21 fevereiro 2016

Resenha Crítica: "Queen of Earth" (2015)

 Voyeur e intruso, desgastado e hipnotizado, preso à atmosfera criada por Alex Ross Perry e rendido ao trabalho de Katherine Waterston e Elisabeth Moss. Foi assim que me senti no final de "Queen of Earth", a quarta longa-metragem de Alex Ross Perry, com o realizador e argumentista a não ter problemas em atirar-nos para o interior de uma amizade intensa e venenosa entre duas amigas que tanto apresentam uma frontalidade desarmante como reprimem perigosamente os seus sentimentos. A narrativa deste drama, salpicado por elementos de terror psicológico, tem como pano de fundo uma casa de campo e as redondezas da habitação, um espaço aproveitado pelo cineasta para adensar a atmosfera opressora que pontua alguns momentos do enredo. A estadia neste espaço deveria servir para as protagonistas "lamberem feridas" e fortalecerem laços, embora Alex Ross Perry comece a exibir precisamente o contrário, com "Queen of Earth" a remeter para obras cinematográficas como "Repulsion" e "Rosemary's Baby", da "trilogia do apartamento" de Roman Polanski, ou não ficássemos perante uma mulher que cai gradualmente numa espiral descendente, com o espaço da habitação a tornar-se claustrofóbico e sufocante. A personagem mencionada é Catherine Hewitt (Elisabeth Moss), uma mulher que se prepara para passar alguns dias na casa dos tios de Virginia Lowell (Katherine Watereston), a sua melhor amiga, contando com a companhia desta última. O enredo acompanha sete dias destas figuras femininas, expostos em sete capítulos, com diversos flashbacks pelo meio, enquanto ficamos diante da amizade intrincada entre estas duas mulheres e o adensar dos problemas que assolam a mente de Catherine. Logo no início de "Queen of Earth", Alex Ross Perry não poupa a protagonista, exibindo um close-up intenso sobre o rosto de Catherine Hewitt, enquanto esta se encontra a discutir com James (Kentucker Audley), o seu ex-namorado, com quem terminou recentemente o relacionamento amoroso. As lágrimas cobrem o rosto desta personagem, parecendo uma boneca de porcelana cuja pintura derreteu por completo diante do calor, com a maquilhagem a encontrar-se borrada e pronta a expressar a inquietação que percorre a alma de Catherine. Os sentimentos expostos por Catherine no início do filme são intensos e dolorosos, com esta a parecer claramente perturbada quer pelo final da relação, quer pela morte do pai, um artista que padecia de depressão e cometeu suicídio. Esta geria os negócios do pai, vivendo na sombra do mesmo, apesar de apresentar algum talento para a pintura. Virginia conta com diversos problemas e poucos objectivos para o futuro. Esta é uma figura pronta a despachar os elementos que despreza, não tendo problemas em ser inconveniente ou brusca, embora também apresente algumas fragilidades. Diga-se que as trocas de palavras entre as duas amigas nem sempre são meigas, bem pelo contrário, algo que podemos comprovar quer nos episódios do presente, quer nas memórias que assolam a mente de Catherine.

 Os episódios do passado, expostos em flashback, remetem para o ano anterior, em particular para os dias que Catherine passou com o namorado e Virginia na casa de campo. Catherine e Virginia tinham combinado desfrutar alguns momentos uma com a outra, embora a primeira quebre a promessa e surja acompanhada por James. Este procura exibir alguma cordialidade e simpatia para com Virginia, enquanto a protagonista não tem problemas em demonstrar o seu desagrado pela "surpresa". A dependência de Catherine em relação a James leva a que Virginia efectue uma comparação entre a amiga e Smeagol, tendo em vista a ilustrar a relação doentia do casal, algo que desperta um certo incómodo na dupla. É um momento algo tenso, com Virginia a expor o seu lado implacável e politicamente incorrecto. Em "Listen Up Philip", Alex Ross Perry colocou o espectador diante de um escritor misantropo, incapaz de manter um relacionamento ou formar amizades sólidas, a não ser com um colega de profissão por quem nutria uma enorme admiração, com ambos a contarem com personalidades bastante semelhantes. No caso de "Queen of Earth", Alex Ross Perry coloca-nos perante duas amigas cuja relação está longe de ser pacífica. É certo que existe um progresso: Catherine e Virginia são capazes de formarem amizades. No entanto, é impossível não questionar a solidez desta amizade, ou as duas amigas não trocassem muitas das vezes algumas palavras pouco simpáticas. O cineasta não julga as personagens, nem parece tomar posições em relação às mesmas, deixando essa tarefa para o espectador, enquanto somos absorvidos para o interior da dinâmica intensa entre a dupla de protagonistas. Catherine e Virginia tanto parecem capazes de desabafar uma com a outra, como logo de seguida não apresentam um "travão moral" que impeça a troca de diálogos mais duros, algo que promete abrir brechas no interior desta amizade problemática. É certo que os amigos devem confrontar ideias e expor as suas opiniões, embora a dinâmica entre as personagens interpretadas por Katherine Waterston e Elisabeth Moss seja demasiado venenosa para acreditarmos que estas vão conseguir manter a amizade. O recurso de Alex Ross Perry e do seu director de fotografia aos close-ups conduz a que a dupla de protagonistas seja praticamente obrigada a não falhar nos ritmos das trocas dos diálogos e nas expressões faciais, com Katherine Waterston e Elisabeth Moss a sobressaírem em bom nível, com ambas a comporem personagens complexas e intrigantes. As dinâmicas entre Katherine Waterston e Elisabeth Moss são intensas e marcantes, com Alex Ross Perry a aproveitar o talento das suas protagonistas, enquanto cria alguns momentos poderosíssimos. Moss é simplesmente arrasadora. O seu sorriso desequilibrado fica na memória. O seu olhar é enigmático, frágil e a espaços assustador. As alucinações da personagem que Elisabeth Moss interpreta perturbam e fazem recordar a protagonista de "Repulsion", algo latente no episódio de uma festa que decorre na casa de Virginia, com os delírios a apoderam-se da mente e do corpo de Catherine. Entramos em terrenos praticamente de terror psicológico, com os desequilíbrios emocionais de Catherine a fazerem com que muitas das vezes nos questionemos sobre o futuro desta mulher.

 O trabalho a nível de caracterização e maquilhagem é importante para adensar o contraste entre o estado de espírito de Catherine no passado e no presente. Nas cenas do passado, Catherine aparece arranjada e confiante, contando com a presença do namorado e o apoio profissional do pai, esquecendo-se parcialmente da amiga. No presente, Catherine encontra-se praticamente num farrapo, procurando conviver com a amiga, embora esta conte regularmente com a companhia de Rich (Patrick Fugit), um vizinho com quem se encontra envolvida. As olheiras de Catherine são bem salientes, bem como os gestos nervosos, com Alex Ross Perry a exacerbar ainda alguns sons que rodeiam esta mulher (bom trabalho a nível de sonoplastia), incluindo batatas fritas ou legumes a serem mastigados, para explanar as dificuldades desta personagem em contactar com o mundo que a rodeia. Diga-se que esta desenvolve um estranho vício por batatas fritas, enquanto Alex Ross Perry parece atribuir um cuidado especial à alimentação como um meio para evidenciar a perturbação de Catherine. Veja-se a salada que Virginia prepara para Catherine, que nunca chega a ser comida pela segunda, embora fique no quarto da mesma, com a refeição a degradar-se com o passar dos dias, tal como a mente da personagem interpretada por Elisabeth Moss. No presente, é Virginia quem se encontra regularmente acompanhada, enquanto Catherine procura manter-se firme perante a perda de duas pedras basilares da sua existência, embora apresente uma atitude possessiva em relação à amiga. Katherine Waterson compõe uma figura complexa, que se encontra longe de estar livre de defeitos, com a actriz a conseguir expressar-se imenso através do seu rosto, com um sorriso mais infantil de Virginia a nem sempre indicar felicidade, embora esta personagem até pareça mais descontraída do que a amiga. Waterston eleva a personagem que interpreta, tal como Moss, com a dupla a apresentar uma naturalidade latente na exposição dos sentimentos e nas trocas de diálogos entre as protagonistas. Virginia e Catherine contam com problemas, isso parece certo, com a presença da dupla na casa de campo a ser marcada por uma atmosfera opressora, adensada pelo trabalho de câmara e pela banda sonora. Os close-ups são bastante utilizados, sobretudo para adensar a atmosfera opressora e aumentar a carga dramática de alguns momentos, embora Alex Ross Perry e Sean Price Williams, o director de fotografia, não tenham problemas em recorrer a alguns planos mais abertos, sobretudo nas cenas filmadas nos cenários exteriores. Alex Ross Perry, apesar de utilizar alguns flashbacks de forma completamente aleatória, conduz a narrativa com segurança, explorando assertivamente a relação entre a dupla de protagonistas. Catherine procura pintar, inclusive um retrato da amiga, exorcizar fantasmas recentes e recuperar psicologicamente. Aos poucos parece impossível que Catherine atinja os seus objectivos. É uma mulher algo frágil, mimada e hipocondríaca, que se encontra numa fase pouco positiva da sua vida, enquanto "Queen of Earth" envolve o espectador para o interior das dinâmicas intrincadas entre Catherine e Virginia, com os diálogos entre as duas amigas a contarem com alguma dureza.

A personagem interpretada por Katherine Waterson também não parece contar com grandes planos para o futuro, tendo na casa dos tios o seu porto de abrigo. Esta gosta de correr, nadar no lago e expressar livremente as suas opiniões, deixando apenas que algumas pessoas a tratem por Ginny. Veja-se quando James utiliza essa alcunha para se dirigir a Virginia, com o rosto de Katherine Waterston a mudar radicalmente, apresentando uma expressão próxima a um felino que se prepara para arregaçar as unhas e vincá-las no seu alvo. No meio destas mulheres encontra-se Rich, um indivíduo que parece despertar a atenção de Virginia e o desprezo de Catherine. Este também não apresenta grande simpatia em relação a Catherine, considerando-a uma mulher mimada que vive na sombra dos feitos do pai, embora o personagem interpretado por Patrick Fugit esteja longe de apresentar o feitio complicado destas figuras femininas. A certa altura, Catherine verbaliza aquilo que pensa em relação a Rich, num momento que tanto tem de perturbador, constrangedor e pontuado por algumas verdades incómodas, embora a revolta desta figura feminina pareça ser contra o destino. O espaço que rodeia a casa tanto tem de idílico como de misterioso, com a própria banda sonora a contribuir para esta atmosfera opressora que envolve a dupla de protagonistas. Estas procuram confrontar alguns episódios que marcaram o passado, exprimir os seus sentimentos e desfrutar da companhia uma da outra, embora reprimam muitas das vezes aquilo que assola as suas almas. A espaços ambas parecem algo egoístas, simultaneamente frágeis e cruéis, com "Queen of Earth" a contar com duas personagens femininas complexas, compostas com enorme argúcia por Elisabeth Moss e Katherine Waterston. Episódios do presente diluem-se diante de acontecimentos que ocorreram no passado, outros quase que se interligam, enquanto que estas mulheres não parecem esconder algum rancor em relação a diversos momentos e diálogos pouco positivos que partilharam ao longo do tempo. O espaço da casa assume rapidamente características opressoras, com as dinâmicas destas mulheres a não igualar a violência da dupla de "What Ever Happened to Baby Jane?", embora resvale para caminhos "polanskianos". Com interpretações de bom nível de Katherine Waterston e Elisabeth Moss, uma dupla que apresenta uma dinâmica intensa e claustrofóbica, um argumento sagaz, dotado de falas prontas a exporem e explorarem o lado negro de uma amizade, "Queen of Earth" surge como mais um exemplar digno de interesse da autoria de Alex Ross Perry.

Título original: "Queen of Earth".
Realizador: Alex Ross Perry.
Argumento: Alex Ross Perry.
Elenco: Elisabeth Moss, Patrick Fugit, Katherine Waterston, Kentucker Audley.

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