mesmos erros para aprenderem, ou até para o processo criativo utilizado pelos protagonistas, com "Reprise" a colocar-nos diante de dois aspirantes a escritores, cultos, que apresentam ambições claras para a vida embora as mesmas nem sempre se concretizem. No início de "Reprise", encontramos Erik e Phillip (Anders Danielsen Lie), dois aspirantes a escritores, a enviarem os seus manuscritos para uma editora. Um interlúdio delirante, filmado a preto e branco, no qual somos apresentados ao possível futuro de Erik e Phillip, separa o prólogo e a restante narrativa. A utilização inspirada da música, o arrojo na exposição da narrativa, a capacidade de extrair interpretações convincentes do elenco principal e de nos apresentar a personagens com uma dimensão assinalável, marcam a primeira longa-metragem de Joachim Trier, com este a deixar-nos perante algumas temáticas transversais a "Oslo, 31. august". Não faltam as desilusões em relação à vida, as depressões, as frustrações amorosas, figuras relativamente cultas, o aproveitamento dos espaços de Oslo, a noção de solidão e a dificuldade que alguns personagens encontram para enfrentarem certos revezes. O manuscrito de Phillip é aceite, enquanto os escritos iniciais de Erik são rejeitados. Phillip é considerado uma promessa da literatura norueguesa, chegando a aparecer num programa televisivo, enquanto Erik tem de voltar a deitar mãos à obra para conseguir alcançar o seu sonho. Erik e Phillip parecem quase inseparáveis, com a dinâmica entre ambos a ser assinalável, algo que também se deve ao trabalho de Anders Danielsen Lie e Espen Klouman Høiner, com a dupla a convencer o espectador da enorme intimidade que existe entre os dois protagonistas. Partilham sonhos e a admiração por Sten Egil Dahl (Sigmund Sæverud), um escritor de personalidade reservada e pouco dado a aparições públicas, discutem os escritos um do outro, protagonizam alguns episódios de diversão, mas também alguns momentos complicados.

 Sem contemplações, a narrativa avança seis meses, algo que nos deixa com diversas alterações no quotidiano dos protagonistas. Phillip encontra-se prestes a sair de uma clínica psiquiátrica, onde esteve internado devido a ter padecido de uma psicose despoletada pela obsessão que gerou por Kari (Viktoria Winge), a sua namorada, com "Reprise" a ziguezaguear entre os episódios do presente e do passado. A energia inicial de Phillip é contrastada com o estado melancólico e deprimido que apresenta quando se encontra a sair da clínica. Este ainda conta com alguns amigos, com o grupo a ir buscá-lo de carro. O close-up no rosto de Erik não engana, com este a parecer profundamente preocupado com o amigo, ou não tivesse presenciado o episódio que precedeu o internamento de Phillip. Espen Klouman Høiner incute um estilo calmo a Erik, um elemento nem sempre capaz de impor a sua opinião, que mantém um namoro com Lillian (Silje Hagen) que não parece ter grande futuro. Mais do que ambicionar uma relação a longo prazo, Erik procura ter uma carreira como escritor, mesmo que isso signifique isolar-se daqueles que mais ama. Para Phillip e Erik, o sucesso a nível profissional centra-se acima de tudo na capacidade de conseguirem deixar marca e manterem o seu tom pessoal, algo que parece ser comum a Joachim Trier e Eskil Vogt, a dupla de argumentistas. Tal como Phillip e Erik, também Joachim Trier e Eskil Vogt, uma dupla que colaboraria ainda em "Oslo, 31. august", procuram incutir o seu cunho pessoal a "Reprise", desenvolvendo a narrativa de forma irreverente e dinâmica, parecendo que algumas das suas experiências de vida, directa ou indirectamente, serviram de inspiração para alguns episódios do enredo. Veja-se a procura da dupla de protagonistas em vingar no meio literário sem vender os seus ideais, embora a crise pessoal de Phillip conduza a que o protagonista tenha um bloqueio criativo associado a uma falta de vontade em escrever. Anders Danielsen Lie, na sua estreia como actor, consegue transmitir a melancolia do protagonista, mas também os seus fogachos de entusiasmo, com Phillip a surgir como uma figura complexa com quem facilmente geramos afinidade. Este desafia a vida e o destino, procura o sucesso mas comete erros que coartam um futuro profissional risonho, tendo em Erik, Morten (Odd-Magnus Williamson), Geir (Pål Stokka), Lars (Christian Rubeck), alguns dos seus amigos. Estes partilham o gosto pela banda punk Kommune, que se despediu dos palcos em 1999, um evento exibido em flashback, com este recurso a ser utilizado de forma extremamente pertinente e segura ao longo de "Reprise". Lars é uma das figuras que sobressai no interior deste grupo heterogéneo, surgindo como um elemento imaturo, misógino e provocador que não parece ter um travão no seu discurso. Por sua vez, Geir é um indivíduo mais introvertido, embora até tenha sorte numa ida a uma festa, enquanto Phillip é o problemático e Erik o mais obstinado em conseguir alcançar os seus objectivos. A dinâmica entre o grupo de amigos é bem explorada, bem como a relação entre Phillip e Kari. Viktoria Winge é, muito provavelmente, a figura feminina que mais se destaca ao longo do filme. O seu olhar é hipnotizante, simultaneamente frágil e forte, com a actriz a convencer quer em relação à dinâmica que existe entre a personagem que interpreta e Phillip, quer na fragilidade desta figura feminina que se encontra a trabalhar temporariamente num call center. Sabemos que ambos viajaram para Paris, algo que Phillip procura repetir, embora sem os mesmos resultados, com a relação a parecer entrar num impasse.

 A segunda ida a Paris é deprimente, com Phillip e Kari a perceberem definitivamente que não podem ignorar os episódios menos positivos da relação. Phillip ainda exibe algumas dúvidas, tal como Kari denota insegurança, embora pareça existir algo a ligar estes dois personagens que despertam a nossa simpatia. A apresentação da personagem interpretada por Viktoria Winge é um dos vários momentos de enorme inspiração do filme, com a cinematografia, o trabalho de montagem, a banda sonora e o trabalho dos actores a contribuírem para esta situação. Kari namorava com o guitarrista dos Kommune, um indivíduo que entretanto formara os Mondo Topless, algo que é alvo de ironia por parte do narrador, que descreve o nome do grupo como "o pior uso de sempre do título de um filme de Russ Meyer para uma banda". É num concerto que Phillip conta até dez, esperando que Kari olhe para si até ao final da contagem. Diga-se que este é um hábito do protagonista, que parece deixar o destino controlar muitas das vezes a sua vida, algo que é exposto quer neste momento mais romântico, quer em situações mais perigosas. Quando falta muito pouco para terminar a contagem, somos colocados diante de um close-up a incidir no rosto de Viktoria Winge, ou melhor, Kari. A câmara aproxima-se gradualmente de Kari, até colocar o espectador diante do rosto desta jovem. Importa realçar novamente o olhar de Viktoria Winge, com esta a conseguir transmitir um mistério e candura que facilmente contribuem para que Kari desperte a atenção de tudo e todos. O reencontro entre Kari e Phillip é pontuado por alguma melancolia e nostalgia, bem como pela noção de que ambos parecem magoados pelos episódios que ocorreram no passado. Joachim Trier joga com as imagens e as palavras, com estas a encontrarem-se e desencontrarem-se em alguns momentos da narrativa, inclusive no reencontro de Kari e Phillip no café e na posterior caminhada pelo jardim. A banda sonora ganha contornos melodiosos em alguns momentos em que Phillip e Kari estão juntos, com "Reprise" a embalar-nos para o interior desta relação e a conseguir com que entendamos perfeitamente aquilo que estes personagens sentem. O futuro destes dois não se afigura fácil, ou feliz, com "Reprise" a deixar-nos diante dos anseios, sonhos, devaneios, desilusões e paixões destes jovens adultos. Se Phillip parece incapaz de escrever, já Erik tem a primeira proposta para publicar um livro. Erik pretende que o livro tenha o título "Prosopopéia", algo que disputa com o seu editor, com "Reprise" a abordar questões ligadas com o meio literário da Noruega. Diga-se que Joachim Trier consegue explorar uma miríade de temáticas relativamente universais associadas aos jovens adultos (inclusive os diálogos de treta que por vezes proferem quando não têm nada para dizer), sempre sem descurar as especificidades do meio que rodeia os seus personagens, em particular a cidade de Oslo, com esta a espaços a ser exposta de modo algo documental. Não falta a exposição das ruas, discotecas, cafés, parques, com Joachim Trier a recorrer de forma amiúde aos cenários externos, aproveitando os mesmos ao serviço da narrativa. A relação de "amor/ódio" entre os personagens e a cidade é algo transversal a "Reprise" e "Oslo 31. august", ou Erik não tivesse que fugir deste espaço para concluir a sua segunda obra literária, enquanto Phillip exibe uma série de problemas.

 Quer Erik, quer Phillip são figuras complexas, com ideias e ideais muito próprios, com um sentido crítico vincado, algo que contribui para alguns desaguisados entre ambos, embora a amizade entre estes dois personagens seja uma das pedras de toque do filme. Outro dos elementos essenciais é a relação complicada entre Phillip e Kari, com Joachim Trier a compelir-nos a acreditar nos sentimentos que estes nutrem um pelo outro. Joachim Trier dota ainda a narrativa de uma série de personagens secundários que sobressaem. Veja-se o caso de Johanne (Rebekka Karijord), a assistente do editor de Erik. Esta encontra-se a elaborar uma tese sobre literatura norueguesa contemporânea, chocando de frente com alguns amigos de Erik, embora tenha alguns gostos em comum com o protagonista. Temos ainda figuras como Henning (Henrik Elvestad), um dos elementos principais da banda Kommune, um indivíduo com uma personalidade peculiar, ou Sten Egil Dahl, um escritor com um feitio bastante fechado, entre outros exemplos. O último terço surpreende o espectador, sobretudo pelo arrojo apresentado por Joachim Trier, com o cineasta a evidenciar uma segurança impressionante para alguém que realizou a sua primeira longa-metragem. Essa situação é desde logo visível na utilização da narração em off, com esta a apresentar um tom que varia entre o informativo e o sardónico, ou o já mencionado jogo entre as imagens em movimento e as palavras (a influência de cineastas da Nouvelle Vague como Jean-Luc Godard e François Truffaut parece ser notória). Trier capta os sonhos da chegada à idade adulta, mas também os erros e as desilusões, com os personagens de "Reprise" a contarem com largas doses de humanidade, ou seja, estão longe de serem um exemplo de perfeição, conseguindo conquistar toda a nossa atenção. Com uma utilização assertiva da narração em off e dos flashbacks, boas interpretações e alguma irreverência, "Reprise" pede para ser visto e revisto, surgindo como uma agradável surpresa, com Joachim Trier a contar com uma estreia bastante recomendável na realização de longas-metragens.

Título original: "Reprise".
Realizador: Joachim Trier.
Argumento: Joachim Trier e Eskil Vogt.
Elenco: Anders Danielsen Lie, Espen Klouman Høiner, Viktoria Winge, Pål Stokka, Christian Rubeck, Henrik Elvestad, Sigmund Sæverud.

Sem comentários: